Creio que não existe nada de mais belo, de mais profundo, de mais simpático, de mais viril e de mais perfeito do que o Cristo; e eu digo a mim mesmo, com um amor cioso, que não existe e não pode existir. Mais do que isto: se alguém me provar que o Cristo está fora da verdade e que esta não se acha n'Ele, prefiro ficar com o Cristo a ficar com a verdade. (Dostoievski)

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26 de ago. de 2014

Carta a um morto

Senhor Jackson Lago,

Sempre quis escrever esta carta. Devo confessar. Sei que agora o senhor está morto, mas se estivesse vivo provavelmente também não a leria. Aliás, como vai? Espero que me desculpe pela ousadia. Perguntar "como vai?" a um morto pode parecer ironia ou desrespeito, mas de fato me interesso pela sua vida. Desculpe-me, pela sua pós-vida. Mas não vou tentar adivinhar onde o senhor está. Isso não é comigo. Acima de tudo, peço que o senhor não se ofenda com esta missiva. Afinal, o senhor foi um homem público. Foi eleito governador do Maranhão – com a ajuda do meu voto, diga-se de passagem.

Primeiro, devo dizer que nutria pela sua pessoa grande admiração. Não só por sua figura austera, que me inspirava e me dava esperança de dias melhores, como também por sua destacada atuação no que se costumava chamar de “oposição”, aqui neste velho e surrado Estado do Maranhão. Oposição a um grupo que está no poder há mais de 50 anos. Essa oposição unia o senhor, políticos de diferentes origens e matizes ideológicos, profissionais de áreas diversas, cidadãos pobres, meio pobres, mais ou menos e também muitos ricos, artistas, pensadores, poetas e, provavelmente, o dono do Cuscuz Ideal. Mas há outra razão. Minha avó Maria Amélia, por quem nutro um amor filial e terno, muitas vezes me contou que tomou conta do senhor, ainda criança, em Pedreiras. Ela, já mocinha, conhecia sua família e por vezes cuidava de lhe trocar as fraldas. Suponho que dela o senhor não se lembre. Nem de mim, aliás.

Mas falemos de política. Há uma estranha e nociva inversão de valores em todos os lugares e áreas deste vasto mundo (talvez não na Nova Zelândia, mas este assunto fica para a próxima carta). Os eleitos para trabalhar pelo e para o povo se tornam pequenos monarcas, dignos de toda pompa e circunstância. Quando erram, tornam-se avessos a toda espécie de crítica. Com isso, não temos elegido servidores do povo, mas reis, rainhas, tiranos, semideuses.
   
Quando o senhor se candidatou ao Governo do Estado, após três felizes passagens  pela Prefeitura de São Luis, houve choro e ranger de dentes no grupo que ocupava o poder. E houve uma imensa alegria do lado de cá, daqueles que se diziam oposição, por um Maranhão mais livre, mais solto, mais crocante e com sabor original. Tive um lampejo de esperança de que finalmente – finalmente! – iríamos deixar o atraso decorrente de anos a fio de domínio político familiar nestas paragens. Mas descobri, também com seu Governo, que é muito difícil ter esperança no Estado do Maranhão. Em 2006, vi em sua candidatura uma oportunidade singular de darmos fim à letargia política deste pobre Estado. Não só eu. Em meu trabalho, a Universidade Estadual do Maranhão, colegas professores e funcionários e estudantes uniram-se pelo objetivo comum de elegê-lo governador. Não havia um só estudante que não declarasse, orgulhosamente, esperançosamente, o voto em sua candidatura. O senhor sabe, os professores universitários quase sempre acham que têm uma clarividência política que os demais mortais não têm. Pensam assim porque estudaram mais que a média da população, leram mais que a média, analisaram mais a situação política e debateram mais que a média. Ledo engano. Terrível engano.

Pois bem. Votei no senhor em 2006. Durante sua campanha, levava em meu carro, um Celta preto, 1.0, sua bandeira. Fui a um de seus comitês e pedi que soldassem, na parte traseira do carro, um suporte para que ela ficasse constantemente ali, tornando pública minha opção política e fazendo propaganda de sua candidatura. Também colei nos vidros do carro adesivos com seu nome e número (o 12!). Além disso, tinha o CD com aquela musiquinha “é 12, é 12, é 12, é 12...” e, ao sair de carro, os vidros abertos – pois não tinha ar condicionado – escutava-a no volume mais alto. Tenho o CD ainda hoje. Fiz campanha para o senhor como pude. Ganhei os votos que pude. Conversei com os colegas que encontrei pela frente, os amigos, os parentes, a fim de convencê-los de que o senhor era – enfim! – a solução. Sobretudo para a Universidade Estadual do Maranhão, tão empobrecida, carente de recursos, desvalorizada. Pensei que a Uema floresceria em seu Governo. Não só a universidade, mas toda a rede pública de Educação, que vive sempre dias de agonia em um Estado que apresenta os piores índices educacionais do Brasil.

Em 2007, entretanto, seu Governo propôs o PL 080/2007, transformado na Lei 8.592/2007, de 24/04/2007, pela Assembleia Legislativa do Maranhão. A Lei foi chamada por nós e pelos maranhenses de “Lei do Cão”. O senhor se lembra? Os vencimentos dos professores e de outras categorias do funcionalismo público seriam transformados em “subsídios”.  O que é um subsídio? Ora, o senhor deveria saber. Segundo o Artigo 39 da Constituição Federal, é a "forma de remuneração atribuída a membros de Poder,  detentores de mandato eletivo, ministros de Estado e Secretários Estaduais  e Municipais, fixado em parcela única, sobre a qual é vedada o acréscimo  de qualquer gratificação, adicional, abono, prêmio, verba de representação  ou outra espécie remuneratória..." E por que nós, professores, ficamos tão revoltados, senhor Jackson Lago? Porque com essa Lei o senhor acabou com várias gratificações e adicionais, que foram  transformados em "vantagens pessoais congeladas".

Na época, fizemos uma Carta à sociedade explicando as razões de nosso movimento, o porquê de termos de paralisar as aulas, de termos de ir às ruas, de termos sido obrigados a ir contra o governador pelo qual tanto havíamos lutado. Segundo a nossa Carta, vale lembrar, senhor Jackson, que sua lei:

  • Congelou a gratificação por titulação, adicional por tempo de serviço e percentual de insalubridade, todos transformados em “vantagens pessoais”;
  • Extinguiu a condição Especial de Trabalho e o Adicional de Risco de Vida que incidiam 100% sobre o salário dos servidores técnico-administrativos. Foram extintos, e seriam substituídos por "serviço extraordinário", em valores também congelados (ref. março/2007);
  • Substituiu "vencimento" por subsídio, que vedava a agregação de quaisquer vantagens, feria o sistema meritocrático que fundamenta a carreira universitária, o que poderia ter resultado na evasão de cérebros e inibido a absorção de novos cientistas e técnicos altamente qualificados;
  • Proporcionou insegurança jurídica se as "vantagens pessoais" seriam levadas para a aposentadoria;
  • Impôs dificuldades na elaboração e negociação dos novos Planos de Carreiras, Cargos e Salários, com o conceito de "subsídio".

Quero continuar a citar a Carta, que ajudei a escrever e revisei. Mais do que outro documento, é ela que diz como foi o tratamento que recebemos do senhor, na época. Sigamos:

“Para os trabalhadores da Uema, professores e técnicos administrativos, que têm salários ancorados em ‘vencimento’, o regime de subsídios sepulta o sistema meritocrático e do aperfeiçoamento científico que fundamenta a carreira universitária, com perdas irreparáveis ao capital humano da instituição. [...] A reação dos professores do ensino básico, logo seguida por todos os  servidores da Uema, a essa insensatez do governo foi acertadamente, firme  e imediata, só lhes restando o recurso da greve, para lutar contra as  lesões que a lei causa nos seus direitos, tão duramente conquistados, ao  longo da história. A greve da Uema foi iniciada pelo Sintuema/Assuema no dia 02/05/07 e em seguida apoiada pelos professores reunidos em Assembleia no dia 07/05/07. Os trabalhadores da educação da rede pública estadual de ensino, por meio do Sinproessema, aderiram ao movimento no dia 22/05/07. O movimento grevista, composto de 11 entidades sindicais, está sendo coordenado pela  CUT/MA. Nos primeiros 30 dias da greve, fizemos várias passeatas contra a lei, em uma das quais fizemos o seu enterro simbólico. Participamos de cinco reuniões com representantes do Governo, nas quais as negociações pouco avançaram, por conta da intransigência do Governo em não aceitar a revogação da lei nem tampouco discutir alternativas ao regime de subsídio.

A última reunião que tivemos no Palácio dos Leões, solicitada e dirigida pelo governador Jackson Lago (25/05/2007), resultou na criação de três comissões por ele sugeridas, formadas por representantes do Governo e pelos membros da Comissão de Negociação: a primeira, para estudar a questão dos subsídios; a segunda, para estudar OS PLANOS DE CARREIRAS, CARGOS E SALÁRIOS, e a terceira, para estudar um plano para a educação no Estado do Maranhão.

À primeira reunião da comissão de estudo dos subsídios, enquanto compareceram todos os representantes da Comissão de Negociação, o governo mandou quatro servidores de escalões inferiores, quase todos sem informações e com conhecimento limitado sobre o assunto.

À segunda reunião, só compareceu um desses representantes, ficando então confirmado o esvaziamento das comissões sugeridas por Jackson, numa atitude tão desrespeitosa para com os grevistas quanto desmoralizante para o governador, pois induziu à convicção de que havia alguém com maior poder de decisão que o governador.

Diante dessa circunstância, a Comissão de Negociação decidiu buscar o apoio da Assembleia Legislativa, resultando numa demorada reunião da qual participaram, além do Chefe da Casa Civil, a Comissão de Negociação e oito deputados, inclusive o Presidente da Assembleia. Como resultado dessa reunião, a Comissão de Negociação assumiu o compromisso de apresentar as suas postulações sobre a revogação ou mudanças na Lei do Cão.

Tal compromisso foi honrado pela Comissão de Negociação, com a entrega de um documento ao Sr. Aderson Lago, no dia 14 de junho de 2007,  conforme ficara acordado. Em decorrência, Aderson anunciou aos grevistas que haveria uma reunião no início da semana seguinte, provavelmente, na terça, ou na quarta feira, pois na segunda feira, o Ministro Gilberto Gil estaria visitando a nossa cidade.

Enquanto a Comissão de Negociação aguardava pelo convite do Chefe da Casa Civil para a continuação do diálogo, o Governo, de modo traiçoeiro e mesquinhamente autoritário, apequenou-se: rompeu, unilateralmente, o diálogo e decidiu pedir à Justiça que decretasse a greve ilegal. O movimento grevista recorreu a alguns deputados federais da bancada maranhense e que são da base do Governo, no sentido de impedir que fosse pedida a ilegalidade da greve. Para tal, realizou-se, na residência do dep. João Evangelista, uma reunião com a Comissão de Negociação, da qual participaram os deputados: Domingos Dutra, Julião Amin, Ribamar Alves, Pinto da Itamarati e Cléber Verde, que tomaram conhecimento de toda a questão. 

No dia seguinte, os citados deputados reuniram-se com Jackson, trataram de vários assuntos, e sobre a greve, mesmo, só de raspão, mas foi o suficiente para ouvirem do governador a reafirmação de sua inabalável e inflexível decisão de pedir à Justiça que decretasse a ilegalidade do movimento, o que, de fato, ocorreu, para a decepção plena dos que votaram em Jackson, certos de estarem elegendo um Governo democrático.
”
           
Como está claro, tentamos de todas as maneiras conversar com o senhor. Nossa intenção não era, de início, entrar em greve. Mas o caráter autoritário de seu Governo, assim como sua inflexibilidade, levou-nos a reagir, a fim de tentar preservar o pouco que tínhamos de nossas  carreiras. Procuramos informar a sociedade maranhense que havia algo errado, profundamente errado, em sua iniciativa. Fiz parte da Comissão de Greve e pude acompanhar de perto o esforço dos colegas para esclarecer o povo, pedir ajuda, abrir o diálogo com as autoridades, levar as informações corretas aos estudantes e suas famílias e à população, de modo geral. É claro, tentamos falar com o senhor, que não nos recebeu em nenhum momento, tratando-nos como indigentes à porta de seu palácio. Logo a nós, senhor Jackson, que tanto havíamos lutado para que o senhor se elegesse! Que grande e triste surpresa! A cada assembleia, a cada reunião, chegávamos à conclusão de que elegê-lo havia sido um erro. Não bastasse a Educação e a Saúde estarem vivendo graves problemas, a crise da Segurança Pública tornava-se mais e mais complexa – a secretária, Eurídice Vidigal, era mulher de seu amigo, Edson Vidigal. A propósito, seu Governo, em termos da contratação e do beneficiamento de amigos e parentes não foi muito diferente dos sucessivos governos da oligarquia. Mas vou falar disso em outro momento.

Também preciso dizer, oportunamente, que seu Governo não se fez sozinho. Por isso mesmo, o hoje candidato pelo PC do B ao Governo do Maranhão, dono de um discurso quase idêntico ao seu, o juiz Flávio Dino, na época foi ao Supremo Tribunal Federal a fim de defender a Lei 8592/07, a nefasta "Lei do Cão", implantada pelo senhor e derrubada pela governadora Roseana Sarney assim que assumiu o comando do Estado, em 2009. Quem denunciou isso? O hoje candidato ao Governo pelo PSTu, Saulo Arcângeli, que na época era professor da Universidade e estava conosco no propósito de barrar a citada Lei. Flávio Dino, que era então deputado federal, também se preocupou em ir aos sindicatos e associações de servidores – Sindjus (Sindicato dos Servidores da Justiça do Estado do Maranhão), Sinproesemma (Sindicato dos Trabalhadores em Educação Pública do Maranhão), Sintuema (Sindicato dos Trabalhadores da Universidade Estadual do Maranhão), Assuema (Associação dos Professores da Uema) – a fim de nos pressionar a aceitar o acinte que sua Lei nos impunha.

No final das contas, o senhor deve também se recordar, o STF determinou que seu Governo suspendesse a vigência da malfadada Lei 8.592/2007. Essa suspensão foi solicitada pelo PMDB e aprovada por 10 dos 11 ministros do Supremo. Isso obrigou seu Governo a retornar ao sistema antigo de pagamento dos salários dos 120 mil servidores da administração direta e indireta, suspensos pela sua Lei do Cão. No Magistério, somente, ficaram parados 35 mil professores do Ensino Básico (83 dias) e da Uema (103 dias).

Mais? O senhor quer mais? Ora, quem sou eu, senhor Jackson, para contestar esse tal “legado” que seus amigos dizem que o senhor nos deixou. Não é? Porque aqui no Maranhão a construção política quase sempre não é feita com fatos, mas com relações de compadrio, de camaradagem, de oportunismo, cobertas de inverdade e interesses escusos. Obviamente, quem quer que conteste seu grande legado será mal visto. E mal quisto. Eu me preparo para as pedras e para os tomates, como sempre me preparei. O que não faço nem farei é engolir mentiras para dizer que estou do lado de alguma verdade.

Sigamos. Vamos mais adiante. Em uma de nossas passeatas, pacífica, como todas as que ajudei a organizar e das quais participei, o senhor enviou a Polícia Militar para nos receber. Devo dizer ao senhor que tenho verdadeiro respeito pela PM, e que já tinha dado aulas para turmas do Curso de Formação de Oficiais, na mesma Uema que o senhor queria destruir. Por isso mesmo, encontrava, aqui e ali, alguns de meus alunos. Estupefatos, pediam desculpas por estarem ali. Sabiam que nosso movimento era legítimo. Que não estávamos armados. Que estávamos caminhando pacificamente – assim como pacificamente havíamos acampado em frente ao Palácio dos Leões, e ali também cheguei a passar uma ou duas noites – nós, professores e estudantes, funcionários, parentes. Pacificamente, portanto, recebemos as balas de borracha e os gases lançados contra nós. O que fizemos? Corremos. Uma de minhas alunas, que estava próxima a mim, foi baleada com as tais balas de borracha. Sua perna, inchada, aparecia sob o jeans da calça, rasgado.

Levei-a ao hospital, aquele da Rua do Passeio, chamado de “Socorrão”. Novo choque, senhor Jackson! O que vi ali me deixou mais horrorizada ainda com seu Governo. Os corredores estavam lotados, não havia circulação de ar, doentes velhos, novos, graves e menos graves se misturavam. Esperei minha aluna ser atendida e fui me embora dali. Se na Educação seu Governo demonstrava total inépcia, na Saúde não se saía melhor. E o senhor era médico. Médico. Isso nunca me saiu da cabeça. E há os que defendem o “seu legado”! Minha aluna ficou semanas sem andar direito, sentindo muita dor. A dor que eu sentia era no coração. Eu me sentia enganada. Saí daquele hospital, fui para casa e, nos dias seguintes, adoeci. Devo ter pego alguma virose no Socorrão. Enquanto esses fatos se passavam, o senhor deveria estar em seu gabinete, cercado por seus assessores. Soube, aliás, que alguns deles saíram de seu Governo em ótimas condições financeiras. Pelo menos alguém foi ajudado, diria Oscar Wilde, ironicamente. Seus assessores, secretários, amigos, correligionários. Seus cúmplices.

Quando o STF cassou seu mandato, estávamos exaustos. Achei a cassação injusta, fruto de manipulação política orquestrada pelo grupo que manda há muito tempo no Estado. O senhor tinha sido eleito pela maioria, e eu chamei essa cassação de golpe branco. Apesar disso, – e peço que o senhor tente se colocar no meu lugar – não fui às ruas para defendê-lo. Eu e meus colegas, alunos, parentes e amigos teríamos ido às ruas defender sua permanência, mas estávamos cansados, ainda estupefatos com a sua Lei do Cão e, finalmente, preocupados em repor os dias de aula perdidos. Teríamos ido às ruas lutar para que o senhor terminasse seu tempo de Governo, mas nós nos perguntávamos qual a razão para defender um político que só havia nos atacado. Por que ir ao STF pedir que anulasse sua decisão a fim de beneficiar um Governador que estava prejudicando o Maranhão. Por que lutar para que o senhor continuasse propondo leis injustas, prejudicando a Educação, a Saúde, a Segurança Pública, como era notório. Então não fomos. Então o senhor saiu do Governo. Perdeu a melhor oportunidade da “oposição”, até aquele momento, para melhorar o Maranhão. Continuamos ruins. Continuamos deficitários. Continuamos nos últimos lugares. Continuamos sendo notícia por causa de nossa ineficiência, do roubo dos políticos, da violência, da falência do sistema prisional. Se for falar para o senhor de todos os nossos problemas, terei que produzir uma enciclopédia.

Por outro lado, senhor Jackson, sinto que devo agradecê-lo, sinceramente. Porque comecei a perceber, com o senhor, que ser oposição ou situação, aqui no Maranhão, dá na mesma: resume-se a quem vai comer o bolo. Quem vai enriquecer. Quem vai ser o califa da vez. Os grupos podem se alternar, e neste exato momento o senhor deve estar acompanhando estas eleições, em que o então na época deputado federal Flávio Dino, que lutou para nos prejudicar, publica aos quatro ventos que quer “mudar o Maranhão”. Ele está certo. Ele quer tirar a oligarquia do poder porque talvez tenha chegado a sua hora de abocanhar o bolo. O que entendo é que seja ele, seja outro, o Maranhão continuará a mesma coisa. Por isso costumo dizer que o único legado que o senhor nos deixou foi a decepção – ainda que esta seja a inaceitável verdade.

Maya Felix
São Luis, 25 ago 2014.

P.S. Devo fazer um mea culpa, sr. Jackson: o hospital Socorrão, que cito neste texto, não era nem é responsabilidade do Governo do Estado do Maranhão, mas da Prefeitura de São Luis. E em 2007 o prefeito era o sr. Tadeu Palácio, médico como o sr. Desculpe-me pela injustiça. O estado lastimável do Socorrão, de fato, não era culpa de sua administração.

5 de fev. de 2014

woody allen: a arte não está acima da vida.

Um assunto que causou discussões (e ainda vai causar mais, nos próximos dias) neste domingo, 2 de fevereiro, é a carta na qual Dylan Farrow, filha adotiva de Mia Farrow e Woody Allen, acusa seu pai adotivo de ter abusado sexualmente dela. Por conta disso, Dylan teve inúmeros problemas de ordem psicológica, que afetaram também seu estado de saúde física. O que me chamou a atenção neste episódio foram as reações dos internautas nas redes sociais. Segue, primeiro, um link para uma reportagem sobre o tema:
Agora, o link para a íntegra da carta traduzida:
Antes de mais nada, preciso informar que o cineasta declarou ser inocente e disse que em breve responderá em público às acusações. Mais um capítulo aguardado. O que diz Woody Allen:
Particularmente, creio que Dylan diz a verdade. É claro que ela pode ter inventado tudo isso. Mas penso que há evidências em seu discurso e nas situações que ocorreram simultaneamente ao abuso – e também depois dele – que podem apontar a culpa de Allen.
Aqui e ali vi, no Twitter, no Facebook, em sites de revistas e de jornais, que muita gente está defendendo o cineasta porque ele é talentoso e influente, não porque as evidências indicam que a filha dele provavelmente diz a verdade. O fato de que ele mesmo mantinha um romance com outra filha adotiva ainda estando casado e convivendo com a esposa e os demais filhos é uma evidência. Na época, Allen se separou de Mia Farrow para assumir esse relacionamento. Sua filha adotiva tinha, então 19 anos, e ele, mais de 50. Além disso, o filho dele também o critica duramente. Todos estão errados, então, e Allen diz a verdade? Essas são evidências, indícios de vericondicionalidade no discurso de Dylan Farrow.
Parece-me que W. Allen sempre negará ter abusado sexualmente de sua própria filha quando ela tinha sete anos. E me parece também certo que Dylan não voltará atrás em suas acusações. Se não podemos julgar nem condenar sem provas – sendo a palavra dela contra a dele – também não podemos inocentá-lo. Talvez jamais haja “provas” para o abuso relatado. Mas há pistas, evidências nos discursos, nas situações, nas reações não só da menina – hoje mulher – abusada como dos outros membros da família, e isso deve ser levado em consideração. Repito: creio que Dylan Farrow diz a verdade. O que desenvolvo a seguir baseia-se nessa premissa.
Os libertários e esquerdistas que vi se manifestando na internet preferem relativizar tudo: é impossível assumir uma posição (e aí já há uma “posição”, evidentemente). Afinal, ninguém de fato sabe; com sete anos há muitas ilusões, ideias, imagens decorrentes de autossugestão, de uma mente fértil etc.; Woody Allen é Woody Allen e mais umas tantas asneiras. Dizem isso como se defender o Woody Allen pai fosse necessário para endossar o Woody Allen artista, o que é importante para o pensamento esquerdista, ainda que Woody Allen pai e artista sejam O MESMO SER HUMANO.
Woody Allen é um grande diretor de cinema, era o meu preferido, mas a partir de hoje não vejo mais seus filmes, decidi. E o farei não por desconhecer sua competência como artista, mas por não concordar com o que ele, como ser humano, é. Eu também não compraria um quadro de Adolf Hitler (mesmo se ele tivesse sido um bom pintor). Eu não vi o filme O Pianista, de Roman Polanski, que é um estuprador pedófilo. Eu me recuso. Não vi Melancholia, quando estava morando em Paris, em 2011, no auge da crise que Lars Von Trier provocou no Festival de Cannes ao declarar que “entendia e simpatizava” com Hitler. E decidi também não ver Ninfomaníaca. Não vou ver não porque o filme tem cenas de sexo. Aliás, estava até curiosa para saber se era bom – e muita gente tem dito que é ótimo, pois o que importa no filme não é o sexo, mas o que se fala sobre ele. Mas eu decidi não ver Ninfomaníaca porque sei que a ARTE não é um valor absoluto, mas A VIDA é.
A VIDA ESTÁ ACIMA da arte. Como dizia aquele rapaz latino americano, “qualquer canto é menor do que a vida de qualquer pessoa…”. Para Lars Von Trier, um sujeito que provocou a morte de mais de 50 milhões de pessoas é um cara “simpático”. É em coisas assim que a “esquerda caviar” mostra sua natureza fútil. Aliás, recomendo (illico) a quem me lê agora o livro de Rodrigo Constantino. A esquerda erra e sempre errou: ama a humanidade como ideia abstrata, mas se lixa para o ser humano real. Exalta a arte, a cultura e a ciência como valores absolutos e que se dane o ser de carne e osso. Adora os valores da revolução cubana mas não se preocupa com os cubanos de verdade, que estão sofrendo em decorrência não do “ideal da revolução”, mas da revolução que de fato ocorreu. Eu ainda me lembro de um “artista” latino americano que deixou um pobre cão morrer de fome e de sede em uma “instalação”, há alguns anos. O escritor maranhense Ferreira Gullar escreveu um excelente artigo sobre isso:
Houve quem defendesse o “artista”. AFINAL, a arte justifica tudo. A ARTE justifica Chico Buarque elogiando ditadura cubana assassina, a arte justifica Woody Allen pedófilo, a arte justifica Lars Von Trier elogiando Hitler, a arte justifica Roman Polanski drogando e estuprando uma menina de 13 anos. Tudo e qualquer coisa. Sim, um artista pode errar (e é certo que todos erram, humanos que são). Sim, os erros de muitos artistas não maculam suas obras. Mas aí vejo proporções, vejo escalas, vejo limites. E eu tenho os meus limites. Não é que artista bom seja aquele que não estaciona em vaga especial nem fure a fila do banco. Mas estou dizendo que há um limite, então para mim a pedofilia é um limite. Ponto.
Maya Felix
São Luis, 2 fev 2014



*texto originalmente publicado no portal Gospel Prime.

30 de jan. de 2014

a censura, essa quimera

Falar sobre a censura no meio evangélico é falar sobre uma rede extensa e complexa de interesses. Buscar primeiro o reino de Deus ficou em último lugar, e hoje muitos pastores, teólogos, doutores, presidentes e advogados de associações que se denominam evangélicas, além de blogueiros e donos de site exercem a censura como meio de fazer prevalecer seu ponto de vista sobre as opiniões e as pessoas das quais discordam.
Censura. Pressões, chantagens. Parafraseando Shakespeare, há mais coisas entre evangélicos e a vida mundana do que pode supor nossa vã filosofia. Tenho um blog simples. Aliás, dois. Um no qual procuro discutir temas ligados à política e à religião, além de incluir postagens várias sobre literatura, música, cinema etc., e outro, no qual publico exclusivamente textos literários de minha autoria. Sou professora de uma universidade, gosto muito do que faço e em geral não me sobra tempo para postar com regularidade, a não ser nas férias, ou em um feriado prolongado. Então os blogs não são, definitivamente, uma atividade prioritária na minha vida.
Independentemente disso, desde que comecei a criticar um senhor calvinista que detém poder e influência, o nome do meu blog de textos político-religiosos desapareceu da listagem de vários blogs, inclusive de blogs de pessoas que estão em minha lista de amigos no Facebook, por exemplo. Coincidência? Tenho um amigo que passou pela mesma experiência.
A rede de interesses, barganhas, chantagens, comunicações subterrâneas, “truques” e atos aparentemente inocentes existe para tirar do oponente qualquer possibilidade de réplica e crítica. Esses que não gostam de críticas ostentam a imagem de amantes do debate. Mas o “debate” não ocorre, porque a mão pesada da censura e da intimidação elimina o gosto desagradável e incômodo do questionamento. Hoje não se questiona mais por que a teologia cessacionista é errada à luz da Bíblia. A web está repleta de blogs e sites pentecostais, mas ninguém fala nisso. Blogueiros pentecostais acham mais importante falar como a música pentecostal é ruim e sem imaginação a confrontar uma teologia visivelmente satânica.
Blogs cujos donos ou administradores pentecostais publicam artigos do senhor ao qual me refiro no início deste texto sem nenhum constrangimento – e escolhem em geral fotos muito boas para ilustrar seus textos! Que bom! Design é tudo. Ninguém ousa pensar. O mais irônico é que tanto se critica os neopentecostais por “não pensarem”. E isso é demonstrado quando publicam artigos do senhor teólogo que vê heresia, pura e simplesmente, nas experiências pentecostais.
Minha expressão de espanto é sobrepujada pela amargura em perceber a estrutura diabólica que tem alimentado a rede de blogs “evangélicos”. Aí vem a blogueira que sente “uma necessidade quase física” (sabem que eu gostei disso? É tão Lars Von Trier!) de expressar seus pensamentos… Seu blog é uma “tentativa” de “recolocar o cristianismo na via dos debates intelectuais”. Bonito, não? Não! Porque em um artigo recente ela diz exatamente o contrário! Ela diz que devemos separar bem as coisas: uma coisa é a igreja, outra é a universidade. Então para quê “recolocar o cristianismo na via dos debates intelectuais”? Mais adiante, ela explica humildemente (ainda bem, porque penso que seus textos são pedantes, e que ela é cheia de orgulho, habilmente encoberto por uma humildade falsa – uma das maiores evidências do orgulho): “Não por pedantismo ou orgulho, mas por uma necessidade quase física de dar nomes às minhas intuições”.
Segundo o artigo dessa moça, publicado na revista virtual “Teologia Brasileira”, teologia é uma coisa, mundo acadêmico é outra. E quem diz o contrário é… “conservador”! Ou seja: não podemos criticar o que ocorre em uma universidade como a Mackenzie, da Igreja Presbiteriana. Segundo ela, esse silêncio se chama “maturidade cristã”. Mas eu chamo de censura. Os que questionam o que ocorre na Mackenzie são tachados de conservadores, pessoas de visão turva, pouco inteligentes, mal esclarecidos. Afinal, como está escrito em Tito 1:15,  “tudo é puro para os que são puros…” Não é assim que os cristãos liberais justificam Marx, Luiz Mott, Teologia da Libertação, Missão Integral et caterva no meio evangélico? É assim também que os cessacionistas justificam qualquer coisa. Justificam o Genizah, justificam as pressões, justificam a censura, justificam as ações nada cristãs da Anajure a favor de uma denominação específica, de uma visão teológica estreita, de determinadas pessoas e blogs.
E mais uma coisa, que eu já disse em texto anterior: a censura ocorre também contra os que a praticam. A liberdade plena é concedida apenas aos cessacionistas: eles escrevem e publicam o que bem entendem, no blog de quem bem entendem. Em seus blogs, não há nem mesmo uma citação ou link para qualquer blog pentecostal — nem mesmo para os blogs que os citam, elogiam e divulgam. Definitivamente, esse desequilíbrio é a face mais visível de um processo de degradação espiritual sem precedentes no meio. Uma “tentativa” de “recolocar o cristianismo na via dos debates intelectuais”. Bonito, não? Mas toda turma cessacionista odeia ter sua heresia cessacionista contestada, questionada, debatida. Essa blogueira é incapaz, por agradecimento, por cortesia ou por gratidão, de citar ou divulgar os links dos blogs que recomendam seu blog como digno de ser lido. O que é isso? Uma opção pessoal, diriam alguns. Censura, eu afirmo.
Desisti de escrever para um portal de blogs para o qual escrevia sobre política. Minha interlocutora, ali, sempre foi de uma gentileza ímpar comigo. Mas uma entrevista que dei para o Blog do Júlio Severo foi rejeitada. Foi censurada. Não pela minha interlocutora, mas por irmãos pentecostais que têm interesses em jogo com a VINACC, a Mackenzie e a Anajure, todas dominadas pela fatia cessacionista da Igreja Presbiteriana, sobretudo na figura do ilustre chanceler. Não, não é coincidência. Isso tem nome. Isso tem explicação. Isso tem autor. Isso tem razão de ser. Pense com sua cabeça, investigue e analise. Você vai se surpreender.
Maya Felix, jan 2014
* Texto postado também no portal Gospel Prime  e no Blog do Júlio Severo.

15 de ago. de 2013

Olha a cabeleira do Zezé




Olha a cabeleira do Zezé

            Cena um: Casal evangélico, homem pastor, mulher grávida, entra em aeronave da Azul. Senta-se no final. Cena dois: O deputado pró-lobby gay Jean Wyllys entra na mesma aeronave, com um assessor, e se senta um pouco mais à frente do casal evangélico. Cena três: Casal evangélico identifica o deputado e prontamente resolve ir até sua poltrona. Mulher pede para passageiro filmar o que irá acontecer em seguida. Cena quatro: Homem e mulher gritam: “É você, hein, Jean Wyllys?” Ato contínuo, começam a cantar, a plenos pulmões: “Olha a cabeleira do Zezé, será que ele é, será que ele é… BICHAAA!!!” A mulher tenta passar a mão na cabeça de Jean Wyllys e diz: “Não gosta de mulher, Jean? Por quê???” O pastor completa: “Vai pra nossa igreja que tem cura!” Logo depois, o casal evangélico grita: “Vamos aí, gente, todos juntos! Batendo palmas!” e recomeçam: “Olha a cabeleira do Zezé…” Jean Wyllys se sente desconfortável, finge que não é com ele, baixa a cabeça e tenta se concentrar na leitura da revista G Magazine que havia comprado na livraria do aeroporto. Mas o casal evangélico não para: “Deputadoooo… canta com a genteeee! Olha a cabeleira do Zezé…” O assessor de Wyllys, em vão, tenta protegê-lo das tentativas de toque da mulher, que continua querendo encostar a mão na testa do deputado. De repente, ela tira um vidrinho da bolsa, derrama uma parte do conteúdo na palma da mão e passa na testa de Jean Wyllys: “É óleo para ungir você, rapaz! Larga essa bichice!” Ele retira um lenço do bolso do paletó e tenta limpar o óleo da testa. Continua sem dizer nada, mas está visivelmente constrangido. Os passageiros, atônitos, assistem à cena sem fazer nada. O pastor ri alto e canta: “Só não vale dançar homem com homem, nem mulher com mulher…”. Cena cinco: A essa altura, uma mulher sentada logo atrás de Jean Wyllys se levanta e diz: “Chega! Vocês estão me incomodando! Assim não dá!” Cena seis: O casal evangélico decide, então, sentar-se em seu lugar. Mas continua a gritar, desta vez dizendo: “Ô Jean Wyllys, pode esperar, a sua hora vai chegar!!!” Repetem umas seis vezes o refrão e logo depois – sempre filmando, é claro – o pastor decide entrevistar um terapeuta cristão que, coincidentemente, estava no avião: “O senhor acha que o gay pode mudar a sua orientação sexual, se quiser?” FIM DO PRIMEIRO ATO.
            Você conseguiu imaginar as cenas narradas acima? São bastante inverossímeis, não? Elas têm pouquíssimas chances de acontecer, pelo menos com um casal evangélico que seja de fato seguidor de Jesus. Talvez não por falta de vontade de “dar o troco”, afinal o deputado e pastor Marco Feliciano passou por constrangimento semelhante ao relatado acima no ultimo dia 9 de agosto, a bordo de uma aeronave da Companhia Azul, indo de Brasília a São Paulo: Eric Corazza e Conrado Ribeiro fizeram com ele e um assessor o que, na hipotética situação que narro, o casal evangélico fez com Jean Wyllys.
            Episódio semelhante jamais aconteceria com o deputado ex-BBB porque os evangélicos sabem que escarnecer não é agradável a Deus, ainda que seja agradável à carne e tentador. Não vemos evangélicos constrangendo gays em suas marchas de “orgulho”. Tampouco vemos, em igrejas, predicações jocosas ou irônicas sobre o assunto. A prática homossexual é tratada como ela é: pecado. Pode ser que em algumas igrejas não tenha havido tato ou suficiente familiaridade com o assunto para que pessoas com tendências homossexuais fossem adequadamente encaminhadas a um diálogo cristão e à exortação amorosa e franca que recomendam a Bíblia. Mas nunca se tratou o assunto levemente, debochadamente, levianamente. As crenças dos cristãos, entretanto, são costumeiramente vistas com desprezo e tratadas com galhofa e desrespeito por militantes de causas gays, feministas e esquerdistas em geral.
            Durante a Jornada Mundial da Juventude, da Igreja Católica, quem não se lembra dos dois jovens, Raíssa Senra Vitral e Gilson Rodrigues Silva Júnior, que, mascarados e seminus, quebraram imagens de santos católicos e simularam cenas de sexo com elas? Em 1995, o pastor Sérgio Von Hélder, da Igreja Universal do Reino de Deus, chutou a imagem de uma santa católica em rede nacional. Houve grande comoção pelo desrespeito à crença alheia. A Rede Globo de televisão, com interesses mais comerciais que religiosos, repetiu a cena ad nauseam. O mesmo não aconteceu com os dois jovens que quebraram as imagens durante a JMJ. Não houve nem mesmo uma tentativa de entrevistar a dupla. Por quê? Os dois homens que agrediram Marco Feliciano, soube-se depois, dizem não ser gays, como se isso eximisse a militância que faz lobby pró-gay de qualquer responsabilidade do acontecido. Ou diminuísse a gravidade do fato. Ou fosse motivo para não imputá-lo ao crescente ódio insuflado pela mídia contra os evangélicos e conservadores por grupos de pressão e lobby pró-gay.
            Quando vi a cena, fiquei estarrecida. Não acreditei que a falta de respeito fosse chegar a esse ponto. Na verdade, fiquei furiosa e cheguei a trocar palavras destemperadas com defensores do ato em uma rede social. A banalização das atitudes totalitárias em nossa sociedade, fruto da imposição de uma visão como única possível sobre qualquer outra, faz com que não nos cause mais espanto a agressão, o escárnio, o vandalismo e a ironia barata, a crítica sem inteligência e o debate impositivo. Como os cristãos têm histórico de tolerância e bom trato, as cenas do início deste texto provavelmente não acontecerão. Já as cenas de desrespeito vistas contra evangélicos se multiplicam em progressão geométrica, aparentemente sem a reação do restante da sociedade. Lembra-me a perseguição nazista aos judeus: começou com atos públicos de hostilidade, terminou onde todos conhecemos bem. Em 2014, políticos de partidos que sustentam esses desrespeitos e atos de barbárie, como PT, PSOL, PC do B, PDT e PSTU, pedirão o voto dos evangélicos. O que você vai fazer?


*Texto escrito em 11/08/2013 e publicado originalmente no Blog da União de Blogueiros Evangélicos. Meu agradecimento a Rodrigo Magaldi Merlino, por me ajudar com alguns dados.

4 de fev. de 2011

um estudo sobre o orgulho


UM ESTUDO SOBRE O ORGULHO

Mayalu Felix

Este estudo está fundamentado em trechos de duas obras de C. S.Lewis, Cristianismo Puro e Simples e O Problema do Sofrimento, em excertos de Ortodoxia, de G. K. Chesterton, e em exemplos bíblicos acerca do orgulho. Segundo C. S. Lewis, há duas naturezas de pecado: os carnais e os de natureza espiritual.

“Os pecados da carne são maus, mas, dos pecados, são os menos graves. Todos os prazeres mais terríveis são de natureza puramente espiritual: o prazer de provar que o próximo está errado, de tiranizar, de tratar os outros com desdém e superioridade, de estragar o prazer, de difamar. São os prazeres do poder e do ódio.” (Cristianismo Puro e Simples, p. 135)

O orgulho, segundo Lewis, pertence à categoria de pecados de natureza espiritual. Vale a pena ler, na íntegra, o que diz ele no capítulo oito de seu livro:

“Chego agora à parte em que a moral cristã difere mais nitidamente de todas as outras morais. Existe um vício do qual homem algum está livre, que causa repugnância quando é notado nos outros, mas do qual, com a exceção dos cristãos, ninguém se acha culpado. Já ouvi quem admitisse ser mal humorado, ou não ser capaz de resistir a um rabo de saia ou à bebida, ou mesmo ser covarde. Mas acho que nunca ouvi um não cristão que tenha alguma tolerância com esse vício nas outras pessoas. Não existe nenhum outro defeito que torne alguém tão impopular, e mesmo assim não existe defeito mais difícil de ser detectado em nós mesmos. Quanto mais o temos, menos gostamos de vê-lo nos outros.

O vício do qual estou falando é o orgulho ou a presunção. A virtude oposta a ele, na moral cristã, é chamada de humildade. [...] De acordo com os mestres cristãos, o vício fundamental, o mal supremo, é o orgulho. A devassidão, a ira, a cobiça, a embriaguez e tudo o mais não passam de ninharias comparadas com ele. É por causa do orgulho que o diabo se tornou o que é. O orgulho leva a todos os outros vícios; é o estado mental mais oposto a Deus que existe.

Parece que estou exagerando? Se você acha que sim, pense um pouco mais no assunto. Agora há pouco, observei que, quanto mais orgulho uma pessoa tem, menos gosta de vê-lo nos outros. Se quer descobrir quão orgulhoso você é, a maneira mais fácil é perguntar-se: ‘Quanto me desagrada que os outros me tratem como inferior, ou não notem a minha presença, ou interfiram nos meus negócios, ou me tratem com condescendência, ou se exibam na minha frente?’ A questão é que o orgulho de cada um está em competição direta com o orgulho de todos os outros.” (Id., p. 161)

Quando lemos a Bíblia, podemos perceber que o orgulho é a base de praticamente todos os conflitos humanos e entre os homens e Deus apresentados tanto no Velho quanto no Novo Testamento. Quando José apressou-se em contar à sua família sobre seu sonho, ele o fez por orgulho: sentia-se superior [Gn 37:5], ainda que de modo bastante infantil. Quando seus irmãos o traíram, também o fizeram por orgulho: irritaram-se ao se sentirem inferiores [o que já era provocado pela diferença de tratamento que Jacó instituiu entre eles]. E Mical? Ao repreender Davi, que dançava junto ao povo sem se sentir superior por ser rei, Mical demonstrou orgulho, desprezando Davi, e foi severamente punida por isso [2 Sm 6: 14-23]. E em Davi, havia orgulho? Durante sua trajetória, percebemos a humildade profunda de seu coração, diante de seus irmãos e diante do povo, mesmo sendo ele rei de Israel. Nesse aspecto, ele era um homem segundo o coração de Deus [1 Sm 13:14]. Isso não isenta Davi de ter sentido profunda inveja de Urias, a ponto de enviá-lo para a morte. A inveja é um tipo de pecado decorrente do orgulho. Davi queria o que era de Urias porque se achava mais merecedor de Betsabá do que ele. Isso também é uma forma de orgulho.

Na Bíblia, Deus nos mostra que toda reação de orgulho tem sua punição. A maior demonstração de orgulho e a maior queda de todas é a do anjo Lúcifer, uma palavra do Latim (lucem ferre) que quer dizer "portador de luz". Da ordem dos querubins, Lúcifer era um anjo poderoso. Seu poder e sua beleza, entretanto, levaram-no a se achar igual ou melhor que Deus. Em Ezequiel, capítulo 28, versos de 1 a 19, o orgulho do rei de Tiro é comparado ao de Lúcifer. Diz o texto:

“Tu és o aferidor da medida, cheio de sabedoria e perfeito em formosura. Estavas no Éden, jardim de Deus; toda pedra preciosa era a tua cobertura [...] Tu eras querubim ungido para proteger, e te estabeleci [...] Perfeito eras nos teus caminhos, desde o dia em que foste criado, até que se achou iniquidade em ti. [...] Elevou-se o teu coração por causa da tua formosura, corrompeste a tua sabedoria por causa do teu resplendor; por terra te lancei [...].”

Em Isaías, cap. 14, versos de 12 a 20, a queda de Nabucodonosor também é comparada à queda de Lúcifer:

“Como caíste do céu, ó estrela da manhã, filha da alva! Como foste lançado por terra, tu que debilitavas as nações! E tu dizias no teu coração: Eu subirei ao céu, e, acima das estrelas de Deus, exaltarei o meu trono [...] Subirei acima das mais altas nuvens e serei semelhante ao Altíssimo.”

Mais uma vez, o orgulho atua de forma decisiva para a queda do anjo Lúcifer. E como ele tentou Eva e Adão? Com o orgulho: “... no dia em que dele comerdes, se abrirão os vossos olhos, e sereis como Deus...” (Gn 3:5). Todo o trabalho de Deus no homem é para fazê-lo menos orgulhoso. O homem orgulhoso é o que deseja ser como Deus. É o que tem o ego superestimado, e não permite que Cristo cresça em sua vida. É claro, existem graus de orgulho, mas, como diz Lewis, “é a comparação que torna uma pessoa orgulhosa: o prazer de estar acima do restante dos seres” (Ibid., p. 163).

No Novo Testamento, também não nos faltam exemplos de orgulho. Um dos mais interessantes, que muitos cristãos não interpretam como orgulho, é a reação do irmão do filho pródigo quando o pai recebe com honras o filho que estava longe. O filho que jamais havia se afastado do pai sentia-se superior a seu irmão, e não admitiu, portanto, que o pai o honrasse. Isso é orgulho. Alguns cristãos acham justificável ou menos importante a reação do irmão do filho pródigo. Jesus usou a parábola para ilustrar a reação de muitos cristãos diante de bênçãos que Deus concede a outros irmãos.

Outro exemplo bastante claro de orgulho é Pedro. Pedro não era somente orgulhoso, ele não tinha domínio próprio, era impulsivo e imaturo. Quando Pedro declara que jamais trairá Jesus, ele acredita em si mesmo. Ele acredita que, diferentemente dos demais, é bom o suficiente para permanecer fiel a Cristo mesmo diante de toda a pressão política e religiosa que os discípulos de Jesus estavam sofrendo. O que curou Pedro? Como Jesus curou Pedro de seu orgulho, para poder usá-lo? Jesus fez Pedro reconhecer seu orgulho e seu amor por Cristo. Quando Pedro disse: “Senhor, estou pronto para ir contigo até à prisão e à morte” (Lc 22:33), ele estava centrando suas palavras e seus sentimentos sobre si mesmo e acreditando em suas próprias forças. Isso é orgulho. Por que Jesus perguntou a Pedro: “Simão, filho de Jonas, tu me amas?” Essa era a cura do orgulho de Pedro. Ele deixava de centrar seu discurso em si mesmo e passava a colocar Cristo no centro de suas palavras: “Sim, Senhor; tu sabes que te amo”. Entre “estou pronto” e “tu sabes” existe uma grande diferença: na primeira frase, o “eu” assume papel central. Na segunda, o “tu” [que é Jesus] é que é relevante. O orgulho faz com que nos coloquemos, nós e nossa capacidade, no centro. A humildade coloca Jesus no centro do nosso discurso (e, consequentemente, do coração). O exemplo perfeito de humildade foi Cristo. Cristo não tinha orgulho. Andava com os humildes, não se importava em ser visto como inferior, lavava os pés de seus discípulos, desafiava os conceitos orgulhosos da sociedade de sua época. Deus nos mandou Jesus para que víssemos como Ele mesmo é. Não há orgulho em Deus. C. S. Lewis, em O Problema do Sofrimento, diz:

“Da mesma forma que o jovem deseja uma mesada do pai, que possa considerar como sua, com a qual faz seus próprios planos (e com justiça, pois o pai é afinal de contas um semelhante) eles [os seres humanos] também desejavam agir por conta própria, cuidar de seu futuro, planejar para o seu prazer e segurança, ter um meu do qual sem dúvida pagariam um tributo razoável a Deus em termos de tempo, atenção, e amor, mas que em todo caso era deles e não dEle. Eles queriam, como dizemos hoje, ser 'seus próprios donos'. Mas isso significa viver uma mentira, porque na verdade não somos donos de nós mesmos, nossa alma não é nossa. Eles queriam um lugar no universo de onde pudessem dizer a Deus: 'Este negócio é nosso e não seu'. Mas não existe um canto assim. […] Este ato de obstinação por parte da criatura, que constitui uma absoluta falsidade em relação à sua posição de criatura, é o único pecado que pode ser concebido como a Queda. [...] Dessa forma o orgulho e a ambição, o desejo de ser belo a seus próprios olhos e de oprimir e humilhar todos os rivais, a inveja e a busca incessante de mais e mais segurança, eram agora as atitudes que tomava com maior facilidade.” (p. 60 a 63)

O orgulho de Pedro, centrado na ilusão de sua própria autossuficiência, levou-o a afirmar que jamais negaria Cristo e a negá-lo pouco tempo depois. Não tenho dúvidas de que Pedro, realmente, acreditava em si mesmo quando afirmava que jamais negaria a Cristo. Um dos problemas do orgulho é que ele leva as pessoas a acreditarem em si mesmas, negando a Deus o seu lugar em suas vidas. Pessoas orgulhosas acreditam-se suficientemente importantes ao ponto de acharem que podem, por seus esforços, manterem-se fieis a Deus. O humilde crê que tudo pode por Deus, como fez Davi ao atacar Golias. O orgulhoso acredita em si mesmo, como fez Pedro. Creio que deve ser muito difícil ser líder em uma igreja. A tentação de um líder é acreditar em si mesmo. Aí começa a possibilidade de Satanás fazer desse líder alguém que de fato ignora Deus, embora pareça agir com temperança, equilíbrio e sensatez. E Satanás se compraz nesses seres religiosos que não só acreditam em si mesmos como buscam não as virtudes espirituais, mas apenas as virtudes morais. Alguns têm orgulho de sua humildade, de sua dedicação a Deus, do trabalho que realizam na Igreja... Como diz C. S. Lewis, também em O Problema do Sofrimento:

“Em Deus defrontamos com algo que é, em todos os aspectos, infinitamente superior a nós. Se você não sabe que Deus é assim – e que, portanto, você não é nada comparado a ele –, não sabe absolutamente nada sobre Deus. O homem orgulhoso sempre olha de cima para baixo para as outras pessoas e coisas: é claro que, fazendo assim, não pode enxergar o que está acima de si.

Isso levanta uma questão terrível. Como podem existir pessoas evidentemente cheias de orgulho que declaram acreditar em Deus e se consideram muitíssimo religiosas? Infelizmente, elas adoram um Deus imaginário. Na teoria, admitem que não são nada comparadas a esse Deus fantasma, mas na prática passam o tempo todo a imaginar o quanto ele as aprova e as tem em melhor conta que ao resto dos mortais. Ou seja, pagam alguns tostões de humildade imaginária para receber uma fortuna de orgulho em relação a seus semelhantes [...].

Mais de um homem conseguiu superar a covardia, a luxúria ou o mau humor pela crença inculcada de que tudo isso estava abaixo de sua dignidade. Ou seja, venceram pelo orgulho. O diabo ri às gargalhadas. Fica satisfeitíssimo de nos ver castos, corajosos e controlados desde que, em troca, prepare para nós uma Ditadura do Orgulho. Do mesmo modo, ele ficaria contente de curar as frieiras dos nossos pés se pudesse, em troca, nos deixar com câncer. O orgulho é um câncer espiritual: ele corrói a possibilidade mesma do amor, do contentamento e até do bom senso." (p. 165-167)

Por outro lado, a autossuficiência aliada à “crença em si mesmo” gera o que descreve G. K. Chesterton, em Ortodoxia:

"Pessoas completamente mundanas nunca entendem sequer o mundo; elas confiam plenamente numas poucas máximas cínicas não verdadeiras. Lembro-me de que, certa vez, fiz um passeio com um editor de sucesso, e ele fez uma observação que eu ouvira muitas vezes antes; é, na verdade, quase um lema do mundo moderno. Todavia, eu ouvi essa máxima cínica mais uma vez e não me contive: de repente vi que ela não dizia nada. Referindo-se a alguém, disse o editor: 'Aquele homem vai progredir; ele acredita em si mesmo'.

Lembro-me de que, quando levantei a cabeça para escutar, meus olhos se fixaram num ônibus no qual estava escrito 'Hanwell' [nome de um asilo para loucos, como será verificado mais à frente]. Disse-lhe eu então: 'Quer saber onde ficam os homens que acreditam em si mesmos? Eu sei. Sei de homens com uma confiança mais colossal do que a de Napoleão ou César. Sei onde arde a estrela fixa da certeza e do sucesso. Posso conduzi-lo aos tronos dos super-homens. Os homens que realmente acreditam em si mesmos estão todos em asilos de lunáticos'.

Ele disse calmamente que, no fim das contas, havia um bom número de homens que acreditavam em si mesmos e que não eram lunáticos internados em asilos. 'Sim, certamente', retruquei, 'e você mais do que ninguém deve conhecê-los. Aquele poeta bêbado de quem você não quis aceitar uma lamentável tragédia, ele acreditava em si mesmo. Aquele velho ministro com um poema épico de quem você se escondia num quarto dos fundos, ele acreditava em si mesmo. Se você consultasse sua experiência profissional em vez de sua horrível filosofia individualista, saberia que acreditar em si mesmo é uma das marcas mais comuns de um patife. Atores que não sabem representar acreditam em si mesmos; e os devedores que não vão pagar. Seria muito mais verdadeiro dizer que um homem certamente fracassará por acreditar em si mesmo. Total autoconfiança é uma fraqueza. Acreditar absolutamente em si mesmo é uma crença tão histérica e supersticiosa como acreditar em Joanna Southcote [Ela (1750-1814) se dizia virgem e grávida do novo Messias, e chegou a ter muitos seguidores]: quem o faz traz o nome 'Hanwell' escrito no rosto com a mesma clareza com que ele está escrito naquele ônibus.'

A tudo isso meu amigo editor deu esta profunda e eficaz resposta: 'Bem, se um homem não acredita em si mesmo, em que vai acreditar?' Depois de uma longa pausa eu respondi: 'Vou para casa escrever um livro em resposta a essa pergunta'. Este é o livro que escrevi para responder-lhe." (p. 25-27)

Essa é, em suma, a tendência do homem: acreditar em si mesmo e deixar Deus de fora. Assim fez Jonas, quando foi enviado para pregar em Nínive. Assim fez Moisés, quando em vez de falar à rocha feriu-a com o cajado, para obter água. Tudo isso é fruto do “eu” inchado. Essa tendência, hoje, é exacerbada em céticos e ateus. Na Igreja, por mais que isso nos custe admitir, convivemos com pessoas que acreditam que Deus serve para algumas coisas, mas não para todas. Nós mesmos, e isso é ainda mais difícil de admitir, nos forçamos a acreditar em nós mesmos diariamente – em como somos de fato merecedores da graça de Deus e especiais, por termos sido “escolhidos”. Afinal, escrevemos em letras pequenas “se Deus é por nós” e em letras garrafais “QUEM SERÁ CONTRA NÓS?" E nos achamos inatingíveis.

“Todavia, Deus, que nos fez, sabe o que somos e que nossa felicidade está nEle. Nós porém não a buscamos nEle enquanto permitir-nos qualquer outro recurso onde ela possa plausivelmente ser procurada. Enquanto aquilo que chamamos de ‘nossa própria vida’ permanecer agradável, não iremos entregá-la a Ele. O que pode então Deus fazer em nosso benefício senão tomar ‘nossa vida’ menos agradável, e remover as fontes plausíveis da falsa felicidade? É justamente aqui, onde a providência divina parece à primeira vista ser mais cruel, que a humildade divina, o rebaixamento do Altíssimo merece o maior louvor.

Quero implorar ao leitor que tente crer, embora apenas por um momento, que o Deus que fez todas essas pessoas cheias de mérito, possa estar realmente certo quando pensa que sua modesta prosperidade e a felicidade de seus filhos não bastam para fazê-las abençoadas: que tudo isso deve deixá-las no final, e que se não tiverem aprendido a conhecê-lo se sentirão miseráveis. E assim Ele as perturba, advertindo-as antecipadamente de uma insuficiência que um dia terão de descobrir. A vida para elas e suas famílias se interpõe entre as mesmas e o reconhecimento de sua necessidade; Ele torna essa vida menos suave para elas. Chamo a isto de humildade divina porque é deprimente procurar Deus quando o navio está afundando debaixo de nós; deprimente achegar-nos a Ele como um último recurso, oferecer nossa pessoa quando não vale mais a pena guardá-la.

Se Deus fosse orgulhoso, Ele jamais nos aceitaria nesses termos, mas Ele não é orgulhoso, Ele se abaixa para conquistar, Ele nos aceita embora tenhamos mostrado que preferimos tudo o mais a Ele, e nos achegamos porque agora não há ‘nada melhor’ que possamos ter. A mesma humildade é manifestada através de todos os apelos divinos aos nossos temores, o que perturba alguns leitores das Escrituras. É bem pouco simpático para Deus que o escolhamos como uma alternativa para o inferno: mas até mesmo isto ele aceita. A ilusão de autossuficiência da criatura deve, em seu próprio benefício, ser destruída; e pelas dificuldades ou medo das dificuldades na terra, pelo medo indisfarçado das chamas eternas. Deus a destroça ‘não levando em conta a diminuição de sua glória’. Os que desejariam que o Deus da Bíblia fosse mais puramente ético, não sabem o que estão pedindo. Se Deus fosse um kantista, que não quisesse aceitar-nos senão quando nos aproximássemos dele baseados nos motivos mais puros e melhores, quem poderia ser então salvo? E essa ilusão de autossuficiência pode ser mais forte em algumas pessoas muito honestas, bondosas e temperantes, e sobre elas, então, a desgraça deve cair.

Os perigos da autossuficiência aparente explicam por que Nosso Senhor considera os vícios dos fracos e dissipados com muito maior tolerância do que os vícios que levam ao sucesso mundano. As prostitutas não correm o risco de considerar sua vida presente tão satisfatória que não possam voltar-se para Deus: os orgulhosos, os avarentos, os que possuem autorretidão, correm esse perigo.” (O Problema do Sofrimento, p. 75 a 77)

Mas, afinal, de onde vem o orgulho? Ele pode ser vencido? Com a queda, a visão do homem turvou-se. Todo homem tem uma visão distorcida de si mesmo, de Deus e de seu próximo. Jesus veio corrigir essa visão, ao nos mostrar, em si mesmo, o exemplo do que já houve de mais humilde sobre a Terra. O orgulho é um sentimento decorrente das falsas perspectivas que temos acerca de nós mesmos, do próximo e de Deus. Não é um problema impossível de ser amenizado, mas exige uma morte diária, o que Cristo chamou de “tomar a sua cruz e segui-lo”. Quando falo aqui de "morte diária", não estou falando da mera manutenção de hábitos e costumes aceitáveis dentro da igreja, como não fumar, não beber, ser educado e dizer ‘por favor’, mas de uma revisão geral de ideias que cada um tem sobre si mesmo. O dia a dia nos leva, automaticamente, a sermos confrontados com nossa própria visão de mundo. Nesse confronto, temos a escolha de deixar o “eu” morrer, o que é doloroso, ou deixar o “eu” permanecer: temos de ter razão? Temos de ser importantes? Somos indispensáveis? Somos “bons cristãos”? Somos melhores que outros seres humanos? Você se importa muito se as pessoas têm uma visão negativa a seu respeito? Você se preocupa demais com o que dizem de você? Ao deixarmos o “eu” morrer, certamente seremos pisados. Nossa tentação de retrucar e recuperar o nosso “eu” e seu suposto “valor” é muito grande. Mas, se deixamos o “eu” morrer, de fato, Cristo pode finalmente ocupar algum espaço em nós. Não há outro caminho. Em vez de confiarmos em nós mesmos, em nossa perspicácia ou inteligência, devemos, como crianças, procurar o olhar do Pai. Como diz C. S. Lewis, o orgulho jamais poderá ser vencido: ele é a própria natureza do velho homem - “Daí a necessidade de morrer diariamente: por mais que julguemos ter esmagado o ‘eu’ rebelde, vamos sempre descobri-lo vivo.” (O Problema do Sofrimento, p. 71)


REFERÊNCIAS

CHESTERTON, G. K. Ortodoxia. São Paulo: Mundo Cristão, 2008.

LEWIS, C. S. Cristianismo Puro e Simples. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

______. O Problema do Sofrimento. São Paulo : Vida, 2002.

Bíblia de Estudo Pentecostal.

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11 de abr. de 2010

Acompanhe a discussão...

Caros leitores,

Vocês conheciam o blog "O cristão revoltado", do Isaías Medeiros? Influenciado por alguns cristãos de "blogs apologéticos", Isaías resolveu fechar o blog, também abdicando de seu antigo perfil, para criar outro, no qual se declara homossexual.

Entre um blog e outro, há muitas coisas a serem ditas. O antigo perfil de Isaías, no blog "O cristão revoltado", que ele deletou da web, era esse: "[C. R.] O Cristão Revoltado! Um cristão fundamentalista, um conservador de direita e, necessariamente, um anti-comunista. Inimigo da Teologia da Libertação, da Prosperidade e dos teólogos liberais e hereges (uma redundância). Portanto, aqui você verá abordagens da religião, da política e da sociedade do ponto de vista de um cristão fundamentalista, de direita e politicamente incorreto". Veja aqui: http://ocristaorevoltad.dihitt.com.br/noticia/perita-norte-americana-revela-homossexualidade-nao-e-normal-nem-benigna

No seu novo blog, "Um pouco além do óbvio", Isaías assina "Isa Medeiros", decalara-se homossexual, milita a favor da causa gay, chama o travesti de "mulher ideal", conta como se deu sua "conversão" à causa e à prática homossexual e chama de hipócritas (como seu mestre, Danilo Fernandes) os cristãos "religiosos", afirmando que Jesus jamais condenou os gays e que, ao contrário do que se pensa, teria tido um caso homossexual com João, "o apóstolo que Jesus amava". Logo que Isaías deixou de ser contra os liberais, Danilo Fernandes saudou-o com uma carta aberta, cheia de elogios à sua nova postura... O início da carta: "Irmão Isaias Medeiros, Minha admiração por você é grande, pela grandeza de seu caráter que fica evidente no exercício de humildade, um dos maiores frutos do Espirito e, prova inconteste, de uma vida separada ao serviço do Senhor. Como lhe disse antes, já era seu admirador em Cristo e, agora, já o..." O final da carta? Não sei, pois Danilo logo tratou de apagá-la de seu blog, assim que concluiu ser a onda liberalizante de Isaías liberal demais para sua teologia liberal: http://www.dihitt.com.br/noticia/carta-aberta-ao-isaias-aquele-que-um-dia-foi-o-cristao-revoltado-da-blogosfera-1 Enfim, Danilo renunciou à carta laudatória, e em seu lugar postou trechos da carta de Paulo aos Romanos e aos Gálatas http://www.genizahvirtual.com/2009/12/carta-aberta-ao-isaias-aquele-que-um.html

Há pouco tempo, li uma das postagens de Isaías e iniciei um debate acerca do tema proposto, mediante comentários que enviei ao seu blog. O debate está aberto, hoje mesmo foi postado mais um comentário meu acerca do texto de Isaías.

Se você quer ler, acompanhar o debate e entrar na discussão, clique aqui: http://tiny.cc/kp9wg

Em Cristo,

Maya

4 de mar. de 2010

o que você acha?

Você já viu a nova enquete, ao lado? Vote! O que você acha? Comente aqui! :)

Só mais uma coisa: copiei a enquete do blog Carro de Fogo, que visitei e de quem já sou seguidora! Visite também! http://carrodefogo.blogspot.com/

Um abraço,

Maya

:)

22 de dez. de 2009

teologia ácida, texto de leandro hüttl dias



Fico pensativo acerca de muitos teólogos que temos por ai. Suas teologias, seus estudos, sua dedicação são para crítica. Criticam pastores, criticam a formulação teológica de outras pessoas, mas nem sempre os vejo edificando. Sou grato a Deus pela minha formação teológica que Ele me proporcionou, mas não estudei (e estudo) teologia para isso! Embora a crítica faça parte da construção de pensamento e até da formação de uma sociedade, e é necessária para depurar o que se crê e pratica, sobretudo nas igrejas, fico preocupado com os que só criticam. A impressão que se tem é que essas pessoas não teriam o que fazer se alguns pastores (os alvos favoritos deles) deixassem de errar. Ficam numa eterna ideologia de que são os caçadores dos "vendilhões da fé".


Sim, temos tais vendilhões e suas práticas devem ser denunciadas, mas estou falando da dedicação exclusiva para isso e da busca do estudo teológico para ficar atrás de um poste e ao primeiro erro dos outros dar uma paulada nas suas cabeças e idéias (eu estou repetindo para deixar claro para tais críticos, pois os mesmos costumam olhar por cima os textos e criticar através de seus padrões próprios - que são retroalimentados pelos do seu meio). Querem medir as pessoas (pelas suas medidas) e ao primeiro sinalzinho de um milímetro fora dos seus padrões criticam, ficam ácidos. E acham interessante (...). Preocupo-me com tais pessoas. Poderiam usar sua formação para todos os fins do Reino, não apenas a crítica.

Hoje a tarde fui à livraria de um pastor amigo meu comprar o último livro planejado para o ano, fechando o que chamo de minha biblioteca a priori, pois com esta obra conclui os livros que queria este ano, coincidindo com a formação em Teologia (integralização de estudos). Sou grato a Deus pois Ele me deu estes e ainda outros que eu não esperava, superabundando sempre (para os mais críticos: o comentário não é Evangelho da prosperidade, ok). Enquanto o aguardava (gosto de comprar com ele, pois sempre conversarmos um pouco sobre a vida, acerca do Reino de Deus e afins) folheava uma coletânea dos escritos de Lutero e achei mais uma vez fascinante como este reformador e doutor fazia Teologia. Ele debatia idéias, lidava com os que eram contra ele com inteligência e espiritualidade (marca típica de Lutero) e puxava o Cânon como sua fonte de argumentação (isso é fazer teologia!!). Li uma frase dele hoje que me marcou: "será que essas pessoas ainda não perceberam o Espírito como Mestre dos meus textos?" (desculpem-me os críticos, não poderei citar a fonte pois não anotei na hora, isto aqui é um blog, não um tratado; eu nem havia pensado em citar, me veio à mente agora, é uma coletânea de 10 tomos dos escritos originais de Lutero). Fantástico! Fazer teologia tendo o Espírito como Senhor. Ter uma relação pessoal com o Pai, pelo Espírito, graças ao sacrifício salvífico de Cristo e pela PALAVRA, usando a Teologia como ferramental (e que ferramental).

Ademais, é importante também entenderem que Teologia, de maneira sistemática e na metodologia científica, se faz na academia (e olha que Metodologia Científica era uma das minhas matérias favoritas para espanto de alguns colegas). Alguns também fazem Teologia assim nos gabinetes, pois muitos gostam deles. Mas na Igreja e na vida prática, na sociedade, ela (a Teologia) se expressa sim, com verdade - óbvio - mas naturalmente sua apresentação é conforme o contexto e palatável a ele. Interessante que até o Evangelho, segundo o Cânon, deve adaptar-se ao contexto para ser inteligível e recebido (1 Co 9.19-24), mas para alguns teólogos não, as pessoas TÊM que partir dos seus pressuportos e enxergar sob seus óculos, e tudo tem que ser como eles querem e aprenderam. Pouco acadêmico isso (ou nada). Guardo com boas lembranças o que diziam meus professores de grego, hebraico, eclesiologia e homilética, algo mais ou menos assim (idéias lembradas e organizadas): "você não precisa citar o texto no idioma bíblico original numa pregação, as pessoas normalmente não irão entender. Explique o que a palavra usada no original SIGNIFICA e discorra acerca dela para "ensinar, repreender, corrigir e para instruir na justiça, para que o homem de Deus seja apto e plenamente preparado para toda boa obra" (cfme. 2 Tm 3.16)". Alguns acorrentam sua espiritualidade com a escrita, quando deveriam usá-la fartamente como Deus a usou, para edificar vidas, como Ele fez com a Bíblia. Outro exemplo, este secular: já fui a alguns médicos até catedráticos, mas que atendiam os leigos com um linguajar simples, porém resolviam as questões que se apresentaram a eles!

Estou apenas começando, desejando com temor de Deus que Ele possa usar este falho vaso escolhido conforme Seu propósito, que não é baseado em nossas obras. Peço ao Pai que eu aprenda com todas as pessoas, mas que veja muitos andando conforme Jesus andou, ou seja: criticando, quando necessário, mas também ensinando, amando, compreendendo, e obedecendo a Deus, dando testemunho da verdade e vivendo de maneira santa e piedosa para não dar ocasião aos que são contra o Evangelho da Verdade, mesmo porque algumas dessas críticas saem com cada colocação, abordagem e falta de educação (já vi até palavrão!) que espanta, pois são feitas por pessoas que parecem estar advogando em Nome de Deus. Será que é para Ele, ou para suas conclusões e seus ideais cravados no ego, e sobretudo para este? Pense nisso.
 
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