Creio que não existe nada de mais belo, de mais profundo, de mais simpático, de mais viril e de mais perfeito do que o Cristo; e eu digo a mim mesmo, com um amor cioso, que não existe e não pode existir. Mais do que isto: se alguém me provar que o Cristo está fora da verdade e que esta não se acha n'Ele, prefiro ficar com o Cristo a ficar com a verdade. (Dostoievski)

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8 de jan. de 2014

a crítica selvagem e a selvageria acrítica

Sim, gente, tudo bem. O homem tem uns textos interessantes. Não li os livros porque achei alguns de uma chatice ímpar. Como diz Jorge Luis Borges, citando Montaigne: "eu diria que a literatura é [...] uma forma de alegria. Se lemos algo com dificuldade, o autor fracassou. Por isso, acho que um escritor como Joyce fracassou, em sua essência, já que sua obra requer esforço para ser lida. Um livro não deve exigir esforço: a felicidade não deve exigir esforço". 

E quando eu digo chatice não quero dizer "complexidade". Quero dizer chatice, mesmo. Já li muito livro "complexo", de raciocínio bastante elaborado, de Filosofia da Linguagem, Linguística, Semiótica. E penso que quase todos eram apaixonantes, interessantes, instigantes como enigmas prontos a serem desvendados. Mas os livros desse senhor me parecem chatos mesmo, com uma certa pretensão àquilo que eu chamo de "profundidez", uma mistura de profundidade com sordidez intelectual. Sim, ele escreve textos bons, de vez em quando. Reconheço sem nenhum problema. Mas alguns outros são chatos. Só isso, chatos. 

E tenho dificuldade para engolir a figura sempre fumando, nos vídeos, e declamando amorosamente três palavrões em cada cinco vocábulos de uma oração. Não, não dá. Não acho engraçado, não amenizo, não busco a compensação: "Ah, ele fala palavrão, mas em compensação..." Não, não há compensação nenhuma. Uma pessoa que não consegue se expressar com o mínimo de compostura não compensa. Volto a preservar a face: sim, ele tem ideias com as quais eu concordo. Sim, ele escreve coisas muito boas. Sim, ele deve ser inteligente. Mas agora volto à carga: não, eu não tenho a menor paciência pra ouvir os maravilhosos programas nos quais ele mostra sua superior superioridade sobre todos os demais mortais que não pensam como ele. "Ah, então você é de esquerda!" Não, não sou. Eu sou é independente de grupos. Eu penso com o meu próprio cérebro. Eu não tenho necessidade de me afirmar admirando fulano, beltrano e sei lá mais quem. Já saí da adolescência, então a turma não é, digamos, uma necessidade. Não penso em bloco. Não faço parte de escola de samba. Então não tenho medo de fazer crítica a ninguém. A ninguém, certo? Porque para mim só há um Deus (e até Ele sabe que de vez em quando eu reclamo do que Ele anda fazendo, com todo o respeito). Mais: não gosto de astrologia, não gosto de islamismo, não gosto de palavrão, não sou católica (com todo o respeito). Então só por aí há divergências. E ponto. 

Também não aprovo o tom bastante arrogante (mas esse não é um privilégio dele, somente) com que se expressa. Toda crítica que faz é arrogante, é feita num tom próprio de quem deseja não apenas criticar, mas escarnecer. De quem pretende não só expor suas ideias, mas precisa humilhar o adversário para que elas sejam validadas. Não gosto do tom histriônico, quase histérico, com que afirma suas certezas. Não aprovo o desprezo com que fala de seus opositores. Aliás, o desprezo com que fala do Brasil e dos brasileiros. É o que eu digo sempre: senhor gênio, por que ainda não dá aulas em Oxford, a fim de abandonar de vez esses pobres selvagens que jamais estarão à altura de seu brilhantismo intelectual? Mas não: é daqui que o gênio sagaz tira seu sustento. Vende seus livros no Brasil. Seus programas são vistos aqui. Seus artigos são publicados em jornal brasileiro. Seus alunos, que pagam um preço alto para fazer seus cursos de Filosofia, saem daqui.

Relutei em escrever este texto. Conheço pessoas que concordam comigo em muito do que eu disse, mas não ousam criticá-lo. Eu não ousei nominá-lo. Todos sabem que o senhor tem uma torcida organizada, fãs ardorosos, alunos aplicados e uma tropa de choque fiel. Criticá-lo pode significar perder amizades virtuais, receber o desprezo de muitos e a incompreensão de outros tantos. Mas, que me entendam, não se trata de uma questão emocional. Faço uma crítica sincera e pondero, reconhecendo tanto as qualidades inegáveis de seu trabalho quanto seus defeitos crônicos. Se alguém que me lê agora realmente não é um idiota, deve compreender.

Por fim, meu apelo. Senhor, se tem certeza de que está certo, fale calmamente, decorosamente, respeitosamente. Não insulte o outro. Use a ironia na boa medida -- assim como ela pode ser uma aliada, pode também se tornar uma inimiga impiedosa. Mas agora entro particularmente na questão do estilo literário, e não tenho paciência para fazer essa análise neste momento. Já deu. Ah, sim: quanto ao cigarro, de que falei logo acima. É certo, o fumo faz mal e deixa a pessoa fedendo, e sei disso porque já fumei. Mas isso não é problema meu.

1 de ago. de 2011

Tentação totalitária, por Luis Felipe Pondé



Você se considera uma pessoa totalitária? Claro que não, imagino. Você deve ser uma pessoa legal, somos todos.

Às vezes, me emociono e choro diante de minhas boas intenções e me pergunto: como pode existir o mal no mundo? Fossem todos iguais a mim, o mundo seria tão bom... (risadas).

Totalitários são aqueles skinheads que batem em negros, nordestinos e gays.

Mas a verdade é que ser totalitário é mais complexo do que ser uma caricatura ridícula de nazista na periferia de São Paulo.

A essência do totalitarismo não é apenas governos fortes no estilo do fascismo e comunismo clássicos do século 20.

Chama minha atenção um dado essencial do totalitarismo, quase sempre esquecido, e que também era presente nos totalitarismos do século 20.

Você, amante profundo do bem, sabe qual é? Calma, chegaremos lá.

Você se lembra de um filme chamado "Um Homem Bom", com Viggo Mortensen, no qual ele é um cara legal, um professor universitário não simpatizante do nazismo (o filme se passa na Alemanha nazista), e que acaba sendo "usado" pelo partido?

Pois bem. Neste filme, há uma cena maravilhosa, entre outras. Uma cena num parque lindo, verde, cheio de árvores (a propósito, os nazistas eram sabidamente amantes da natureza e dos animais), famílias brincando, casais se amando, cachorros correndo, até parece o Ibirapuera de domingo.

Aliás, este é um dos melhores filmes sobre como o nazismo se implantou em sua casa, às vezes, sem você perceber e, às vezes, até achando legal porque graças a ele (o partido) você arrumaria um melhor emprego e mais estabilidade na vida.

Fosse hoje em dia, quem sabe, um desses consultores por aí diria, "para ter uma melhor qualidade de vida".

E aí, a jovem esposa do professor legal (ele acabara de trocar sua esposa de 40 anos por uma de 25 - é, eu sei, banal como a morte) o puxa pelo braço querendo levá-lo para o comício do partido que ia rolar naquele domingão no parque onde as famílias iam em busca de uma melhor qualidade de vida.

Mas ele não tem nenhuma vontade de ir para o comício porque sente um certo "mal-estar" com aquilo tudo. Mas ela, bonita, gostosa, loira, jovem e apaixonada (não se iluda, um par de pernas e uma boca vermelha são mais fortes do que qualquer "visão política de mundo"), diz: "Meu amor, tanta gente junta querendo o bem não pode ser tão mau assim".

É, meu caro amante do bem, esta frase é uma das melhores definições do processo, às vezes invisível, que leva uma pessoa a ser totalitária sem saber: "Quero apenas o bem de todos".

Aí está a característica do totalitarismo que sempre nos escapa, porque ficamos presos nas caricaturas dos skinheads: aquelas pessoas, sim, se emocionavam e choravam diante de tanta boa vontade, diante de tanta emoção coletiva e determinação para o bem.

Esquecemos que naqueles comícios, as pessoas estavam ali "para o bem".

Se você tem absoluta certeza que "você é do bem", cuidado, um dia você pode chorar num comício achando que aquilo tudo é lindo e em nome de um futuro melhor.

E se essa certeza vier acompanhada de alguma "verdade cientifica" (como foi comum nos totalitarismos históricos) associada a educadores que querem "fazer seres humanos melhores" (como foi comum nos totalitarismos históricos) e, finalmente, se tiver a ambição política, aí, então, já era.

Toda vez que alguém quiser fazer um ser humano melhor, associando ciência (o ideal da verdade), educação (o ideal de homem) e política (o ideal de mundo), estamos diante da essência do totalitarismo.

O que move uma personalidade totalitária é a certeza de que ela está fazendo o "bem para todos", não é a vontade de destruir grupos diferentes do dela.

Primeiro vem a certeza de si mesmo como agente do "bem total", depois você vira autoritário em nome desse bem total.

O melhor antídoto para a tentação do totalitarismo não é a certeza de um "outro bem", mas a dúvida acerca do que é o bem, aquilo que desde Aristóteles chamamos de prudência, a maior de todas as virtudes políticas.

Não confio em ninguém que queira criar um homem melhor.

***

Luiz Felipe Pondé, especial para a Folha.

6 de dez. de 2010

luiz felipe pondé


A atitude conservadora, que não é defesa irracional do passado, significa o cuidado com nossa história cognitiva, emocional e intelectual

1. REACIONÁRIO é um termo comum em assembléias e bares. Visa tornar a vítima inelegível para jantares inteligentes, aniquilando a sua vida acadêmica. Pensamento, sensibilidade e ceticismo são termos mais afeitos à crítica que supera os vícios da medrosa utopia moderna. Paralisado diante do que desconhece, o medo moderno prefere reduzir essa atitude a seus fantasmas infantis: fogueiras da inquisição, fé cega e obscurantismo medieval. Erra, como todo preconceituoso, pois a discussão se dá estritamente no campo da razão e da defesa do comércio livre de idéias. A atitude conservadora -que não é uma defesa irracional do passado- significa o cuidado com nossa história cognitiva, emocional e intelectual contra a tendência totalitária do irracionalismo moderno, que detesta a realidade e decide modificá-la à luz da teoria que melhor apetece às suas pequenas manias inconfessáveis.

2. Esse irracionalismo fracassado delira com um mundo a partir de teorias de gabinete e suas reconstituições abstratas da realidade. O homem utilitarista de mercado, a metafísica marxista, o radical progressista, a asfixia burocrática, o gozo instrumental, a álgebra psicopolítica, todos estrangulam a experiência humana.

3. O pensamento religioso é mais sábio do que os ídolos dos últimos 200 anos que criaram fórmulas de perfectibilidade para nossa risível Babel. Filosofia, ciência e religião devem fundamentar a formação dos mais jovens. A relação entre razão e infelicidade é empírica, a relação entre razão e felicidade é ideal. Contrariamente ao pensamento mágico que se crê científico, reconhecer a sabedoria da religião nada tem a ver com a contradição moderna entre razão e fé, pois tal oposição já é fruto de má filosofia.

4. A natureza humana não é passível de redução a abstrações e deve ser olhada com respeito e temor: somos agressivos, banalmente interesseiros, às vezes santos. A "educação" - engenharias pedagógicas de última geração - nunca conseguirá "inventar" o homem ético abstrato. Contra o sonho da publicidade psicossocial, razão e emoção não fundam valor. Nem se deduz avanço a partir dos clichês da crítica social. Crítica e virtude não são necessariamente irmãs gêmeas. Formação é um conceito mais sofisticado do que os manuais de felicidade social podem ensinar. A conduta humana é em muito fruto de processos que transcendem a especulação racional e deitam raízes no passado ancestral. Prudência, delicadeza e tremor devem nos guiar na formação.

5. O "puritano" moderno ama o homem abstrato e detesta a multiplicidade intratável que sangra. Facilmente ele se torna um pregador sem a contrapartida da piedade, que apenas aqueles que se sabem maus podem, talvez, contemplar.

6. Para além do mapa astral e do acúmulo do capital, um problema estrutural do humano é o orgulho desmedido e reativo contra sua evidente condição de sombra, silenciosamente contemplada no espelho e nos hospitais ao longo da banalidade das horas. Responsabilizar prioritariamente o contexto pela desgraça humana é uma mentira científica e tagarela.

7. Todo governo é opressor. O que impede que sua forma invisível esmague o indivíduo são as instâncias intermediárias de poder entre ele e o Estado, que jamais deve ser um agente moralizador. O pior Estado é aquele que cria valores. A importância da Idade Média, entre outras coisas, está na falta de uniformidade das instâncias de poder, mas o irracionalismo moderno só conhece a Idade Média dos iluministas e do cinema. A democracia corre o risco de se alimentar de mediocridade em nome da igualdade e da eficácia.

8. Mudanças pontuais e prudentes contra a agonia humana são bem-vindas, mas não a partir de teorias sociais ou psicológicas gerais. Nossa perigosa espécie acumulou ao longo dos milênios um delicado equilíbrio contra o risco contínuo de autodestruição. Não podemos crer nas engenharias psicossociais de almas afoitas em fundar um paraíso para seres com tão grande vocação para a mentira como nós.

9. Um traço cognitivo moderno é seu hábito metafísico inconsciente. Por exemplo, não existe tal coisa denominada "A liberdade", mas apenas lugares onde o governo, a mídia e as outras pessoas não podem entrar quando são indesejáveis.

10. Mais do que idéias, e contra o narcisismo dos vivos, o que nos humaniza é o convívio com os mortos e com os que ainda não nasceram.

LUIZ FELIPE PONDÉ, 47, filósofo e teólogo, é professor da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) e da da Faap (Fundação Armando Álvares Penteado). É autor, entre outras obras, de "O Homem Insuficiente".

18 de nov. de 2009

por que são apoiados os gays? por olavo de carvalho

Como não cabe ao analista político dizer às pessoas o que devem ou não devem fazer nas suas vidas privadas, nunca escrevi uma linha a favor ou contra as práticas homossexuais ou qualquer outra conduta erótica existente ou por inventar. Escrevi, sim, contra o movimento gay como fórmula ideológica e projeto de poder. Isso bastou para que eu fosse rotulado de “homofóbico” vezes sem conta. Conclusão: se estivesse em vigor a lei maldita que o nosso Parlamento quer aprovar, eu iria para a cadeia por conta de opiniões políticas. 

Na verdade a lista de atitudes humanas puníveis como “homofóbicas” é bem variada. Ela abrange: 

1. Citações da Bíblia ou de livros sagrados de qualquer religião que façam objeções morais ao homossexualismo. 

2. Opiniões médicas, psiquiátricas e psicoterapêuticas que ponham em dúvida, de maneira mais ou menos explícita, a sanidade da conduta homossexual. Isso inclui obras clássicas de Freud, Adler, Szondi, Frankl e Jung, entre outros. 

3. Manifestações pessoais de repulsa física ante o homossexualismo, emoção tão espontânea e irreprimível quanto o próprio desejo homossexual. (Inversa e complementarmente, a repulsa do homossexual pela sexualidade hetero, ou até por variantes homossexuais que não coincidam com a sua, como por exemplo a repulsa dos gays machões pelos travestis e transexuais, não apenas será considerada lícita mas estará sob a proteção da lei, condenando-se como “homofóbica” toda objeção que se lhe apresente ou, mais ainda, toda tentativa de reprimi-la. Ou seja: o direito à repulsa sexual será monopólio exclusivo da comunidade gay.) 

4. Expressões verbais populares, de uso espontâneo e irreprimível, consideradas depreciativas e anti-homossexuais. 

5. Piadas e gracejos que mostrem a conduta homossexual sob um ângulo risível. 

6. Opiniões políticas contrárias aos interesses do movimento gay, que já são e serão cada vez mais necessariamente interpretadas como adversas aos direitos da comunidade homossexual. 

7. Análises sociológicas, históricas ou estatísticas que ponham em evidência qualquer conduta negativa da comunidade gay. Essas análises já estão praticamente excluídas do universo cultural decente. A lei vai proibi-las por completo. 

8. Qualquer resistência que um pai ou mãe de família oponha à doutrinação homossexual de seus filhos nas escolas ou à participação deles em grupos e entidades homossexuais. 

9. Qualquer tentativa de impedir ou reprimir, por atos ou palavras, as expressões públicas de erotismo gay, discretas ou ostensivas, moderadas ou extremas, mesmo diante de crianças ou em lugares consagrados ao culto religioso. 

10. Qualquer observação casual, feita no escritório, na rua ou mesmo em casa (se houver testemunhas) que possa ser considerada desairosa aos homossexuais ou ao movimento gay. Isso inclui a simples expressão de satisfação que um cidadão possa ter por ser heterossexual.

A lei, enfim, criminaliza e pune com pena de prisão inumeráveis condutas consideradas normais, legítimas, aceitáveis e até meritórias pela quase totalidade da população brasileira. E não pensem que ficará no papel. Neste momento já estão sendo organizados grupos de olheiros – espalhados primeiro nas escolas, depois em toda parte – para vigiar, delatar e punir os dez tipos de conduta acima assinalados. 

As conseqüências mais que previsíveis da aprovação dessa lei são tão portentosas e ilimitadas que a maioria dos cidadãos tem dificuldade de concebê-las, limitando-se a apreender por alto suas aparências mais superficiais e patentes, se não a tratar o assunto com leviana indiferença. Mas essas conseqüências podem ser resumidas da seguinte maneira: Com um só golpe de caneta, um grupo militante organizadíssimo, fartamente subsidiado do Exterior, associado aos partidos de esquerda e agindo em consonância com a estratégia geral que os orienta, terá conquistado uma quantidade de poder policial discricionário tão vasta e ameaçadora quanto se poderia obter mediante um golpe de Estado ou uma revolução. Dotado do aparato jurídico necessário para aterrorizar toda oposição, reduzi-la a um silêncio humilhante, marginalizá-la e torná-la socialmente inoperante, esse grupo terá se tornado, nas mãos da aliança esquerdista que nos governa, mais um poderoso instrumento de controle social e político somando-se à polícia fiscal, à ocupação do território pelos “movimentos sociais”, ao domínio hegemônico sobre as instituições de cultura e ensino, às campanhas policiais soi disant moralizantes que só atingem sempre os desafetos da esquerda ou bandos criminosos menores, politicamente inócuos, jamais os agentes das Farc, os verdadeiros grão-senhores do crime no continente, cada vez mais ostensivamente protegidos pelo establishment petista. 

Na verdade, o movimento gay não precisou esperar pela aprovação da lei para fazer sentir o peso das suas ambições policialescas sobre os que ousaram contestar sua pretensa autoridade. O assédio judicial a D. Eugênio de Araújo Sales (v.http://www.olavodecarvalho.org/semana/040724globo.htm), os esforços de gayzistas e simpatizantes para destruir a carreira, a família e até a alma do escritor Júlio Severo, a repetição do mesmo procedimento contra o pastor catarinense Ademir Kreuzfeld (v.http://www.juliosevero.blogspot.com/ ), mostram que não faltam armas à elite gay para perseguir, amedrontar e marginalizar seus adversários, quanto mais para defender-se dos perigos imaginários que a ameaçam. A nova lei é material bélico excedente, só utilizável em eventuais demonstrações de força perfeitamente supérfluas. 

Que tão avassaladora ascensão do autoritarismo seja necessária para proteger os pobrezinhos homossexuais contra piadas, gracejos e citações da Bíblia é um argumento tão risível que somente um idiota completo ou um mentiroso desavergonhado poderia fazer uso dele num debate sério. 

Pior ainda é a alegação de violência contra os homossexuais. Já expliquei o que o simples uso do termo “homofóbico” contra os adversários do movimento gay tem de maquiavélico, de perverso, de criminoso (http://www.olavodecarvalho.org/semana/070523dce.html). Mas ao delito semântico acrescenta-se ainda a perversão aritmética. Entre os cinqüenta mil brasileiros assassinados anualmente, o movimento gay não tem conseguido apontar mais de dez ou doze indivíduos que o teriam sido – se é que o foram – por motivos “homofóbicos”. Pretender que a fúria anti-homossexual seja um fato social alarmante e epidêmico, necessitado de legislação especial e drástica, é nada mais que uma farsa cínica, um estelionato parlamentar que, houvesse na política brasileira um pingo de racionalidade e decência, custaria a seus autores a perda do mandato por falta de decoro, por uso indevido do Congresso como instrumento para servir a ambições grupais injustificáveis. 

Muito maior que o número de vítimas fatais da “homofobia” é o de homossexuais assassinos, um fato óbvio que a mídia esconde sistematicamente, reforçando o engodo legislativo com a fraude jornalística. E digo que é óbvio por um motivo ainda mais óbvio. Não sendo racionalmente aceitável que a porcentagem de homossexuais seja muito diferente entre os criminosos e a população honesta, a alegação usual do movimento gay de que esta última quota é de cinco a dez por cento nos levaria necessariamente a alguns milhares de homossexuais assassinos, sem contar os homossexuais ladrões, os homossexuais traficantes e, evidentemente, os homossexuais chantagistas parlamentares. 

Mas nem esse cálculo seria preciso para desmascarar a fachada protetiva com que a lei se apresenta. Um dos traços mais salientes do movimento gay é seu esforço de combater a discriminação onde ela não existe e de ignorá-la por completo onde existe. No Irã o homossexualismo é punido com a pena de morte. Vocês já viram a liderança gay organizar um protesto internacional contra isso? Ao contrário, ela se alia às demais forças de esquerda para defender a ditadura dos aiatolás contra o “imperialismo ianque”. Em Cuba os homossexuais e travestis são considerados casos de polícia, e quando pegam Aids são isolados para sempre da sociedade. A elite gayzista não apenas se abstém de protestar contra esse tratamento desumano, mas também não quer que ninguém proteste. Recentemente, um documentário sobre a condição humilhante dos homossexuais em Cuba foi excluído de um festival em Nova York – por exigência da militância gay . 

Em compensação, nos EUA e na Europa ocidental, onde os gays têm um lugar privilegiado na sociedade e a prática do homossexualismo é uma tradição elegante entre o beautiful people pelo menos desde a década de 20 do século passado, o clamor por legislações que criminalizem toda crítica à conduta homossexual vem num tom de quem advogasse medidas de emergência para salvar a comunidade gay de um genocídio iminente. 

No Brasil -- uma das sociedades mais permissivas do planeta, onde homossexuais declarados ocupam cadeiras no Parlamento sob aplausos gerais, onde as vovós assistem a shows de travestis na TV junto com seus netinhos e onde um espetáculo público de carícias lésbicas entre a esposa de um governador e a de um ministro não suscita o menor escândalo na mídia --, a gritaria “anti-homofóbica” dá a impressão de que os homossexuais estão sendo abatidos a tiros, nas ruas, por um exército de talibãs cristãos. 

Ao longo das últimas décadas, à medida que toda resistência moralista à conduta homossexual cedia lugar à compreensão generosa e à aceitação incondicional, as reivindicações do movimento gay no Ocidente vieram num crescendo, exigindo primeiro a equiparação moral de suas práticas com o casamento heterossexual, depois o ensino do homossexualismo nas escolas infantis, por fim as penas da lei para padres, pastores e rabinos que citem os versículos da Bíblia contrários ao homossexualismo. 

O contraste entre discurso e realidade é patente: o movimento gay cresce em arrogância, virulência e pretensões ditatoriais à medida que a sociedade se torna mais tolerante, simpática e subserviente às exigências da comunidade homossexual. Quem diria que a inversão sexual, com tanta freqüência, viesse junto com a inversão mental? 

Basta observar esse fenômeno para perceber imediatamente que a alegação característica do discurso gay , de proteger uma comunidade oprimida, é apenas uma camuflagem, um véu ideológico estendido por cima de objetivos bem diferentes, incomparavelmente mais ambiciosos. 

Uma pista para a compreensão efetiva do fenômeno são os grupos de intelectuais, políticos e artistas homossexuais, tremendamente poderosos e influentes, que marcaram a história política e cultural do século XX com o culto da supremacia gay . Três deles são particularmente importantes: o círculo de Stefan George na Alemanha, o de André Gide na França e, na Inglaterra, a confraria dos “Apóstolos” de Cambridge. Em cada um dos três casos, a militância pública – sempre do lado errado, nazista ou comunista – encobria uma dimensão mais profunda e mais sinistra, de seita gnóstica empenhada em subjugar a humanidade comum a uma elite homossexual imbuída de um senso de superioridade quase divina. 

Voltarei ao assunto quando possível. Por enquanto, basta dizer o seguinte: o atual movimento gay é a materialização possante e assustadora de um projeto de revolução civilizacional que, a pretexto de proteger oprimidos, não hesita em entregá-los às feras quando isso convém à sua grande estratégia. Que esse projeto seja apenas um desenvolvimento específico dentro do quadro maior do movimento revolucionário mundial é algo tão óbvio que não necessita ser enfatizado. Mas, por absoluta incompreensão desse ponto, os adversários do movimento gay, quase sem exceção, têm cometido dois erros monstruosos. 

Primeiro: Combatem, junto com o movimento, a homossexualidade em si. Politicamente , isso é loucura. O movimento gay existe há algumas décadas e só em alguns lugares do planeta; o homossexualismo existe por toda parte desde que o mundo é mundo. O primeiro pode ser derrotado; o segundo não pode ser eliminado. Condicionar a vitória sobre o movimento gay à erradicação do homossexualismo é adiar essa vitória para o Juízo Final. 

Segundo: Procurando atenuar a má impressão de autoritarismo dogmático que essa atitude inevitavelmente suscita, apressam-se a declarar que respeitam os direitos dos gays e que desejam apenas preservar, lado a lado com eles, os direitos da consciência religiosa. Com isso, igualam o inigualável, negociam o inegociável, nivelam a liberdade de consciência a uma “opção sexual”, à preferência por determinado tipo de prazer erótico. Será preciso lembrar a esses cavalheiros que, privado de satisfação erótica, o ser humano sofre alguma incomodidade, mas, desprovido da liberdade de consciência, perde o último resquício de dignidade, o sentido da vida e a razão de existir? 

Em suma: são intransigentes onde deveriam ceder, cedem onde deveriam ser intransigentes, inflexíveis e até intolerantes. Não há nada de mais em aceitar o homossexualismo como uma realidade social que não pode ser erradicada e que, se deve ser combatida, é com todos os cuidados necessários para não ferir e humilhar pessoas. Em contrapartida, tratar como igualmente nobres e respeitáveis o mais elevado princípio da moralidade e o simples direito legal de fazer determinadas coisas na cama é uma inversão hedionda da hierarquia lógica e moral, é uma desobediência acintosa ao Primeiro Mandamento, cuja implicação mais óbvia é o dever incondicional de colocar as primeiras coisas primeiro. Se os adversários do movimento gay querem a proteção de Deus na sua luta, deveriam começar por não ofendê-Lo dessa maneira. 

Da minha parte, afirmo que defenderia por todos os meios ao meu alcance o direito que os homossexuais têm de que sua preferência sexual não lhes custe humilhações ou constrangimentos. Mas, tão logo uma dessas criaturas pretendesse igualar ou sobrepor esse direito à liberdade de consciência, da qual ele próprio não é senão uma decorrência lógica aliás bem remota e secundária, eu lhe responderia, na mais polida das hipóteses, com as seguintes palavras: 

-- Cale a boca, burro. Não me peça para respeitar um direito que você mesmo, embora talvez sem se dar conta, está pisoteando com quatro patas. 

***
Publicado originalmente no jornal Diário do Comércio, em 04/06/2007.
FONTE: http://www.somosportugueses.com/

***

LEIA TAMBÉM:

olavo de carvalho explica a militância esquerdista gay

VALE A PENA reservar dez minutos de seu tempo para ouvir o que diz Olavo de Carvalho sobre a "militância gay"... Ouça...

26 de jan. de 2009

semiótica tensiva



Este (curto) vídeo traz o Prof. Luiz Tatit (professor e compositor de mão cheia), da USP, falando sobre a Semiótica Tensiva e a relação Semiótica-Linguística. Ele faz uma crítica leve aos greimasianos empedernidos e aponta a Semiótica Tensiva de Eric Landowski e Claude Zilberberg (entre muitos outros) como um caminho que volta a Saussure. E toca num ponto deveras dolorido para linguistas e semioticistas: muitos semioticistas não são linguistas, o que talvez faça Saussure se revirar no túmulo.

Para ver e ouvir os vídeos, vá primeiro à caixa Maya_musique e clique em "pause". Depois venha aqui e clique em "play". A primeira passagem nunca é boa, experimente ver a segunda.




Este segundo vídeo traz uma entrevista com o Prof. Claude Zilberberg. A entrevista continua em mais seis vídeos postados no Youtube, cujos links seguem abaixo. Neste primeiro vídeo o Prof. Zilberberg, que esteve no Brasil no ano passado, para conferências em São Paulo e no Rio de Janeiro, fala de uma de suas grandes paixões, a obra do escritor francês Paul Valéry. O entrevistado fala da lógica explicativa de Valéry, entremeando-a com termos da teoria semiótica, da escrita perfeita de Valéry e coteja prosa e poesia, afirmando que na língua francesa a primeira lhe parece superior. Claude Zilberberg também fala da proximidade do pensamento de Paul Valéry com a Semiótica, especialmente com as categorias da Semiótica Tensiva. Vale a pena assistir.

Continuação:

parte 2: http://br.youtube.com/watch?v=k09xie3j9Lw&feature=related

parte 3: http://br.youtube.com/watch?v=rURdJ263IvQ&feature=related

parte 4: http://br.youtube.com/watch?v=LRot2RXvoYo&feature=related

parte 5: http://br.youtube.com/watch?v=DZg5rAF5EyY&feature=related

parte 6: http://br.youtube.com/watch?v=Idmr5aLDSCk&feature=related

O professor Zilberberg também tem um site dedicado à Semiótica Tensiva: http://www.claudezilberberg.net/

Informe-se!

:)

9 de ago. de 2008

Roland Barthes [2]


Astrologia

Parece que na França o orçamento anual da "bruxaria" é de aproximadamente 300 bilhões de francos *. Vale a pena dar uma olhada na semana astrológica de um semanário como, por exemplo, o Elle. Ao contrário do que se poderia esperar, não se depara com nenhum mundo onírico, mas sim com uma descrição estreitamente realista de um meio social preciso, o das leitoras do jornal. Ou seja, a astrologia não é, de modo algum, pelo menos nesse caso, uma abertura para o sonho, mas puro espelho e pura instituição da realidade.

As principais rubricas do destino (Sorte, No exterior, Em sua casa, O seu coração) produzem escrupulosamente o ritmo total da vida laboriosa. A unidade é a semana, na qual a "sorte" designa um dia ou dois. A "sorte" é aqui a zona reservada da interioridade, do humor; é o signo vivido do devir, a única categoria pela qual o tempo subjetivo se exprime e se liberta. No que diz respeito ao resto, os astros só condicionam um horário: No exterior, é o horário profissional, os seis dias da semana, as sete horas por dia no escritório ou na loja. Em sua casa, é a refeição da noite, o lapso do serão antes de deitar. O seu coração é o encontro à saída do trabalho ou a aventura de domingo. Mas não existe a mínima comunicação entre estes setores: nada que, de um horário a outro, possa sugerir a idéia de uma alienação total; as prisões são contíguas, revezam-se, mas não se contaminam. Os astros nunca postulam uma destruição da ordem e exercem a sua influência, moderadamente, semana após semana, respeitando o estatuto social e os horários patronais.

Assim, o "trabalho" considerado é o de empregadas, datilógrafas ou vendedoras; o microgrupo que rodeia a leitora é, quase fatalmente, o do escritório ou o da loja. As variações impostas, ou melhor, propostas pelos astros (pois esta astrologia é uma teologia prudente: não exclui o livre-arbítrio), são fracas; nunca pretendem perturbar intensamente uma vida: o peso do destino exerce-se unicamente sobre o gosto pelo trabalho, o nervosismo ou o bem-estar, a assiduidade ou o relaxamento, as pequenas deslocações, as promoções indefinidas, as relações acrimoniosas ou de cumplicidade com os colegas e, sobretudo, a fadiga, os astros prescrevendo sempre com muita insistência e bom senso que se durma mais, sempre mais.

O lar, por sua vez, é dominado por problemas de humor, de hostilidade ou de confiança do meio: trata-se freqüentemente de um lar de mulheres, onde as relações mais importantes são as de mãe e filha. A casa pequeno-burguesa está, pois, fielmente presente, com as visitas da "família", distinta da dos "parentes por afinidade", pelos quais, aliás, as estrelas não parecem ter muita consideração. Este ambiente parece quase exclusivamente familiar, fazendo-se poucas alusões aos amigos. O mundo pequeno-burguês, sendo essencialmente constituído por parentes e colegas, não comporta verdadeiras crises de relacionamento, mas apenas pequenos afrontamentos de humor e vaidade. O amor é o do Correio Sentimental: um "setor" bem à parte, o das questões sentimentais. Mas, assim como a transação comercial, o amor conhece "inícios prometedores", "desilusões" e "escolhas erradas". A infelicidade tem uma fraca amplitude: numa semana, um cortejo de admiradores menos numeroso, uma indiscrição, ciúmes sem fundamento. O céu sentimental só se descobre verdadeiramente e por completo perante a "solução tão desejada", o casamento, e, mesmo assim, é preciso que seja "adequado".

Um só traço idealiza esse pequeno mundo dos astros, no restante muito concreto: o fato de nunca se falar em dinheiro. A humanidade astrológica não se preocupa com o salário mensal: ele é o que é, nunca sendo mencionado, visto que permite a "vida". Vida que os astros descrevem mais do que predizem; raramente se arrisca o futuro, e a previsão é sempre neutralizada pelo equilíbrio dos possíveis: se houver fracassos, serão pouco importantes, se houver rostos sombrios, o seu bom humor irá alegrá-los; as relações maçantes serão úteis etc. e, se o seu estado geral deve melhorar, isto acontecerá depois de um tratamento que tiver realizado ou talvez graças também à ausência de qualquer tratamento (sic).

Os astros são morais; deixam-se comover pela virtude: a coragem, a paciência, o bom humor e o controle de si próprio são sempre convenientes perante as desilusões timidamente pressagiadas. E o paradoxo é que esse universo de puro determinismo é imediatamente domado pela liberdade do caráter: a astrologia é, antes de mais nada, uma escola da força de vontade. Porém, mesmo se as soluções são pura mistificação e se os problemas de comportamento são escamoteados, a astrologia continua sendo uma instituição do real perante a consciência das suas leitoras: não um caminho para a evasão, mas sim uma evidência realista das condições de vida da empregada, da vendedora etc.

Para que serve, pois, essa pura descrição, visto que não parece comportar nenhuma compensação onírica? Serve para exorcizar o real, nomeando-o. Nessa perspectiva, situa-se entre todos os empreendimentos de semi-alienação (ou de semilibertação) que se encarregam de objetivar o real, sem, no entanto, chegar a desmistificá-lo. Pelo menos uma outra dessas tentativas nominalistas é bem conhecida: a Literatura, que nas suas formas degradadas nunca pode ir além da nomeação do vivido; astrologia e Literatura compartilham a mesma tarefa de instituição "retardada" do real: a astrologia é a Literatura do mundo pequeno-burguês.

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*Texto escrito em 1956.
Texto de Roland Barthes, publicado em Mitologias.

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Mais:


Formado em Letras Clássicas em 1939 e Gramática e Filosofia em 1943 na Universidade de Paris, fez parte da escola estruturalista, influenciado pelo lingüista Ferdinand de Saussure. Crítico dos conceitos teóricos complexos que circularam dentro dos centros educativos franceses nos anos 50. Entre 1952 e 1959 trabalhou no Centre national de la recherche scientifique - CNRS.

Barthes usou a análise semiótica em revistas e propagandas, destacando seu conteúdo político. Dividia o processo de significação em dois momentos: denotativo e conotativo. Resumida e essencialmente, o primeiro tratava da percepção simples, superficial; e o segundo continha as mitologias, como chamava os sistemas de códigos que nos são transmitidos e são adotados como padrões. Segundo ele, esses conjuntos ideológicos eram às vezes absorvidos despercebidamente, o que possibilitava e tornava viável o uso de veículos de comunicação para a persuasão.

Principais Obras
O grau Zero da Escrita (
1953)
Mitologias (
1957)
Elementos da Semiologia (
1965)
O sistema da moda (
1967)
S/Z (
1970)
Roland Barthes por Roland Barthes (
1975)
Fragmentos de um Discurso Amoroso (
1977)
A câmara clara (
1980)

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FONTE: Wikipédia

27 de jul. de 2008

Khalil Gibran El Khalil


Então disse um homem rico: Fala-nos do Doar.
E ele respondeu:
Doas pouco quando doais vossas posses.
Só quando doais a vós mesmos é que doais verdadeiramente.
Pois o que são vossas posses além de coisas que mantendes e guardais por medo de precisá-las amanhã?
E amanhã, o que trará o amanhã ao cão excessivamente prudente que enterra ossos na amplidão do deserto ao seguir os peregrinos para a cidade sagrada?
E o que é o medo da necessidade se não a própria necessidade?
Não é o medo da sede, quando vosso poço está cheio, a sede que é insaciável?
Há aqueles que dão pouco do muito que possuem - e eles doam em busca de reconhecimento e é seu desejo secreto que torna suas dádivas corruptas.
E há aqueles que têm pouco e doam tudo.
Estes são os que acreditam na vida e na generosidade da vida, e seus cofres nunca estão vazios.
Há aqueles que doam com alegria, e esta alegria é a sua recompensa.
E há aqueles que doam com dor, e esta dor é o seu batismo.
E há aqueles que doam e não sentem dor ao dar, nem buscam alegria, nem dão pensando em virtude;
Eles doam como no longínquo vale o mirto exala sua fragrância no espaço.
É através dessas mãos que Deus fala, e é por detrás de seus olhos que Deus sorri sobre a terra.
Está certo doar quando se é solicitado, mas é melhor dar mesmo sem necesidade de pedir, através da compreensão;
E para o generoso, buscar por alguém que receberá é uma alegria maior do que doar.
E existe algo que vós guardaríeis?
Algum dia, todos vós serão doados;
Portanto, doais agora, pois o momento da doação será vosso e não de vossos herdeiros.
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Dizeis com freqüência: "Darei, mas apenas aos que merecem".
As árvores do vosso pomar não dizem isso, nem os rebanhos em vossas pastagens.
Eles dão para viver, pois guardar é perecer.
Certamente, aquele que merece receber seus dias e suas noites merece receber todo o resto de vós.
E aquele que mereceu beber do oceano da vida merece encher seu cálice no vosso pequeno riacho.
E haverá maior deserto do que há na coragem e na confiança, e não na caridade, de receber?
E quem sois vós para que homens rasguem seu peito e desvelem seu orgulho para que possais ver seu valor desnudo e seu orgulho exposto?
Observai primeiro se vós mesmos mereceis ser um doador, e um instrumento de doar.
Pois, na verdade, é a vida que doa à vida - enquanto que vós, que vos considerais doadores, sois apenas testemunhas.
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E vós, que recebeis - vós todos sois os que recebeis -, não carregai nenhum peso de gratidão, excetro para sujeitara vós mesmos e àquele que doa.
Em vez disso, elevai-vos junto com o doador sobre suas dádivas como se sobre asas;
Pois ficar preocupado demais com sua dívida é duvidar da generosidade daquele que tem a terra generosa como mãe e Deus como pai.
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Trecho de O Profeta, do libanês Khalil Gibran El Khalil.
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2 de jun. de 2008

segunda opinião




Quem come quem


A luta pela "identidade nacional" na cultura brasileira tem sido uma longa comédia de erros. Enquanto nossos vizinhos buscavam sabiamente fortalecer os laços que os uniam à cultura hispânica de origem, lutávamos obsessivamente para cortar toda nossa raiz lusitana. Se é verdade que "pelos frutos os conhecereis", está na hora de admitir que apostamos no cavalo errado. De um lado, há perfeita continuidade de Perez Galdós a Jorge Luís Borges, de Unamuno a Octavio Paz, enquanto entre nossos literatos (para não falar de estudantes de letras) não se encontrará um só que, lendo Camilo Castelo Branco, não esgasgue a cada linha, intimidado por um vocabulário que com apenas um século de idade se tornou impenetrável mistério antediluviano. De outro lado, o idioma espanhol se afirma poderosamente como língua de cultura mundial, enquanto o português vai perdendo terreno aqui dentro mesmo, acossado pelo barbarismo midiático, manietado pelos fiscais politicamente corretos, açoitado pelos feitores da incorreção obrigatória.

Um efeito cíclico da nossa obsessão identitária é que, quanto mais nos afastamos da nossa raiz autêntica lusitana, mais temos de tomar emprestada a seiva alheia, seja francesa ou americana, e mais a nossa sonhada autenticidade se torna uma caricatura do estrangeiro. E o motivo disto é bem evidente: recusando-nos a desenvolver formas e estilos a partir de uma tradição lingüística própria, não nos resta alternativa senão rebaixar-nos a fornecedores de matéria-prima. Já no Romantismo, nós entrávamos com os papagaios e os coqueiros, Chateaubriand com a fórmula literária. Ora, em literatura, a forma é tudo: cor local, temas, cenários e documentarismo lingüístico contribuem menos para definir a nacionalidade de uma obra do que o faz a forma interna, esta sim, inconfundivelmente americana ou russa, inglesa ou lusa. A narrativa ágil e quase jornalística dos romances de Hemingway é sempre americana, quer a história se passe em Paris ou se adorne de acento espanhol. Imitada em francês, em malaio ou em urdu, permanece americana, pela força da matriz lingüistica onde foi gerada como solução americana para problemas expressivos americanos. Mais nos valeria, pois, ter desenvolvido a novela camiliana, mesmo que fosse em histórias passadas na África ou no planeta Marte, do que adaptar os temas nacionais ao modelo proustiano ou ao realismo socialista, ainda que temperados de gíria baiana ou mineira. O primado da forma, a sujeição da matéria, são leis inescapáveis, em literatura como em tudo o mais: "Quando o coelho come alface, é a alface que vira coelho, não o coelho que vira alface", resume Jean Piaget. Cobras e índios no molde literário de Apollinare não são cultura brasileira: são o delírio de um turista francês, intoxicado de cauim. O segredo da brasilidade autêntica do teatro de Ariano Suassuna não está nos temas, comuns a tantas obras epidermicamente nacionalistas, nem na imitação da linguagem popular, obrigação dogmática que se tornou cacoete: está em que a fórmula estrutural de suas peças não se inspirou em Sartre ou Brecht, e sim nos autos medievais lusitanos. Suassuna não é brasileiro porque come coco, mas porque digere a fruta local no estômago da tradição lusa. A forma é tudo. E um candomblé na Sorbonne não é sincretismo brasileiro: é a antropologia francesa engolindo o Brasil.
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Mais fez pela brasilidade do romance um Machado de Assis, criando com assunto urbano e em português castiço a fórmula inédita das Memórias Póstumas (não há por que exgerar a influência de Sterne), do que dezenas de imitadores de Zola narrando histórias de escravos com sintaxe de cangaceiro. Uma nova fórmula vale mil assuntos. Ser brasileiro, para um romancista, é integrar a experiência — local ou mundial, pouco importa — numa chave intelectual e estética criada por nós segundo as nossas necessidades, e não integrar materiais locais e trejeitos lingüísticos regionais numa tradição narrativa francesa ou inglesa. É uma simples questão de quem come quem.

O protesto de Evaldo Cabral de Melo, de que só povos complexados se preocupam com a própria identidade, pode ser aceito como um exagero corretivo, mas continua exagero. A obsessão germanizante de um povo em luta com o complexo de inferioridade gerou Hermann e Dorothea e a filosofia de Fichte, Schelling e Hegel. E a afirmação xenófoba do russismo contra a hegemonia franco-germânica produziu Dostoiévski, Soloviev e Lossky. Abençoada neurose!

Nosso erro não está em buscar uma identidade. Está em três fontes de engano, nas quais bebemos compulsivamente há mais de um século. Primeira: revoltamo-nos sempre contra o dominador errado. Escravos da Inglaterra, continuávamos a nos bater contra o extinto domínio português. Intoxicados de francesismo, esforçávamo-nos por expelir de nosso ventre os últimos resíduos da herança portuguesa. E hoje, paralisados sob as patas do império mundial anglófono, encenamos ainda um ridículo Ersatz de rebeldia, não anti-anglo-saxônica e sim antilusitana, jogando bombas ideológicas contra a "língua dos dominadores", como se o FMI fosse presidido por Cândido de Figueiredo e a Gramática Metódica de Napoleão Mendes de Almeida fosse a Carta da ONU. Vista sob esse prisma, nossa pretensa busca de independência não é senão afetação e disfarce para encobrir nosso compulsivo puxa-saquismo, nossa incoercível devoção ao poder mais forte, nossa renitente hipnose de botocudos ante os prestígios internacionais do momento.

A segunda coisa: acreditamos demais na mágica besta do popular, do local, do costumeiro e corriqueiro. Achamos que falando de coisinhas do nosso dia a dia e imitando a fala do povo seremos nacionais, quando a força da criação nacional não está na sua matéria, muito menos no populismo do seu estilo, e sim na originalidade das soluções estéticas e intelectuais que, uma vez bem sucedidas, se transformam em soluções e modelos para outros escritores de outras nações. Dostoiévski não representa o gênio russo porque fala da Rússia ou porque imita a fala dos russos, mas porque inventou, desde a Rússia, um sistema de enfoques narrativos que desde então se tornou necessário para todos nós, seja para falarmos da Rússia, seja de nós mesmos. A originalidade de uma literatura nacional é enfim uma só e mesma coisa que a originalidade criativa de seus escritores, a qual por sua vez não é senão a capacidade de dar respostas sérias a ansiedades autênticas. E, quando isto falta, não há documentarismo, populismo ou automacaquice lingüística que o substitua.
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A terceira fonte de engano é a perpétua confusão que fazemos entre o universal e o atual. Achamos que, para integrar-nos na cultura mundial, temos de acompanhar o debate que se desenrola entre os povos mais ricos e supostamente mais cultos. Nunca nos ocorre a hipótese de que, no curso desse debate, esses povos possam ter perdido o fio da sua própria tradição cultural, de que possam estar reduzidos à mais profunda incompreensão de si mesmos, de que possam estar mergulhados numa inconsciência que só um maluco suicida desejaria imitar. Tomamos sempre os povos importantes de hoje como se fossem os únicos intérpretes autorizados da tradição ocidental (para não dizer mundial), e nos recusamos a lançar um olhar direto e sem fiscais sobre um passado que eles mesmos, tantas vezes, confessam já não compreender mais. Quem nos garante que, examinando por nossa conta a antigüidade greco-romana, a cristandade medieval, a remota herança dos povos orientais, não seremos capazes de descobrir aí certos tesouros que foram esquecidos pelo establishment cultural euro-ianque ou que mesmo escaparam completamente ao seu horizonte de visão? Quem, que autoridade, que dogma inabalável nos reduz à condição de herdeiros indiretos que só podem ler Marco Aurélio com os olhos de Renan, Parmênides com os de Heidegger ou Aristóteles com os de Jaeger? Quem nos arrebata o privilégio de desfrutar diretamente de uma herança que não pertence só aos povos ricos e que os povos ricos tantas vezes desprezaram, traíram, aviltaram e perderam? Quem nos assegura que a linha de evolução intelectual da Europa moderna foi a única ou a melhor possível que poderia ter-se desenvolvido a partir do legado medieval e antigo? Por que embarcar na paralisante suposição apriorística de que não podemos descobrir aí novos e inéditos desenvolvimentos? Por que fazer da história intelectual européia o modelo paradigmático e inescapável da sucessão dos tempos? Por que repetir, como um disco rachado, que as coisas não poderiam ter sido de outro modo e recusar-nos a experimentar outros modos possíveis? Por que não podemos escandalizar e chacoalhar a empáfia dos usurpadores, lendo Heidegger através de Parmênides, Nietzsche através de Sócrates, a modernidade através da Idade Média? Por que não podemos, em vez de medir o passado com a régua dos senhores do dia, julgar os senhores do dia à luz das sementes cujo máximo e perfeito desenvolvimento eles, sem a mínima prova, asseguram representar? Por que não nos atravemos a provar que as antigas sementes, plantadas em terra nova, podem dar melhores e mais doces frutos do que as ideologias européias, o comunismo, o fascismo, duas guerras mundiais e a presente degradação intelectual do mundo?
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Não fomos só nós que caímos na esparrela de abdicar de uma herança que nos pertence. Os portugueses, inferiorizados por não acompanhar pari passu o pensamento moderno, acabaram se esquecendo daqueles fantásticos filósofos de Coimbra, mestres de Leibniz, que em pleno século XVI já pensavam em economia de mercado e física probabilística, saltando três séculos sobre a ilusão mecanicista cujo prestígio, tão invejado pelos ìluministas lusos, só fez atrasar o desenvolvimento das ciências e inspirar, na política, os frutos mais letais do estatismo centralizador. Até hoje Portugal, como um príncipe bêbado que se imaginasse mendigo, atribui suas desventuras ao fato de não ter tido seu Voltaire ou seu Rousseau, quando seu único erro foi o de esquecer-se de si, o de não conseguir olhar seu próprio passado senão no espelho enganoso da modernidade alheia.
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Por ironia, justamente nisso continuamos imitando servilmente Portugal. Iludidos pelo dogma de que o presente abrange todo o passado — quando por definição nenhum conjunto de fatos esgota o possível —, recusamo-nos a receber o legado das grandes épocas e continuamos mendigando às portas da mediocridade européia (e americana) atual. Barramos assim nosso acesso a uma verdadeira universalidade e continuamos nos agitando em vão na falsa alternativa cíclica do estrangeirismo e do localismo, ora em formato puro, ora ressurgida sob o disfarce do elitismo e do populismo.
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Reincide no engano —só para dar um exemplo recente — o livro de Marcos Bagno, Preconceito Lingüístico. O Que É, Como Se Faz (1), ao assumir a defesa do mais entrópico laissez-faire gramatical contra toda tentativa de conservar a unidade da norma culta, abominada como mecanismo de exclusão social e opressão dos pobrezinhos. Adornando de terminologia técnica uma argumentação que no fundo não passa do habitual apelo ao ressentimento populista contra os adeptos do purismo vernáculo, supostamente também senhores do capital — ai, meu Sacconi! —, o autor nem de longe dá sinal de perceber que, afrouxada a norma portuguesa, o que haverá de predominar não será o democratismo igualitarista das falas populares, autoneutralizantes por sua multiplicidade mesma, e sim a influência ordenadora da norma anglo-americana, ocupando substitutivamente — e usurpatoriamente — o lugar da regra vernácula. Isso aliás já vem acontecendo, como se vê pela alarmante disseminação do uso de palavras portuguesas montadas segundo uma sintaxe inglesa — "amanhã estarei indo viajar" —, o que já não é mais a corriqueira assimilação de vocábulos estrangeiros e sim precisamente o contrário de uma assimilação: é uma adaptação do material nacional à forma dominante estrangeira, é ser assimilado, é fazer o papel da alface na fisiologia do coelho. Toda cultura nacional é um vasto sistema de incorporações, no qual manifestações isoladas e locais vão se integrando numa unidade superior, e isto acontece com a língua tanto quanto com as idéias. Se, no topo, esse movimento não encontra um critério de unidade que lhe seja próprio, ele logo se amolda a um de fora, preferindo antes ser assimilado do que voltar à dispersão de onde partiu. Se o prof. Bagno fosse um agente consciente do imperialismo, pretendendo dissolver a nossa unidade lingüistica para lhe sobrepor a americana, seu livro seria obra de inteligência, mista de maquiavelismo. Mas não: ele é apenas mais um esquerdista doido, desses que, ansiosos para expressar sua miúda revolta imediatista e cega, não sabem a quem servem em última instância e aliás não querem nem saber: falam o que lhes dá na telha e, de tempos em tempos, constatam, mais revoltados ainda, que tudo deu errado e seu mundo caiu.
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Para cúmulo de inconsciência, o prof. Bagno, citando indevidamente Aristóteles, proclama que sua obra é política, quando a política para o Estagirita é o cuidado do bem comum, isto é, a vigilância sobre os rumos da sociedade como um todo, e nunca a adesão parcialista a exigências de grupos ou classes, defendidas como se valessem por si e sem o mínimo exame das conseqüências que seu atendimento possa produzir sobre o corpo da sociedade integral. Para os meninos da Febem ou para o lavrador de Ponta Grossa, pode ser bom ou pelo menos cômodo, a curto prazo, que os deixem escrever como falam, sem subjugá-los à uniformidade da norma. Subjetivamente, eles talvez se sintam, assim, menos excluídos. Mas, objetivamente, aí sim é que estarão excluídos, aprisionados na sua particularidade e sem acesso à conversação das classes cultas. Tudo depende de saber se preferimos enfraquecê-los pela lisonja ou fortalecê-los pela disciplina. Há nisso uma escolha moral que os amigos do povo preferem não enxergar. E se, levando as opiniões do prof. Bagno às últimas conseqüências, as próprias classes cultas desistirem da norma unitária e, para não passar por preconceituosas ante o olhar malicioso dos ressentidos, adotarem como obrigatória a entropia populista, então das duas uma: ou a entropia arrastará na sua voragem o pouco de possibilidade de diálogo racional que ainda resta neste país, ou então uma norma substitutiva acabará por se impor, e ela certamente virá da rede das telecomunicações, cujo idioma e padrão é o inglês. Qualquer das duas coisas será indiscutivelmente boa, mas para os Estados Unidos. E, se me perguntarem se o que é bom para os Estados Unidos não é bom para o Brasil, direi, de novo, que é uma simples questão de quem come quem. (2)
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NOTAS

(1) São Paulo, Loyola, 1999.

(2) Erros idênticos aos do Prof. Bagno já podiam ser encontrados, com um ano de antecedência, em Por Que (Não) Ensinar Gramática na Escola, de Sírio Possenti, professor da Unicamp (Campinas, Mercado de Letras, 2ª impressão, 1998. As idéias de Bagnos e Possentis vêm fazendo as cabeças — isto é desfazendo os cérebros — da maioria dos estudantes de Letras neste país.
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Texto do filósofo Olavo de Carvalho, publicado em seu site, Sapientiam Autem Non Vincit Malitia.
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NOTA: Há trechos dos livros do prof. Marcos Bagno (UnB) e do prof. Sírio Possenti (Unicamp) postados aqui no Blog. Para acessá-los, clique na tag "Lingüística", logo abaixo...
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Esclareço que procuro postar opiniões diferentes e divergentes das minhas aqui no Blog, a fim de criar um discurso, no conjunto das postagens, dialógico, polifônico e também lúdico. Por isso, posto aqui este texto do prof. Olavo de Carvalho, que, com todo o respeito, como lingüista é um bom filósofo.

agenda



CASA DE CULTURA CONVIDA
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Palestra: A beleza sob a ótica de Schiller: um diálogo com a modernidade
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O objetivo desta palestra é abordar a visão do filósofo e dramaturgo Schiller (1759-1805), que considera a beleza como pedra fundamental de sua teoria estética e traçar alguns paralelos acerca das relações entre beleza, razão, sensibilidade e o homem fragmentado em um universo globalizado.
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Palestrante: Cláudia Matos Pereira, professora universitária formada em Artes pela UFJF. É Mestre em Ciência da Religião (UFJF-2007) e dedica a sua vida às Artes Plásticas, principalmente à pintura. Aprofundou seus estudos nos âmbitos da arte, filosofia, religião e desenvolveu sua dissertação com o tema "Schiller e a arte: a beleza como elevação do homem rumo ao absoluto". No meio acadêmico, atua como professora de Artes há 13 anos em escolas, e como professora universitária em disciplinas da área de Recursos Humanos, na qual é pós-graduada.

Dia: 4 de junho de 2008, quarta-feira;
Horário: 20h;
Local: Anfiteatro da Casa de Cultura.
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27 de mai. de 2008

eu tenho um sonho

Trecho da entrevista de Raimundo César Barreto Júnior, salvadorense, doutor em ética social pelo Seminário Teológico de Princeton, EUA, professor e pastor Batista, dada à revista Ultimato. A entrevista versou, sobretudo, sobre Martin Luther King e seu legado.
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Ultimato - Os historiadores dizem que o ensaio do americano Henry David Thoreau sobre o dever da desobediência civil, a política pacifista do indiano Mahatma Gandhi e a teologia exisatencialista do alemão Paul Tillich exerceram grande influência sobre o jovem Luther King. Como o senhor vê essa tríplice influência?
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Raimundo César - Antes de comentar essa tríplice influência, devo lembrar que a mais marcante influência no pensamento do dr. King foi a tradição profética da igreja negra (Black Church) nos Estados Unidos. Não podemos entender Luther King se perdermos isso de vista. Ele é fruto dessa tradição, na qual se vê totalmente imerso, como neto, filho e genro de pastores batistas negros. A Black Church é tida como a mais importante instituição dos negros norte-americanos, pois foi a primeira instituição fundada por eles, onde estavam fora dos auspícios e da vigilância dos brancos. Por isso, todas as lutas por direitos civis e sociais, especialmente no sul do país, tiveram a igreja como base. Quando Rosa Parks foi presa, causando comoção à população negra de Montgomery, no Alabama, foi numa igreja que os líderes negros da cidade se reuniram e tomaram a decisão de fazer um boicote ao sistema de transporte público, que durou mais de onze meses. Foi nesse contexto que Luther King foi escolhido como porta-voz do movimento, aos 26 anos, tornando-se, assim, o seu líder até o seu assassinato, treze anos depois. Por outro lado, ele foi um estudioso. Fez doutorado numa excelente universidade, entrando em contato com diversas escolas de pensamento. Uma de suas características era a preocupação de pôr os pensamentos que lhe impactavam em suas leituras em diálogo com sua realidade. A capacidade de traduzir conceitos abstratos numa linguagem compreensível pelas pessoas mais simples lhe possibilitou funcionar como um intelectual orgânico, catalisando em torno do movimento pessoas de todas as classes. O pensamento de Henry David Thoreau foi uma importante influência nesse contexto, pois forneceu a King o conceito de desobediência civil, que ele passou a usar como estratégia das suas lutas. A idéia de que há um imperativo moral que nos obriga à não-cooperação com o mal foi chave para ele. Todos os passos dados por King na liderança do movimento foram fundamentados numa boa dose de reflexão. Ao liderar, por exemplo, boicotes, ele queria deixar claro que estava usando meios justos para alcançar um fim justo. Influenciado por Thoreau e Tomás de Aquino, ele concluiu que temos o dever moral de obedecer a leis justas, mas quando se trata de uma lei injusta, que viola a dignidade humana, somos chamados a resisti-la. Paul Tillich foi outra influência importante sobre King; afinal, ele escreveu sua tese de doutoramento sobre Tillich. A principal influência talvez tenha vindo de um livro em que Tillich relaciona os conceitos de amor, justiça e poder. Tillich enxergava o amor como fundação do poder, não sua negação. Essa concepção da relação entre amor e poder se tornou essencial no pensamento de King. Além do mais, Tillich afirmava a primazia de Deus sobre todas as outras coisas no universo, o que certamente contribuiu para o conceito de "companhia cósmica" desenvolvido por King, quando afirmava que aquele que luta pela justiça nunca está sozinho, tem companhia cósmica. Ele dizia que o arco do universo é longo, mas se inclina na direção da justiça. Essa primazia do divino cointribuiu muito para os momentos mais críticos e desesperadores da caminhada. Gandhi também exerceu forte influência sobre King através de sua estratégia de resistência não violenta, inspirada no conceito de satyagraha, força da verdade ou força da alma, em diálogo com os ensinamentos de Jesus no Sermão do Monte. Para Gandhi, a força física dos opressores deveria ser enfrentada com a força da verdade daqueles que lutam por justiça. King viu nesse método a aplicação prática da doutrina cristã do amor de uma maneira que ele nunca tinha encontrado em nenhum pensador cristão. Foi nesse contexto que ele afirmou: "Jesus me deu a inspiração e Gandhi me deu o método". King acreditava que por trás de todas as coisas existe uma força benevolente no universo, um Deus justo e amoroso. Sendo assim, a sua luta deveria se dirigir na direção da realização desse propósito amoroso. As armas de sua luta deveriam ser coerentes com esse propósito. O amor se transformava em instrumkento de transformação social. A resistência não violenta significava o compromisso de nunca atingir a dignidade humana do oponente, de resisitir aos sistemas injustos sem, porém, se permitir descer ao ponto de odiar o próximo, mesmo que ele estivesse do outro lado da luta sendo travada. É interessante como Gandhi, não-cristão, teve uma percepção acurada dos ensinamentos de Jesus. King percebeu isso. Perguntado certa vez sobre qual seria o maior inimigo do cristianismo na Índia, Gabdhi teria respondido: os cristãos!
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Trecho da entrevista dada pelo pastor e professor de Teologia dr. Raimundo César Barreto, à revista Ultimato, ano XLI, n. 312, maio/junho 2008, p. 4-48.

FOTOGRAFIA: Web
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Os grifos em negrito são nossos.

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