Creio que não existe nada de mais belo, de mais profundo, de mais simpático, de mais viril e de mais perfeito do que o Cristo; e eu digo a mim mesmo, com um amor cioso, que não existe e não pode existir. Mais do que isto: se alguém me provar que o Cristo está fora da verdade e que esta não se acha n'Ele, prefiro ficar com o Cristo a ficar com a verdade. (Dostoievski)

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26 de ago. de 2014

Carta a um morto

Senhor Jackson Lago,

Sempre quis escrever esta carta. Devo confessar. Sei que agora o senhor está morto, mas se estivesse vivo provavelmente também não a leria. Aliás, como vai? Espero que me desculpe pela ousadia. Perguntar "como vai?" a um morto pode parecer ironia ou desrespeito, mas de fato me interesso pela sua vida. Desculpe-me, pela sua pós-vida. Mas não vou tentar adivinhar onde o senhor está. Isso não é comigo. Acima de tudo, peço que o senhor não se ofenda com esta missiva. Afinal, o senhor foi um homem público. Foi eleito governador do Maranhão – com a ajuda do meu voto, diga-se de passagem.

Primeiro, devo dizer que nutria pela sua pessoa grande admiração. Não só por sua figura austera, que me inspirava e me dava esperança de dias melhores, como também por sua destacada atuação no que se costumava chamar de “oposição”, aqui neste velho e surrado Estado do Maranhão. Oposição a um grupo que está no poder há mais de 50 anos. Essa oposição unia o senhor, políticos de diferentes origens e matizes ideológicos, profissionais de áreas diversas, cidadãos pobres, meio pobres, mais ou menos e também muitos ricos, artistas, pensadores, poetas e, provavelmente, o dono do Cuscuz Ideal. Mas há outra razão. Minha avó Maria Amélia, por quem nutro um amor filial e terno, muitas vezes me contou que tomou conta do senhor, ainda criança, em Pedreiras. Ela, já mocinha, conhecia sua família e por vezes cuidava de lhe trocar as fraldas. Suponho que dela o senhor não se lembre. Nem de mim, aliás.

Mas falemos de política. Há uma estranha e nociva inversão de valores em todos os lugares e áreas deste vasto mundo (talvez não na Nova Zelândia, mas este assunto fica para a próxima carta). Os eleitos para trabalhar pelo e para o povo se tornam pequenos monarcas, dignos de toda pompa e circunstância. Quando erram, tornam-se avessos a toda espécie de crítica. Com isso, não temos elegido servidores do povo, mas reis, rainhas, tiranos, semideuses.
   
Quando o senhor se candidatou ao Governo do Estado, após três felizes passagens  pela Prefeitura de São Luis, houve choro e ranger de dentes no grupo que ocupava o poder. E houve uma imensa alegria do lado de cá, daqueles que se diziam oposição, por um Maranhão mais livre, mais solto, mais crocante e com sabor original. Tive um lampejo de esperança de que finalmente – finalmente! – iríamos deixar o atraso decorrente de anos a fio de domínio político familiar nestas paragens. Mas descobri, também com seu Governo, que é muito difícil ter esperança no Estado do Maranhão. Em 2006, vi em sua candidatura uma oportunidade singular de darmos fim à letargia política deste pobre Estado. Não só eu. Em meu trabalho, a Universidade Estadual do Maranhão, colegas professores e funcionários e estudantes uniram-se pelo objetivo comum de elegê-lo governador. Não havia um só estudante que não declarasse, orgulhosamente, esperançosamente, o voto em sua candidatura. O senhor sabe, os professores universitários quase sempre acham que têm uma clarividência política que os demais mortais não têm. Pensam assim porque estudaram mais que a média da população, leram mais que a média, analisaram mais a situação política e debateram mais que a média. Ledo engano. Terrível engano.

Pois bem. Votei no senhor em 2006. Durante sua campanha, levava em meu carro, um Celta preto, 1.0, sua bandeira. Fui a um de seus comitês e pedi que soldassem, na parte traseira do carro, um suporte para que ela ficasse constantemente ali, tornando pública minha opção política e fazendo propaganda de sua candidatura. Também colei nos vidros do carro adesivos com seu nome e número (o 12!). Além disso, tinha o CD com aquela musiquinha “é 12, é 12, é 12, é 12...” e, ao sair de carro, os vidros abertos – pois não tinha ar condicionado – escutava-a no volume mais alto. Tenho o CD ainda hoje. Fiz campanha para o senhor como pude. Ganhei os votos que pude. Conversei com os colegas que encontrei pela frente, os amigos, os parentes, a fim de convencê-los de que o senhor era – enfim! – a solução. Sobretudo para a Universidade Estadual do Maranhão, tão empobrecida, carente de recursos, desvalorizada. Pensei que a Uema floresceria em seu Governo. Não só a universidade, mas toda a rede pública de Educação, que vive sempre dias de agonia em um Estado que apresenta os piores índices educacionais do Brasil.

Em 2007, entretanto, seu Governo propôs o PL 080/2007, transformado na Lei 8.592/2007, de 24/04/2007, pela Assembleia Legislativa do Maranhão. A Lei foi chamada por nós e pelos maranhenses de “Lei do Cão”. O senhor se lembra? Os vencimentos dos professores e de outras categorias do funcionalismo público seriam transformados em “subsídios”.  O que é um subsídio? Ora, o senhor deveria saber. Segundo o Artigo 39 da Constituição Federal, é a "forma de remuneração atribuída a membros de Poder,  detentores de mandato eletivo, ministros de Estado e Secretários Estaduais  e Municipais, fixado em parcela única, sobre a qual é vedada o acréscimo  de qualquer gratificação, adicional, abono, prêmio, verba de representação  ou outra espécie remuneratória..." E por que nós, professores, ficamos tão revoltados, senhor Jackson Lago? Porque com essa Lei o senhor acabou com várias gratificações e adicionais, que foram  transformados em "vantagens pessoais congeladas".

Na época, fizemos uma Carta à sociedade explicando as razões de nosso movimento, o porquê de termos de paralisar as aulas, de termos de ir às ruas, de termos sido obrigados a ir contra o governador pelo qual tanto havíamos lutado. Segundo a nossa Carta, vale lembrar, senhor Jackson, que sua lei:

  • Congelou a gratificação por titulação, adicional por tempo de serviço e percentual de insalubridade, todos transformados em “vantagens pessoais”;
  • Extinguiu a condição Especial de Trabalho e o Adicional de Risco de Vida que incidiam 100% sobre o salário dos servidores técnico-administrativos. Foram extintos, e seriam substituídos por "serviço extraordinário", em valores também congelados (ref. março/2007);
  • Substituiu "vencimento" por subsídio, que vedava a agregação de quaisquer vantagens, feria o sistema meritocrático que fundamenta a carreira universitária, o que poderia ter resultado na evasão de cérebros e inibido a absorção de novos cientistas e técnicos altamente qualificados;
  • Proporcionou insegurança jurídica se as "vantagens pessoais" seriam levadas para a aposentadoria;
  • Impôs dificuldades na elaboração e negociação dos novos Planos de Carreiras, Cargos e Salários, com o conceito de "subsídio".

Quero continuar a citar a Carta, que ajudei a escrever e revisei. Mais do que outro documento, é ela que diz como foi o tratamento que recebemos do senhor, na época. Sigamos:

“Para os trabalhadores da Uema, professores e técnicos administrativos, que têm salários ancorados em ‘vencimento’, o regime de subsídios sepulta o sistema meritocrático e do aperfeiçoamento científico que fundamenta a carreira universitária, com perdas irreparáveis ao capital humano da instituição. [...] A reação dos professores do ensino básico, logo seguida por todos os  servidores da Uema, a essa insensatez do governo foi acertadamente, firme  e imediata, só lhes restando o recurso da greve, para lutar contra as  lesões que a lei causa nos seus direitos, tão duramente conquistados, ao  longo da história. A greve da Uema foi iniciada pelo Sintuema/Assuema no dia 02/05/07 e em seguida apoiada pelos professores reunidos em Assembleia no dia 07/05/07. Os trabalhadores da educação da rede pública estadual de ensino, por meio do Sinproessema, aderiram ao movimento no dia 22/05/07. O movimento grevista, composto de 11 entidades sindicais, está sendo coordenado pela  CUT/MA. Nos primeiros 30 dias da greve, fizemos várias passeatas contra a lei, em uma das quais fizemos o seu enterro simbólico. Participamos de cinco reuniões com representantes do Governo, nas quais as negociações pouco avançaram, por conta da intransigência do Governo em não aceitar a revogação da lei nem tampouco discutir alternativas ao regime de subsídio.

A última reunião que tivemos no Palácio dos Leões, solicitada e dirigida pelo governador Jackson Lago (25/05/2007), resultou na criação de três comissões por ele sugeridas, formadas por representantes do Governo e pelos membros da Comissão de Negociação: a primeira, para estudar a questão dos subsídios; a segunda, para estudar OS PLANOS DE CARREIRAS, CARGOS E SALÁRIOS, e a terceira, para estudar um plano para a educação no Estado do Maranhão.

À primeira reunião da comissão de estudo dos subsídios, enquanto compareceram todos os representantes da Comissão de Negociação, o governo mandou quatro servidores de escalões inferiores, quase todos sem informações e com conhecimento limitado sobre o assunto.

À segunda reunião, só compareceu um desses representantes, ficando então confirmado o esvaziamento das comissões sugeridas por Jackson, numa atitude tão desrespeitosa para com os grevistas quanto desmoralizante para o governador, pois induziu à convicção de que havia alguém com maior poder de decisão que o governador.

Diante dessa circunstância, a Comissão de Negociação decidiu buscar o apoio da Assembleia Legislativa, resultando numa demorada reunião da qual participaram, além do Chefe da Casa Civil, a Comissão de Negociação e oito deputados, inclusive o Presidente da Assembleia. Como resultado dessa reunião, a Comissão de Negociação assumiu o compromisso de apresentar as suas postulações sobre a revogação ou mudanças na Lei do Cão.

Tal compromisso foi honrado pela Comissão de Negociação, com a entrega de um documento ao Sr. Aderson Lago, no dia 14 de junho de 2007,  conforme ficara acordado. Em decorrência, Aderson anunciou aos grevistas que haveria uma reunião no início da semana seguinte, provavelmente, na terça, ou na quarta feira, pois na segunda feira, o Ministro Gilberto Gil estaria visitando a nossa cidade.

Enquanto a Comissão de Negociação aguardava pelo convite do Chefe da Casa Civil para a continuação do diálogo, o Governo, de modo traiçoeiro e mesquinhamente autoritário, apequenou-se: rompeu, unilateralmente, o diálogo e decidiu pedir à Justiça que decretasse a greve ilegal. O movimento grevista recorreu a alguns deputados federais da bancada maranhense e que são da base do Governo, no sentido de impedir que fosse pedida a ilegalidade da greve. Para tal, realizou-se, na residência do dep. João Evangelista, uma reunião com a Comissão de Negociação, da qual participaram os deputados: Domingos Dutra, Julião Amin, Ribamar Alves, Pinto da Itamarati e Cléber Verde, que tomaram conhecimento de toda a questão. 

No dia seguinte, os citados deputados reuniram-se com Jackson, trataram de vários assuntos, e sobre a greve, mesmo, só de raspão, mas foi o suficiente para ouvirem do governador a reafirmação de sua inabalável e inflexível decisão de pedir à Justiça que decretasse a ilegalidade do movimento, o que, de fato, ocorreu, para a decepção plena dos que votaram em Jackson, certos de estarem elegendo um Governo democrático.
”
           
Como está claro, tentamos de todas as maneiras conversar com o senhor. Nossa intenção não era, de início, entrar em greve. Mas o caráter autoritário de seu Governo, assim como sua inflexibilidade, levou-nos a reagir, a fim de tentar preservar o pouco que tínhamos de nossas  carreiras. Procuramos informar a sociedade maranhense que havia algo errado, profundamente errado, em sua iniciativa. Fiz parte da Comissão de Greve e pude acompanhar de perto o esforço dos colegas para esclarecer o povo, pedir ajuda, abrir o diálogo com as autoridades, levar as informações corretas aos estudantes e suas famílias e à população, de modo geral. É claro, tentamos falar com o senhor, que não nos recebeu em nenhum momento, tratando-nos como indigentes à porta de seu palácio. Logo a nós, senhor Jackson, que tanto havíamos lutado para que o senhor se elegesse! Que grande e triste surpresa! A cada assembleia, a cada reunião, chegávamos à conclusão de que elegê-lo havia sido um erro. Não bastasse a Educação e a Saúde estarem vivendo graves problemas, a crise da Segurança Pública tornava-se mais e mais complexa – a secretária, Eurídice Vidigal, era mulher de seu amigo, Edson Vidigal. A propósito, seu Governo, em termos da contratação e do beneficiamento de amigos e parentes não foi muito diferente dos sucessivos governos da oligarquia. Mas vou falar disso em outro momento.

Também preciso dizer, oportunamente, que seu Governo não se fez sozinho. Por isso mesmo, o hoje candidato pelo PC do B ao Governo do Maranhão, dono de um discurso quase idêntico ao seu, o juiz Flávio Dino, na época foi ao Supremo Tribunal Federal a fim de defender a Lei 8592/07, a nefasta "Lei do Cão", implantada pelo senhor e derrubada pela governadora Roseana Sarney assim que assumiu o comando do Estado, em 2009. Quem denunciou isso? O hoje candidato ao Governo pelo PSTu, Saulo Arcângeli, que na época era professor da Universidade e estava conosco no propósito de barrar a citada Lei. Flávio Dino, que era então deputado federal, também se preocupou em ir aos sindicatos e associações de servidores – Sindjus (Sindicato dos Servidores da Justiça do Estado do Maranhão), Sinproesemma (Sindicato dos Trabalhadores em Educação Pública do Maranhão), Sintuema (Sindicato dos Trabalhadores da Universidade Estadual do Maranhão), Assuema (Associação dos Professores da Uema) – a fim de nos pressionar a aceitar o acinte que sua Lei nos impunha.

No final das contas, o senhor deve também se recordar, o STF determinou que seu Governo suspendesse a vigência da malfadada Lei 8.592/2007. Essa suspensão foi solicitada pelo PMDB e aprovada por 10 dos 11 ministros do Supremo. Isso obrigou seu Governo a retornar ao sistema antigo de pagamento dos salários dos 120 mil servidores da administração direta e indireta, suspensos pela sua Lei do Cão. No Magistério, somente, ficaram parados 35 mil professores do Ensino Básico (83 dias) e da Uema (103 dias).

Mais? O senhor quer mais? Ora, quem sou eu, senhor Jackson, para contestar esse tal “legado” que seus amigos dizem que o senhor nos deixou. Não é? Porque aqui no Maranhão a construção política quase sempre não é feita com fatos, mas com relações de compadrio, de camaradagem, de oportunismo, cobertas de inverdade e interesses escusos. Obviamente, quem quer que conteste seu grande legado será mal visto. E mal quisto. Eu me preparo para as pedras e para os tomates, como sempre me preparei. O que não faço nem farei é engolir mentiras para dizer que estou do lado de alguma verdade.

Sigamos. Vamos mais adiante. Em uma de nossas passeatas, pacífica, como todas as que ajudei a organizar e das quais participei, o senhor enviou a Polícia Militar para nos receber. Devo dizer ao senhor que tenho verdadeiro respeito pela PM, e que já tinha dado aulas para turmas do Curso de Formação de Oficiais, na mesma Uema que o senhor queria destruir. Por isso mesmo, encontrava, aqui e ali, alguns de meus alunos. Estupefatos, pediam desculpas por estarem ali. Sabiam que nosso movimento era legítimo. Que não estávamos armados. Que estávamos caminhando pacificamente – assim como pacificamente havíamos acampado em frente ao Palácio dos Leões, e ali também cheguei a passar uma ou duas noites – nós, professores e estudantes, funcionários, parentes. Pacificamente, portanto, recebemos as balas de borracha e os gases lançados contra nós. O que fizemos? Corremos. Uma de minhas alunas, que estava próxima a mim, foi baleada com as tais balas de borracha. Sua perna, inchada, aparecia sob o jeans da calça, rasgado.

Levei-a ao hospital, aquele da Rua do Passeio, chamado de “Socorrão”. Novo choque, senhor Jackson! O que vi ali me deixou mais horrorizada ainda com seu Governo. Os corredores estavam lotados, não havia circulação de ar, doentes velhos, novos, graves e menos graves se misturavam. Esperei minha aluna ser atendida e fui me embora dali. Se na Educação seu Governo demonstrava total inépcia, na Saúde não se saía melhor. E o senhor era médico. Médico. Isso nunca me saiu da cabeça. E há os que defendem o “seu legado”! Minha aluna ficou semanas sem andar direito, sentindo muita dor. A dor que eu sentia era no coração. Eu me sentia enganada. Saí daquele hospital, fui para casa e, nos dias seguintes, adoeci. Devo ter pego alguma virose no Socorrão. Enquanto esses fatos se passavam, o senhor deveria estar em seu gabinete, cercado por seus assessores. Soube, aliás, que alguns deles saíram de seu Governo em ótimas condições financeiras. Pelo menos alguém foi ajudado, diria Oscar Wilde, ironicamente. Seus assessores, secretários, amigos, correligionários. Seus cúmplices.

Quando o STF cassou seu mandato, estávamos exaustos. Achei a cassação injusta, fruto de manipulação política orquestrada pelo grupo que manda há muito tempo no Estado. O senhor tinha sido eleito pela maioria, e eu chamei essa cassação de golpe branco. Apesar disso, – e peço que o senhor tente se colocar no meu lugar – não fui às ruas para defendê-lo. Eu e meus colegas, alunos, parentes e amigos teríamos ido às ruas defender sua permanência, mas estávamos cansados, ainda estupefatos com a sua Lei do Cão e, finalmente, preocupados em repor os dias de aula perdidos. Teríamos ido às ruas lutar para que o senhor terminasse seu tempo de Governo, mas nós nos perguntávamos qual a razão para defender um político que só havia nos atacado. Por que ir ao STF pedir que anulasse sua decisão a fim de beneficiar um Governador que estava prejudicando o Maranhão. Por que lutar para que o senhor continuasse propondo leis injustas, prejudicando a Educação, a Saúde, a Segurança Pública, como era notório. Então não fomos. Então o senhor saiu do Governo. Perdeu a melhor oportunidade da “oposição”, até aquele momento, para melhorar o Maranhão. Continuamos ruins. Continuamos deficitários. Continuamos nos últimos lugares. Continuamos sendo notícia por causa de nossa ineficiência, do roubo dos políticos, da violência, da falência do sistema prisional. Se for falar para o senhor de todos os nossos problemas, terei que produzir uma enciclopédia.

Por outro lado, senhor Jackson, sinto que devo agradecê-lo, sinceramente. Porque comecei a perceber, com o senhor, que ser oposição ou situação, aqui no Maranhão, dá na mesma: resume-se a quem vai comer o bolo. Quem vai enriquecer. Quem vai ser o califa da vez. Os grupos podem se alternar, e neste exato momento o senhor deve estar acompanhando estas eleições, em que o então na época deputado federal Flávio Dino, que lutou para nos prejudicar, publica aos quatro ventos que quer “mudar o Maranhão”. Ele está certo. Ele quer tirar a oligarquia do poder porque talvez tenha chegado a sua hora de abocanhar o bolo. O que entendo é que seja ele, seja outro, o Maranhão continuará a mesma coisa. Por isso costumo dizer que o único legado que o senhor nos deixou foi a decepção – ainda que esta seja a inaceitável verdade.

Maya Felix
São Luis, 25 ago 2014.

P.S. Devo fazer um mea culpa, sr. Jackson: o hospital Socorrão, que cito neste texto, não era nem é responsabilidade do Governo do Estado do Maranhão, mas da Prefeitura de São Luis. E em 2007 o prefeito era o sr. Tadeu Palácio, médico como o sr. Desculpe-me pela injustiça. O estado lastimável do Socorrão, de fato, não era culpa de sua administração.

27 de fev. de 2014

o PT piorou o Brasil.

A VERDADEIRA distribuição de renda a esquerda não fez. Distribuição de renda é esgoto e água potável nas favelas, não somente no Leblon e nos Jardins. FHC fez mais esgotos do que Lula. Dados do IPEA. Distribuição de renda é hospitais públicos de qualidade, com equipamentos, remédios e médicos bem remunerados. Distribuição de renda é geração de emprego. Distribuição de renda é transporte público eficiente, de qualidade. Distribuição de renda é escola pública bem equipada e professor ganhando bem pelo trabalho árduo que faz. Distribuição de renda é creche em lugar pobre, para as mães poderem trabalhar. Distribuição de renda é cada um ter condições de construir sua casa como bem entende, com o dinheiro do seu trabalho. O que o Governo do PT faz é assistencialismo. 

Em 11 anos de Governo, o PT piorou o Brasil. Viramos o país das "bolsas", que alimentam a miséria sem de fato distribuir a renda. A classe média é escorchada, explorada, esfolada de todas as maneiras. Distribuição de renda é modificar o sistema tributário cruel do Brasil. O PT não fez nenhuma reforma. FHC assentou mais famílias sem terra que Lula. Dados do IPEA. 

PT: onze anos perdidos. Onze anos de marcha-a-ré. Onze anos no lixo. Onze anos de inchaço da máquina pública. Em dez anos, os cargos comissionados no Governo passaram de 17,6 mil para 22,6 mil: http://dinheiropublico.blogfolha.uol.com.br/2014/01/19/em-10-anos-comissionados-no-governo-passam-de-176-mil-para-226-mil/. 

Em relatório divulgado em 2010 pela ONG Transparência Internacional mostra que em oito anos a posição do Brasil no Índice Mundial de Corrupção desceu da 45.ª (2002) para o 69.º lugar (2010): http://brasilliberdadeedemocracia.blogs.sapo.pt/1372463.html. 

Distribuição de renda é um país em que todos os cidadãos tenham segurança para viver. Em 2012, o Brasil teve registrados 50 MIL HOMICÍDIOS. Com os não registrados, chegamos a 60 MIL. http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2013/11/03/pais-teve-50-mil-mortes-em-2012.html. Do total de mortos, 70% são negros, segundo o Ipea: http://negrobelchior.cartacapital.com.br/2013/10/18/negros-sao-70-das-vitimas-de-assassinatos-no-brasil-reafirma-ipea/. Cotas não resolvem o problema de um cadáver no IML.

Não acredito que as eleições serão limpas. Não acredito que o PT vai deixar de manipular pesquisas de opinião, software de urnas eletrônicas, resultados. Dilma vai ganhar. Serão mais quatro anos de PT goela abaixo.

5 de fev. de 2014

woody allen: a arte não está acima da vida.

Um assunto que causou discussões (e ainda vai causar mais, nos próximos dias) neste domingo, 2 de fevereiro, é a carta na qual Dylan Farrow, filha adotiva de Mia Farrow e Woody Allen, acusa seu pai adotivo de ter abusado sexualmente dela. Por conta disso, Dylan teve inúmeros problemas de ordem psicológica, que afetaram também seu estado de saúde física. O que me chamou a atenção neste episódio foram as reações dos internautas nas redes sociais. Segue, primeiro, um link para uma reportagem sobre o tema:
Agora, o link para a íntegra da carta traduzida:
Antes de mais nada, preciso informar que o cineasta declarou ser inocente e disse que em breve responderá em público às acusações. Mais um capítulo aguardado. O que diz Woody Allen:
Particularmente, creio que Dylan diz a verdade. É claro que ela pode ter inventado tudo isso. Mas penso que há evidências em seu discurso e nas situações que ocorreram simultaneamente ao abuso – e também depois dele – que podem apontar a culpa de Allen.
Aqui e ali vi, no Twitter, no Facebook, em sites de revistas e de jornais, que muita gente está defendendo o cineasta porque ele é talentoso e influente, não porque as evidências indicam que a filha dele provavelmente diz a verdade. O fato de que ele mesmo mantinha um romance com outra filha adotiva ainda estando casado e convivendo com a esposa e os demais filhos é uma evidência. Na época, Allen se separou de Mia Farrow para assumir esse relacionamento. Sua filha adotiva tinha, então 19 anos, e ele, mais de 50. Além disso, o filho dele também o critica duramente. Todos estão errados, então, e Allen diz a verdade? Essas são evidências, indícios de vericondicionalidade no discurso de Dylan Farrow.
Parece-me que W. Allen sempre negará ter abusado sexualmente de sua própria filha quando ela tinha sete anos. E me parece também certo que Dylan não voltará atrás em suas acusações. Se não podemos julgar nem condenar sem provas – sendo a palavra dela contra a dele – também não podemos inocentá-lo. Talvez jamais haja “provas” para o abuso relatado. Mas há pistas, evidências nos discursos, nas situações, nas reações não só da menina – hoje mulher – abusada como dos outros membros da família, e isso deve ser levado em consideração. Repito: creio que Dylan Farrow diz a verdade. O que desenvolvo a seguir baseia-se nessa premissa.
Os libertários e esquerdistas que vi se manifestando na internet preferem relativizar tudo: é impossível assumir uma posição (e aí já há uma “posição”, evidentemente). Afinal, ninguém de fato sabe; com sete anos há muitas ilusões, ideias, imagens decorrentes de autossugestão, de uma mente fértil etc.; Woody Allen é Woody Allen e mais umas tantas asneiras. Dizem isso como se defender o Woody Allen pai fosse necessário para endossar o Woody Allen artista, o que é importante para o pensamento esquerdista, ainda que Woody Allen pai e artista sejam O MESMO SER HUMANO.
Woody Allen é um grande diretor de cinema, era o meu preferido, mas a partir de hoje não vejo mais seus filmes, decidi. E o farei não por desconhecer sua competência como artista, mas por não concordar com o que ele, como ser humano, é. Eu também não compraria um quadro de Adolf Hitler (mesmo se ele tivesse sido um bom pintor). Eu não vi o filme O Pianista, de Roman Polanski, que é um estuprador pedófilo. Eu me recuso. Não vi Melancholia, quando estava morando em Paris, em 2011, no auge da crise que Lars Von Trier provocou no Festival de Cannes ao declarar que “entendia e simpatizava” com Hitler. E decidi também não ver Ninfomaníaca. Não vou ver não porque o filme tem cenas de sexo. Aliás, estava até curiosa para saber se era bom – e muita gente tem dito que é ótimo, pois o que importa no filme não é o sexo, mas o que se fala sobre ele. Mas eu decidi não ver Ninfomaníaca porque sei que a ARTE não é um valor absoluto, mas A VIDA é.
A VIDA ESTÁ ACIMA da arte. Como dizia aquele rapaz latino americano, “qualquer canto é menor do que a vida de qualquer pessoa…”. Para Lars Von Trier, um sujeito que provocou a morte de mais de 50 milhões de pessoas é um cara “simpático”. É em coisas assim que a “esquerda caviar” mostra sua natureza fútil. Aliás, recomendo (illico) a quem me lê agora o livro de Rodrigo Constantino. A esquerda erra e sempre errou: ama a humanidade como ideia abstrata, mas se lixa para o ser humano real. Exalta a arte, a cultura e a ciência como valores absolutos e que se dane o ser de carne e osso. Adora os valores da revolução cubana mas não se preocupa com os cubanos de verdade, que estão sofrendo em decorrência não do “ideal da revolução”, mas da revolução que de fato ocorreu. Eu ainda me lembro de um “artista” latino americano que deixou um pobre cão morrer de fome e de sede em uma “instalação”, há alguns anos. O escritor maranhense Ferreira Gullar escreveu um excelente artigo sobre isso:
Houve quem defendesse o “artista”. AFINAL, a arte justifica tudo. A ARTE justifica Chico Buarque elogiando ditadura cubana assassina, a arte justifica Woody Allen pedófilo, a arte justifica Lars Von Trier elogiando Hitler, a arte justifica Roman Polanski drogando e estuprando uma menina de 13 anos. Tudo e qualquer coisa. Sim, um artista pode errar (e é certo que todos erram, humanos que são). Sim, os erros de muitos artistas não maculam suas obras. Mas aí vejo proporções, vejo escalas, vejo limites. E eu tenho os meus limites. Não é que artista bom seja aquele que não estaciona em vaga especial nem fure a fila do banco. Mas estou dizendo que há um limite, então para mim a pedofilia é um limite. Ponto.
Maya Felix
São Luis, 2 fev 2014



*texto originalmente publicado no portal Gospel Prime.

30 de jan. de 2014

Edivaldo Holanda e a educação básica em São Luis, Maranhão. Descaso ainda é pouco.

a censura, essa quimera

Falar sobre a censura no meio evangélico é falar sobre uma rede extensa e complexa de interesses. Buscar primeiro o reino de Deus ficou em último lugar, e hoje muitos pastores, teólogos, doutores, presidentes e advogados de associações que se denominam evangélicas, além de blogueiros e donos de site exercem a censura como meio de fazer prevalecer seu ponto de vista sobre as opiniões e as pessoas das quais discordam.
Censura. Pressões, chantagens. Parafraseando Shakespeare, há mais coisas entre evangélicos e a vida mundana do que pode supor nossa vã filosofia. Tenho um blog simples. Aliás, dois. Um no qual procuro discutir temas ligados à política e à religião, além de incluir postagens várias sobre literatura, música, cinema etc., e outro, no qual publico exclusivamente textos literários de minha autoria. Sou professora de uma universidade, gosto muito do que faço e em geral não me sobra tempo para postar com regularidade, a não ser nas férias, ou em um feriado prolongado. Então os blogs não são, definitivamente, uma atividade prioritária na minha vida.
Independentemente disso, desde que comecei a criticar um senhor calvinista que detém poder e influência, o nome do meu blog de textos político-religiosos desapareceu da listagem de vários blogs, inclusive de blogs de pessoas que estão em minha lista de amigos no Facebook, por exemplo. Coincidência? Tenho um amigo que passou pela mesma experiência.
A rede de interesses, barganhas, chantagens, comunicações subterrâneas, “truques” e atos aparentemente inocentes existe para tirar do oponente qualquer possibilidade de réplica e crítica. Esses que não gostam de críticas ostentam a imagem de amantes do debate. Mas o “debate” não ocorre, porque a mão pesada da censura e da intimidação elimina o gosto desagradável e incômodo do questionamento. Hoje não se questiona mais por que a teologia cessacionista é errada à luz da Bíblia. A web está repleta de blogs e sites pentecostais, mas ninguém fala nisso. Blogueiros pentecostais acham mais importante falar como a música pentecostal é ruim e sem imaginação a confrontar uma teologia visivelmente satânica.
Blogs cujos donos ou administradores pentecostais publicam artigos do senhor ao qual me refiro no início deste texto sem nenhum constrangimento – e escolhem em geral fotos muito boas para ilustrar seus textos! Que bom! Design é tudo. Ninguém ousa pensar. O mais irônico é que tanto se critica os neopentecostais por “não pensarem”. E isso é demonstrado quando publicam artigos do senhor teólogo que vê heresia, pura e simplesmente, nas experiências pentecostais.
Minha expressão de espanto é sobrepujada pela amargura em perceber a estrutura diabólica que tem alimentado a rede de blogs “evangélicos”. Aí vem a blogueira que sente “uma necessidade quase física” (sabem que eu gostei disso? É tão Lars Von Trier!) de expressar seus pensamentos… Seu blog é uma “tentativa” de “recolocar o cristianismo na via dos debates intelectuais”. Bonito, não? Não! Porque em um artigo recente ela diz exatamente o contrário! Ela diz que devemos separar bem as coisas: uma coisa é a igreja, outra é a universidade. Então para quê “recolocar o cristianismo na via dos debates intelectuais”? Mais adiante, ela explica humildemente (ainda bem, porque penso que seus textos são pedantes, e que ela é cheia de orgulho, habilmente encoberto por uma humildade falsa – uma das maiores evidências do orgulho): “Não por pedantismo ou orgulho, mas por uma necessidade quase física de dar nomes às minhas intuições”.
Segundo o artigo dessa moça, publicado na revista virtual “Teologia Brasileira”, teologia é uma coisa, mundo acadêmico é outra. E quem diz o contrário é… “conservador”! Ou seja: não podemos criticar o que ocorre em uma universidade como a Mackenzie, da Igreja Presbiteriana. Segundo ela, esse silêncio se chama “maturidade cristã”. Mas eu chamo de censura. Os que questionam o que ocorre na Mackenzie são tachados de conservadores, pessoas de visão turva, pouco inteligentes, mal esclarecidos. Afinal, como está escrito em Tito 1:15,  “tudo é puro para os que são puros…” Não é assim que os cristãos liberais justificam Marx, Luiz Mott, Teologia da Libertação, Missão Integral et caterva no meio evangélico? É assim também que os cessacionistas justificam qualquer coisa. Justificam o Genizah, justificam as pressões, justificam a censura, justificam as ações nada cristãs da Anajure a favor de uma denominação específica, de uma visão teológica estreita, de determinadas pessoas e blogs.
E mais uma coisa, que eu já disse em texto anterior: a censura ocorre também contra os que a praticam. A liberdade plena é concedida apenas aos cessacionistas: eles escrevem e publicam o que bem entendem, no blog de quem bem entendem. Em seus blogs, não há nem mesmo uma citação ou link para qualquer blog pentecostal — nem mesmo para os blogs que os citam, elogiam e divulgam. Definitivamente, esse desequilíbrio é a face mais visível de um processo de degradação espiritual sem precedentes no meio. Uma “tentativa” de “recolocar o cristianismo na via dos debates intelectuais”. Bonito, não? Mas toda turma cessacionista odeia ter sua heresia cessacionista contestada, questionada, debatida. Essa blogueira é incapaz, por agradecimento, por cortesia ou por gratidão, de citar ou divulgar os links dos blogs que recomendam seu blog como digno de ser lido. O que é isso? Uma opção pessoal, diriam alguns. Censura, eu afirmo.
Desisti de escrever para um portal de blogs para o qual escrevia sobre política. Minha interlocutora, ali, sempre foi de uma gentileza ímpar comigo. Mas uma entrevista que dei para o Blog do Júlio Severo foi rejeitada. Foi censurada. Não pela minha interlocutora, mas por irmãos pentecostais que têm interesses em jogo com a VINACC, a Mackenzie e a Anajure, todas dominadas pela fatia cessacionista da Igreja Presbiteriana, sobretudo na figura do ilustre chanceler. Não, não é coincidência. Isso tem nome. Isso tem explicação. Isso tem autor. Isso tem razão de ser. Pense com sua cabeça, investigue e analise. Você vai se surpreender.
Maya Felix, jan 2014
* Texto postado também no portal Gospel Prime  e no Blog do Júlio Severo.

25 de jan. de 2014

c'est moi le nouveau parfum




Nouveau Parfum

Boggie


Soit Prada, Hugo Boss, Chan
el, Giorgio Armani, Cartier, Azzaro, Sisley, Escada, Gucci, Naf Naf, Nina Ricci, Lancôme, Kenzo et encore, encore

Soit Bruno Banani, La Bastidane, Estée Lauder, Guerlain, Burberry et Thierry Mugler, Bourjois, Chloé, Jean-Paul Gautier, Valentino et je n'en sais plus

Lequel je choisis ?
Pourquoi je choisis ?
Qui veut que je choisisse ?
Je ne suis pas leur produit

De beauté, d'préciosité
Ils ne peuvent pas me changer
Sans pareille, non pareille,
Le nouveau parfum, c'est moi-même, le nouveau parfum

C'est moi le nouveau parfum

Soit Roberto Cavalli, Bulgari, Givenchy, Dolce & Gabana, Paco Rabanne, soit Lacoste, Tommy Hilfiger, Yves Saint Laurent et je n'en sais plus

Lequel je choisis ?
Pourquoi je choisis ?
Qui veut que je choisisse ?
Je ne suis pas leur produit


De beauté, d'préciosité
Ils ne peuvent pas me changer
Sans pareille, non pareille,

Le nouveau parfum, c'est moi-même, le nouveau parfum
C'est moi le nouveau parfum

1 de jan. de 2014

o engano da aparência: blogs, blogueiros, blogagens e blogosfera cristã.

Neste ano de 2013 comecei a me dar conta de que as postagens da página de um portal de blogs de maioria pentecostal no Facebook traziam cada vez mais frases, pequenos textos e imagens de pastores calvinistas. Não só calvinistas, eu percebi: cessacionistas. Mas o que é um “calvinista cessacionista”? Em linhas muito gerais, é alguém que não somente crê que o homem não tem absolutamente nenhum papel, nenhuma escolha a desempenhar no processo da salvação (pois ele é um “escolhido”, ou seja, será salvo mesmo se não quiser ser salvo) como também que os dons do Santo Espírito, revelados ao longo de todo o Novo Testamento, não mais nos são dados hoje. Isso que dizer: Deus não mais age, por meio de homens, para curar, por exemplo. Dons de língua também não existem, são apenas invencionices. Para os calvinistas cessacionistas, o movimento pentecostal não passa de uma heresia. Sim, para os cessacionistas eu sou uma herege.

Ao fazer um tour por blogs de calvinistas cessacionistas, como o famoso Ó Tempora, Ó Mores! [célebre frase do senador romano Cícero, em latim, que foi publicada nas famosas Catilinárias, discursos em que Cícero condenava Catilina, outro senador, e apontava os tempos e costumes perversos da época. Significa: Ó tempos, ó costumes!] e o Blog da Norma Braga, não vi nem sequer um link para algum blog pentecostal, arminiano, adepto do sinergismo. Todos eles só têm entre seus links “recomendados”, blogs e sites calvinistas cessacionistas. É claro, têm toda a liberdade para tal e para mim isso não é nenhuma surpresa.

O que me deixa perplexa é perceber quantos blogs pentecostais, cujos autores se definem como arminianos, de igrejas como Assembleia de Deus ou Metodista, recomendam expressamente, com links e artigos copiados, esses blogs que se intitulam “reformados” [que designa uma parcela muito pequena dos cristãos adeptos do evangelicalismo no Brasil e no mundo: os calvinistas cessacionistas].

É claro, não indico um blog em minha lista de blogs somente se esse blog me indicar. A questão não é precisamente a “reciprocidade”, apesar de ela ter, também, sua razão de ser. O ponto central é precisamente a base da doutrina teológica dos que se chamam reformados e por que tantos pentecostais se rendem a seus textos sem enxergar o que de fato eles pregam.

Vamos por partes:

  1. Os calvinistas cessacionistas advogam o total alijamento da vontade do homem no processo de salvação. Ainda que eu quisesse crer nisso, pois sei que Deus é onipotente, não poderia, pois, como disse C. S. Lewis, entre tantos outros, podemos impedir Deus de agir, se quisermos: temos o livre-arbítrio (Cristianismo Puro e Simples, p. 271). Não porque Deus não seja onipotente, mas porque escolheu limitar-se em relação à nossa escolha de amá-lo ou não. Assim como Cristo escolheu limitar-se a um corpo humano para nos salvar. Os arminianos, pentecostais ou não, creem que o homem escolhe amar a Deus; os calvinistas creem que o homem não tem nenhuma escolha a fazer em relação à sua salvação;
  2. Em segundo lugar, os dois blogs de que eu falei, além de outro, do pastor Renato Vargens, de Niterói – entre tantos – apoiam declaradamente ou tacitamente os blogs “apologéticos”, conhecidos pelo escárnio e pela zombaria com que tratam assuntos ligados aos neopentecostais. Refiro-me ao blog Genizah, sobretudo, conhecido por sua falta de postura leal e de ética no debate teológico. Só o escárnio e a falta de respeito que têm para com outros cristãos [que eles nem mesmo consideram cristãos, aliás] já seria motivo para nos afastarmos de blogs que se julgam sérios mas nada dizem contra os “apologéticos”. Mas os blogueiros pentecostais fecham os olhos para isso também. Julgam a Teologia da Prosperidade mais grave – e mais kitsch, mais brega, menos chique, menos “acadêmica” – que a Teologia Cessacionista. Ora, ora. Os cessacionistas, que fique registrado, apresentam-se envoltos em uma aura de academicismo, racionalidade, cientificidade, ordem... Já os neopencostais são barulhentos, ridículos, ostentadores de riquezas... E aí fica meio difícil julgar as pessoas pelo que elas realmente são: mentirosas. Os cessacionistas mentem, quando afirmam que o Espírito Santo não mais age nos dias de hoje, produzindo “maravilhas e sinais” como nos tempos de Jesus. Os adeptos da Teologia da Prosperidade mentem, quando afirmam que se você der muito dinheiro para a igreja, Deus vai recompensá-lo. Tanto uma quanto outra teologia podem se embasar em trechos da Bíblia. Se até Jim Jones se baseou em trechos da Bíblia, nenhuma dessas teologias leva vantagem sobre outra;
  3. O problema é que muitos pentecostais acreditam que as igrejas neopentecostais são um mal maior diante dos cessacionistas. Porque os neopentecostais estão na TV, nas ruas, nas gravadoras, em todo lugar. Não queremos que nossa fé, tão “pura”, seja maculada pelo vil metal, não querermos nos identificar com os neopentecostais. Já os cessacionistas, até por serem em número muito menor, não se colocam em franca evidência. São discretos, repetem o mantra da “ordem no culto” [será que pode bater palmas, falar um “aleluia” de vez em quando, um “oh! Glória!”...?], não gostam da “música gospel”, condenam o excesso de entusiasmo nas orações, no louvor, na pregação. Ou seja: os cessacionistas estão para os neopentecostais como a bossa nova está para o axé music. E, é claro, como somos todos muito civilizados, cultos e racionais, não examinamos as escrituras: preferimos a bossa nova, ainda que seja tão herética quanto a axé music [foi só uma ilustração, eu gosto do João Gilberto, ok?];
  4. Além de tudo o que já disse, devo acrescentar: os cessacionistas combatem a Teologia Pentecostal. Sim, é isso mesmo. Enquanto blogueiros pentecostais fazem propaganda de blogs cessacionistas, os cessacionistas não se cansam de repetir, entre si ou, mais discretamente, em seus blogs, que crer na ação do Espírito Santo nos dias de hoje – nas curas, na glossolalia, em arrebatamentos e outros fenômenos espirituais sobrenaturais – é mistificar a fé cristã. E aí, mais uma vez, os pentecostais morrem de medo de serem identificados com a toalhinha da Igreja Mundial do apóstolo Valdemiro Santiago. Por isso, tendem a se aproximar, na crítica aos excessos dos neopentecostais, de quem nega por completo a ação do Espírito. Não conseguem explicar – e acham que ninguém vai entender, tão tênue é a linha – que os fenômenos do Espírito Santos existem, mas que precisamos ser um tanto céticos quanto à maneira como acontecem e examinar tudo à luz da Bíblia, já que há mais mercado da fé hoje do que nos tempos de Lutero;

  1. A prova do que acabo de dizer no ponto anterior é exatamente a lista de blogs recomendados pelos blogueiros cessacionistas. Visite um deles. Dois. Dez. Dificilmente, quase nunca, provavelmente jamais haverá a divulgação de blogs pentecostais/arminianos nos blogs dos irmãos calvinistas cessacionistas. E os pentecostais, ao desejar alcançar a unidade com tais irmãos, não percebem que a reciprocidade na divulgação dos blogs não existe porque eles descreem e condenam tudo o que é arminiano e pentecostal. Só que, ao contrário dos pentecostais, os cessacionistas não fazem propaganda do que não creem em seus sites. E, se nós [estou me incluindo como pentecostal, mas não faço propaganda de blogs que combatem a minha fé] fazemos propaganda de seus blogs, é porque cremos no que eles dizem, certo? Errado. Não podemos blasfemar contra o Espírito Santo, afirmando que Ele não mais cura, e que os sinais não mais se fazem ver. Não podemos afirmar que o homem é uma marionete, se cremos que todo homem escolhe a salvação, dá um passo em direção a Deus, toma a decisão de amá-lo, ainda que de modo imperfeito. Por curiosidade, a fim de escrever este texto, visitei o Blog da Norma. Deparei-me com seus desejos para 2014. Entre eles, dois me chamaram a atenção: “Que a igreja se desembarace cada vez mais da influência do paganismo, da teologia da prosperidade e da teologia da libertação”. Bravo! Concordo! Mas... e o cessacionismo? A igreja não deveria se desembaraçar dele também, a fim de perceber que os sinais e maravilhas de que Deus fala claramente na Bíblia se cumprem e que a volta de Cristo deve estar próxima? Não seria um desserviço a Deus, um agir demoníaco, não divulgar que Cristo está voltando? Como está escrito em Atos, capítulo 2, verso 17: “E nos últimos dias acontecerá, diz Deus, que do meu Espírito derramarei sobre toda a carne; e os vossos filhos e as vossas filhas profetizarão, os vossos jovens terão visões, e os vossos velhos sonharão sonhos; e também do meu Espírito derramarei sobre os meus servos e as minhas servas naqueles dias, e profetizarão [...]” Por que não devemos tirar as vendas dos olhos da Igreja quanto ao derramamento do Santo Espírito nos dias de hoje? Outro desejo de Norma para 2014: “Que mais livros reformados sejam lidos, escritos, debatidos (orem por mim!)”. Sabemos que quando Norma Braga e todos os demais cessacionistas falam “reformados” eles se referem especificamente à literatura calvinista cessacionista. Não se referem aos pentecostais, nem aos metodistas, nem à Igreja Cristã Maranata, nem à Quadrangular... Por que Norma Braga não desejou simplesmente que mais livros “cristãos” sejam “lidos, escritos, debatidos (orem por ela!)” em 2014? Ou então "mais livros cristãos protestantes..."? Alguém aí sabe dizer? E o seu blog, irmão arminiano, sinergista e pentecostal, não está entre os recomendados por Norma Braga e Augustus Nicodemus?;

  1. No mais, e para fechar, gostaria de mencionar uma curiosidade que vou desenvolver em outro texto: alguém além de mim já percebeu o quanto a ideia errônea de Deus dos cessacionistas se aproxima da ideia de Deus também equivocada dos teístas abertos? Não? Pensem a respeito. Voltarei ao tema depois.



E que o Santo Espírito nos alimente em 2014, nos cure, nos transforme, nos abençoe, nos perdoe, nos leve a pregar a Palavra da verdade e a repudiar as mentiras que têm se abatido sobre os cristãos. Que em 2014 estejamos mais atentos aos nossos irmãos perseguidos em tantos países. Que a nossa palavra seja mais ação para um mundo sedento de amor. Que nossa mão esteja pronta a ser estendida aos que sofrem. Que Deus tenha misericórdia de todos nós. E que Jesus venha!

Um abraço, feliz 2014.

Maya Felix




15 de ago. de 2013

Olha a cabeleira do Zezé




Olha a cabeleira do Zezé

            Cena um: Casal evangélico, homem pastor, mulher grávida, entra em aeronave da Azul. Senta-se no final. Cena dois: O deputado pró-lobby gay Jean Wyllys entra na mesma aeronave, com um assessor, e se senta um pouco mais à frente do casal evangélico. Cena três: Casal evangélico identifica o deputado e prontamente resolve ir até sua poltrona. Mulher pede para passageiro filmar o que irá acontecer em seguida. Cena quatro: Homem e mulher gritam: “É você, hein, Jean Wyllys?” Ato contínuo, começam a cantar, a plenos pulmões: “Olha a cabeleira do Zezé, será que ele é, será que ele é… BICHAAA!!!” A mulher tenta passar a mão na cabeça de Jean Wyllys e diz: “Não gosta de mulher, Jean? Por quê???” O pastor completa: “Vai pra nossa igreja que tem cura!” Logo depois, o casal evangélico grita: “Vamos aí, gente, todos juntos! Batendo palmas!” e recomeçam: “Olha a cabeleira do Zezé…” Jean Wyllys se sente desconfortável, finge que não é com ele, baixa a cabeça e tenta se concentrar na leitura da revista G Magazine que havia comprado na livraria do aeroporto. Mas o casal evangélico não para: “Deputadoooo… canta com a genteeee! Olha a cabeleira do Zezé…” O assessor de Wyllys, em vão, tenta protegê-lo das tentativas de toque da mulher, que continua querendo encostar a mão na testa do deputado. De repente, ela tira um vidrinho da bolsa, derrama uma parte do conteúdo na palma da mão e passa na testa de Jean Wyllys: “É óleo para ungir você, rapaz! Larga essa bichice!” Ele retira um lenço do bolso do paletó e tenta limpar o óleo da testa. Continua sem dizer nada, mas está visivelmente constrangido. Os passageiros, atônitos, assistem à cena sem fazer nada. O pastor ri alto e canta: “Só não vale dançar homem com homem, nem mulher com mulher…”. Cena cinco: A essa altura, uma mulher sentada logo atrás de Jean Wyllys se levanta e diz: “Chega! Vocês estão me incomodando! Assim não dá!” Cena seis: O casal evangélico decide, então, sentar-se em seu lugar. Mas continua a gritar, desta vez dizendo: “Ô Jean Wyllys, pode esperar, a sua hora vai chegar!!!” Repetem umas seis vezes o refrão e logo depois – sempre filmando, é claro – o pastor decide entrevistar um terapeuta cristão que, coincidentemente, estava no avião: “O senhor acha que o gay pode mudar a sua orientação sexual, se quiser?” FIM DO PRIMEIRO ATO.
            Você conseguiu imaginar as cenas narradas acima? São bastante inverossímeis, não? Elas têm pouquíssimas chances de acontecer, pelo menos com um casal evangélico que seja de fato seguidor de Jesus. Talvez não por falta de vontade de “dar o troco”, afinal o deputado e pastor Marco Feliciano passou por constrangimento semelhante ao relatado acima no ultimo dia 9 de agosto, a bordo de uma aeronave da Companhia Azul, indo de Brasília a São Paulo: Eric Corazza e Conrado Ribeiro fizeram com ele e um assessor o que, na hipotética situação que narro, o casal evangélico fez com Jean Wyllys.
            Episódio semelhante jamais aconteceria com o deputado ex-BBB porque os evangélicos sabem que escarnecer não é agradável a Deus, ainda que seja agradável à carne e tentador. Não vemos evangélicos constrangendo gays em suas marchas de “orgulho”. Tampouco vemos, em igrejas, predicações jocosas ou irônicas sobre o assunto. A prática homossexual é tratada como ela é: pecado. Pode ser que em algumas igrejas não tenha havido tato ou suficiente familiaridade com o assunto para que pessoas com tendências homossexuais fossem adequadamente encaminhadas a um diálogo cristão e à exortação amorosa e franca que recomendam a Bíblia. Mas nunca se tratou o assunto levemente, debochadamente, levianamente. As crenças dos cristãos, entretanto, são costumeiramente vistas com desprezo e tratadas com galhofa e desrespeito por militantes de causas gays, feministas e esquerdistas em geral.
            Durante a Jornada Mundial da Juventude, da Igreja Católica, quem não se lembra dos dois jovens, Raíssa Senra Vitral e Gilson Rodrigues Silva Júnior, que, mascarados e seminus, quebraram imagens de santos católicos e simularam cenas de sexo com elas? Em 1995, o pastor Sérgio Von Hélder, da Igreja Universal do Reino de Deus, chutou a imagem de uma santa católica em rede nacional. Houve grande comoção pelo desrespeito à crença alheia. A Rede Globo de televisão, com interesses mais comerciais que religiosos, repetiu a cena ad nauseam. O mesmo não aconteceu com os dois jovens que quebraram as imagens durante a JMJ. Não houve nem mesmo uma tentativa de entrevistar a dupla. Por quê? Os dois homens que agrediram Marco Feliciano, soube-se depois, dizem não ser gays, como se isso eximisse a militância que faz lobby pró-gay de qualquer responsabilidade do acontecido. Ou diminuísse a gravidade do fato. Ou fosse motivo para não imputá-lo ao crescente ódio insuflado pela mídia contra os evangélicos e conservadores por grupos de pressão e lobby pró-gay.
            Quando vi a cena, fiquei estarrecida. Não acreditei que a falta de respeito fosse chegar a esse ponto. Na verdade, fiquei furiosa e cheguei a trocar palavras destemperadas com defensores do ato em uma rede social. A banalização das atitudes totalitárias em nossa sociedade, fruto da imposição de uma visão como única possível sobre qualquer outra, faz com que não nos cause mais espanto a agressão, o escárnio, o vandalismo e a ironia barata, a crítica sem inteligência e o debate impositivo. Como os cristãos têm histórico de tolerância e bom trato, as cenas do início deste texto provavelmente não acontecerão. Já as cenas de desrespeito vistas contra evangélicos se multiplicam em progressão geométrica, aparentemente sem a reação do restante da sociedade. Lembra-me a perseguição nazista aos judeus: começou com atos públicos de hostilidade, terminou onde todos conhecemos bem. Em 2014, políticos de partidos que sustentam esses desrespeitos e atos de barbárie, como PT, PSOL, PC do B, PDT e PSTU, pedirão o voto dos evangélicos. O que você vai fazer?


*Texto escrito em 11/08/2013 e publicado originalmente no Blog da União de Blogueiros Evangélicos. Meu agradecimento a Rodrigo Magaldi Merlino, por me ajudar com alguns dados.

18 de fev. de 2013

Nos seus braços



Só os tolos acreditam que o relacionamento com Deus é sem graça. Alguns imaginam o céu como um lugar tedioso. Não sei como é o céu. Mas desde que conheci o amor de Deus, por meio de Jesus, vivo dias incríveis. Nunca, nem antes nem depois, estive em um relacionamento tão intenso e vivo. Quando me converti, tinha 21 anos, e meu sentimento era de perplexidade diante da novidade de sentir em mim uma força viva, ainda que invisível. Dessa força vinha paz, entusiasmo, alegria, amor. A cada dia, Deus se mostrava de modo diferente – e, no entanto, pacificamente constante. Meus sentimentos eram também confusos, tinha medo de abrir mão de prazeres, rotinas, hábitos nos quais não via mal, ainda que soubesse serem errados. Tinha medo de deixar de ser “eu mesma”, de me tornar triste, um ser de pensamento embotado e cinza. Via cristãos de todos os matizes: conformados, cínicos, aguerridos, amorosos, misericordiosos, julgadores, acusadores... Não sabia direito em que padrão de comportamento eu me encaixaria. Não achava que as pessoas da igreja eram melhores que muitas “do mundo” que eu já havia conhecido. A única coisa que eu sabia é que esse Deus era bom, era muito bom, e com Ele eu me sentia livre para chorar, para falar, para pedir, para reclamar. Pela primeira vez na minha vida, eu tinha alguém em quem eu podia confiar completamente. Eu sabia que não era digna de nada, e ainda assim eu pedia. O mais interessante é que Ele ouvia, e assim eu via, com frequência, pedidos feitos em oração se tornarem realidade. Era incrível. Lia a Bíblia e aquelas afirmações, ideias e conceitos pareciam saltar do papel para a minha vida. Nunca achei a leitura da Bíblia chata. Achava desafiador entender textos mais herméticos. Achava incrível que aquelas palavras, escritas há tantos séculos, pudessem se tornar verdade na minha vida. Eu, uma entre mais de seis bilhões.

Mas as coisas mudavam. O ano seguinte à minha conversão e ao meu batismo foi mais intenso. Comecei a ver mudanças em minhas escolhas, concepções, certezas. Comecei a entender os mil quinhentos e doze porquês antes inexplicáveis em relação à prática religiosa. A vida mudava, eu mudava, meu relacionamento com Deus mudava: tornava-se mais intenso, mais estreito. Anos depois de minha conversão, olhava tudo o que Ele havia feito em mim e não acreditava. Era muita coisa. Então olhava para mim e via o quanto havia a ser feito. E quanto mais Deus fazia, mais eu via o quanto precisava que Ele fizesse, sempre, coisas novas em mim. Percebi então que a vida com Deus assemelha-se mais a um rio que a uma lagoa. A relação com Deus é dinâmica, é cheia de movimento. Nunca é tediosa. Nunca é monótona. A Bíblia que eu relia adquiria sentidos diferentes. Capítulos que sabia praticamente de cor subitamente ganhavam uma dimensão completamente inusitada. Sempre foi incrível.

Deus acompanhou fases diferentes, idades diferentes, humores, estados de alma e de conhecimento vários. Como um construtor paciente, compreendeu fraquezas, falhas, erros. Consertou muita coisa, e só não fez tudo de uma vez, quando o conheci, porque eu teria tido um ataque de nervos instantâneo. Deus sabe o que posso suportar, e age respeitando meu ritmo e meu passo. Achava que Deus um dia ia perder a paciência comigo, cansar-se de me perdoar, pedir “um tempo” no nosso relacionamento... Achava que Deus ia me deixar, que Ele ia me abandonar ou me rejeitar em algum momento. Para minha grata e completa surpresa, Deus  sempre estava comigo, bem perto, ao lado, em volta, aqui. Isso era absurdamente maravilhoso, para mim. Deus era diferente de todo e qualquer ser humano que eu já havia conhecido. A cada constatação de que Ele estava lá, estava comigo, enfrentando todas as dificuldades do meu lado, eu ficava mais e mais grata, eu o amava com mais intensidade. Não só Ele me moldava como essa nova forma que eu adquiria me tornava capaz de amá-lo mais e mais, apaixonadamente.

Há 20 anos tenho vivido esse amor com Deus. Tenho descoberto mais a seu respeito, e tenho aprendido que Ele é de fato perfeito. Não há defeitos, não há oscilações, não há medo. Deus é nobre por inteiro. Ele se tornou, para mim, mais real que minha mão, que os meus pés. Mais real que meu nariz. Não preciso fingir ser quem eu não sou para me mostrar piedosa, caridosa ou melhor do que de fato sou. Deus me conhece. Sabe como sou. Sabe exatamente o que penso e sinto. E não me aponta o dedo na hora do erro. Instrui, acolhe, ensina. Perdoa, edifica, trata. Cura. Ama. Jamais abandona, jamais desiste, jamais esmorece. É apaixonado, cuidadoso, cheio de zelo. E imaginem, faz só 20 anos que vivo essa história de amor. Fico pensando nos próximos 20 anos. Na eternidade. 

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