Creio que não existe nada de mais belo, de mais profundo, de mais simpático, de mais viril e de mais perfeito do que o Cristo; e eu digo a mim mesmo, com um amor cioso, que não existe e não pode existir. Mais do que isto: se alguém me provar que o Cristo está fora da verdade e que esta não se acha n'Ele, prefiro ficar com o Cristo a ficar com a verdade. (Dostoievski)

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9 de mar. de 2010

Os dois?




Estávamos todos à mesa na véspera de Natal, ainda no início da noite. Vestidos solenemente, esperávamos o momento de comer o jantar simples que teimávamos em chamar de ceia. Minha mãe estava eufórica com aquela pequena reunião familiar. Meu cunhado observava tudo com poucas palavras. Eu, confesso, tinha fome e queria comer. Minha irmã dava atenção aos filhos.

Ela tentava explicar para meu sobrinho de quatro anos, apesar da pouca atenção que ele dispensava ao arrazoado, o que era, afinal de contas, “o verdadeiro Natal”. Depois de alguns minutos de pouca atenção, Paula começou a falar do ano que já terminava e das inúmeras bênçãos que ele – o Davi – havia recebido. “Você viu, meu filho, como você teve coisas boas este ano? Você teve uma caminha quentinha... Teve a escolinha... Papai, mamãe... Roupa, comida...” Davi, à medida que Paula falava, ficava mais e mais sério. Era muita coisa para que ele processasse, muitas informações – na verdade, a mãe desfiava sua vida inteira ali, à mesa do jantar. Seu pequeno universo infantil, tudo o que ele conhecia e que lhe parecia familiar a mãe fazia passar em revista como presentes recebidos, não como partes de seu mundo que não existiam sem ele. Ele, que nunca havia pensado nisso, muito menos de modo tão grave, parecia mais vítima de uma acusação que recebedor de tantas “coisas boas”.

De repente, estrategicamente, Paula para. Olha bem nos olhos do filho. A voz suave, entretanto, inquiria: “E você sabe, meu filho, quem deu tudo isso pra você? Você sabe?” Silêncio. Pausa. Davi não ousava dizer nada. Talvez sua cabeça se perguntasse: “Papai? Mamãe? Os dois? Vovó?”. A mãe, então, diante do silêncio geral –  todos agora acompanhavam o diálogo, que caminhava para seu apogeu com vitória de mamãe, por dez a zero –, declara: “Jesus!”

Mais silêncio de Davi. “Ora essa, Jesus!”. Talvez ele se perguntasse: “Como eu não pensei nisso antes?” Jesus era o nome que pouco a pouco passava a fazer parte de sua vida. Era invisível, e a mãe dissera que vivia no céu. Uma vez, de férias na casa da avó, em São Luis, pegou os binóculos da bisavó e, surpresa geral (surpresa por quê?), mirou as nuvens para tentar encontrar Jesus. Ele não morava no céu?

Ceia intocada, todos acompanhando a educação cristã que Paula tentava dar ao filho. “Sabe, meu filho, Jesus deu tudo isso para você este ano... A única coisa que Ele quer de você, você sabe o que é?” Mais silêncio. Olhares carinhosos e emocionados de todos. É de pequeno... Ensina a criança no caminho... Ah, a magia do Natal... O aniversário de Jesus... “Então ele quer um presente também...”, deve ter pensado Davi. Mas não ousou dizer nada. Em pé, ao lado da cadeira da mãe, olhava para cima. Balançou a cabeça, não sabia. “A única coisa que Ele quer é o seu coração!”, disse ela, voz triunfante embargada de emoção, olhar fixo no menino.

Davi, voltando a cabeça para o sofá, olhou os dois pirulitos vermelhos "baby coração" que jaziam no estofado – os dois sabor morango, vermelhos, em forma de coração – que eu havia trazido do Rio de Janeiro para ele e, rapidamente, perguntou para a mãe: “Os dois?”

2 de jul. de 2009

maranhão, engenhosa mentira (ou: o maranhão não é outro lugar)

Maranhão, engenhosa mentira


Não me espantará que num futuro próximo o Maranhão venha a ser chamado de "Uganda brasileira"

O Maranhão é um Estado do Meio Norte brasileiro, um preciosismo para nomear a região geograficamente multifacetada que é ponto de interseção entre o Nordeste e a Amazônia. Com área de 330 mil km2, pleno de riquezas naturais, tem fartas agricultura e pecuária, uma culinária rica e diversa e uma cultura popular exuberante. Não obstante tudo isso, pesquisa recente coloca o Estado como o segundo pior IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) do País, atrás apenas de Alagoas.

Sou maranhense. Nasci em São Luís, capital do Estado, no ano de 1966, mesmo ano em que o emergente político José Sarney assumiu o governo estadual, sucedendo o reinado soberano do senador Vitorino Freire, tenente pernambucano que se tornou cacique político do Maranhão, a dominar a cena estadual por quase 40 anos. De 1966 até os dias de hoje, são outros 40 anos de domínio político no feudo do Maranhão, este urdido pelo senador eleito pelo Amapá José Sarney e seus correligionários, sucedâneos e súditos, que gerou um império cujo sólido (e sórdido) alicerce é o clientelismo político, sustentado pela cultura de funcionalismo público e currais eleitorais do interior, onde o analfabetismo é alarmante.

O senador José Sarney, recém-empossado presidente do Senado em um jogo de caras barganhas políticas, parecia ter saído da cena política regional para dar lugar a ares mais democráticos, depois de amargar a derrota da filha Roseana na última eleição ao governo do Estado para o pedetista Jackson Lago. Mas eis que volta, por meio de manobras politicamente engenhosas e juridicamente questionáveis, para não dizer suspeitas, orquestrando a cassação do governador eleito, sob a acusação de crime eleitoral, conduzindo a filha outra vez ao trono de seu império. Suprema ironia, uma vez que paira sobre seus triunfos políticos a eterna desconfiança de manipulações eleitoreiras (a propósito, entre os muitos significados da palavra maranhão no dicionário há este: "mentira engenhosa").

Em recente entrevista, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso disparou frase cruel: "Não vamos transformar o Brasil num grande Maranhão." A frase, de efeito, aludia a uma provável política de troca de favores praticada pelo Planalto atualmente - segundo acusação do ex-presidente -, baseada em jogo de interesses regionais tacanhos e tráfico de influências. Como alguém nascido no Maranhão, e que torce para que o Estado alcance um lugar digno na história do País (potencial para isso não lhe falta, afinal!), lamento o comentário de FHC, mas entendo a sua ironia, pois o Maranhão tornou-se, infelizmente, ao longo dos tempos, um emblema do que de pior existe na política brasileira. Não é de admirar que divida o ranking dos "piores" com Alagoas, outro Estado dominado por conhecidas dinastias familiares.

Em seus tempos de apogeu literário, São Luís, a capital do Maranhão, tornou-se conhecida como a "Atenas brasileira". Mais recentemente, pela reputação de cidade amante do reggae, ganhou a alcunha de "Jamaica brasileira". Não me espantará que num futuro próximo o Maranhão venha a ser chamado de "Uganda brasileira" ou "Haiti brasileiro". A semelhança com o quadro de absoluta miséria social a que dois célebres ditadores levaram estes países - além do apaixonado apego ao poder, claro - talvez justificasse os epítetos.

Texto de Zeca Baleiro, cantor e compositor, publicado no site da revista Istoé.

Meu comentário é: antes que alguém comece a dizer que eu sou contra o Maranhão, ou que eu quero humilhar os maranhenses, vou logo dizendo que sou maranhense, nascida em São Luis, em 1971... O que eu não sou é cega, sabe?



Charge do Nani publicada em seu Blog
Charge do Benett publicada no site jornal Gazeta do Povo

***

ESTE BLOG DEFENDE O BRASIL.
FORA, SARNEY!
DO MARANHÃO, DO BRASIL,
DA POLÍTICA, DA VIDA PÚBLICA.

3 de abr. de 2009

Salmo 91


FOTO: St. Paul's Cathedral, Londres

Já fui a muitas igrejas de arquitetura primorosa, em alguns países da Europa e no Brasil. Em Londres, fui ao Methodist Central Hall, que tem uma estátua em bronze de John Wesley, fundador da Igreja, na entrada do templo. A igreja é toda forrado em madeira por dentro. Também tirei fotos nas escadarias da bela St. Paul's Cathedral, monumento eclesiástico da Igreja Anglicana. Fui à Notre Dame, em Paris, que deve ser patrimônio cultural e arquitetônico da humanidade, e a tantas outras, em tantas cidades. No Brasil, visitei templos com capacidade para até cinco ou seis mil pessoas. Fui a igrejas cujos bancos eram forrados de couro, em outras eram de madeira de lei polida e encerada, com genuflexório. Algumas, no púlpito, tinham uma espécie de "tanque", onde os batismos por imersão deveriam ser feitos. Outras tinham lugar para orquestra, para equipe de louvor e para pastores, com várias cadeiras de forro aveludado e encosto alto junto ao púlpito. A maioria tinha o piso coberto de mármore ou granito. Em São Luis, fui a umas duas cujos aparelhos de ar condicionado potentes deixavam o templo em temperatura agradabilíssima.

Hoje à noite fui a uma igreja numa favela, na cidade onde moro. A igreja era formada por um só cômodo, que era o templo. O lugar era pequeno, e não cabiam ali mais de 50 pessoas. Apesar do calor, não havia ventiladores, muito menos ar-condicionado. O teto era de telha de zinco, e as cadeiras eram de plástico, dessas mais baratas que podem ser compradas às dúzias em qualquer grande loja. O lugar era pequeno, não havia luxo. Não vi piano, nem teclado, nem mesmo uma guitarra. Não havia sala para jovens, nem berçário, e o único banheiro era para homens e mulheres. As pessoas que falaram não usaram palavras eruditas, e quem pregou foi uma jovem que não deve ter mais de 25 anos. Escolheu uma passagem do livro do profeta Ezequiel e disse que usou o dicionário para procurar o significado de um verbo aparentemente muito simples. Numa pregação não muito longa, a jovem fez uma análise profunda e completa a respeito do trecho lido, relacionando-o de maneira clara a outras passagens bíblicas e retirando dali significados para mim mesma impensados mas presentes, como alguém que consegue ver diferentes matizes de cor em uma tela que podem ser invisíveis a olhos leigos. Naquela igreja, pobre, simples, despretensiosa e encravada numa favela longe da minha rua, cheia de pessoas que provavelmente não compartilham meu universo profissional, intelectual ou acadêmico, fui muito abençoada e verdadeiramente alimentada.  

28 de mar. de 2009

um ano em paris...


Merde!  Um ano em Paris

Comprei esse livro ontem! Estava passeando numa livraria (um programa bom pra sexta à noite) e o vi. Comecei a folheá-lo e, ao ler as primeiras páginas, o riso saiu fácil. A narrativa de Stephen Clarke é fluida, engraçada, soando como um diário. Se você entende alguma coisinha de inglês e francês vai achar o primeiro capítulo muito engraçado. Se conhece Paris e os franceses... bom, aí vai dar umas boas gargalhadas, como eu. O autor consegue captar muito bem l'état d'esprit dos iredutíveis gauleses modernos... O livro foi publicado no Brasil pela editora Record, tem 335 páginas, custa R$ 41,00 e foi traduzido do inglês (A Year in the Merde) por Alexandre Raposo. Já estou na página 128...

8 de dez. de 2008

as deusas, as musas e os maridões


Um fenômeno da imprensa de futilidades é a repetição de certas palavras para designar astros e estrelas do show business. Os termos escolhidos se desgastam com o tempo e adquirem novos sentidos, após o uso indiscriminado. Há algum tempo que o emprego de determinados termos foi amplamente adotado nas reportagens descoladas e desmioladas que ilustram o mundinho dos artistas, quase sempre das novelas e do mundo musical de baixa qualidade, dos endinheirados e das pessoas estilosas.

Outro dia parei em uma banca de jornal e comecei a folhear uma revista dessas. Lá estavam as “deusas”, as “musas” e os “maridões”. Sem encontrar termos novos, a mídia repete essas mesmas palavras ad nauseam. Da revista Caras à TV Brasil, lá estão eles. São personagens de nosso cotidiano no salão de beleza, na ante-sala do dentista, do médico e da esteticista. Não nos faltam na hora de enfrentar aqueles minutos chatos até a hora do atendimento.

Por “musa” entenda-se qualquer mulher que tenha feito comercial de cerveja. Tirou foto pelada? É musa. Colocou silicone nos peitos? É musa. Dos gregos resta uma vaga lembrança da idéia original, usada e abusada nestas terras tropicais. Da Sandy à Ana Maria Braga, todas são musas. Uma não-musa deveria ficar feliz: saiu da vala comum. O uso de “musa” está tão difundido que daqui a pouco vão substituir o “senhora” por musa. Senhora, mulher, deputada, senadora, prefeita, cantora, atriz, a lista é longa. Imaginem a revista Carta Capital, ou a Veja, chamando a ministra Dilma Roussef de “musa”. Não está longe de acontecer.

Pior que musa é deusa. Deusa ninguém merece. Me lembra uma amiga da minha mãe, uma senhora de mais de 50 anos que se chamava Deusa. A Dona Deusa. O chato é que “deusa” é usada quando falta outro nome. Ninguém mais diz “a atriz...” São todas “deusas”. Com a enorme safra de modelos-atrizes-apresentadoras, chamar alguém de atriz inadvertidamente pode até dar processo. Mas deusa pode, para tristeza da inculta e bela. Como praticamente todas as mulheres que aparecem em revistas de fofocas já se tornaram deusas, tenho a impressão de que vivemos numa Grécia revisitada, inclusive no critério numérico. Se antes as deusas eram poucas, hoje são centenas. Namorou jogador de futebol? É deusa. Posou pelada? É deusa. Fez novela? É deusa. E ainda existem as deusas do hortifruti, que são metade mulheres, metade frutas, e aí há fartura de melancias, jacas e morangos.

Mas nem só de deusas vivem as revistas de fofoca. Muitos homens são classificados de “maridões”. O maridão é uma categoria masculina em alta. Morou junto, namorou, casou, não importa: apareceu de bermudão e havaianas, andando de mãos dadas com alguma famosa de ocasião, é maridão. Existe uma necessidade absurda dessa imprensa por maridos. As mulheres adoram. Esposas são poucas, dada a abundância de musas e deusas, mas os maridos se multiplicam. A palavra “maridão”, em si, denota aquele homem meio indolente que anda sem camisa e acompanha a mulher famosa. É o marido que só é fotografado porque está ao lado da mulher conhecida. O sufixo de grau aumentativo confere uma idéia bondosa, paciente e bonachona ao homem que acompanha a “deusa”. Antes de cair em desgraça, o ex-marido da atriz Suzana Vieira, ela mesma uma musa-deusa, era o “maridão”. Por aí já dá pra imaginar. Deusas e musas não têm marido, têm “maridão”. Homens belos e conhecidos, em geral, são “gatos” e “galãs”. Aliás, “galã” é outra palavra coringa: se fez propaganda de cueca já é considerado galã. Qualquer coisa serve. Inventou a dança da manivela? É “gato”. Participou do programa da Ana Maria Braga? É “galã”. E por aí vai. Já homens quase desconhecidos, mas casados com mulheres conhecidas, são “maridões”.

Nada contra as musas, as deusas e os maridões. Muito pelo contrário. As palavras sinalizam quem é, de fato, absolutamente comum. Chamar alguém de "musa" é conferir à pessoa o certificado de mesmice. “Não há nada de interessante nela, é uma musa”. Se alguma reportagem fala de alguém que não é musa, nem deusa, nem maridão, bom, nesse caso deve ser alguém interessante.

12 de nov. de 2008

o governo Lula é uma piada, mesmo

Parece piada

O episódio da investigação de que está sendo vítima o delegado Protógenes Queiroz me faz lembrar de uma antiga piada que corria durante o período da ditadura militar.

Naquela época, os chamados Anos de Chumbo, uma simples patente de sargento já botava medo em qualquer cristão.

No ponto do ônibus, um sexagenário de cabelos brancos, irritado com o atraso da sua condução, resmungava em voz alta:

- Este País é uma merda...

Um soldado da PM, colega de fila, achou aquilo uma ofensa à pátria e ordenou ao cidadão que se calasse.

- Não me calo, não. Este País é mesmo uma merda...

Foi o bastante para que o soldado lhe desse voz de prisão e o levasse à delegacia mais próxima.

Chegando lá, o senhor se apresentou ao delegado: General Afonso de Souza José.

Surpreso e constrangido, o delegado desculpou-se mil vezes com o militar pelo mal-entendido e liberou-o. Em contra-partida, mandou prender o soldado.

Ao sair da delegacia, o general cruzou com o trêmulo e incrédulo rapaz que lhe havia dado voz de prisão e cochichou ao pé de seu ouvido:

- Não te falei que este País era uma merda?
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***
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17 de jun. de 2008

onde está o dinheiro?

AGORA QUE VAI COMEÇAR O INVERNO DECIDI HOMENAGEAR NOSSOS POLÍTICOS POR MAIS ESTE PERÍODOS DE CHUVAS INESQUECÍVEL QUE SE VAI...

PARA VER ESTE VÍDEO (E OUVIR A BELA MELODIA DE TOM JOBIM) VÁ PRIMEIRO NA CAIXA "MAYA_MUSIQUE", À ESQUERDA, E CLIQUE EM "PAUSE". DEPOIS VENHA AQUI E CLIQUE EM "PLAY".

SE NA PRIMEIRA PASSAGEM HOUVER INTERRUPÇÕES, EXPERIMENTE VER NA SEGUNDA!

FONTE: PORTAL UOL

15 de jun. de 2008

Luis Fernando Verissimo [8]

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A Espada
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Uma família de classe média alta. Pai, mulher, um filho de sete anos. É a noite do dia em que o filho faz sete anos. A mãe recolhe os detritos da festa. O pai ajuda o filho a guardar os presentes que ganhou dos amigos. Nota que o filho está quieto e sério, mas pensa: "É o cansaço". Afinal ele passou o dia correndo de um lado para o outro, comendo cachorro-quente e sorvete, brincando com os convidados por dentro e por fora da casa. Tem que estar cansado.
- Quanto presente, hein, filho?
- É.
- E esta espada. Mas que beleza. Esta eu não tinha visto.
- Pai...
- E como pesa! Parece uma espada de verdade. É de metal mesmo. Quem foi que deu?
- Era sobre isso que eu queria falar com você.
O pai estranha a seriedade do filho. Nunca o viu assim. Nunca viu nenhum garoto de sete anos sério assim. Solene assim. Coisa estranha... O filho tira a espada da mão do pai. Diz:
- Pai, eu sou Thunder Boy.
- Thunder Boy?
- Garoto Trovão.
- Muito bem, meu filho. Agora vamos pra cama.
- Espere. Esta espada. Estava escrito. Eu a receberia quando fizesse sete anos.
O pai se controla para não rir. Pelo menos a leitura de história em quadrinhos está ajudando a gramática do guri. "Eu a receberia..." O guri continua.
- Hoje ela veio. É um sinal. Devo assumir meu destino. A espada passa a um novo Thunder Boy a cada geração. Tem sido assim desde que ela caiu do céu, no vale sagrado de Bem Tael, há sete mil anos, e foi empunhada por Ramil, o primeiro Garoto Trovão.
O pai está impressionado. Não reconhece a voz do filho. E a gravidade do seu olhar. Está decidido. Vai cortar as histórias em quadrinhos por uns tempos.
- Certo, filho. Mas agora vamos...
- Vou ter que sair de casa. Quero que você explique à mamãe. Vai ser duro para ela. Conto com você para apoiá-la. Diga que estava escrito. Era o meu destino.
- Nós nunca mais vamos ver você? - pergunta o pai, resolvendo entrar no jogo do filho enquanto o encaminha, sutilmente, para a cama.
- Claro que sim. A espada do Thunder Boy está a serviço do bem e da justiça. Enquanto vocês forem pessoas boas e justas poderão contar com a minha ajuda.
- Ainda bem - diz o pai.
E não diz mais nada. Porque vê o filho dirigir-se para a janela do seu quarto, e erguer a espada como uma cruz, e gritar para os céus "Ramil!" E ouve um trovão que faz estremecer a casa. E vê a espada iluminar-se e ficar azul. E o seu filho também.
O pai encontra a mulher na sala. Ela diz:
- Viu só? Trovoada. Vai entender este tempo.
- Quem foi que deu a espada pra ele?
- Não foi você? Pensei que tivesse sido você.
- Tenho uma coisa pra te contar.
- O que é?
- Senta, primeiro.
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***
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Crônica de Luis Fernando Veríssimo publicada no livro Comédias da Vida Privada - 101 crônicas escolhidas. Porto Alegre: L & PM, 1994, p. 240-241.

8 de jun. de 2008

Luis Fernando Veríssimo [7]


O suicida e o computador

Depois de fazer o laço da forca e colocar uma cadeira embaixo, o escritor sentou-se atrás da sua mesa de trabalho, ligou o computador e digitou:

"No fundo, no fundo, os escritores passam o tempo todo redigindo a sua nota de suicida. Os que se suicidam mesmo são os que a terminam mais cedo."

Levantou-se, subiu na cadeira sob a forca e colocou a forca no pescoço. Depois retirou a forca do pescoço, desceu da cadeira, voltou ao computador e apagou o segundo "no fundo". Ficava mais enxuto. Mais categórico. Releu a nota e achou que estava curta. Pensou um pouco, depois acrescentou:

"Há os que se suicidam antes para escapar da terrível agonia de encontrar um final para a nota. O suicídio substitui o final. O suicídio é o final."

Levantou-se, subiu na cadeira, colocou a forca no pescoço e ficou pensando. Lembrou-se de uma frase de Borges. Encaixa, pensou, retirando a corda do pescoço, descendo da cadeira e voltando ao computador. Digitou:

"Borges disse que o escritor publica seus livros para livrar-se deles, senão passaria o resto da vida reescrevendo-os. O suicídio substitui a publicação. O suicídio é a publicação. No caso, o livro livra-se do escritor."

Levantou-se, subiu na cadeira, mas desceu da cadeira antes de colocar a forca no pescoço. Lembrara-se de outra coisa. Voltou ao computador e, entre o penúltimo e o último parágrafo, inseriu:

"Há escritores que escrevem um grande livro, ou uma grande nota de suicida, e depois nunca mais conseguem escrever outro. Artribuem a um bloqueio, ao medo do fracasso. Não é nada disso. É que escrevem a nota, mas esqueceram-se de se suicidar. Passam o resto da vida sabendo que faltou alguma coisa na sua obra e não sabendo o que é. Faltou o suicídio."

Levantou-se, ficou olhando a tela do computador, depois sentou-se de novo. Digitou:

"No fundo, no fundo, a agonia é saber quando se terminou. Há os que não sabem quando chegaram ao final da sua nota de suicida. Geralmente, são escritores de uma obra extensa. A crítica elogia sua prolixidade, a sua experimentação com formas diversas. Não sabe que ele não consegue é terminar a nota."

Desta vez não se levantou. Ficou olhando para a tela, pensando. Depois acrescentou:

"É claro que o computador agravou a agonia. Talvez uma nota de suicida definitiva só possa ser manuscrita ou datilografada à moda antiga, quando o medo de borrar o papel com correções e deixar uma impressão de desleixo para a posteridade leva o autor a ser preciso e sucinto. Tese: é impossível escrever uma nota de suicida num computador."

Era isso? Ele releu o que tinha escrito. Apagou o segundo "no fundo". Era isso. Por via das dúvidas, guardou o texto na memória do computador. No dia seguinte o revisaria. E foi dormir.

***

Crônica de Luis Fernando Veríssimo publicada no livro Comédias da Vida Privada - 101 crônicas escolhidas. Porto Alegre: L & PM, 1994, p. 142-143.
FOTOGRAFIA:
/lfv - Um guia sobre o escritor Luis Fernando Verissimo

2 de jun. de 2008

Luís Fernando Verissimo [6]


Gaúchos e Cariocas


É preciso dizer que estávamos naquela brumosa terra de ninguém, que fica depois do décimo ou décimo-quinto chope. Tão brumosa que não dá mais para distinguir entre o décimo e o décimo-quinto. Tínhamos sido apresentados no começo da noite mas já éramos amigos de infância. Em poucas horas nossa amizade passara por vários estágios, desde o "leste Memórias de Adriano?" até as piores confidências, e agora nos comportávamos como confrades, como se nossa amizade fosse mais antiga que nós mesmos. Isto é, estávamos brigando.

- Vocês gaúchos...

- O que é que tem gaúcho?

- Pra mim gaúcho é tudo veado.

- Não radicaliza.

- Se tem que dizer que é macho, é porque não é.

- Lá no sul se diz que numa briga de gaúcho, paulista, mineiro e carioca, o gaúcho bate, o paulista apanha e o mineiro tenta apartar.

- E o carioca?

- Fugiu.

- Viu só? Pensam que são mais machos que os outros. Diz que as bichas cariocas estavam invadindo o seu mercado: "Voltem para o Rio. Go Home!" Aí as bichas cariocas reagiram: "Ah, é? Então tirem as gaúchas de lá."

- Está aí, fugiram. Mas isso tudo é mágoa porque são os gaúchos que mandam neste país. Vocês estão assim desde que nós amarramos os cavalos ali no obelisco.

- Aliás, essa fixação no obelisco...

- Gaúcho é o único brasileiro sério.

- Sem graça não é sério.

- Só o gaúcho fala português. Essa língua de vocês não existe. Paulista põe "i" onde não tem. Vocês falam chiando. Onde tem um "r" botam dois e onde tem dois botam quatro.

- Vocês falam espanhol errado e pensam que é português!

- Mas o que a gente diz é pra valer. Não é como carioca que diz uma coisa e quer dizer outra.

- Ah, é?

- É. Quando carioca encontra alguém, diz: "Meu querido!", quer dizer que não se lembra do nome. "Precisamos nos ver" quer dizer "está combinado, eu não procuro você e você não me procura".

- O que vocês não agüentam é que nós, cariocas, somos informais, bem-humorados...

- Isso é mito. Entra num "Grajaú-Leblon" lotado na Nossa Senhora de Copacabana, às três da tarde, no verão, que eu quero ver o bom humor.

- Não radicaliza.

- Os mitos cariocas. O Zico, por exemplo...

- Eu sabia. Eu sabia que ia chegar o Zico!

- O Zico é uma entidade abstrata criada pelo inconsciente coletivo do Maracanã.

- O Campeão do Mundo. Campeão do Mundo!

- Porque não entrou nenhum inglês no calcanhar dele. Se encosta um, o Zico cai.

- É. O bom é o Batista.

- Não troco um Batista por dois Zico.

- Ai meu Deus. Ai meu Deus!

- Outra coisa: mulher.

- Claro. Mulher. A mulher carioca não vale nada.

- Vale. Mas é sempre da mesma cor. Mulher tem que ir mudando de cor com as estações. Quando chega o verão as gaúchas vão tostando aos poucos, como carne num braseiro de chão, até estar no ponto. Só ficam prontas mesmo em fevereiro. A carioca está sempre bem passada. É como comer churrasco em bandeja.

- É. A medida de todas as coisas, para o gaúcho, é o churrasco. A comida mais sem imaginação que existe.

- Vai dizer que comida é isto que vocês comem aqui?

- Mas bá.

Eu estava levando o chope à boca e parei.

- O que foi que você disse?

- Eu? Nada.

- Você disse "mas bá".

- Não disse.

- Disse. Eu ouvi nitidamente um "mas bá".

- Está bem. Eu disse.

- De onde você é?

- Dom Pedrito.

Estava no Rio há menos de dois anos e chiava como uma locomotiva no cio. Mas não me senti triunfante. Me senti derrotado. Eu estranhara ele não ter dito: "Se você gosta tão pouco do Rio, o que é que está fazendo aqui?" Eu não poderia responder a não ser com a verdade, que era fascinado pelo Rio. Uma característica de gaúcho é que gaúcho é fascinado pelo Rio. E ali estava ele como prova que depois do fascínio vinha a rendição, a vitória carioca. Acabou a discussão. Nos despedimos e saímos, cada um cambaleando para um lado. Na saída ele ainda disse:

- Precisamos nos ver...

***

Crônica de Luis Fernando Veríssimo publicada no livro Comédias da Vida Privada - 101 crônicas escolhidas. Porto Alegre: L & PM, 1994, p. 159-161

7 de mai. de 2008


A marca da maldade

Meu primeiro contato com a maldade real, aquela que vivia fora dos limites seguros dos contos de fadas, foi com a repercussão, na época, do caso da Fera da Penha. Eu tinha meus quatro anos, a mesma idade da menina assassinada com um tiro na cabeça e posteriormente queimada pela amante do pai. As babás não falavam de outra coisa, abandonando as fotonovelas no banco da praça. Naíde, com o rádio ligado nas alturas, estendia os lençóis no quarador e me lançava faíscas verdes, pois ela perdera um olho quando mocinha e usava um próteses muito antiga de um verde intenso que capturava a atenção de seu interlocutor de maneira definitiva, de forma que não se falava com Naíde; falava-se com o olho de vidro do qual, eu agora percebo, ela sentia muito orgulho. Nunca registrei o rosto da assassina, mas a lembrança da Fera da Penha está sempre associada ao olho de vidro de Naíde, que gostava de Miltinho e de Altemar Dutra. Naqueles verões do passado, ela ia jogando a água de anil sobre o algodão estendido e me dizia, de forma implacável, que a criança podia ter sido eu. "Um tiro na cabeça e, depois, o monstro ainda tacou fogo!" Foi ali, naquele terraço perdido na Ilha do Governador, que eu descobri que os homens podiam ser maus, além do imaginável.

De modo geral, começamos a entender o conceito de maldade muito cedo na jornada. Cada vez mais cedo, numa sociedade midiática, e talvez por isso, tantos de nós voltem a experimentar a fragilidade da primeira infância, ao deparar-se com casos como o da menina Isabella, assassinada em São Paulo. Não se fala de outra coisa e eu, confesso, também não. Todos aguardamos o desfecho da história, para que possamos reassumir nossos papéis de adultos e tocar a vida, um pouco mais doloridos e bastante mais alarmados. Aprendemos, desde cedo, que o mal é castigado, assim nos informaram os cavaleiros de todas as ordens, príncipes, bruxos e reis, e a criança que há em nós é outra vez aviltada, quando vê, por exemplo, que Paula Thomaz e Guilherme de Pádua, assassinos confessos, que deram 18 tesouradas em Daniela Perez, estão por aí, certamente acreditando, como Guilherme afirmou na época, que "Daniela morreu na hora em que tinha de morrer!"

Nosso código penal precisa ser revisto. Precisamos voltar a acreditar na justiça e recuperar um pouco de auto-estima para deixar que a criança de quatro anos durma em paz. Depois, seguimos em frente, para além do futuro. Há algo de muito errado com uma sociedade incapaz de se rever. Ou incapaz de se ver, como aquela esmeralda falsa que Naíde usava no lugar do olho, já faz muito tempo.

***

Texto de Miguel Falabella, ator, dramaturgo, diretor e cineasta, publicado na revista Istoé de 30/04/2008, p. 122.
Fotografia: Homepage do ator.

4 de out. de 2007

Luis Fernando Veríssimo [5]


Receita para um casal nunca brigar


Um casal foi entrevistado num programa de TV porque estavam casados há 50 anos e nunca tinham discutido. O repórter, curioso, pergunta ao homem:

- Mas vocês nunca discutiram, mesmo?

- Não.

- Como é possível isso acontecer?

- Bem, quando nos casamos, ela tinha uma gatinha de estimação que amava muito. Era a criatura que ela mais amava na vida. No dia do nosso casamento, fomos para a lua-de-mel e ela fez questão de levar a gatinha. Andamos, passeamos, nos divertimos e a gatinha sempre conosco. Um certo dia, a gatinha a mordeu. Ela olhou bem para a gatinha e disse: "Um". Algum tempo depois, a danada da gatinha a mordeu novamente. Ela olhou para a gatinha e disse: "Dois". Na terceira vez que a gatinha a mordeu, ela sacou uma espingarda e deu uns cinco tiros na bichinha. Eu fiquei apavorado e perguntei: "Sua ignorante, desalmada, por que é que você fez uma coisa dessas, mulher?" Ela olhou para mim e disse: "Um". Depois disso, nunca mais discutimos.

***
NOTA: Não sei se este texto é mesmo do LFV! A colaboração foi da Claudíssima!!!

13 de set. de 2007

Danusa Leão [1]

Para os barrigudinhos

Meninas de todo o Brasil, tenho um conselho valioso para dar aqui: se você acabou de conhecer um rapaz, ficou com ele algumas vezes e já está começando a imaginar o dia do seu casamento e o nome dos seus filhos, pare agora e me escute! Na próxima vez que encontrá-lo, tente (disfarçadamente) descobrir como é sua barriga. Se for musculosa, torneada, estilo "tanquinho", fuja! Comece a correr agora e só pare quando estiver a uma distância segura. É fria, vai por mim.

Homem bom de verdade precisa, obrigatoriamente, ostentar uma barriguinha de chopp. Senão, não presta. Veja bem, não estou falando daqueles gordos suados, que sentam horas na frente da televisão com um balde de frango frito e que, quando se abaixam, mostram um cofre peludo. Não! Estou me referindo àqueles que, por não colocarem a beleza física acima de tudo (como fazem os malditos metrossexuais), acabaram cultivando uma pancinha adorável. Esses, sim, são pra manter por perto. E eu digo por quê.
.
Você nunca verá um homem barrigudinho tirando a camisa dentro de uma boate e dançando como um idiota, em cima do balcão. Se fizer isso, é pra fazer graça pra turma -- e provavelmente será engraçado, mesmo. Já os "tanquinhos" farão isso esperando que todas as mulheres do recinto caiam de amores - e eu tenho dó das que caem. Quando sentam em um boteco, numa tarde de calor, adivinha o que os pançudos pedem pra beber? Cerveja! Ou Coca-cola, tudo bem também. Mas você nunca os verá pedindo suco ou coca-light. Ou, pior ainda, um copo com gelo pra beber a mistura patética de vodka com "clight" que trouxe de casa.. E você não será informada sobre quantas calorias tem no seu copo de cerveja, porque eles não sabem e nem se importam com essa informação.
.
E no quesito comida, os homens com barriguinha também não deixam a desejar. Você nunca irá ouvir um “ah, amor, 'Quarteirão' é gostoso, mas você podia provar uma 'McSalad' com água de côco". Nunca! Esses homens entendem que, se eles não estão em forma perfeita o tempo todo, você também não precisa estar. Mais uma vez, repito: não é pra chegar ao exagero total e mamar leite condensado na lata todo dia! Mas uma gordurinha aqui e ali não matará seu relacionamento. Se ele souber cozinhar, então, bingo! Encontrou a sorte grande, amiga... Ele vai fazer pra você todas as delícias que sabe, e nunca torcerá o nariz quando você repetir o prato. Pelo contrário, ficará feliz.

Outra coisa fundamental: homens barrigudinhos são confortáveis! Experimente pegar a tábua de passar roupas e deitar em cima dela. Pois essa é a sensação de se deitar no peito de um musculoso besta. Terrível! Gostoso mesmo é se encaixar no ombro de um fofinho, isso que é conforto. E na hora de dormir de conchinha, então? Parece que a barriga se encaixa perfeitamente na nossa lombar, e fica sensacional. Homens com barriga não são metidos, nem prepotentes, nem donos do mundo. Eles sabem conquistar as mulheres por maneiras que excedem a barreira do físico. E eles aprenderam a conversar, a ser bem humorados, a usar o olhar e o sorriso pra conquistar. É por isso que eu digo que homens com barriguinha sabem fazer uma mulher feliz.


Danusa Leão
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FONTE: web e arquivo pessoal (imagem)
: )

Luis Fernando Veríssimo [3]

Autóctone

A menina atirou o lápis sobre o caderno e ficou olhando para a rua. Era um belo dia de outono e ela precisava escrever uma composição com a palavra "autóctone". Era um dia perfeito de outono e ela precisava ficar ali e escrever uma composição com a palavra autóctone. E para o dia seguinte.

Autóctone.

Aquilo não era uma palavra, era um empacamento, um solavanco verbal. Uma frase com "autóctone" devia ter avisos desde o começo, como os que colocam nas estradas antes de curvas perigosas ou defeitos na pista: "Cuidado, autóctone adiante". Quem chegasse a "autóctone" sem estar preparado arriscava-se a capotar-se e cair fora do texto. "Autóctone" era uma ameaça para leitor desavisado. "Autóctone" devia ser proibido. Ainda mais num dia de outono.

O que queria dizer "autóctone"?

Autóctone, autóctone...

Aurélio!

Autóctone. (Do gr. "autóchton" pelo lat. "autochtone". Adj. 2 g.) 1. Que é oriundo da terra onde se encontra...

Meu Deus... pensou a menina. Eu sou uma autóctone! Vivi todo este tempo sem saber que era uma autóctone.

-- Minha filha -- diria sua mãe. -- Que cara é essa?

Cara de autóctone. Não ia poder disfarçar. Confessaria para a sua melhor amiga, a Maura.

-- Descobri uma coisa horrível a meu respeito.

-- O quê? Conta!

-- Eu sou um autóctone.

-- Não!

-- Sou.

-- E isso pega?

-- Não faz diferença. Você também é uma autóctone.

-- EU?

Mas depois de descobrir o que era "autóctone" Maura daria um pulo de alegria, a nojenta.

Eu não sou. Eu não nasci aqui!

A menina faria a amiga jurar que não contaria para ninguém que ela era uma autóctone.

Autóctone.

Como é que alguém podia usar aquela palavra numa frase? Uma pessoa nunca mais era a mesma depois de dizer "autóctone". A vida terminava de um lado e começava do outro lado da palavra "autóctone". A menina suspirou. O dia ficava cada vez mais lindo e a folha de caderno à sua frente ficava cada vez mais vazia. Autóctone. Um cachorro oriundo da terra em que se encontrava, seria um au-autóctone?

Que bobagem. Precisava pensar. Precisava encher a folha do caderno. teve uma idéia. Escreveu: "A pessoa pode ser autóctone ou não autóctone, dependendo do lugar onde estiver".

Leu o que tinha escrito e depois acrescentou: "Tem gente que emigra só para não ser autóctone".

Depois apagou tudo. A professora, obviamente, queria uma composição a favor de "autóctone", não contra.

Começou outra vez:

"Nós, os autóctones..."

***

NOTA: Não tenho a referência mais apurada deste texto! Eu o recebi em um curso ministrado pela profª Ingedore Köch (Lingüística Textual), da Unicamp, em um congresso de Lingüística. Muuuuuuito interessante o que a profª Koch falou sobre a visão do ensino, o que se "espera" da criança em termos de reprodução ideológica em sala de aula, o que é ensinado como "certo" na relação com a língua e o que se estabelece entre a criança e a possibilidade da apreensão textual, seja na leitura, na interpretação ou na produção, desde muito cedo. Como sempre, "n" questionamentos sobre o papel da escola...

30 de ago. de 2007

Luis Fernando Veríssimo [2]

Lingüiças calabresas

-- Alô?
-- Quem fala?
-- Quem quer saber?
-- Quem é, por favor?
-- Diga você quem é.
-- O Dr. Márcio está?
-- Quem quer saber?
-- Está ou não está?
-- Depende.
-- Depende do quê?
-- De quem quer saber.
-- É o...
-- Espere! Qual é o assunto?
-- O assunto é com o Dr. Márcio.
-- Pode dizer pra mim.
-- Mas quem é você?
-- Primeiro me diga quem é você.
-- Aqui é o...
-- Não use seu nome verdadeiro!
-- Por quê?
-- Use um pseudônimo.
-- Que história é essa? Por que pseudônimo?
-- Podem estar gravando.
-- Quem?
-- E eu sei?
-- Dr. Márcio... é o senhor?
-- Não. Meu nome é... deixa ver... Balduíno.
-- Você se chama Balduíno?
-- Claro que não. É pseudônimo. Invente um também.
-- Isto é ruidículo.
-- Eu vou desligar.
-- Está bem! Frajola.
-- "Frajola"?!
-- Jaime! Jaime!
-- Muito bem, Jaime. E qual é o assunto?
-- É com o Dr. Márcio.
-- Pode me dizer que eu transmito pro Márcio. Que também é um pseudônimo, claro.
-- "Márcio" não é o nome do Dr. Márcio?
-- Depende do assunto.
-- É sobre o pacote que ele encomendou do...
-- Espere! Não fale assim tão claramente. Use linguagem figurada.
-- Linguagem figurada?
-- É. Em vez de pacote, diga coisa. Não, "coisa" pode ser mal interpretada. Diga "encomenda".
-- A encomenda que ele encomendou do...
-- Não diga o nome!
-- Por quê?!
-- Não queremos incriminar ninguém.
-- Mas não há crime algum!
-- Isto vai depender da interpretação. Esta conversa já está pra lá de suspeita.
-- Eu só queria avisar ao Dr. Márcio que as lingüiças chegaram.
-- As lingüiças. Boa, boa.O pseudônimo de "encomenda".
-- Não, são lingüiças mesmo.
-- Um pacote de lingüiças?
-- É. Calabresas. Que o Dr. Márcio encomendou do... De alguém.
-- Já entendi! Já entendi tudo. Você é que está gravando este telefonema. Esta conversa toda é para me incriminar. Ou incriminar o Márcio. Pseudônimos. Linguagem figurada... Já vi tudo! Amanhã ela sai no Jornal Nacional e é óbvio que "pacote de lingüiças calabresas" vai parecer código.
-- Mas foi você que sugeriu os pseudônimos, a linguagem figurada, o...
-- Arrá! Vocês não me pegam. Nego tudo. Aliás, nem sou eu falando. Provem que sou eu.
-- Quer saber de uma coisa, seu Balduíno? Pra mim chega. O recado está dado. As lingüiças chegaram. Passe bem.
-- Espere. Agora me lembro. As lingüiças que eu encomendei. Calabresas. Claro, claro. Me lembrei.
-- É o senhor, Dr. Márcio?
-- É. Claro, claro, sou eu. Desculpe. Sabe como é. A gente vai ficando meio paranóico...

***
Crônica de Luis Fernando Veríssimo, extraída do jornal O Estado de São Paulo, p. D18, Cultura, 17/06/2007.

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