Creio que não existe nada de mais belo, de mais profundo, de mais simpático, de mais viril e de mais perfeito do que o Cristo; e eu digo a mim mesmo, com um amor cioso, que não existe e não pode existir. Mais do que isto: se alguém me provar que o Cristo está fora da verdade e que esta não se acha n'Ele, prefiro ficar com o Cristo a ficar com a verdade. (Dostoievski)

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16 de dez. de 2008

aneurisma


Foi a primeira vez que eu fiquei... não tão forte. Dei uma baqueada. Chorei.

Roseana Sarney, senadora (PMDB-MA), sobre a descoberta de um enurisma cerebral há um mês. Aos 55 anos, ela terá de enfrentar sua 21ª cirurgia.

FONTE: Revista Época de 15/12/2008

13 de dez. de 2008

sarney, o eterno mandatário da censura no Brasil

Sarney e seu grande amigo Lula

Sarney "faz pose" de defensor da liberdade de imprensa, diz jornalista Sérgio Matsuura, do Rio de Janeiro

A jornalista Alcinéa Cavalcante publicou em seu blog um post criticando a postura do senador José Sarney que, segundo ela, “posa como defensor de jornalistas” enquanto usa o cargo de “todos os meios para calar as vozes que têm a ousadia de contestá-lo”. O texto foi publicado após a jornalista ter recebido da assessoria do senador uma carta em defesa do jornal A Tribuna da Imprensa.

“Que homem é este que no Amapá é contra a imprensa livre e no resto do país faz pose e discurso de defensor da liberdade de imprensa?”, diz a jornalista em seu blog.

Alcinéa foi alvo de diversos processos movidos por Sarney por causa de matérias publicadas em seu antigo blog durante a campanha eleitoral de 2006. Em fevereiro de 2007, ela foi indiciada pela Polícia Federal. Alcinéa também foi pivô do movimento Xô Sarney. Por sua atuação como blogueira, ela foi premiada pela organização Repórteres Sem Fronteiras e pelo The Best Of The Blogs.

“Aqui no Amapá está uma coisa absurda. Eu digo que é muito pior do que o regime ditatorial. É um ataque brutal à liberdade de expressão e a imprensa aqui não pode divulgar nada. Isso só acontece no Amapá e desde a campanha do ano passado”, revelou a repórter ao Comunique-se quando foi indiciada pela PF.

Na eleição de 2006, Alcinéa não foi o único alvo de Sarney e seu grupo político na imprensa. Na ocasião, o Tribunal Regional Eleitoral do Amapá aprovou diversas ações contra veículos de comunicação. Jornais, rádios e sites foram suspensos, multados e/ou obrigados a oferecer direitos de resposta a pedido do senador.

A assessoria do senador afirma que a carta de apoio à Tribuna da Imprensa foi enviada para diversos órgãos de imprensa, e que Alcinéa tem o direito de manifestar a sua opinião. Diz ainda que Sarney não fez nenhum comentário sobre o texto publicado pela jornalista.

Leia a nota publicada no blog da Alcinéa nesta quarta-feira

Não dá, senador! Através de sua assessoria o senador José Sarney (PMDB) me envia matéria intitulada "Em defesa da imprensa livre" com pedido para que seja publicada aqui no meu blog. A matéria é sobre um pronunciamento que ele fez lamentando o fechamento do combativo jornal Tribuna da Imprensa.

Mas logo o Sarney que aqui no Amapá, em 2006, pediu o fechamento de blogs, jornais e mandou tirar do ar programas de rádio. Que homem é este que no Amapá é contra a imprensa livre e no resto do país faz pose e discurso de defensor da liberdade de imprensa?

Que homem é este que no Estado que lhe dá de presente o mandato de senador usa todos os meios para calar as vozes que têm a ousadia de contestá-lo e que no resto do país posa de defensor de jornalistas corajosos?

Não dá, senador, para publicar a matéria que o senhor me enviou. O seu lamento pelo fechamento da Tribuna soa muito falso, afinal aqui em Macapá o senhor mandou fechar blogs, jornais, tirar programas de rádio do ar, o senhor condenou vários jornalistas ao desemprego, ao pagamento de multas estratosféricas e a ter o nome no Cadin, o que impede que os jornalistas que o senhor condenou possam abrir uma empresa para começar um pequeno negócio seja na área de comunicação ou em outra qualquer, impede até que os cônjuges desses jornalistas possam acessar financiamento para aquisição da casa própria, como impede acesso a qualquer crédito, como um empréstimo bancário para um tratamento médico.

Decididamente, senador, não dá pra publicar tal matéria. Ninguém aqui vai acreditar nas suas palavras.

Ou será que o senhor mudou?


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FONTE: Portal Comunique-se

muito dinheiro, muitos problemas

"Eu recebo o prêmio como um desagravo", diz vencedora do Prêmio Esso

No dia 15/12/2007, a jornalista da Folha de S. Paulo Elvira Lobato publicava a matéria “Universal chega aos 30 anos com império empresarial”. Na noite desta terça-feira, quase um ano após a publicação, veio o reconhecimento. A repórter foi a grande vencedora do 53º Prêmio Esso de Jornalismo.

“Eu recebo esse prêmio como um desagravo. Essa reportagem foi alvo de 105 processos, que geraram um ônus financeiro para a Folha e um grande desgaste emocional. Eu dedico o prêmio a todos os jornalistas, porque a liberdade de imprensa é o oxigênio do jornalismo e aquela série de ações judiciais é uma ameaça a ela”, desabafa Elvira.

Para responder a tantas intimações judiciais, Elvira contou, e continua contando, com o apoio de outros funcionários da Folha. Até o momento, a jornalista já venceu as 58 ações julgadas, mas ainda restam outras 47.

“Eu cheguei a receber 13 intimações em uma semana. Era impossível comparecer a todas. A Folha botou muita gente para ajudar. Emocionalmente, essa série de processos me causou um impacto muito grande, porque eu temi que me jogassem contra o fiel da Igreja Universal. Não era nada disso. Era uma matéria de levantamento patrimonial. Eu espero que esse prêmio ajude a desatar esse nó judicial”, diz.

Elvira conta que a reportagem é resultado de anos de conhecimentos acumulados na área de radiodifusão. Diz ainda que a matéria consumiu dois meses de trabalho apenas na apuração final, que contou com incontáveis pesquisas na Junta Comercial e no levantamento das identidades dos proprietários das empresas.

A reportagem revelou que a Igreja Universal, além de controlar 23 emissoras de TV e 40 de rádio, mantinha 19 empresas registradas em nome de seus membros, entre elas, dois jornais diários, duas gráficas, uma agência de turismo, quatro empresas de participações, uma imobiliária, uma empresa de seguro saúde e uma de táxi aéreo.

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Sérgio Matsuura, do Rio de Janeiro, para o Portal Comunique-se
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ARTIGO

O Esso e a Igreja Universal
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A grande vencedora do 53º Prêmio Esso de Jornalismo 2008, entregue na noite de ontem (terça-feira, 9 de dezembro), foi Elvira Lobato, com a série de reportagens “Universal chega aos 30 anos com império empresarial”, para a Folha de S. Paulo. Esse trabalho, que agora lhe rendeu R$ 30 mil pela conquista, lhe custou anteriormente, como muitos devem se lembrar, 105 processos (62 deles já por ela vencidos) e um polêmico uso de sua imagem nas telas das afiliadas da Record, rede de propriedade da mesma Igreja Universal, atacada na matéria.

A festa de premiação, no Copacabana Palace, na noite desta 3ª. feira (9/12), foi apresentada por Renata Cordeiro e Marcos Hummel.

Antes de conhecer o resultado, Elvira falou à editora Regional deste J&Cia no Rio de Janeiro, Cristina Vaz de Carvalho: "Eu me sinto muito honrada por ser finalista. Recebo a indicação como um desagravo, uma resposta à tentativa de calar a imprensa”. Dá para imaginar, agora que ela já sabe que ganhou o prêmio, o quanto isso deverá representar para a sua carreira e para o bom trabalho que fez naquela série histórica.

Ironia do destino, o outro mais importante prêmio da noite, o da categoria Telejornalismo, foi vencido por... Este colunista dá um picolé de limão para quem acertar. Sim, acertou quem arriscou Rede Record. Fácil, não é mesmo? Então é só entrar na fila e aguardar o picolé.

A Record, com a equipe integrada por André Felipe Tal, Ricardo Andreoni, Jorge Valente e Marcelo Zanini, ganhou o Esso de Telejornalismo com a reportagem “Dossiê Roraima: pedofilia no poder”, exibido no Domingo Espetacular, da emissora que tem o bispo Edir Macedo como seu principal mandatário, e que foi alvo da matéria de Lobato.

Ou seja, dois júris diferentes, um para mídia impressa e outro para telejornalismo, concederam aos veículos que mais se estranharam este ano as duas principais categorias do Esso.

Coisas da vida e que poderiam ser diferentes caso a Rede Globo desistisse da polêmica decisão de boicotar o prêmio desde o ano em que se sentiu injustiçada pela escolha. Decisão que também a revista Veja adotou anos atrás e que só a ela, Veja, traz prejuízos. O prêmio continua vigoroso e desejado como sempre, por dez entre dez jornalistas do País, inclusive entre os que trabalham na Globo e na Veja. Com essa decisão, esses veículos têm permitido aos concorrentes brilharem, como foi o caso este ano da Record, que venceu na categoria Telejornalismo, e da revista Época (da mesma Organizações Globo), ganhadora do Esso de Informação Científica, Tecnológica e Ecológica, com Suicídio.com, de Eliane Brum, Solange Azevedo e Renata Leal.

Outra coisa curiosa é que o boicote de Veja ao prêmio não é adotado pelas demais publicações da Editora Abril, caso da Superinteressante, que sempre se inscreve e vive beliscando prêmios, como aconteceu este ano na Categoria Criação Gráfica Revista, pelo trabalho “Quando a máquina dá pau”, produzido por Adriano Sambugaro, Josi Campos, Carlo Giovani, Fabiano Silva e Rodrigo Ratier.

E os demais vencedores da noite? Vamos a eles:O Esso de Reportagem foi para Ana Beatriz Magno e José Varella, do Correio Braziliense, com o trabalho “Os brinquedos dos Anjos”.

Clóvis Miranda, de A Crítica, de Manaus, levou o Esso de Fotografia com “Martírio no Presídio”.

O Globo, com a matéria Desemprego Zero, de Fabiana Ribeiro, Lino Rodrigues, Higino de Barros e Henrique Gomes Batista, venceu na categoria Informação Econômica.

Na categoria Especial de Primeira Página venceu O Dia, com “Cientistas brasileiros fazem alerta: mais terremotos vêm aí”, de autoria de Alexandre Freeland, André Hippert, Breno Girafa, Ana Miguez e Luísa Bousada.

A Folha de S. Paulo ganhou também o Esso de Criação Gráfica – Categoria Jornal, com “Cigarro e álcool na adolescência”, de Renata Steffen, Fernanda Giulietti, Ivan Finotti, Alexandre Jubran, Tarso Araújo e Letícia de Castro.

O Esso Especial Interior ficou com o Diário de Santa Maria, com a matéria “No coração do Haiti”, escrita por Iara Lemos.

As três categorias regionais foram vencidas respectivamente por Diário de Pernambuco (Regional 1), com “Hanseníase”, de autoria de Sílvia Bessa e Marcionila Teixeira; Estado de Minas (Regional 2), com “Sangria na saúde”, de Alana Rizzo, Thiago Herdy, Maria Clara Prates e equipe; e O Globo (Regional 3), com “Tribunal do tráfico”, de Mauro Ventura.

Para
a distinção de Melhor contribuição à Imprensa em 2008 foi escolhido o projeto Diário em Braille, do Diário de Pernambuco, iniciativa que consistiu em editar diariamente exemplares em braille e distribuí-los gratuitamente a entidades de apoio a deficientes visuais.
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FONTE: Portal Comunique-se. Texto de Eduardo Ribeiro, jornalista profissional formado pela Fundação Armando Álvares Penteado e co-autor de inúmeros projetos editoriais focados no jornalismo e na comunicação corporativa, entre eles o livro-guia "Fontes de Informação" e o livro "Jornalistas Brasileiros - Quem é quem no Jornalismo de Economia". O autor integra o Conselho Fiscal da Abracom - Associação Brasileira das Agências de Comunicação e é também colunista do jornal Unidade, do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo, além de dirigir e editar o informativo Jornalistas&Cia, da M&A Editora. É também diretor da Mega Brasil Comunicação, empresa responsável pela organização do Congresso Brasileiro de Jornalismo Empresarial, Assessoria de Imprensa e Relações Públicas.

12 de dez. de 2008

a música de Capitu

Estou vendo "Capitu"... e vocês? Tudo me parece bem feito, cuidadoso, fruto de competência e trabalho... Sem contar o Michel Melamed, cara inteligente por demais e bom ator (e charmosíssimo, ele é tudo de bom) cujo trabalho eu acompanho há algumas luas, desde o canal 2. A música da abertura é linda, né? Aí está o vídeo, a banda chama-se Beirut e a música é Elephant Gun... Para ver e ouvir, vá primeiro à caixa Maya_musique, ao lado, e clique em "pause". depois, venha aqui e clique em "play". Na primeira passagem, dependendo da memória de seu computador, pode ser que haja pausas na exibição. Experimente ver na segunda vez. É lindo, vale a pena... meu obrigada ao querido Olavo de Carvalho, sempre me mandando novidades legais como essa...




Beirut

Elephant Gun

lyrics

If I was young, I'd flee this town

I'd bury my dreams underground

As did I, we drink to die, we drink tonight

Far from home, elephant gun

Let's take them down one by one

We'll lay it down, it's not been found, it's not around

Let the seasons begin - it rolls right on

Let the seasons begin - take the big king down

Let the seasons begin - it rolls right on

Let the seasons begin - take the big king down

And it rips through the silence of our camp at night

And it rips through the night

And it rips through the silence of our camp at night

And it rips through the silence, all that is left is all that i hide

cigarro: charme francês ou problema social?


Les Français fument toujours autant
L'interdiction de fumer dans les cafés et les restaurants n'a pas eu l'impact escompté.
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Un an après son entrée en vigueur, l'interdiction de fumer dans les bars et les restaurants n'a eu «aucun impact» sur le nombre de fumeurs en France. Ce constat amer, formulé jeudi par l'Office français de prévention du tabagisme (OFT), pousse aujourd'hui l'association à réclamer de nouvelles mesures. «Alors que 54 millions de cigarettes avaient été écoulées en 2004 , le volume des ventes sera équivalent en 2008», déplore son président, le professeur Bertrand Dautzenberg, qui s'apprête à enregistrer la «quatrième année consécutive de non-régression du tabagisme actif».

La France compte environ 30 % de fumeurs réguliers ou occasionnels. Très bien respectée, l'interdiction de fumer dans les lieux publics semble également plébiscitée par les Français. Mais la mesure n'a pas eu l'effet escompté sur la consommation de cigarettes. Selon un sondage réalisé en mai pour l'Institut national de prévention et d'éducation à la santé (Inpes), 9 % seulement des fumeurs déclaraient voir dans l'interdiction de fumer une raison d'arrêter. L'OFT observe aujourd'hui deux indicateurs supplémentaires : la stagnation du nombre d'appels passés à la ligne d'aide au sevrage, Tabac Info Service, ainsi que celle des ventes de substituts nicotiniques. «Chez les collégiens parisiens, la consommation de tabac est même repartie à la hausse entre 2004 et 2008», ajoute le Pr Dautzenberg, qui propose aujourd'hui dix mesures concrètes permettant, selon lui, de faire reculer le tabagisme actif. Première d'entre elles, l'augmentation du prix du tabac : «une hausse de 10 % diminuerait de 4 % la consommation», selon l'OFT. L'introduction de paquets génériques, neutres et dénués de toute publicité indirecte, ou encore la vente des cigarettes sous le comptoir sont également recommandées. L'instauration des images chocs sur les paquets est, elle, actuellement à l'étude au ministère de la Santé.

Peu de prévention au collège
«Les collégiens n'ont reçu cette année que peu de messages de prévention pour leur rappeler les vrais dangers du tabac : les dernières campagnes importantes leur ont été en effet présentées lorsqu'ils étaient encore à l'école primaire», regrette par ailleurs l'association, qui réclame des campagnes ciblées à leur intention. Une meilleure prise en charge de l'arrêt du tabac et la formation des professionnels de santé sont enfin préconisées.

En mai, à l'occasion de la Journée mondiale sans tabac, la ministre de la Santé, Roselyne Bachelot, avait annoncé le lancement d'une campagne de presse et télévisée incitant au sevrage. L'interdiction des cigarettes aromatisées, conçues pour séduire les adolescents, a, elle, été glissée dans la loi de santé qui sera examinée à l'Assemblée nationale en janvier. «L'interdiction de fumer dans les lieux publics a considérablement amélioré la qualité de l'air dans les cafés, souligne-t-on dans l'entourage de Roselyne Bachelot. N'oublions pas que l'objectif premier était de protéger les non-fumeurs.»
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Texte de Delphine Chayet, 12/12/2008

Lula e seu palavreado de alcova

Não é só o nosso presidente, Luiz Inácio Lula Mané da Silva, que gosta de um vocabulário de alcova


Diarréia, Sifu

Nesta semana, os temas abundaram. Há ocasiões angustiantes, fica-se procurando um pretexto para a coluna, e nada. Nenhum cidadão diz alguma coisa peculiar (ou a mídia não põe a peculiaridade em circulação) e nenhum colunista diz nada de muito estrambótico sobre sintaxe ou ortografia.
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Mas, neste começo de dezembro, os deuses foram generosos: Cony reclamou da linguagem acadêmica, porque não entendeu passagens de um texto, Lúcia Guimarães escreveu sonoras bobagens sobre gerundismo em sua coluna no Estadão, Lula teve um comportamento no mínimo informal, em pronunciamento no Rio de Janeiro (falou "diarréia" e "sífu", abalando os sólidos alicerces morais e etiquetais da sociedade brasileira), um jornalista de Brasília analisou pérolas do ENEM, artigo meio bobo que mereceu análise muito competente de Marina Silva
etc.
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Vou ficar com o caso Lula. William Bonner anunciou o pronunciamento no Jornal Nacional, prevenindo a Nação de que o presidente tinha usado linguagem (senho franzido, olhar de lástima dirigido ao Hommer Simpson que ele imagina do outro lado da tela)... "extravagante".
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Lula, à vontade, desancou os que têm uma "diarréia" de mercado e depois pedem socorro ao Estado. Em seguida, defendeu sua posição de animador da economia; alegou que não pode ficar dizendo que há crise, que ele tem que incentivar o povo. E fez uma comparação (não venham dizer que foi uma metáfora, por favor...): se um médico vai falar com um doente, o que deve dizer? Que vai melhorar, que vai sair dessa, ou deve dizer que o cara "sífu"? Pois foi o "sífu" que colocou o país em polvorosa.
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Uma cidadã que viu o telejornal escreveu à Folha de S. Paulo dizendo que achava a linguagem de Lula indecente, e não extravagante (disse mais: que está entre os 30% que desaprovam lambanças e não apóiam o presidente). Um leitor foi ainda mais radical: achou a coisa tão ruim que está pensando em renunciar à cidadania brasileira.
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Contam os jornais que o discurso do presidente foi transcrito sem o "sífu" em algum site oficial, mas que a "palavra" voltou mais tarde ao documento. A Folha menciona o episódio em seu editorial, e lhe dedicou um sermãozinho. Seu ombudsman, no domingo, disse que tanto destaque cheirava a preconceito. Um articulista comentou o caso na ISTOÉ. Cony voltou ao assunto no dia 9/12, terça-feira, para dizer que se espantou mesmo foi com a palavra "chula", encarregada de qualificar a fala presidencial, e contou que, na infância, achava que esse era um dos muitos nomes da genitália feminina...
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Juro que eu não sabia que o país era tão sério! Todo mundo anda pelado a qualquer pretexto, todos/as mostram a intimidade e as partes, os domingos à tarde da TV são quase aulas de anatomia, e o homem não pode falar "sífu". Francamente!
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Sim, sei, ele é o presidente, e existe a tal liturgia do cargo. O que suportamos e achamos normal na boca de uma personagem de Rubem Fonseca ou de Bocage desaprovamos no discurso presidencial. O que achamos normalíssimo nas declarações pedagógicas vespertinas do Faustão fica abominável na boca do presidente. Tudo bem. É claro que há uma distribuição social do palavrão, seja por falantes (homens podem mais que mulheres - ou podiam), seja por contextos (o que se pode dizer em arquibancada não pode em palanque).
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Mas vejamos o episódio um pouco mais de perto. Merece uma pequena avaliação técnica, digamos assim. O curioso é que tenham acusado Lula de empregar um palavrão quando usou uma forma que se destina exatamente a evitar o palavrão. Sim, pois "sífu" não é um palavrão. Estudiosos dos tabus informariam sobre formas como essa exatamente o contrário: que, para não dizer palavras tabu, no caso, um palavrão, as sociedades inventam "derivativos": alteram a forma ofensiva ou perigosa (abreviam, trocam um dos sons etc.).
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Por exemplo, dizemos "diacho" para não dizer "diabo" (sem falar que dizemos "o cujo", "o coisa ruim" etc.), dizemos "orra, meu!" para não dizer "p..., meu!" assim como dizemos "sífu" para não dizer todos sabemos o quê. Tanto sabemos, que a mídia achou que Lula disse o que todos achamos que ele disse, embora não o tenha dito.
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Escrevi alhures que acho essa coisa de cerimonial uma quase bobagem. Para exemplificar, dava meu testemunho de que as únicas coisas que aprovei no presidente Figueiredo foi sua grossura no campo da etiqueta: achei ótimo ele dizer que preferia cheiro de cavalo ao de povo, que achava o leite de soja uma droga, que, se ganhasse salário mínimo, dava um tiro no coco. Grossura? Claro!! Mas você preferiria que ele mentisse?

Fico deveras impressionado com a pudicícia da sociedade brasileira, especialmente da TV Globo!! Mas não é lá que passa, só para dar um exemplo, o BBB? Ou será que Bonner estava se referindo à palavra "diarréia"?

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Sírio Possenti é professor associado do Departamento de Lingüística da Unicamp e autor de Por que (não) ensinar gramática na escola, Os humores da língua e de Os limites do discurso.
FONTE: Portal Terra
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O professor da Unicamp, o renomado lingüista Sírio Possenti, foi tomado por um espírito mosqueteiro solidário para defender o baixo palavreado de Lula. É até bonito ver tanta solidariedade. Estou longe de vender tantos livros como o doutor Sírio Possenti, um verdadeiro portento da Lingüística. Mas, não obstante meu anonimato, me oponho às idéias de seu artigo.

Os que andam pelados “a qualquer pretexto”, mostrando “a intimidade e as partes” devem pensar como o professor Sírio, provavelmente: que não há nada de mais em o presidente da República dizer palavras chulas em cerimônia do Governo, pronunciando-se oficialmente, em evento fartamente divulgado pela mídia. É possível que entre algumas pessoas a atitude de Lula não tenha causado espanto, portanto.

Não se trata, como afirma o professor Sírio, de "preconceito". Aliás, qualquer crítica que se faça a determinados comportamentos, hoje em dia, já é classificada de "preconceito". Esse é um discurso fácil e oportunista. As pessoas, todas, têm direito a ter sua opinião e elaborar seus conceitos. Lula se expôs publicamente, então pode ser criticado também publicamente. Que fique claro: o que o Lula faz entre amigos e em casa, desde que não utilize o que é do povo, é problema dele. Não me interesso muito pelo assunto. Mas, em ocasiões oficiais do Governo Federal ele deve ao povo o proceder de um funcionário público. Os princípios que valem para todos os outros valem para ele. Além disso, o Lula não estava em um churrasquinho de domingo, tomando uma cervejinha, entre os seus: estava a trabalho, remunerado pelo dinheiro público, que ele (mal) administra. Deveria imaginar que, assim como há os Sírios da vida, há os outros, que não acham nem agradável, nem correto, nem educado, nem moralmente defensável um discurso marcado por vocabulário rasteiro. E, convenhamos, o Lula é o presidente do Brasil, e isso quer dizer que ele é o presidente de todos. Inclusive daqueles que se escandalizaram com seu discurso e que têm o direito de se escandalizar.

É verdade que a crítica a alguém que diz palavras de baixo calão, entre os modernos e hodiernos, é mal vista. Como é que se diz? "É preconceito". Afinal, o palavrão é uma legítima manifestação popular da cultura nacional, é a libertação dos oprimidos, o libelo contra o conservadorismo da direita, a voz contra a caretice e o autoritarismo, a simbologia de tudo o que é popular etc. Criticar o linguajar chulo do Lula, então, é “preconceito lingüístico” – eu vejo como democracia e direito de opinião, coisas que andam em baixa no Governo do PT.
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Mas, até que calem os que se opõem, eu critico, sim. E não nivelo por baixo, como faz o prof. Sírio Possenti e tantos outros: “Ah, mas todo mundo fala, não é?” O professor ainda ironiza: não sabia que o país era tão sério, e que as pessoas eram tão pudicas. O país dos sérios pode não ser o mesmo no qual ele vive. Quem sabe. Há os que não andam pelados a qualquer pretexto, e é possível que professor conviva com alguns deles na Universidade. Esses são a maioria. Há os que trabalham e pagam impostos – pagam todos os impostos, inclusive para financiar o salário do funcionário público Lula. Se no domingo à tarde tem gente que vai à TV dançar pelado, isso não é – não é mesmo – justificativa para que o Lula nos mostre a educação canhestra que recebeu da mãe.

Ao contrário do que diz o professor, em seu artigo, é óbvio que o homem pode falar “sifu”. Mas é evidente, também, que eu posso achar lamentável que ele fale, assim como outras pessoas e setores da mídia. Ninguém cala ninguém e travamos, todos, um debate democrático. Certo? Democracia é isso: o Lula pronunciou um discurso que surpreendeu muita gente, foi criticado e, logo depois, foi defendido. Como figura pública, é mais do que esperado e normal que, numa situação como a que ele criou, seja criticado.

Lula ocupa um cargo pelo qual responde a todos os brasileiros. Em seu julgamento, o professor Sírio chega a aplaudir as palavras do presidente da República. Mas nem todos concordam com a largueza moral e a "pequena avaliação técnica" do mestre, que afirma que Lula disse “sifu” para, na verdade, não dizer “sifu”. Apesar dessa não tão evidente "mostra de escrúpulo" por parte de Lula, houve quem achasse ofensivo e indigno que o presidente tenha utilizado esse tipo de vocabulário.

O professor faz até algumas concessões. Diz que sabe que “há uma distribuição social do palavrão, seja por falantes (homens podem mais que mulheres - ou podiam), seja por contextos (o que se pode dizer em arquibancada não pode em palanque)”. Ainda bem. Eu respiro mais aliviada sabendo que ele tem uma idéia do que seja contexto lingüístico e discursivo. Seria duro, para mim, constatar que um professor do curso de Letras da Unicamp não sabe que o programa do Faustão é uma coisa e uma cerimônia pública oficial do Governo Federal é outra. E tudo para quê? Para não dizer que Lula disse besteira. Aliás, Lula desancou mesmo "os que têm uma 'diarréia' de mercado e depois pedem socorro ao Estado", mas não deixou de assinar o cheque. Temos aí duas coisas imorais: o linguajar do presidente e sua relação promíscua com o "mercado".
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Na hora errada e no lugar errado, o presidente da República disse as palavras erradas. Mas, tendo em vista o artigo do professor Sírio Possenti, suponho que se amanhã o presidente mostrar o traseiro na TV ele tampouco ache ruim. Afinal, todo mundo mostra.

11 de dez. de 2008

como fazer TV meia boca


Sônia Abrão é pé frio


Você conhece a Sônia Abrão? Eu sei quem é. Ela é uma especialista em fofocas televisivas, baixarias e afins, tudo isso envolto num suposto caráter jornalístico. Sônia Abrão tem um programa de TV, do qual não me lembro o nome agora. O programa é exibido durante a tarde, na Rede TV!, e discute o sexo dos anjos, atraindo subespecialistas em quase tudo.

Sônia Abrão é uma mistura de Maga Patalójika e Mortiça. Com sua voz fina, arrastada, monocórdica, mal impostada e anasalada, consegue angariar a antipatia de Gandhi e Jó, juntos. De olho na audiência, mas aparentemente interessada em ampliar a cultura de seus telespectadores e discutir temas relevantes para a cidadania, como o Programa BBB, a apresentadora entrevista pessoas sem a menor relevância social e sem nada de interessante a dizer, exatamente como ela mesma, e se engaja seriamente em ser uma criadora de celebridades instantâneas, mostrando o que é subjornalismo de verdade.

Sônia Abrão, num furo de jornalismo, entrevistou o Lindemberg, seqüestrador e assassino da adolescente Eloá Pimentel, de 15 anos. E ela fez isso durante o seqüestro da jovem e de sua amiga Nayara, passando por cima da polícia, dos parentes dos envolvidos e da ética, principalmente. A apresentadora deu voz a quem nunca teve mas queria muito receber a atenção da mídia. Ela presenteou com exposição nacional um desequilibrado notório. Certamente Sônia Abrão deve ter angariado uns pontinhos a mais de audiência ao seu programa modorrento. Por conta disso, o Ministério Público Federal de São Paulo está processando a Rede TV! . Mas Sônia Abrão não tem limites. Ela faz de tudo para manter seu emprego e, por “tudo”, entenda-se o que é antiético e de mau gosto – inclusive entrevistar criminosos no exercício do crime.

Outro dia a apresentadora entrevistou, em mais um furo midiático, o ex-PM Marcelo Silva e sua nova namorada. Envolvido com escândalos, fofocas e violência, Marcelo Silva era o ex-marido da atriz Suzana Vieira e compunha o perfil exato dos entrevistados por Sônia Abrão. A conversa, que ia do nada para o lugar nenhum, rendeu uma tarde inteira. Ao vivo. Uma tarde inteira para que uma subcelebridade mostrasse suas vísceras, seus pensamentos selecionados e planos de vida.

No final das contas, morreu a jovem Eloá, assassinada por Lindemberg, que está preso. Lindemberg foi entrevistado por Sônia. Hoje de manhã soube que Marcelo Silva, o ex-PM e ex-marido da atriz Suzana Vieira, morreu. Marcelo Silva foi entrevistado por Sônia. Além de muito chata, descobri que Sônia Abrão é um tremendo pé frio.

artigo



Por trás da falta de palavras


"Tem que parar de desmatar para que os animais que estão extintos possam se reproduzirem e aumentarem seu número respirando um ar mais limpo". Esta e outras afirmações foram feitas no exame nacional do ensino médio.

São as famosas "pérolas do Enem", que circulam todo ano na internet. Sempre tenho dúvidas sobre a veracidade desses relatos, mas, desta vez, li a respeito no texto de um colunista do jornal Correio Braziliense ("Amazonologia", Eduardo Reis, 15/11/2008), que os trata como autênticos.

Se as frases por ele reproduzidas são de fato provenientes das redações do Enem sobre meio ambiente e Amazônia, estamos diante de um gravíssimo adoecimento educacional do país, que essas provas deixam mais evidente. E, o que é pior, os jovens vítimas dessa situação são ridicularizados, como se fossem uma espécie de "palhaços" trágicos da nossa incapacidade coletiva de superar um dos piores passivos nacionais, que é o da educação.

Duas situações convivem nesse universo. Uma, a dos estudantes cujas famílias têm meios para lhes dar suporte escolar e um ambiente doméstico com bom acesso à informação. Outra, a dos estudantes que remam contra a maré da pobreza, da falta de condições materiais em casa e do arremedo de escola. Estes são duplamente atingidos porque são também humilhados, como se a condição de pobreza, que os afasta dos meios para melhorar a performance escolar, significasse uma incapacidade inata.

Mas, lendo com atenção as frases, é possível fazer uma colheita de pérolas verdadeiras, de grande valor. Na verdade, seus autores revelam uma preocupação pertinente e relevante com a Amazônia, embora não tenham as palavras corretas para expressá-la. Fazem um esforço para identificar problemas ambientais reais, mas em boa parte dos casos talvez lhes faltem os jornais, o acesso à informação, a intimidade com a linguagem culta. Falta-lhes escola de qualidade.

E, no entanto, por meio de sua linguagem torta, dizem muito. No seu esforço para escrever há uma intenção e uma informação. A intenção é de proteger o meio ambiente e a Amazônia. A informação que nos chega, de forma indireta, é a de que as camadas mais pobres do país e, portanto, as que têm menos oportunidades de educação formal, conhecem a importância desse tema. Sabem que é preciso cuidar da biodiversidade, evitar os desmatamentos e queimadas.

Esses jovens, a despeito da falta de apoio, têm o mérito de ter conseguido entender a visão básica de conservação e de conceitos sócio-ambientais complexos. Se "traduzirmos" suas frases, o que está dito é: o que acontece na Amazônia tem repercussão mundial; a Amazônia é explorada de forma impiedosa; vamos nos unir para salvar o planeta; o homem destrói a floresta e isto tem que ser coibido; o desmatamento ilegal é a principal causa da devastação; o processo de extinção de animais é grave; a emissão de poluentes contribui para a destruição da floresta; há empresas que lidam com a floresta da maneira correta; as queimadas destroem os habitats da fauna; a Amazônia tem valor inestimável; devemos parar e refletir. Alguém discorda?

Também, à sua maneira, falam do corte ilegal de árvores, da necessidade de leis, da responsabilidade dos governantes, da má política, da necessidade de ações preventivas, do aumento do aquecimento global. Têm noção dos temas que importam, mas não sabem discorrer sobre eles.

Têm sensibilidade, mas o sistema de ensino não está à altura deles, de seu interesse, de seu potencial. Rir de seus erros é um contra-senso; é como se achássemos hilariante o desastre que o déficit educacional significa para o futuro do Brasil.

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Marina Silva é professora secundária de História, senadora pelo PT do Acre e ex-ministra do Meio Ambiente.

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FONTE: Portal Terra

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Muito boa a crítica de Marina Silva. Especialista em ridicularizar os menos afortunados do ENEM é o culto apresentador Jô Soares, em seu programa de TV. Por essas e outras eu mudo de canal e me recuso a ver o espetáculo do grotesco e da pilhéria criado pelo apresentador, devidamente educado na Suissa para ser um palhaço midiático.

9 de dez. de 2008

magister dixit

24 de fevereiro de 1993
Entrevista: Napoleão Mendes de Almeida
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Chega de asnices
O filólogo diz que o brasileiro não sabe falar português, principalmente na TV, e que a reforma ortográfica só serviria para alguns ganharem muito dinheiro
Okky de Souza
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No posto de um dos mais respeitados filólogos e gramáticos do país, Napoleão Mendes de Almeida é daqueles interlocutores capazes de interromper uma conversa para evitar um atentado ao idioma pátrio. "Tal verbo não se flexiona assim", "Nessa frase falta uma preposição", ensina ele, com a paciência amealhada em seus 82 anos de idade. Desde 1938, quando fundou seus cursos de português e de latim por correspondência, Almeida já corrigiu milhares de alunos, que durante dois anos recebem suas lições semanais, ao preço de meio salário mínimo por mês.
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Não é a única forma pela qual Almeida ajuda o país a falar e a escrever melhor. Há 56 anos ele assina a venerável coluna Questões Vernáculas em O Estado de S. Paulo - interrompida nos últimos quatro meses, segundo ele, por desentendimentos com "setores mais jovens" do jornal. O professor também assina alguns dos maiores best-sellers em sua área. Sua obra clássica, Gramática Metódica da Língua Portuguesa, está na 38ª edição (540.000 exemplares vendidos), e seu Dicionário de Questões Vernáculas, lançado em 1981, já esgotou 20.000 cópias. Ele é autor, ainda, de livros que abordam questões filosóficas, como Mensagem do Halley: Deus Não Existe, um ensaio ateísta.
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Em seu escritório no centro de São Paulo, Almeida comanda seis funcionários que o auxiliam na correspondência com os alunos. Ali, em meio aos dicionários e às gramáticas que forram as paredes, espalha-se um pandemônio de recortes e laudas à espera de catalogação - um trabalho que seria facilitado por um computador, possibilidade que ele descarta. "Ainda estou à espera de alguém que me diga quais as vantagens da engenhoca", desafia Almeida, que apesar disso já aderiu às comodidades do fax. Casado pela segunda vez, pai de um filho de 26 anos, Saulo Mendes de Almeida, economista do Unibanco, o professor falou na semana passada sobre as exigências do idioma.
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VEJA - Fala-se hoje um bom português no Brasil?
ALMEIDA - O país fala um português muito ruim. Chegamos a ter vergonha de construções corretas, ter receio de regências, de concordâncias.
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VEJA - Onde se ouve ou lê o pior português?
ALMEIDA - A televisão é o maior veículo de erros e enganos de português que existe. Ela tem um efeito nocivo muito grande sobre o português que o povo fala. É mais difícil falar bem do que escrever - nesse caso a pessoa tem mais tempo para pensar. Só as pessoas acostumadas a falar bem deveriam lançar mão desse meio de divulgação tremendo que é a TV.
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VEJA - Em que programas de TV estão os erros mais lapidares?
ALMEIDA - Até nos títulos dos programas se cometem invencionices. Há um humorístico chamado Os Trapalhões. Essa palavra não existe em português. O verbo é atrapalhar. Quem atrapalha, portanto, é atrapalhão. Por que tirar o a da palavra? Também se cometem equívocos nos noticiários, principalmente, e nas novelas. Há certos erros que me obrigam a mudar de canal. Repugna-me, por exemplo, ver um locutor de TV dizendo que se bateu um 'récorde', colocando a sílaba tônica no primeiro e. Esse locutor não é amigo do povo. Nunca tivemos essa palavra em português. É uma tontice. O certo é se pronunciar 'recórde'.
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VEJA - Em que outros veículos o português é sacrificado?
ALMEIDA - Chegamos a uma situação em que nem os jornalistas sabem conjugar verbos. Tenho no meu arquivo um conjunto de erros graves de português que saíram nos jornais nos últimos tempos. Veja esta manchete do noticiário internacional, publicada em novembro de 1990: "Iraque deixará parentes visitarem reféns". Que português é esse? O certo é "visitar". Para o jornalista que intitulou a notícia, o padre Manuel Bernardes não sabe português porque traduziu o texto latino do Pai-Nosso por "Não nos deixeis cair em tentação", assim como está errada a passagem do Evangelho de São Marcos que diz "Deixai vir a mim os pequeninos".
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VEJA - Na literatura brasileira de hoje a situação é melhor?
ALMEIDA - Bem, eu atualmente não sou de muita leitura. Leio revistas inglesas e francesas - sei que nelas vou encontrar os respectivos idiomas escritos de maneira perfeita. É uma prova de civismo estudar a própria língua.
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VEJA - Como se reconhece o escritor que trata bem o idioma?
ALMEIDA - Autores como Alexandre Herculano e Eça de Queiroz, além de possuir uma prosa atraente, obrigam o leitor a ir ao dicionário pelo menos duas vezes por página. Isso é um ótimo sinal. No outro extremo está o escritor que se lê por 100 ou 200 páginas sem deparar com uma palavra que não se conheça, e que escreve com períodos de gago, aquele que tem dois pontos finais em cada linha. Períodos curtos não têm graça. Neles não há concatenação, não há subordinação das orações. Escritores desse tipo não conhecem as conjunções ou têm medo de usá-las porque não sabem usar o verbo de acordo com elas.
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VEJA - Como falam os políticos brasileiros?
ALMEIDA - Os que falam bem são exceções, e há muito poucas. Dizia-se que Collor falava bem, mas ele escorregava, não sei se nesse meio tempo resolveu estudar gramática. Já o Lula usou uma frase muito interessante quando era candidato à Presidência. Ele dizia "Vote ni mim".
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VEJA - Lula deveria estudar gramática?
ALMEIDA - Ele tentou. Lula chegou a se matricular no meu curso, mas não chegou a responder à primeira lição escrita nem pagou a segunda mensalidade. Simplesmente desapareceu. Depois de um certo tempo acabamos rasgando a ficha dele, na limpeza do arquivo. Rasguei com prazer, depois de uma greve dos metalúrgicos que deu o maior prejuízo ao país.
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VEJA - O senhor também rejeita o português falado pelos sertanejos, carregado de regionalismos?
ALMEIDA - Eu respeito. Não vou interromper uma conversa para dizer ao interlocutor que o certo é dizer 'nós vamos' e não 'nós vai'. A verdade é que em termos de vocabulário há regionalismos muito interessantes. Um dia eu estava em Belém e pedi uma informação na rua, sobre onde ficava tal escola. O sujeito me disse que era fácil, que era só tomar uma sopa, aquela sopa que estava logo ali junto ao muro. Eu me espantei. Não sabia, mas está lá no dicionário - sopa é a jardineira, o ônibus local.
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VEJA - O que o senhor acha das reformas ortográficas feitas periodicamente no português?
ALMEIDA - Vejo como uma forma de comércio. O interesse das reformas ortográficas é financeiro, não intelectual ou prático. Tem por fim o lucro, seja da Academia Brasileira de Letras, seja de alguma editora, seja de algum rato de ministério, como é o caso atualmente no Planalto. Certa vez o Cláudio de Souza, então presidente da ABL, esteve no meu escritório, antes da reforma de 1943, e me perguntou por que eu era contra a reforma ortográfica. Ele me explicou que a Academia tinha despesas com a impressão do vocabulário. Eu disse: meu caro, não acha que a sua resposta deve ser substituída pela reflexão de que o interesse da reforma ortográfica é de caixa, e não de ensino? O escritor interessado quer modificar a ortografia, mas o livro dele, sua gramática, com a nova ortografia, já está pronto. Em 1949, quando saiu um decretinho no Diário Oficial introduzindo a nomenclatura gramatical brasileira, um dos tratantes da comissão já estava com o livro dele, incluindo as modificações, na terceira edição.
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VEJA - O acordo de unificação ortográfica entre o português do Brasil e o de Portugal, negociado atualmente pelo ministro da Cultura, Antônio Houaiss, encaixa-se nesse caso?
ALMEIDA - Faço minhas as palavras do jornalista Paulo Francis, num artigo recente. O bom dessa rusga diplomática que está ocorrendo entre Brasil e Portugal é que ela matou o acordo ortográfico do Antônio Houaiss. O Houaiss não é bobo, já admitiu que o acordo foi arquivado por tempo indeterminado. Isso porque ele é editor, paga imposto de renda pelo que edita. Qual seria o seu interesse na reforma senão ser o primeiro a dizer: "O que foi decretado ontem já está em forma de livro?" Vernáculo não é política para viver de alternativas, para alimentar-se de amizades e confrarias. O vernáculo vive de escritores, e estes não se impõem pela quantidade, senão pela qualidade de obras que expressem o belo sem protuberâncias vocabulares nem manifestação de desnutrição, de doenças gramaticais.
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VEJA - A unificação da ortografia usada no Brasil e em Portugal, prevista pela reforma, não seria desejável?
ALMEIDA - Que unificação? Não existem duas línguas, apenas uma.
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VEJA - Mas muitas palavras são usadas ou grafadas de forma diferente nos dois países.
ALMEIDA - E no Brasil não acontece o mesmo, de região para região? Não há diferenças prosódicas e de significação? Isso não prejudica o idioma de forma alguma. Tome-se, para efeito de comparação, o dicionário Webster da língua inglesa. Para certas palavras ele dá quatro pronúncias diferentes. Outras são mostradas com três grafias diversas. Isso é motivo para um espertalhão querer introduzir uma lei que determine uma só forma ortográfica, uma só pronúncia da palavra?
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VEJA - O acordo ortográfico prevê a eliminação de vários acentos nas palavras. Isso não tornaria mais fácil a tarefa de quem escreve, lê ou estuda o português?
ALMEIDA - A acentuação no português é um horror. A ortografia de 1943 está errada, mas se forem mexer vai piorar ainda mais.
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VEJA - O que há de mais aberrante na acentuação do português?
ALMEIDA - Tome-se, por exemplo, a palavra auxílio. No idioma espanhol existe essa mesma palavra, com o mesmo significado, mas ao contrário do que ocorre no português ela leva acento na forma verbal, auxilío. O motivo é simples: de cada dez vezes que essa palavra aparece corriqueiramente, talvez apenas uma seja na forma de verbo, nas demais ela aparece como substantivo. Então, nada mais lógico que se deixe o acento para diferenciar o verbo. Há mais bom senso na ortografia espanhola nesse aspecto.
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VEJA - O acordo prevê também a volta das letras k, w e y ao alfabeto, assim como a eliminação do trema no u. O que acha dessas propostas?
ALMEIDA - As três letras em questão nunca deveriam ter saído do alfabeto. Precisamos delas no dia-a-dia, na matemática, por exemplo, e também na escrita comum. Quanto ao trema, é inútil, ninguém precisa dele. Na verdade, quem deve ensinar a pronúncia certa é a escola. Eu mesmo não uso acentos quando escrevo meus rascunhos. Para quê? Eu sei ler. Mas para acrescentar o k, o w e o y ao alfabeto, assim como para eliminar o trema, não é preciso fazer uma grande reforma ortográfica. Basta um decretozinho, uma lei que regule o assunto.
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VEJA - As gírias atentam contra o bom português?
ALMEIDA - Não sou contra as gírias. Elas são um fenômeno normal, que revela a saúde do idioma. Elas em geral duram seis meses ou um ano. Conforme sua natureza, a gíria entra para o dicionário ou para a gramática. Por que eu investiria contra a expressão 'é sopa' quando ela surgiu? Há quanto tempo não se ouve essa expressão?
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VEJA - O senhor é contra os neologismos?
ALMEIDA - O neologismo é uma necessidade. Se há invenções, precisamos dar nomes a elas. Vamos buscar esse nome com radicais e sufixos nossos, ou com radicais gregos, latinos, ou vamos adaptar a forma inglesa, francesa ou alemã à nossa forma. O estudo da etimologia é maravilhoso, embora não tenha utilidade. Mas é curioso. Por exemplo: poucos sabem que a palavra joelho - ou geolho, como se dizia antigamente -, em português, é a mesma palavra knee, em inglês. A origem de ambas é genunculum, em latim. A sílaba inicial ge é gutural forte, corresponde, na pronúncia latina, ao som de k em inglês. O n já está na palavra e a terminação unculum corresponde à nossa terminação lho ou aos dois e do inglês. O estudo do latim é necessário. Foi uma infelicidade jogá-lo fora do currículo escolar no Brasil, mormente para quem vai praticar leis, estudar Direito.
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VEJA - A língua portuguesa tem bons dicionários? Quais?
ALMEIDA - Prefiro não propagandear os dicionários que temos. Mas posso elogiar o de Alberto Carlos Silva, um autor de Campinas que morreu mocíssimo.
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VEJA - Como o senhor vê as atividades da Academia Brasileira de Letras?
ALMEIDA - Sabe quantas vezes Rui Barbosa esteve na Academia? Uma única. Euclides da Cunha nunca precisou dela. Monteiro Lobato idem. Mas há escritores que são fregueses das academias de letras que se espalham pelo país. A Academia não contribui em nada para a melhora do idioma.
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VEJA - Desde quando o brasileiro fala e escreve mal?
ALMEIDA - Pode-se dizer que o início da derrocada da nossa língua data de 1931. Com a Revolução de 30, introduziram-se as férias escolares de julho. Aí ela começou a degringolar. Talvez os próprios pais tenham provocado essa mudança, por querer descansar, mas esse descanso começou a prejudicar o ensino dos filhos.
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VEJA - Essa explicação não é demasiado simples?
ALMEIDA - Essa é uma imagem histórica que uso para ilustrar um fenômeno que é bem mais complexo. O erro principal vai mais longe - na pobreza de horas diárias de aula no curso primário, por exemplo. Verifique-se se em algum país dito civilizado existem menos de oito horas de aula por dia no curso primário. Em todo os países o aluno fica na escola oito horas. Mas no Brasil o aluno vai à escola para comer Há também a questão da remuneração dos professores: os que ensinam português não podem ter o mesmo salário dos que ensinam desenho, por exemplo. Que trabalho tem um professor de desenho? Num relance ele dá a nota para o aluno. O professor de português tem que ler palavra por palavra, para ver se o aluno não trocou um c por dois s, um g por j. E ao voltar à sala de aula ele tem que chamar os alunos um por um para explicar os erros. O de Antonio vai servir de esclarecimento para Benedito, todos se aproveitam dos erros de todos, mas esse trabalho tem que ser bem remunerado.
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VEJA - Que outras deficiências do ensino fazem com que o brasileiro fale mal seu idioma?
ALMEIDA - Existe hoje uma indústria do livro didático, comandada por indivíduos incapazes de montar ou explorar um colégio, um curso que seja. Esses livros didáticos não têm concorrência, contenham eles as maiores violações gramaticais e asnices ortográficas. O professor chega ao colégio e já encontra nas prateleiras os livros que deve usar. Quer dizer que ele não tem competência para escolher? E quem se julgou competente para escolher? Um interesseiro. O ensino está entregue a um outro tipo de comércio, o das apostilas. Não se dá o texto da matéria, apenas apostilas. E qual é o valor das apostilas no futuro? Nenhum. É progresso encher uma classe de apostilas, de livrinhos e livrecos sem vulto nem tomo, tão inúteis quanto desarrazoados, sem índices nem remissões? O aluno deveria comprar o livro e o professor ter em mãos um texto da matéria que leciona. Até há algum tempo, o professor era obrigado a assinar um diário de aula, relatando que matéria tinha dado naquele dia. Existe isso hoje? Não. Fala-se mau português por causa do sistema escolar.
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VEJA - Em que região do Brasil se fala o melhor português?
ALMEIDA - É difícil especificar, mas no Maranhão, certa vez, conheci um professor que, embora muito modesto, divertia-se conversando em latim com a filha. Isso é significativo. Oxalá um dia possamos dizer que o Brasil todo fala uma língua disciplinada, que revele educação, instrução, que revele um país de pessoas formadas para a sociedade.
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VEJA - Estamos muito longe disso?
ALMEIDA - A distância é de pelo menos três gerações.
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Colaboração: Olavo de Carvalho

8 de dez. de 2008

as deusas, as musas e os maridões


Um fenômeno da imprensa de futilidades é a repetição de certas palavras para designar astros e estrelas do show business. Os termos escolhidos se desgastam com o tempo e adquirem novos sentidos, após o uso indiscriminado. Há algum tempo que o emprego de determinados termos foi amplamente adotado nas reportagens descoladas e desmioladas que ilustram o mundinho dos artistas, quase sempre das novelas e do mundo musical de baixa qualidade, dos endinheirados e das pessoas estilosas.

Outro dia parei em uma banca de jornal e comecei a folhear uma revista dessas. Lá estavam as “deusas”, as “musas” e os “maridões”. Sem encontrar termos novos, a mídia repete essas mesmas palavras ad nauseam. Da revista Caras à TV Brasil, lá estão eles. São personagens de nosso cotidiano no salão de beleza, na ante-sala do dentista, do médico e da esteticista. Não nos faltam na hora de enfrentar aqueles minutos chatos até a hora do atendimento.

Por “musa” entenda-se qualquer mulher que tenha feito comercial de cerveja. Tirou foto pelada? É musa. Colocou silicone nos peitos? É musa. Dos gregos resta uma vaga lembrança da idéia original, usada e abusada nestas terras tropicais. Da Sandy à Ana Maria Braga, todas são musas. Uma não-musa deveria ficar feliz: saiu da vala comum. O uso de “musa” está tão difundido que daqui a pouco vão substituir o “senhora” por musa. Senhora, mulher, deputada, senadora, prefeita, cantora, atriz, a lista é longa. Imaginem a revista Carta Capital, ou a Veja, chamando a ministra Dilma Roussef de “musa”. Não está longe de acontecer.

Pior que musa é deusa. Deusa ninguém merece. Me lembra uma amiga da minha mãe, uma senhora de mais de 50 anos que se chamava Deusa. A Dona Deusa. O chato é que “deusa” é usada quando falta outro nome. Ninguém mais diz “a atriz...” São todas “deusas”. Com a enorme safra de modelos-atrizes-apresentadoras, chamar alguém de atriz inadvertidamente pode até dar processo. Mas deusa pode, para tristeza da inculta e bela. Como praticamente todas as mulheres que aparecem em revistas de fofocas já se tornaram deusas, tenho a impressão de que vivemos numa Grécia revisitada, inclusive no critério numérico. Se antes as deusas eram poucas, hoje são centenas. Namorou jogador de futebol? É deusa. Posou pelada? É deusa. Fez novela? É deusa. E ainda existem as deusas do hortifruti, que são metade mulheres, metade frutas, e aí há fartura de melancias, jacas e morangos.

Mas nem só de deusas vivem as revistas de fofoca. Muitos homens são classificados de “maridões”. O maridão é uma categoria masculina em alta. Morou junto, namorou, casou, não importa: apareceu de bermudão e havaianas, andando de mãos dadas com alguma famosa de ocasião, é maridão. Existe uma necessidade absurda dessa imprensa por maridos. As mulheres adoram. Esposas são poucas, dada a abundância de musas e deusas, mas os maridos se multiplicam. A palavra “maridão”, em si, denota aquele homem meio indolente que anda sem camisa e acompanha a mulher famosa. É o marido que só é fotografado porque está ao lado da mulher conhecida. O sufixo de grau aumentativo confere uma idéia bondosa, paciente e bonachona ao homem que acompanha a “deusa”. Antes de cair em desgraça, o ex-marido da atriz Suzana Vieira, ela mesma uma musa-deusa, era o “maridão”. Por aí já dá pra imaginar. Deusas e musas não têm marido, têm “maridão”. Homens belos e conhecidos, em geral, são “gatos” e “galãs”. Aliás, “galã” é outra palavra coringa: se fez propaganda de cueca já é considerado galã. Qualquer coisa serve. Inventou a dança da manivela? É “gato”. Participou do programa da Ana Maria Braga? É “galã”. E por aí vai. Já homens quase desconhecidos, mas casados com mulheres conhecidas, são “maridões”.

Nada contra as musas, as deusas e os maridões. Muito pelo contrário. As palavras sinalizam quem é, de fato, absolutamente comum. Chamar alguém de "musa" é conferir à pessoa o certificado de mesmice. “Não há nada de interessante nela, é uma musa”. Se alguma reportagem fala de alguém que não é musa, nem deusa, nem maridão, bom, nesse caso deve ser alguém interessante.

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