Creio que não existe nada de mais belo, de mais profundo, de mais simpático, de mais viril e de mais perfeito do que o Cristo; e eu digo a mim mesmo, com um amor cioso, que não existe e não pode existir. Mais do que isto: se alguém me provar que o Cristo está fora da verdade e que esta não se acha n'Ele, prefiro ficar com o Cristo a ficar com a verdade. (Dostoievski)

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26 de mar. de 2010

Projeto Spurgeon




Uma defesa da doutrina da justificação pela fé


E os que são de Cristo crucificaram a carne com as suas paixões e concupiscências.” Gálatas 5.24

De diversos lugares nós temos ouvido sérias e intensas objeções, e recentemente, no assunto e conteúdo da pregação dos evangelistas da América que estão trabalhando entre nós. Claro que seus ensinamentos, assim como os nossos, estão abertos para julgamentos honestos e eles, temos certeza, prefeririam um tribunal que evitasse a investigação das coisas mais procuradas. Criticismos sobre nosso estilo de falar, cantar e etc, são tão sem importância que ninguém se importa em respondê-los. “A sabedoria é justificada pelos seus filhos.” É um desperdício de tempo para todos discutir sobre gostos pessoais, porém excelente seria agradar a todos, ou até mesmo sempre adaptar tudo para todas as constituições e condições. Portanto nós podemos deixar esses comentários de lado sem uma preocupação maior.

Mas sobre a questão da Doutrina muito tem sido dito e repetido, além disso, com uma boa dose de humor, nem sempre do melhor tipo. O que tem sido afirmado por uma certa classe de escritores públicos chega a isso: se você analisar essa Doutrina, “não se pode fazer qualquer bem real dizer aos homens que simplesmente por crer em Jesus Cristo, eles serão salvos”. E que isso “pode fazer às pessoas feridas muito graves, se levá-los a imaginar que eles tenham sido submetidos a um processo chamado "conversão" e que agora são "salvos para a vida"”. Somos informados por estes senhores, pois deveríamos saber, sendo que falam de forma muito positiva, que a doutrina da "salvação imediata", mediante a fé em Jesus Cristo, é muito perigosa. Dizem que certamente isso levará à degradação da moralidade pública, pois os homens não buscarão nem investirão nas virtudes práticas quando "somente a fé" é levantada a uma tão elevada posição. Dizem que se for assim, isso seria um erro grave e ai de quem levar os homens a esse erro!

Essa não é a verdade... [para continuar a ler, clique aqui]


***

O Projeto Spurgeon é uma iniciativa de cristãos para traduzir e divulgar, mediante a web e outros meios, os sermões de Charles Spurgeon, pregador batista inglês. Spurgeon tem 3561 sermões, dos quais cerca de 70 traduzidos para o português. Visite o Blog Projeto Spurgeon: http://www.projetospurgeon.com.br/ Leia aqui quem foi Charles Spurgeon. No Twitter, siga @ProjetoSpurgeon

26 de jan. de 2010

o mover de Deus? por david wilkerson

Vale a pena ver este vídeo, são nove minutos e 50 segundos de uma profunda reflexão do pastor David Wilkerson, fundador do Desafio Jovem, em New York, acerca do que se tem feito hoje nas igrejas, em todo o mundo. Veja tudo, pense sobre isso, rejeite o que o diabo tem feito dentro das igrejas.



10 de mai. de 2009

porque Ele veio para os doentes, e os sãos não precisam...

Para ver o vídeo, vá primeiro à janela cinza Maya_musique à esquerda e clique em "pause". Depois, venha aqui e clique em "play". Pode ser que na primeira passagem o vídeo saia com algumas interrupções. Experimente ver na segunda. Testemunho do ex-guitarrista da banda Korn, um ex-doidão completamente maluco. Vale a pena ver até o fim.





FONTE: Blog Soli Deo Gloria

28 de mar. de 2009

um ano em paris...


Merde!  Um ano em Paris

Comprei esse livro ontem! Estava passeando numa livraria (um programa bom pra sexta à noite) e o vi. Comecei a folheá-lo e, ao ler as primeiras páginas, o riso saiu fácil. A narrativa de Stephen Clarke é fluida, engraçada, soando como um diário. Se você entende alguma coisinha de inglês e francês vai achar o primeiro capítulo muito engraçado. Se conhece Paris e os franceses... bom, aí vai dar umas boas gargalhadas, como eu. O autor consegue captar muito bem l'état d'esprit dos iredutíveis gauleses modernos... O livro foi publicado no Brasil pela editora Record, tem 335 páginas, custa R$ 41,00 e foi traduzido do inglês (A Year in the Merde) por Alexandre Raposo. Já estou na página 128...

9 de fev. de 2009

cristãos de Gaza perseguidos por muçulmanos

CRUAUTE ET SILENCE A GAZA
La présence chrétienne a été éradiquée

Par Jonathan Spyer, chercheur au Global Research in International Affaires Center IDC- Herzliya

Jerusalem Post International - semaine du 19/25 décembre 2008

Traduction par Albert Soued, pour www.nuitdorient.com 

Personne n'en parle dans les médias occidentaux, une campagne de persécution systématique a pris place dans la bande de Gaza et dans une moindre mesure en Cisjordanie. Le silence général autour de cette campagne contribue à son intensification. Les victimes sont les Chrétiens palestiniens, en particulier la petite communauté de Gaza.

Les persécuteurs sont les divers groupes islamistes dont les actions ne sont que les manifestations d'un militantisme et d'une bigoterie qui ne cessent de croître dans la région. La population chrétienne est peu nombreuse, entre 2 et 3000 âmes, et du fait de l'évolution ambiante, elle tend à devenir invisible sur le plan civique.

Depuis le coup d'état du Hamas en juillet 2007, la situation des Chrétiens est devenue intenable. Enhardies par l'indifférence des autorités, les organisations islamistes ont commencé à viser les institutions chrétiennes et les personnes par l'intimidation, le harcèlement et les menaces d'enlèvement, en permanence, et sans aucune impunité.

A Gaza City, l'Association biblique "Teachers Bookshop" a subi de nombreuses attaques, notamment à la bombe en avril 2007. Son propriétaire, Rami Khader Ayyad, a été enlevé en plein jour et trouvé mort le 7/10/07. L'année suivante, les institutions chrétiennes ont subi de nombreuses attaques à la bombe, notamment les écoles. En mai 2008, l'école américaine de Beit Lahya a été atteinte et en été 2008, l'école des sœurs Zahwa Rosary Sisters et l'école El Manara, la librairie de YMCA et le Commonwealth War Cemetery également. Les attaques ont lieu souvent la nuit, sans autres victimes que les gardes.

On pense que les coupables sont les groupes salafistes comme Jaish al Islam, Jaish al Ouma… Les Comités de Résistance Populaires les plus en vue ont décrété que la présence chrétienne devait être éliminée de Gaza, car elle diffuse une culture pro-occidentale et anti-islamique. Et les autorités du Hamas, que font-elles ? 

Elles se sont contentées de critiquer ces attaques et les arrestations sont rares, et, quand elles ont lieu, les suspects sont libérés rapidement, sans jugement. Ce fut le cas des 2 terroristes de Jaish al Islam qui ont attaqué la YMCA.

Ces persécutions ne sont pas le fait de simples groupuscules, mais il s'agit d'un large processus d'islamisation de la société palestinienne dans lequel le Hamas est partie prenante. Les cadres du mouvement divisé du Fatah n'en sont pas exempts. Les Comités populaires de résistance, par exemple, ont été fondés par d'anciens officiers du Fatah qui cherchaient à assouvir leur zèle religieux.

La situation en Cisjordanie est différente, du fait que la population chrétienne est plus nombreuse et les forces laïques y sont plus puissantes. Néanmoins la tendance anti-chrétienne y rend amère la vie de cette communauté. Al Ayam, un journal local, attire l'attention sur le "rachat obligatoire des terres chrétiennes", à Bethlehem, Ramallah et al Bireh. Les puissants clans et les forces de sécurité palestiniennes ont mis en place des méthodes pour s'emparer des terres chrétiennes, par de faux documents de propriété, par le squat, l'expropriation ou l'intimidation. Le journaliste Abd alNasser al Najjar se plaint que les autorités ou les ONG ne protègent pas les Chrétiens…

Officiellement on clame l'unité nationale entre Musulmans et Chrétiens et les représentants de la Communauté Chrétienne confirment cette annonce. Mais sur le terrain, les Chrétiens de l'Autorité Palestinienne ont peur, la population de Bethlehem, par exemple, étant passé de 60% en 1990 à 20% aujourd'hui. Et on peut craindre que la minuscule communauté de Gaza ne disparaisse dans peu de temps.

Mais ces événements ne sont que le reflet d'un processus général qui est en cours dans tout le Moyen Orient et dont les médias occidentaux et les ONG ne parlent pas, préférant ignorer cette dure réalité du terrain. Et le résultat est l'agonie d'une très vieille communauté du Moyen Orient. (1)

Note de la traduction

(1) Cette tendance à la disparition des très anciennes communautés chrétiennes du Moyen Orient est très visible au Liban, en Irak, en Egypte particulièrement. Pourtant elles charrient des cultures ancestrales (copte, maronite, chaldéenne, grecque-orthodoxe…) qui risquent de s'évaporer du patrimoine mondial.

***

Amigos, este texto é interessantíssimo, e denuncia a perseguição que os cristãos sofrem em Gaza e em países muçulmanos. Comunidades cristãs tradicionais, como os católicos ortodoxos copta, desaparecem pouco a pouco em razão de perseguições e agressões. E, nessas horas, onde estão os defensores da democracia? Os arautos do respeito e da ética? Os gestores da liberdade? Os pastores enojados com Israel (ui!)? Nessas horas não aparece ninguém, é claro, pois fica muito feio denunciar os muçulmanos como autoritários, anti-democráticos e agressivos, ainda que a imensa maioria deles o seja. Para os que defendem regimes como o do Irã, eu só tenho uma recomendação a fazer: mude-se para lá imediatamente! Ou vá viver em Cuba! Passe suas férias na Coréia do Norte! Lua-de-mel na China! Happy hour com os amigos do Hamas! Nã-nã-nã, nada de Europa nem de Estados Unidos: defensores da liberdade nunca devem pisar na ditatorial New York, muito menos na opressora Paris.

Este texto, que já é uma tradução do original - que deve estar em inglês ou hebraico - eu garimpei numa comunidade de um site de relacionamentos chamada Chrétiens Amis d'Israel. Minha intenção era traduzi-lo para só então postá-lo aqui, mas infelizmente não tive tempo e, no momento, isso me é impossível. Se alguma boa alma quiser traduzi-lo, não hesite. Peço apenas que me envie a tradução, para que eu a poste aqui.  

5 de fev. de 2009

dicas de tradução


  • Le lion est le roi des animaux.  = O leão ia urrar e desanimou.
  • Elle est très petite. = Ele quer três petiscos.
  • Il est trois heures. = A ilha é traiçoeira.
  • Il pleut. = Ele chove.
  • Asseyez-vous = Asseie o avô.
  • Nous sommes heureux. = Os nus são miseráveis.
  • Quel merveille! = Que mulher velha!
  • Le crayon est rouge. = A lacraia ruge.
  • Je suis un élève. = O giz eu levo.
  • Rimbaud c'est mon idole. = Rambo é meu ídolo.
***

Do livro Luta nas classes: 1001 maneiras de detonar seu professor, de Bernardo Jablonski e Ronald Fucs.

24 de jan. de 2009

o aborto de Obama




Tradução do texto do vídeo: O futuro desse bebê é um lar desfeito. Ele será abandonado pelo seu pai. Sua mãe solteira lutará com dificuldade para criá-lo. Apesar de tudo ele perseverá. Este bebê será o primeiro presidente afro-americano [dos EUA]. Vida. Imagine seu potencial.

E se a mãe de Barack Obama, ajudada por instituições pró-aborto financiadas pelo Governo dos EUA, tivesse sido convencida a matar seu filho?

Para ver e ouvir este vídeo, vá primeiro à janela Maya_musique e clique em "pause". Depois, venha aqui e clique em "play". Na primeira vez a passagem do vídeo nunca é muito boa, experimente ver na segunda.

FONTE: Youtube via Blog do Julio Severo

13 de jan. de 2009

:)


Sabe o que Deus diz para você, quando chega o desânimo, a tristeza e o cansaço? Mais ou menos o que a letra dessa lindíssima canção diz. Quando eu ouço essa música me sinto na presença de Deus, que me diz: "Eu vejo suas cores verdadeiras..."


:)


True colors

Phill Collins


You with the sad eyes

Don't be discouraged

Oh I realize

It's hard to take courage

In a world full of people

You can lose sight of it all

And the darkness inside you

Can make you feel so small

But I see your true colors

Shining through

I see your true colors

And that's why

I love you

So don't be afraid to let them show

Your true colors

True colors are beautiful

Like a rainbow

Show me a smile then

Don't be unhappy, can't remember

When I last saw you laughing

If this world makes you crazy

And you've taken all you can bear

You call me up

Because you know

I'll be there

And I'll see your true colors

Shining through
.
I see your true colors

And that's why I love you

So don't be afraid to let them show

Your true colors

True colors are beautiful

Like a rainbow


Tradução

Cores verdadeiras

de Phill Collins


Você com estes olhos tristes

Não perca a coragem

Oh! Eu percebo

É difícil

Ter coragem

Em um mundo cheio de pessoas

Você pode perder tudo de vista

E a escuridão dentro de você

Pode fazer você se sentir tão pequeno

Mas eu vejo suas cores verdadeiras

Brilhando através de você

Eu vejo suas cores verdadeiras

E é por isso que eu te amo

Então não tenha medo de mostrar

Suas cores verdadeiras

Cores verdadeiras são lindas

Como um arco-íris

Então me mostre um sorriso

Não fique triste, não lembro

Quando te vi sorrindo pela última vez

Se este mundo te enlouquece

E você já teve tudo que podia suportar

Você me chama

Pois sabe que estarei ao teu lado

E eu verei suas cores verdadeiras

Brilhando através de você

Eu vejo suas cores verdadeiras

E é por isso que eu te amo

Então não tenha medo de mostrar

Suas cores verdadeiras

As cores verdadeiras são lindas

Como um arco-íris

29 de dez. de 2008

2009 chegando...


Le vieil homme et l’Église

Termino 2008 relendo Georges Hourdin, em seu Le vieil homme et l’Église. Georges Hourdin é um dos mais conhecidos pensadores católicos da França. Fundador de um dos grandes grupos de imprensa francesa de inspiração cristã, publicou muitos livros, entre os quais Simone Weil e Dietrich Bonhoeffer. Ele faleceu enquanto eu ainda morava em Paris, e os ecos de sua morte me chegaram por meio de uma vizinha, que no final das contas me presenteou com seu livro.

Entre críticas e críticos, Georges Hourdin fez à igreja da qual fazia parte críticas essenciais. A uma igreja que perde fiéis e é criticada em toda a França e demais países da Europa, Hourdin fez críticas fraternais. Mais do que a inteligência e o desejo desmesurado de demonstrá-la, Hourdin fez uso da sensibilidade do entendimento. Nenhuma crítica alcança a totalidade, eis porque é preciso que a boa crítica seja também humilde. E não alcança porque conhecemos de modo parcial. A arrogância do que pretensamente sabe, sua verborragia e sua certeza são o indício de que ele não sabe. Usamos as palavras para delimitar, mas o conhecimento se estende no silêncio. Usamos as palavras para demarcar, mas a sabedoria está no silêncio -- silêncio que traz em si todas as significações, fluidas e plenas.

Volto a Georges Hourdin, católico laico francês que empreendeu a crítica mais propositiva já feita a alguns dogmas e práticas históricas anti-bíblicas da Igreja Católica. Ler Georges Hourdin é entrar num mundo que pode ser crítico, mas é, também, propositivo e sábio. É esse o mundo da verdadeira discussão, pois fora dele demarcamos posições e nos entrincheiramos, cientes de nossa razão.

A crítica arrogante, de fato, é estúpida -- jamais propositiva. Em geral, é autocentrada. Busca mais o reconhecimento para quem escreve e a agressão pure et dure que a construção de uma síntese. Entretanto, mais que agudeza de espírito e agressividade calculada, precisamos de vozes dispostas a aparar arestas.
.
Trago a questão para o nosso mundo protestante-evangélico, no qual os fiéis se empenham em lutar contra si mesmos. Quantos blogs que vivem não para falar de Cristo, mas para criticar barbaramente, acidamente, agressivamente, os que não são de sua denominação, ou movimento, ou categoria. Entretanto, mais do que textos que decretam a sordidez da Igreja e a estupidez dos líderes ou dos fiéis, precisamos de pessoas que acolham, e agreguem – como fazia Georges Hourdin com sua Igreja Católica. Não se trata, de modo algum, de compactuar com erros e acalentar desvios, mas façamos uma crítica mais honesta e menos cínica, é tudo.
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Diz a sabedoria popular que Deus não precisa de advogados, mas de testemunhas, mas a natureza humana é ávida pelo papel de advogado, sobretudo do que acusa. Não faltam, para escrever críticas pretensamente lúcidas à Igreja de Cristo e aos fiéis, as Vestais da Pureza da Fé Cristã (falarei das Vestais em outro texto...). Então, à aspereza da crítica ignorante – pois não sabem, não conhecem realmente o que criticam – posto que incapaz de se questionar e de lançar suas bases com a humildade dos que sabem muito, mas não sabem tudo, oponho a crítica propositiva. Aos que decretam ser o ápice da inteligência em si, oponho a ponderação do Espírito em nós. À facilidade do discurso odiento e egocêntrico, oponho o discurso calmo do sábio.

Saber não é acumular informação. Citar autores para conferir argumento de autoridade a um texto medíocre é um risco que deve ser levado em conta, pois pode maravilhar uns e gerar desagradável surpresa em outros. Tenho lido críticas à Igreja e aos cristãos que me parecem generalistas e obtusas, porém mascaradas por frases e vocabulário pretensamente sábios. Em geral, são textos azedos, sustentados por intelectualismos frágeis, salpicados aqui e ali de citações deslocadas de seu contexto. Tenho lido críticas que são mais uma radiografia do estado emocional e psicológico de quem escreve do que um discurso referencial. São textos que eu chamo de “índices”, visto que, como setas, apontam não para o problema enfocado na crítica (quase sempre rasa e pouco respaldada em uma realidade comum), mas para o autor da crítica e sua realidade particular.

O autor do texto é o sujeito do discurso e se trai ao produzi-lo, ainda que não escreva nenhum verbo flexionado na primeira pessoa do singular. Imagino como é o produtor desse discurso: irônico, arrogante, cheio de sentimentos superiores a respeito de sua concepção de mundo e de si mesmo, de sua atuação como crítico, que revela o quanto odeia a Igreja e o quanto deseja mudar o que lhe incomoda – sem querer saber, no entanto, o que pensam e sentem os demais, inclusive os participantes da estrutura à qual se dedica a criticar. Na interação, o crítico furioso escreve para si mesmo e seus amigos, que concordam com ele e o elogiam, dando sustentação e apropriando-se de seu discurso. Mas ele sabe que suas palavras não ecoarão, não sairão da zona de conforto que ele criou para preservar sua face como locutor. O crítico raivoso de que falo deseja mudar costumes e conceitos diferentes do que ele concebe como “o certo”. No fundo, o que ele não suporta é a diferença. Deseja que todos pensem como ele, pois quem transgride seu "pequeno manual do deus verdadeiro e certo" está errado.

Discordar é a base de qualquer crítica, mas além da discordância alguns críticos nos legam um sentimento de injustiça e, em virtude disso, pouca reflexão. Porque são irônicos, mas não são inteligentes. São ásperos, mas não são justos. São intelectuais, mas não são sábios. São raivosos, mas não são honestos. São polifônicos, mas não são equilibrados. São espirituais, mas não são amorosos. São lógicos, mas não são ponderados. São arrogantes, mas não são superiores. À crítica que infantilmente desagrega, oponho a crítica adulta e propositiva.

Esta é minha observação sobre 2009, um ano em que tivemos, no mundo evangélico e na blogosfera cristã, muitos advogados de acusação e poucos conciliadores, muitos escritores tiranos e poucos cristãos pacientes.

Agradeço aos leitores pelas visitas, mas também – e, sobretudo – a Deus, sem o qual nada é. A Ele, por Ele e para Ele desejo a todos um ano abençoado. Que 2009 seja o ano em que O vejamos, de fato, em nós.

Segue um trecho do primeiro capítulo do livro Le viel homme et l’Église, de Georges Hourdin, no original em francês e, depois, uma tradução minha para o texto.
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Feliz 2009...
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:)

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***

“L’Église catholique de France risque de disparaître. C’est tout au moins ce que nous dit l’analyse des faits, si l’on veut bien regarder plus loin et ne pas se contenter de récupérer le succès de tel ou tel rassamblement.

Elle agonise sous sa forme actuelle, et je pleure devant cette perte irréparable toutes les larmes de mon amour. Que s’est-il donc passé?

Peut-on agir? Est-il encore temps d’intervenir? Je le crois. Je proposerai donc des reformes que les croyants attendent, qu’ils exigent même..., qu’il est impossible de leur refuser.

Et comme le Christ m’est viscéralement cher, que je ne peux oublier son message, je dirai les raisons que nous avons d’espérer, puisqu’à travers des homes et des communautés, l’Évangile de Marc, de Matthieu, de Luc, de Jean, est toujours vivant.”

HOURDIN, Georges. Le viel homme et l’Église. Paris, Desclée de Brouwer, 1998, p. 9,10.

**

"A Igreja Católica da França corre o risco de desaparecer. Pelo menos é o que nos diz a análise dos fatos, se desejamos ver mais longe e não nos contentar em recuperar o sucesso deste ou daquele encontro.

Ela agoniza em seu modelo atual, e eu choro diante desta perda irreparável todas as lágrimas do meu amor. O que está acontecendo?

Podemos agir? Ainda é tempo de intervir? Eu acredito nisso. Vou propor, então, reformas que os fiéis esperam, que exigem... que é impossível recusar-lhes.

E como o Cristo me é visceralmente caro, e eu não posso esquecer sua mensagem, direi as razões que temos para esperar, visto que por meio dos homens e das comunidades, o Evangelho de Marcos, de Mateus, de Lucas e de João está sempre vivo."

HOURDIN, Georges. Le viel homme et l’Église. Paris, Desclée de Brouwer, 1998, p. 9,10. Tradução nossa.

6 de nov. de 2008

diga não.


Il tuo cristo è giudeo, la tua macchina è giapponese, la tua pizza è italiana, la tua democrazia è greca, il tuo caffè è brasiliano, le tue vacanze sono turche, i tuoi numeri sono arabi, la tua scrittura è latina e tu rimproveri al tuo vicino di essere uno straniero. (Carlo Giuliani)


Tradução livre:


O teu Cristo é judeu,
a tua máquina é japonesa,
a tua pizza é italiana,
a tua democracia é grega,
o teu café é brasileiro,
as tuas férias são turcas,
os teus números são árabes,
a tua escrita é latina
e tu reprovas teu vizinho por ser estrangeiro.


***

Carlo Giuliani era um ativista italiano que morreu assassinado no dia 20/07/2001, em Gênova, na Itália, no momento em que protestava contra a reunião do G8 e suas decisões covardes e irresponsáveis.

Deixo aqui meu protesto contra a nova lei de imigração da Comunidade Européia e contra os muros da vergonha que separam Israel dos palestinos e os EUA do México. Os europeus, que colonizaram outros povos e continentes, que tanto auxílio pediram após as duas grandes guerras, hoje fecham suas portas para o resto do mundo. Os EUA, que tomaram à força parte do México, hoje constroem um muro para isolar sua riqueza do país vizinho. Israel, que ocupa terras dos palestinos, também ergue seu muro. E ainda se acredita que estamos caminhando rumo a uma sociedade mais fraterna.

***

http://bardaneri.splinder.com
http://it.wikipedia.org/wiki/Carlo_Giuliani

17 de out. de 2008

conto de terror, ou fantástico, ou de suspense


Considero esta narrativa, que li aos dez, onze anos de idade, um dos mais geniais do gênero conto de terror, ou conto fantástico, ou ainda, conto de suspense. É genial, penso eu, porque não precisa jorrar sangue em cada frase para despertar no leitor a surpresa e a expectativa diante de um final estranhamente possível. Aí está a beleza das grandes obras literárias: sugerir mais do que dizer. Deixar ao leitor a liberdade de construir e deduzir, de atribuir e concluir, sem no entanto mover a narrativa para o previsível. Além disso, o prazer da leitura não finda após os dois primeiros parágrafos. Eis aí outra característica da boa literatura: é agradável e prazerosa para quem lê.

Este é um clássico dos contos de terror. Há na internet traduções que preferiram "pata", no lugar de "garra", além de outras diferenças. particularmente, considero esta versão a mais genial. Boa leitura.


A GARRA DO MACACO


Fora, a noite estava fria e chuvosa, porém, na saleta do "chalet" de Laburnum as venezianas haviam sido fechadas e o fogo ardia, rebrilhando. Pai e filho jogavam xadrez; o pri­meiro, que tinha acerca do jogo idéias que implicavam alterações radicais, expunha o seu rei a perigos extremos e inúteis, pro­vocando sempre comentários da velha dama de cabelos brancos que fazia meias plàcidamente, ao pé do fogo.
- Escuta o vento - disse o sr. White que, percebendo um erro fatal quando já era tarde, desejava amavelmente impedir que o filho o notasse.
- Estou ouvindo - respondeu o rapaz, vigiando atenta­mente o tabuleiro, enquanto o pai estendia a mão. - Xeque!
- Custa-me crer que ele venha esta noite - continuou o velho, conservando a mão no xadrez.
- Mate! - acrescentou o filho.
- É o mal de morarmos tão longe - tornou o sr. White;
com violência súbita e não reprimida. - De todos os sítios imundos, lamacentos e isolados, este é o pior. A estrada é um charco e a rua, uma torrente. Não sei o que esta gente pensa disto. Mas como só duas casas da estrada são de aluguel, su­ponho que pouco se lhe dá.
- Pouco importa, querido - observou a esposa com mei­guice - talvez ganhes a próxima partida.
O sr. White levantou os olhos a tempo de perceber um olhar de inteligência entre a mãe e o filho. As palavras morreram-lhe nos lábios e ele disfarçou uma careta, na barba espessa e grisalha. - Aí está ele - anunciou Herberto White, ouvindo o por­tão bater violentamente; passos pesados aproximaram-se da casa.
O ancião levantou-se, com uma solicitude hospitaleira e, abrindo a porta, acolheu com lamentações o visitante que se queixou também. O sra. White interveio, conciliadora.
- Isso passa! Passa!
E tossiu, quando o marido entrou na peça, seguido por um homem alto e corpulento, de olhos pequenos e faces coradas.
O militar trocou apertos de mão e, tomando a cadeira ao pé do fogo que lhe era oferecida, deitou alegremente um olhar à roda, enquanto o seu hospedeiro trazia whisky e cálices e punha uma chaleirinha de cobre no fogo.
- Primeiro o sargento Morris - disse o velho, apre­sentando-o.
Ao terceiro copo, os olhos do sargento já reluziam e ele principiou a falar; a família observava com o maior interesse esse visitante de terras afastadas que, recostado aos ombros largos na cadeira, falava de cenas selvagens e feitos destemi· dos, de guerras, de misérias e de povos estranhos.
- Há vinte e um anos - disse o sr. White, voltando-se para a esposa e o filho - quando ele partiu, era uma flor da mo­cidade no quartel. Olhem-no agora.
- Não me parece que tenha mudado muito - observou cortesmente a sra. White.
- Gostaria de ir à Índia - tornou o ancião - só para ver alguma coisa com os meus olhos.
Está melhor aqui - afirmou o oficial, meneando a cabeça.
Gostaria de conhecer esses templos antigos, os faquires e os pelotiqueiros - continuou o sr. White. - Que me disse, dias atrás, da garra de macaco ou coisa semelhante, Morris? - Nada - apressou-se a responder o soldado. - Nada que valha a pena ouvir.
Garra de macaco? - perguntou a sra. White com curiosidade.
Bom; é talvez um pouco do que se pode chamar magia - respondeu evasivamente o militar.
Os três ouvintes curvaram-se com interesse. O visitante le­vou distraidamente o copo aos lábios e depois soltou-o. O sr. White tornou-o a encher.
- Reparem - principiou o sargento, esquadrinhando os bolsos - eis uma simples garra de macaco mumificada.
E exibiu o que tirara do bolso. A sra. White recuou com uma careta, mas o filho apanhou o curiosidade.
- E que há de especial nisso? – indagou o Sr. White, tomando-o das mãos do filho e pousando-o na mesa, depois de o observar.
- Foi encontrado por um velho faquir - explicou o sargento - um velho honrado, que queria demonstrar que o destino rege a vida do homem e que, contrariando-o, o homem só acarreta a própria desgraça. Ele encantou este objeto de modo que três pessoas poderão satisfazer por meio dele três desejos cada uma.
O tom de Morris era tão solene, que impressionou os seus hóspedes.
- E por que não fez os seus pedidos, senhor - perguntou Herberto White habilmente.
O militar encarou-o, como na Idade Média se costumava olhar um rapazote presunçoso, e replicou com calma:
- E os fiz.
Mas o rosto se lhe tornou lívido.
E os três desejos foram satisfeitos? - indagou a sra. White.
- Sim - respondeu o sargento, batendo o copo contra os dentes.
- E mais alguém manifestou três desejos? - insistiu a senhora.
- O primeiro possuidor manifestou três desejos - dis­se Morris. - Sim; não sei quais foram os dois primeiros, mas o último foi a morte. Eis como esta garra me chegou às mãos.
O seu tom era tão grave, que o grupo se conservou silencioso.
- Se lhe satisfez os seus três desejos já não lhe serve, Morris - observou o ancião. - Por que a conserva?
O soldado meneou a cabeça.
- Capricho, suponho - disse lentamente. - Pensei em vendê-la; não sei, porém, se devo. Já causou bastante trans­tornos. Aliás, ninguém a compraria: uns consideram uma fábula e os que acreditam querem primeiro experimentá-la e depois pagar-me.
- Se tivesse outros três desejos - perguntou o sr. White encarando-o - seriam satisfeitos?
- Não sei - replicou o sargento. - Não sei.
E, apanhando a garra entre o polegar e o indicador, deitou-a às chamas. White curvou-se, com um grito, e retirou-a.
- É melhor que a deixe queimar - disse solenemente o soldado.
- Se não a quer, Morris - propôs o velho - deixe-a comigo.
- Não - tornou rispidamente o sargento. - Deite-a ao fogo. Se apanhou, não me culpe, caso lhe aconteça alguma coisa. Atire-a outra vez às chamas, como homem sensato.
White meneou a cabeça e, examinando atentamente a sua nova propriedade, indagou:
- Como se usa?
- Levante-a na mão direita e diga o que deseja em voz alta - explicou o sargento - mas eu o avisei das conseqüências.
- Lembra as "Noites árabes" - disse a sra. White, levantando-se e começando a servir a ceia. - Crê que eu possa pedir para mim quatro pares de mãos?
O ancião tirou do bolso o talismã e os três riram-se; mas o sargento, preocupado, segurou o braço do velho.
- Se quiser formular algum desejo - disse ele rapida­mente - peça alguma coisa razoável.
White tornou a guardar a garra no bolso e, dispondo as cadeiras, chamou o amigo para a mesa.
Durante a ceia, o talismã foi esquecido; mais tarde, pais e filho escutaram atentamente a segunda narração das aventuras do militar na Índia.
- Se a lenda da garra de macaco não for mais verídica do que as que ele nos contou - disse Herberto, mal a porta se fechou atrás do hóspede, que partira para apanhar o último trem - não nos servirá muito.
- Deu-lhe alguma coisa? - indagou a sra. White, enca­rando o marido.
- Uma bagatela - replicou ele, corando. - Morris não queria, mas eu o obriguei a aceitar. Ele insistiu, para que eu devolvesse a garra.
- Está visto - disse Herberto, com fingido horror. ­Bem, agora seremos ricos, famosos e felizes. Para começar peça que o faça imperador, pai; só assim não será governado.
E o rapaz correu em redor da mesa, perseguido pela sra. White que, ofendida, se armara de uma almofada.
O sr. White tirou do bolso o talismã e observou-o com ar de dúvida.
- Na verdade não sei o que hei de pedir - disse ele len­tamente. - Parece-me que tenho tudo que desejo.
- Se pudesse mudar-se, julgar-se-ia completamente feliz! - observou Herberto, pousando a mão no ombro do pai. - Pois bem, peça duas mil libras, então; é o quanto basta.
Sorrindo da própria credulidade, White ergueu o talismã e o rapaz, obedecendo em parte a um olhar da mãe, sentou-se ao piano, com ar muito sério, e fez soar alguns acordes solenes.
- Desejo duas mil libras - disse distintamente o ancião.
Um belo acorde saudou as palavras e foi interrompido por um grito de White. A esposa e o filho correram para ele.
- Moveu-se! - bradou o velho, deitando um olhar de repugnância ao objeto que jazia no chão. - Quando fiz o pe­dido, agitou-se como uma serpente!
- Contudo, não vejo o dinheiro - disse o rapaz, levan­tando o talismã e pondo-o na mesa - e aposto que nunca o verei.
- Foi decerto uma fantasia - observou a sra. White fitando ansiosamente o marido.
O velho meneou a cabeça.
- Não importa; não me causou nenhum dano; mas, apesar de tudo, tive um choque.
Sentaram-se os três ao pé do fogo e os dois homens acaba­ram de fumar o cachimbo. Fora, o vento se tornava mais violen­to e o ancião estremeceu, ouvindo bater a porta no andar su­perior.
Um silêncio estranho e deprimente recaiu sobre o grupo que ali permaneceu, até que o casal se levantou, para se deitar.
- Espero que encontre o dinheiro num saco enorme no meio da cama - disse Herberto, desejando-lhes boa-noite - e alguma coisa horrível espreitando-os em cima do guarda-roupa, para vê-los embolsarem esse lucro mal ganho.
O rapaz sentou-se sozinho, na escuridão, olhando o fogo e vendo nas labaredas caretas estranhas; a última era tão hor­rível, tão simiesca, que o assustou. E parecia tão viva, que, com uma risada contrafeita, Herberto apanhou na mesa um copo com um pouco de água e o entornou na visão. Executando esse gesto, sentiu sob os dedos a garra do macaco; arrepiado, limpou a mão no casaco e subiu para o seu quarto.
Na manhã seguinte, à luz do sol de inverno que clareava a mesa de refeição, Herberto zombou do próprio receio. Reina­va na peça uma atmosfera de salubridade prosaica que faltava na noite anterior, e a garra enrugada jazia no guarda-louças com uma indiferença que não demonstrava grande fé nas suas vir­tudes.
- Desconfio que todos os velhos soldados são iguais ­disse a sra. White. - Que idéia a nossa de darmos ouvido a esse absurdo! Como pode o desejo de alguém ser satisfeito num tempo destes? E, se fosse possível, que prejuízo nos tra­riam duas mil libras?
- Podem cair-lhe do céu na cabeça – observou o frívolo Herberto.
- Morris disse que a coisa sucede de maneira tão natural - replicou o velho - que se pode crer facilmente numa coincidência.
- Bem; não toque no dinheiro enquanto eu não voltar - ­tornou Herberto, levantando-se. - Receio que essa riqueza o torne avarento, pai, e que sejamos obrigados a renegá-lo.
A mãe riu-se e acompanhou-o até a rua; depois, voltando para a mesa, zombou da credulidade do marido. Entretanto, três horas depois não deixou de correr ao portão, quando o carteiro bateu, e de maldizer das tolices do velho militar, ao ver que o correio só lhe trazia a conta do alfaiate.
- Quando voltar, Herberto fará mais alguma das suas observações irônicas - disse ela, sentando-se à mesa, com o marido para almoçar.
Também creio - replicou o Sr. White, servindo-se de cerveja – mas apesar de tudo, a garra moveu-se; poderia jurá-lo.
- Foi impressão - disse a velha senhora, com bondade.
- Garanto que se mexeu – retrucou ele. – Eu não pensava nisso. Tinha juntamente... Que há?
A velha dama não replicou. Observava os movimentos mis­teriosos dum homem que, do lado de fora, se dirigia para a casa, com ar indeciso e aparentemente relutava em entrar. Li­gando-o às duas mil libras, ela notou que estava bem trajado e usava um moderno chapéu de seda. O desconhecido parou três vezes diante do portão, continuou e, decidindo de sú­bito, abriu-o e adiantou-se no atalho. Ao mesmo tempo, a sra. White levou as mãos à pressa às tiras do avental, escondeu essa peça de vestuário atrás da almofada da cadeira.
Em seguida introduziu na sala o visitante, visivelmente per­turbado. Olhando de soslaio a velha senhora, ele ouviu com ar despreocupado as desculpas pelo aspecto da peça e pelo tra­jo do marido, um casaco que o sr. White usava geralmente no jardim.
A dona da casa esperou depois tão pacientemente quanto lhe permitia o seu sexo, que o recém-chegado expusesse o mo­tivo de sua visita; mas, a princípio, ele se mostrou estranhamente silencioso.
- Fui encarregado... - começou afinal.
Calou-se, porém, e tirou do bolso um embrulho. - Venho da parte da firma "Maw & Meggins".
A velha dama teve um sobressalto.
- Assunto importante? - perguntou ela, ofegando. - Su­cedeu alguma coisa a Herberto? Que foi? Que foi?
- Sossegue, mulher - interveio apressadamente o ma­rido. - Sente-se e não precipite as conclusões. Tenho certeza de que o senhor não traz más notícias - acrescentou, fitando ansio­samente o estranho.
- Lamento ... – principiou este.
- Ele está ferido? atalhou a mãe, com veemência.
O desconhecido anuiu.
- Gravemente ferido - disse com tristeza - porém não sofre mais.
- Oh, graças a Deus! - exclamou a senhora, juntando as mãos. - Graças a Deus, por isso! Graças ...
Mas interrompeu-se de súbito, percebendo o significado si­nistro dessa afirmação, e leu, na cabeça curvada do visitante, a confirmação terrível do próprio receio.
Com a respiração suspensa, voltou-se para o marido desanimado e pousou a mão trêmula na dele.
- Foi apanhado pela máquina - murmurou enfim o visitante.
- Apanhado pela máquina - repetiu White automaticamente. - Sim.
O velho sentou-se, a olhar, aturdido, pela janela e, tomando entre as suas as mãos da esposa, apertou-as como nunca fizera durante o noivado, quarenta anos antes.
- Era o único que nos restava - disse ele voltando-se cortesmente para o visitante. - É triste.
O outro tossiu e, levantando-se, aproximou-se da janela. - A firma encarregou-me de lhes transmitir os seus pê­sames sinceros, por essa grande perda - disse ele, sem olhar em torno de si. - Rogo-lhes que compreendam que sou apenas um empregado da casa e obedeço ordens.
Não recebeu resposta; a velha senhora tinha as faces lívidas, os olhos fixos e a respiração imperceptível; o rosto do sr. White tomara uma expressão igual talvez à do seu amigo sargento, no primeiro combate.
- Devo dizer que a firma "Maw & Meggins" se exime de toda responsabilidade - continuou o outro. - Não admite que houvesse risco; mas, em consideração aos serviços prestados por seu filho, deseja presenteá-los com uma soma em dinheiro, a título de indenização.
O sr. White soltou a mão da mulher e, erguendo-se, deitou ao visitante um olhar de horror. E, com os lábios secos mal pôde articular a palavra:
- Quanto?
- Duas mil libras - respondeu o outro.
Sem ouvir o grito da esposa, o velho sorriu fracamente, estendeu as mãos como um cego e caiu, sem sentidos, no chão.
No imenso cemitério novo a duas milhas de distância apro­ximadamente, o velho casal enterrou o seu querido morto e voltou para casa, por um caminho sombrio e silencioso.
Isso foi tudo o que a princípio eles conseguiram entender; e ficaram em expectativa, como se ainda estivesse para acontecer alguma coisa... alguma coisa que explicasse esse mistério muito pesado para os seus velhos corações.
Mas os dias passaram e a expectativa cedeu o lugar à resignação - a resignação dos velhos, unida, às vezes, à apatia. Os dois esposos mal trocavam uma palavra, pois nada tinham a dizer; e os dias passavam longos e tristes.
Cerca duma semana depois, acordando de súbito durante a noite, White estendeu a mão e encontrou-se só. O quarto estava escuro e da janela vinha um som de choro triste e abafado.
O ancião ergueu-se da cama e escutou.
- Venha cá - disse ele com ternura. - Sentirá frio.
- Está mais frio para o seu filho - respondeu-lhe a mulher.
E saiu do quarto.
O som de seus soluços enfraqueceu aos ouvidos do ancião. A cama estava quente e as pálpebras lhe pesavam de sono. Ele tornou a adormecer e dormiu, até que um grito selvagem da esposa o acordou num sobressalto.
- A garra! - bradou ela. - A garra do macaco!
White levantou-se assustado.
- Onde? Onde? Que há?
A velha adiantou-se para ele, tropeçando no quarto. - Quero-a - disse calmamente. - Não a destruiu?
- Está na sala na estante - replicou ele admirado. Por quê?
Ela riu-se e gritou ao mesmo tempo e, curvando-se, beijou as faces do marido.
- Só agora pensei nisso - disse, muito excitada. - Por que não pensou você nisso?
- Pensar em que? - indagou White.
- Os outros dois desejos! - replicou ràpidamente a velha senhora. - Só exprimimos um.
- Não foi bastante? - retrucou ele vivamente.
- Não! - exclamou ela, em tom de triunfo. - Teremos mais um. Desça, procure-a já e peça para que o nosso filho res­suscite!
O velho sentou-se na cama e afastou do corpo trêmulo os cobertores.
- Bom Deus! Você está louca! - exclamou assustado.
- Procure-a! - rogou ela. – Procure-a duma vez e peça! Oh, meu filho, meu filho!
Apanhando um fósforo, White acendeu uma vela e disse, em tom irresoluto:
- Deite-se. Não sabe o que está dizendo!
- O nosso primeiro desejo foi satisfeito - tornou a sra. White, com fervor - por que não será o segundo?
- Uma coincidência - balbuciou o velho.
- Desça, procure-a e exprima o seu desejo! - bradou ela trêmula de excitação.
O marido voltou-se, e fitou-a; a voz tremeu-lhe:
- Ele morreu há dez dias: aliás... eu não lhe quis dizer mas... só pude reconhecê-lo pela roupa. E, se estivesse dema­siado horrível, para que você o visse?
- Traga-o! - bradou ela, impelindo-o para a porta. ­Julga que receio o filho que criei?
White saiu da escuridão, dirigiu-se para a saleta e depois para a lareira. O talismã estava no mesmo lugar e o ancião sentiu-se tomado dum receio terrível de que o desejo, embora não formulado, lhe trouxesse o filho mutilado, antes que ele pu­desse sair da peça; conteve a respiração, compreendendo que esquecera o caminho do quarto. A testa cobriu-se de suor frio; rodeando a mesa e apalpando a parede, achou-se no corredor estreito, com o objeto tremendo na mão.
Entrando no quarto, notou que o rosto da esposa se alte­rara; estava lívido e ansioso e parecia ter uma expressão sobre­natural que o assustou. Ele receou-a.
- "Deseje" - ordenou ela, em tom autoritário.
- Isso é absurdo e ímpio - balbuciou o ancião.
- Deseje! - repetiu a velha senhora.
White levantou a mão e articulou:
"Desejo que o meu filho ressuscite!"
O talismã caiu ao chão e o velho fitou-o, receoso. Depois deixou-se cair numa cadeira, enquanto a mulher, com os olhos ardentes, se encaminhava para a janela e abria a persiana.
O sr. White continuou sentado, até sentir-se gelado de frio, fitando de espaço a espaço o vulto da companheira que olhava pela janela. Ardendo no fundo do castiçal de porcelana, o toco de vela refletia sombras móveis no teto e nas paredes; de súbito, com um estremecimento mais forte do que os anteriores, apagou-se. Com uma sensação inexplicável de alívio, por ver que o talismã falhara, o ancião voltou para a cama; um ou dois minutos depois, a esposa, silenciosa e apática, se aproximou dele. Nenhum dos dois falou; permaneceram ambos calados escutando o tic-tac do relógio. Um degrau estalou e um rato passou, correndo, junto da parede. A escuridão acabrunhava-os. Depois de estimular algum tempo a própria coragem, o ancião apanhou a caixa de fósforos e, acendendo um, desceu à procura duma vela.
Ao pé da escada, o f6sforo apagou-se e White parou, a fim de acender outro. Nesse momento, uma batida furtiva, pouco audível, soou na porta da frente. Os fósforos caíram da mão do velho e espalharam-se no corredor. Ele ficou imóvel, com a respiração suspensa, até que tornou a ouvir a mesma batida. Um terceiro golpe ecoou em toda a casa.
- Que é isso - bradou a velha senhora, erguendo-se.
- Um rato - respondeu White, com a voz trêmula.
A senhora sentou-se na cama e escutou.
Outro golpe se fez ouvir igualmente em toda a casa.
- É Herberto! - exclamou a velha. - É Herberto!
E correu para a porta; o marido, porém, já estava diante dela e, apanhando-lhe o braço, segurou-a com força.
- Que está fazendo? - murmurou em voz rouca.
- É meu filho; é Herberto! - bradou ela, debatendo-se. - Esqueci-me de que havia duas milhas de distância. Por que me segura? Larga-me! Preciso abrir a porta.
- Pelo amor de Deus, não faça isso! - exclamou o ancião, estremecendo.
- Você receia de seu próprio filho! - retrucou ela, con­tinuando a se debater. - Deixa-me ir! Já vou, Herberto; já vou!
Ouviu-se um golpe, seguido de outro. Com um movimen­to rápido, a velha livrou-se e saiu, correndo, do quarto. O ma­rido seguiu-a ao patamar, chamou-a pelo nome, e viu-a preci­pitar-se escada abaixo. E logo a voz da pobre mãe soou, ar­quejante:
- O ferrolho! - bradou ela. - Desça; não posso alcançar.
Mas White, ajoelhado, apalpava o chão à procura da garra. Se a pudesse apanhar, antes que o ser que estava do lado de fora entrasse!
Uma saraivada de golpes ressoou na casa toda e o ancião estremeceu, ao rumor da cadeira que a mulher arrastava no corredor, para tirar o ferrolho. Ouviu-se o ranger, puxado len­tamente. Nesse momento, porém, os seus dedos toparam com a garra do macaco e ele formulou o último desejo.
As pancadas cessaram de súbito, embora o eco ainda soas­se dentro da casa. White ouviu o arrastar da cadeira e a porta abriu-se. O vento frio engolfou-se na escada; um gemido de desespero, de decepção da esposa, animou o velho a correr até a por­ta e olhar para fora.
Na calçada oposta, o lampião clareava a rua deserta e silenciosa.


***

William Wyntark Jacobs
W. W. Jacobs, nascido a 8 de setem­bro de 1836, foi educado em Londres, em escolas particulares. Empregou-se, ainda jovem, no serviço de fiscalização bancária, até que em 1896 surgiu com o primeiro livro - "Many Cargoes" - com­posto de pequenas histórias humorísticas sôbre a vida das docas, com seus estiva­dores, marinheiros e pescadores. É em tôrno do mesmo ambiente, explorando temas ligados ao pessoal do cais, que se desenvolvem as narrativas incluídas em obras como "Odd Craft", "Captains Ali", "The Lady of the Barge", e ou­tras. Embora revelando originalidade e agudo senso de humor, não seriam êstes livros que popularizariam o nome de Jacobs. A glória ele iria alcançar com outra espécie de histórias - os cha­mados contos de horror. Tornou-se, nes­te gênero, um mestre incontestado. Não há antologia que dispense, atualmente, a inclusão de uma obra prima como "A Garra do Macaco", pequena história em que o fantástico se liga ao real sem jamais decair no vulgar, em que o leitor nunca pode precisar onde termina a ilusão e começa a realidade. Não menos estranha e bem conduzida é a narrativa "Que Fi­zestes, Caim?" e outras de idêntico "sus­pense", incluídas em obras como "Bis Brother's Keeper".
Além de contista, Jacobs é também teatrólogo. Numerosas comédias, a maio­ria em um ato - algumas em colaboração com Louis N. Parker - marcam a sua passagem pelo teatro.
Jacobs faleceu em 1943, durante a última grande guerra.

***


Para ler bons contos fantásticos, acesse o Blog Contos Fantásticos - Procurando divulgar o gênero fantástico na literatura, de Luiz Fernando Riesemberg, e o Blog O Conselheiro Acácio.

31 de ago. de 2008

uma arte

Essa poesia de Elizabeth Bishop foi também lida pela personagem de Cameron Diaz no filme que eu vi ontem. É linda, de uma delicadeza ímpar:


One Art

The art of losing isn't hard to master;

so many things seem filled with the intent

to be lost that their loss is no disaster.


Lose something every day. Accept the fluster

of lost door keys, the hour badly spent.

The art of losing isn't hard to master.


Then practice losing farther, losing faster:

places, and names, and where it was you meant

to travel. None of these will bring disaster.


I lost my mother's watch. And look! my last, or

next-to-last, of three loved houses went.

The art of losing isn't hard to master.


I lost two cities, lovely ones. And, vaster,

some realms I owned, two rivers, a continent.

I miss them, but it wasn't a disaster.


- Even losing you (the joking voice, a gesture

I love) I shan't have lied. It's evident

the art of losing's not too hard to master

though it may look like (Write it!) like disaster.




(Tradução de Paulo Henriques Britto)



A arte de perder não é nenhum mistério;

Tantas coisas contêm em si o acidente

De perdê-las, que perder não é nada sério.

Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,

A chave perdida, a hora gasta bestamente.

A arte de perder não é nenhum mistério.

Depois perca mais rápido, com mais critério:

Lugares, nomes, a escala subseqüente

Da viagem não feita. Nada disso é sério.

Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero

Lembrar a perda de três casas excelentes.

A arte de perder não é nenhum mistério.

Perdi duas cidades lindas. E um império

Que era meu, dois rios, e mais um continente.

Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.

– Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo que eu amo) não muda

nada. Pois é evidente

que a arte de perder não chega a ser mistério por muito que

pareça (Escreve!) muito sério.
.
***
.

FOTOGRAFIA: Mayalu Felix

i carry your heart with me


e.e. cummings

i carry your heart

i carry your heart with me (i carry it in
my heart) i am never without it (anywhere
i go you go, my dear; and whatever is done
by only me is your doing, my darling)

.
i fear
.
no fate (for you are my fate,my sweet) i want
no world (for beautiful you are my world,my true)
and it's you are whatever a moon has always meant
and whatever a sun will always sing is you
here is the deepest secret nobody knows
(here is the root of the root and the bud of the bud
and the sky of the sky of a tree called life; which grows
higher than soul can hope or mind can hide)
and this is the wonder that's keeping the stars apart
i carry your heart (i carry it in my heart)


***

Carrego seu coração comigo
Eu o carrego no meu coração
Nunca estou sem ele
Onde eu for, você vai, minha querida
Não temo o destino
Você é meu destino, meu doce
Não quero o mundo pois, beleza
Você é meu mundo, minha verdade
Eis o segredo que ninguém sabe
Aqui está a raiz da raiz

O broto do broto
E o céu do céu
De uma árvore chamada vida
Que cresce mais do que a alma pode esperar
Ou a mente pode esconder
E esse é o prodígio
Que mantém as estrelas à distância
Carrego seu coração comigo

Eu o carrego no meu coração

***

E. E. Cummings

Edward Estlin Cummings, tipicamente abreviado como E. E. Cummings, (Cambridge, Massachusetts, 14 de outubro de 1894 — North Conway, Nova Hampshire, 3 de setembro de 1962) foi poeta, pintor, ensaísta e dramaturgo estadunidense. Mesmo não sendo uma representação endossada por ele, seus editores frequentemente refletem sua sintaxe atípica ao escrever seu nome em caixa baixa: e.e. cummings.


Cummings é bastante conhecido pelo estilo não usual utilizado em muitos de seus poemas, que incluem o uso não ortodoxo tanto das letras maiúsculas quanto da pontuação, com as quais, inesperadamente, sem motivo e de forma aparentemente errônea, é capaz de interromper uma frase, ou mesmo palavras individualmente. Muitos de seus poemas possuem, também, uma distribuição não convencional, aparentando pouco ou nenhum sentido até serem lidos em voz alta.
Apesar da afinidade de Cummings por estilos avant garde e por uma tipografia não usual, muito de seu trabalho é tradicional, apresentando, por exemplo, formato de soneto. Seus poemas com frequência tem como temas o amor e a natureza, bem como sátiras e o relacionamento do indivíduo com as massas e com o mundo.

Durante sua vida ele publicou mais de 900 poemas, duas novelas, diversos ensaios e também inúmeros desenhos, sketches e pinturas. É lembrado como uma das vozes mais importantes da
literatura do século XX.
.
***
.
FONTE: wikipédia e web em geral.
.
Ontem à noite vi um filme na TV, e no final o personagem da Cameron Diaz recita esta poesia. Achei lindo, e estou postando aqui.

29 de jun. de 2008

a "questão homossexual"

Os ativistas homossexuais do passado pediam ao governo que os deixasse em paz. Sua plataforma política consistia fundamentalmente na descriminalização de relações homossexuais entre maiores de idade. Hoje, contudo, à medida em que a tolerância social à homossexualidade cresce, os ativistas homossexuais se voltam cada vez mais para o governo a fim de impor seus interesses à sociedade. Muito embora o poder estatal tenha sido utilizado como clava contra os homossexuais desde pelo menos a Idade Média, os líderes gays de hoje subitamente parecem eles mesmos empunhar o bastão, dizendo: "Agora é a nossa vez". Isto é uma grande ironia – e uma possível causa de problemas para os homossexuais e convulsão social para a América.

O nascimento do movimento de liberação dos homossexuais na América pode ser datado em 27 de Junho de 1969, quando clientes do Stonewall Inn, um bar para homossexuais em Manhattan, resistiram a uma tentativa da polícia de fechar aquele estabelecimento. Durante três dias, uma rebelião da vizinhança efetivamente impediu a polícia de dar seguimento à antiga tradição de extorsão de bares "gays" e de fechamento dos que se recusavam a pagar propina. Na autuação oficial, os donos do Stonewall foram citados por não possuírem alvará para venda de bebidas alcoólicas. Mesmo que eles tivessem requerido a obtenção do alvará, contudo, dificilmente eles teriam sido atendidos: o órgão estatal responsável por este tipo de licença era notoriamente hostil a estabelecimentos voltados para homossexuais. Assim sendo, os primeiros manifestantes homossexuais modernos estavam se rebelando contra a regulação estatal. De fato, a liberdade perante o governo, genericamente considerado, era uma idéia central do movimento de liberação homossexual.

No entanto, algo fez com que o movimento gay se desviasse deste objetivo originário. Hoje, o intitulado movimento pelos direitos homossexuais vê o governo como o provedor, e não o inimigo, da liberdade. Da medicina socializada, passando pela legislação anti-discriminação e chegando às aulas obrigatórias de "tolerância" nas escolas, não há qualquer tipo de iniciativa para incrementar o poder governamental que estes supostos guerreiros da liberdade não apoiem.

Enquanto as relações homossexuais entre maiores de idade sejam consideradas atos ilegais em alguns estados, eu acredito que organizações dedicadas a legalizá-las têm um assento legítimo na constelação das causas em prol dos direitos humanos. Além deste objetivo estritamente limitado, contudo, um movimento político baseado em orientação sexual é uma aberração grotesca. O fato de que o movimento pelos direitos homossexuais ter assumido uma postura cada vez mais autoritária é a consequência inevitável de se basear compromissos políticos em lealdades tribais, e não em princípios filosóficos.

Numa sociedade livre não existem direitos homossexuais, apenas direitos individuais. Tanto para homossexuais quanto para heterossexuais, estes direitos se fundem num único princípio: o direito de ser deixado em paz. Politicamente, o movimento pelos direitos dos homossexuais deve voltar às suas raízes libertárias. Isto iniciaria o imprescindível processo de despolitização da homossexualidade e evitaria uma perigosa guerra cultural que a minoria homossexual jamais poderá vencer.

Mesmo a "neturalidade" estatal que homossexuais "de centro" como Andrew Sullivan advogam forçaria o governo a tratar a homossexualidade como algo equivalente à heterossexualidade, como se vê nas demandas de Sullivan em prol de um pseudo-"casamento" homossexual e da admissão de gays assumidos nas forças militares. A verdadeira neutralidade, contudo, exigiria não uma aceitação, mas indiferença, desatenção, inação. Um estado neutro não penalizaria nem recompensaria a conduta homossexual. Ele não proibiria nem legitimaria juridicamente o casamento homossexual. Num ambiente militar, um estado neutro submeteria qualquer manifestação de sexualidade à mesma rigorosa regulação.

Os homossexuais devem rejeitar a idéia disparatada de que eles são oprimidos pelo "heterossexualismo", uma ideologia vil que subordina e denigre homossexuais ao insistir no papel central da heterossexualidade na cultura humana. Não se pode fugir da biologia humana, por mais que tal projeto possa seduzir acadêmicos alienados que imaginam que a sexualidade humana é uma "construção social" alterável à vontade. Homossexuais são e serão sempre uma raridade, uma pequena minoria necessariamente à margem da família tradicional. O "preconceito" heterossexual das instituições sociais não é algo que precise ser imposto a uma sociedade relutante por um estado opressivo, mas uma predileção que surge de forma bastante natural e inevitável. Se isto é "homofobia", então a natureza é sectária. Se os homossexuais utilizam o poder estatal para corrigir esta "injustiça" histórica, eles estão se engajando num ato de beligerância que será considerado com justiça uma ameaça à primazia da família tradicional.

Mesmo vários homossexuais liberais admitem que o modelo dos "direitos gays" já serviu a todo e qualquer propósito útil que ele algum dia possa ter tido. A idéia de que os homossexuais, especialmente os homens, sejam um grupo de vítimas é tão contrária à realidade que ela já não é mais sustentável. Nos campos econômico, político e cultural, os homossexuais exercem uma influência desproporcional ao seu número em face da totalidade da população, um fato que deu origem a inúmeras teorias conspiratórias. Dos cavaleiros medievais de Malta ao misterioso "Homintern" dos tempos modernos, a idéia de uma poderosa organização secreta de homossexuais é tema persistente na literatura conspiratória, imitando a forma e o estilo da mitologia anti-semítica.

Justaposta à propaganda vitimizante dos últimos vinte anos, esta imagem de poder homossexual com ela se funde para produzir um personagem particularmente antipático: uma criatura privilegiada que não para de choramingar quanto ao seus infortúnios. Se as lideranças políticas homossexuais estão tão preocupadas quanto a um suposto crescimento de sectarismo anti-homossexual, talvez elas devam tomar o cuidado de projetar uma imagem pública menos criticável.

Na condição de contigente especializado de um exército dedicado a empurrar o socialismo "multicultural" goela abaixo do povo americano, o lobby homossexual se alimenta dos piores medos de suas bases eleitorais. Empunhando o espantalho da "Direita Religiosa" a fim de manter as tropas em alerta, os políticos gays apontam para Jesse Helms e dizem: "sem nós, vocês não teriam a menor chance contra este sujeito".

Entretanto, nenhum grupo religioso de peso jamais clamou por medidas legais contra os homossexuais. A Coalização Cristã, o Eagle Forum e outros grupos ativistas conservadores somente se envolveram em atividades políticas supostamente "anti-homossexuais" defensivamente, trabalhando pela rejeição de leis garantidoras de "direitos gays" que atacavam as crenças mais preciosas daqueles grupos.

Os líderes do movimento gay estão brincando com fogo. A grande tragédia é que não serão eles os únicos que sairão queimados. A volatilidade dos temas que eles vêm levantando – temas que envolvem religião, família e as mais elementares premissas do que é ser humano – cria o risco de uma explosão social pela qual eles devem ser responsabilizados. A ousadia da tentativa de se introduzir um "currículo homossexual positivo" nas escolas públicas, a postura de vítimas militantes que não toleram qualquer questionamento, a intolerância brutal que se segue à tomada do poder pelos homossexuais em guetos urbanos como São Francisco – tudo isso, somado ao fato de que o próprio paradigma dos direitos dos homossexuais representa uma intolerável invasão da liberdade, tende a produzir uma reação da maioria.

Já é tempo de se questionar o mito de que o movimento pelos direitos homossexuais fala por todos, ou mesmo pela maioria dos homossexuais. Isto não acontece. Leis que estabelecem "direitos homossexuais" violam os princípios do autêntico liberalismo, e os homossexuais deveriam levantar sua voz contra elas – a fim de se distanciarem dos excessos deste movimento destrutivo, a fim de evitar conflitos sociais e para corrigir alguns graves males já criados. Estes males são o ataque político hoje lançado contra a família heterossexual pelos teóricos da revolução homossexual; o incansável deboche religioso que permeia a imprensa gay; e o ilimitado desprezo, inerente à subcultura homossexual, por toda tradição e pelos "valores burgueses".

A busca por uma "etnia" homossexual é tão infrutífera quanto o esforço para forjar um movimento político homossexual. Ser homossexual não pode ser comparado, de forma alguma, a, digamos, ser armênio. Não existe uma cultura homossexual à parte da cultura em geral e, apesar de alegações pseudo-científicas em contrário, não existe uma "raça gay" geneticamente codificada. Existe apenas um certo comportamento adotado por um grupo heterogêneo de indivíduos, cada um baseado em seus próprios motivos e predisposições.

Quaisquer esforços de santificação desta conduta, ou de sua explicação de forma a esvaziá-la de qualquer conteúdo moral, são contraproducentes, além de pouco convincentes. Tentar reconciliar de alguma forma a homossexualidade com os costumes e crenças religiosas da maioria é renunciar ao verdadeiro direito que as pessoas, homossexuais ou não, efetivamente têm: o direito de não ter que dar satisfações quanto à sua própria existência.

A obsessão em "assumir" sua própria homossexualidade e o auto-centrismo essencialmente feminino deste tipo de ritual é certamente um outro traço do movimento homossexual que deve ser eliminado. Será que nós realmente temos que conhecer as predileções sexuais de nossos vizinhos e colegas de trabalho, ou mesmo de nossos irmãos e irmãs, tios e tias?

Esperar aprovação ou sanção oficial quanto algo tão pessoal quanto a própria sexualidade é um sinal de fraqueza de caráter. Pedir (não, exigir) com a cara limpa tal aprovação na forma de um ato governamental é algo de um mau gosto sem paralelos. É também a confissão de uma falta de auto-estima tão devastadora, de um tal vazio interior, que sua expressão pública se torna inapreensível. A auto-estima não é uma qualidade que se possa extrair dos outros, nem ser criada legislativamente.

A história do movimento gay revela que Eros e ideologia são antípodas. A política, disse Orwell, é o "sexo azedado", e a palavra "azeda" certamente descreve a visão do mundo dos dogmáticos dos direitos homossexuais. Isto fica evidente só de olhar para eles: melindrados a todo tempo por uma sociedade "heterossexualista" e normalmente muito pouco atraentes para conseguirem namorar, estas pobres almas politizaram tanto sua sexualidade que dificilmente se pode afirmar que ela ainda exista.

Ao invés do moralismo da "visibilidade" gay, uma solução sensata para a Questão Homossexual seria uma convocação de retorno aos deleites da vida privada, uma redescoberta da discrição ou mesmo do anonimato. A politização da vida cotidiana – do sexo e das instituições culturais fundamentais – é uma tendência a que devemos resistir com tenacidade: não apenas os homossexuais, mas os amantes da liberdade em todas as esferas de realização humana.

Artigo de Justin Raimondo originalmente publicado na revista The American Enterprise (tradução de Flávio Campos).
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FONTE: Site O Indivíduo

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