Creio que não existe nada de mais belo, de mais profundo, de mais simpático, de mais viril e de mais perfeito do que o Cristo; e eu digo a mim mesmo, com um amor cioso, que não existe e não pode existir. Mais do que isto: se alguém me provar que o Cristo está fora da verdade e que esta não se acha n'Ele, prefiro ficar com o Cristo a ficar com a verdade. (Dostoievski)

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26 de ago. de 2014

Carta a um morto

Senhor Jackson Lago,

Sempre quis escrever esta carta. Devo confessar. Sei que agora o senhor está morto, mas se estivesse vivo provavelmente também não a leria. Aliás, como vai? Espero que me desculpe pela ousadia. Perguntar "como vai?" a um morto pode parecer ironia ou desrespeito, mas de fato me interesso pela sua vida. Desculpe-me, pela sua pós-vida. Mas não vou tentar adivinhar onde o senhor está. Isso não é comigo. Acima de tudo, peço que o senhor não se ofenda com esta missiva. Afinal, o senhor foi um homem público. Foi eleito governador do Maranhão – com a ajuda do meu voto, diga-se de passagem.

Primeiro, devo dizer que nutria pela sua pessoa grande admiração. Não só por sua figura austera, que me inspirava e me dava esperança de dias melhores, como também por sua destacada atuação no que se costumava chamar de “oposição”, aqui neste velho e surrado Estado do Maranhão. Oposição a um grupo que está no poder há mais de 50 anos. Essa oposição unia o senhor, políticos de diferentes origens e matizes ideológicos, profissionais de áreas diversas, cidadãos pobres, meio pobres, mais ou menos e também muitos ricos, artistas, pensadores, poetas e, provavelmente, o dono do Cuscuz Ideal. Mas há outra razão. Minha avó Maria Amélia, por quem nutro um amor filial e terno, muitas vezes me contou que tomou conta do senhor, ainda criança, em Pedreiras. Ela, já mocinha, conhecia sua família e por vezes cuidava de lhe trocar as fraldas. Suponho que dela o senhor não se lembre. Nem de mim, aliás.

Mas falemos de política. Há uma estranha e nociva inversão de valores em todos os lugares e áreas deste vasto mundo (talvez não na Nova Zelândia, mas este assunto fica para a próxima carta). Os eleitos para trabalhar pelo e para o povo se tornam pequenos monarcas, dignos de toda pompa e circunstância. Quando erram, tornam-se avessos a toda espécie de crítica. Com isso, não temos elegido servidores do povo, mas reis, rainhas, tiranos, semideuses.
   
Quando o senhor se candidatou ao Governo do Estado, após três felizes passagens  pela Prefeitura de São Luis, houve choro e ranger de dentes no grupo que ocupava o poder. E houve uma imensa alegria do lado de cá, daqueles que se diziam oposição, por um Maranhão mais livre, mais solto, mais crocante e com sabor original. Tive um lampejo de esperança de que finalmente – finalmente! – iríamos deixar o atraso decorrente de anos a fio de domínio político familiar nestas paragens. Mas descobri, também com seu Governo, que é muito difícil ter esperança no Estado do Maranhão. Em 2006, vi em sua candidatura uma oportunidade singular de darmos fim à letargia política deste pobre Estado. Não só eu. Em meu trabalho, a Universidade Estadual do Maranhão, colegas professores e funcionários e estudantes uniram-se pelo objetivo comum de elegê-lo governador. Não havia um só estudante que não declarasse, orgulhosamente, esperançosamente, o voto em sua candidatura. O senhor sabe, os professores universitários quase sempre acham que têm uma clarividência política que os demais mortais não têm. Pensam assim porque estudaram mais que a média da população, leram mais que a média, analisaram mais a situação política e debateram mais que a média. Ledo engano. Terrível engano.

Pois bem. Votei no senhor em 2006. Durante sua campanha, levava em meu carro, um Celta preto, 1.0, sua bandeira. Fui a um de seus comitês e pedi que soldassem, na parte traseira do carro, um suporte para que ela ficasse constantemente ali, tornando pública minha opção política e fazendo propaganda de sua candidatura. Também colei nos vidros do carro adesivos com seu nome e número (o 12!). Além disso, tinha o CD com aquela musiquinha “é 12, é 12, é 12, é 12...” e, ao sair de carro, os vidros abertos – pois não tinha ar condicionado – escutava-a no volume mais alto. Tenho o CD ainda hoje. Fiz campanha para o senhor como pude. Ganhei os votos que pude. Conversei com os colegas que encontrei pela frente, os amigos, os parentes, a fim de convencê-los de que o senhor era – enfim! – a solução. Sobretudo para a Universidade Estadual do Maranhão, tão empobrecida, carente de recursos, desvalorizada. Pensei que a Uema floresceria em seu Governo. Não só a universidade, mas toda a rede pública de Educação, que vive sempre dias de agonia em um Estado que apresenta os piores índices educacionais do Brasil.

Em 2007, entretanto, seu Governo propôs o PL 080/2007, transformado na Lei 8.592/2007, de 24/04/2007, pela Assembleia Legislativa do Maranhão. A Lei foi chamada por nós e pelos maranhenses de “Lei do Cão”. O senhor se lembra? Os vencimentos dos professores e de outras categorias do funcionalismo público seriam transformados em “subsídios”.  O que é um subsídio? Ora, o senhor deveria saber. Segundo o Artigo 39 da Constituição Federal, é a "forma de remuneração atribuída a membros de Poder,  detentores de mandato eletivo, ministros de Estado e Secretários Estaduais  e Municipais, fixado em parcela única, sobre a qual é vedada o acréscimo  de qualquer gratificação, adicional, abono, prêmio, verba de representação  ou outra espécie remuneratória..." E por que nós, professores, ficamos tão revoltados, senhor Jackson Lago? Porque com essa Lei o senhor acabou com várias gratificações e adicionais, que foram  transformados em "vantagens pessoais congeladas".

Na época, fizemos uma Carta à sociedade explicando as razões de nosso movimento, o porquê de termos de paralisar as aulas, de termos de ir às ruas, de termos sido obrigados a ir contra o governador pelo qual tanto havíamos lutado. Segundo a nossa Carta, vale lembrar, senhor Jackson, que sua lei:

  • Congelou a gratificação por titulação, adicional por tempo de serviço e percentual de insalubridade, todos transformados em “vantagens pessoais”;
  • Extinguiu a condição Especial de Trabalho e o Adicional de Risco de Vida que incidiam 100% sobre o salário dos servidores técnico-administrativos. Foram extintos, e seriam substituídos por "serviço extraordinário", em valores também congelados (ref. março/2007);
  • Substituiu "vencimento" por subsídio, que vedava a agregação de quaisquer vantagens, feria o sistema meritocrático que fundamenta a carreira universitária, o que poderia ter resultado na evasão de cérebros e inibido a absorção de novos cientistas e técnicos altamente qualificados;
  • Proporcionou insegurança jurídica se as "vantagens pessoais" seriam levadas para a aposentadoria;
  • Impôs dificuldades na elaboração e negociação dos novos Planos de Carreiras, Cargos e Salários, com o conceito de "subsídio".

Quero continuar a citar a Carta, que ajudei a escrever e revisei. Mais do que outro documento, é ela que diz como foi o tratamento que recebemos do senhor, na época. Sigamos:

“Para os trabalhadores da Uema, professores e técnicos administrativos, que têm salários ancorados em ‘vencimento’, o regime de subsídios sepulta o sistema meritocrático e do aperfeiçoamento científico que fundamenta a carreira universitária, com perdas irreparáveis ao capital humano da instituição. [...] A reação dos professores do ensino básico, logo seguida por todos os  servidores da Uema, a essa insensatez do governo foi acertadamente, firme  e imediata, só lhes restando o recurso da greve, para lutar contra as  lesões que a lei causa nos seus direitos, tão duramente conquistados, ao  longo da história. A greve da Uema foi iniciada pelo Sintuema/Assuema no dia 02/05/07 e em seguida apoiada pelos professores reunidos em Assembleia no dia 07/05/07. Os trabalhadores da educação da rede pública estadual de ensino, por meio do Sinproessema, aderiram ao movimento no dia 22/05/07. O movimento grevista, composto de 11 entidades sindicais, está sendo coordenado pela  CUT/MA. Nos primeiros 30 dias da greve, fizemos várias passeatas contra a lei, em uma das quais fizemos o seu enterro simbólico. Participamos de cinco reuniões com representantes do Governo, nas quais as negociações pouco avançaram, por conta da intransigência do Governo em não aceitar a revogação da lei nem tampouco discutir alternativas ao regime de subsídio.

A última reunião que tivemos no Palácio dos Leões, solicitada e dirigida pelo governador Jackson Lago (25/05/2007), resultou na criação de três comissões por ele sugeridas, formadas por representantes do Governo e pelos membros da Comissão de Negociação: a primeira, para estudar a questão dos subsídios; a segunda, para estudar OS PLANOS DE CARREIRAS, CARGOS E SALÁRIOS, e a terceira, para estudar um plano para a educação no Estado do Maranhão.

À primeira reunião da comissão de estudo dos subsídios, enquanto compareceram todos os representantes da Comissão de Negociação, o governo mandou quatro servidores de escalões inferiores, quase todos sem informações e com conhecimento limitado sobre o assunto.

À segunda reunião, só compareceu um desses representantes, ficando então confirmado o esvaziamento das comissões sugeridas por Jackson, numa atitude tão desrespeitosa para com os grevistas quanto desmoralizante para o governador, pois induziu à convicção de que havia alguém com maior poder de decisão que o governador.

Diante dessa circunstância, a Comissão de Negociação decidiu buscar o apoio da Assembleia Legislativa, resultando numa demorada reunião da qual participaram, além do Chefe da Casa Civil, a Comissão de Negociação e oito deputados, inclusive o Presidente da Assembleia. Como resultado dessa reunião, a Comissão de Negociação assumiu o compromisso de apresentar as suas postulações sobre a revogação ou mudanças na Lei do Cão.

Tal compromisso foi honrado pela Comissão de Negociação, com a entrega de um documento ao Sr. Aderson Lago, no dia 14 de junho de 2007,  conforme ficara acordado. Em decorrência, Aderson anunciou aos grevistas que haveria uma reunião no início da semana seguinte, provavelmente, na terça, ou na quarta feira, pois na segunda feira, o Ministro Gilberto Gil estaria visitando a nossa cidade.

Enquanto a Comissão de Negociação aguardava pelo convite do Chefe da Casa Civil para a continuação do diálogo, o Governo, de modo traiçoeiro e mesquinhamente autoritário, apequenou-se: rompeu, unilateralmente, o diálogo e decidiu pedir à Justiça que decretasse a greve ilegal. O movimento grevista recorreu a alguns deputados federais da bancada maranhense e que são da base do Governo, no sentido de impedir que fosse pedida a ilegalidade da greve. Para tal, realizou-se, na residência do dep. João Evangelista, uma reunião com a Comissão de Negociação, da qual participaram os deputados: Domingos Dutra, Julião Amin, Ribamar Alves, Pinto da Itamarati e Cléber Verde, que tomaram conhecimento de toda a questão. 

No dia seguinte, os citados deputados reuniram-se com Jackson, trataram de vários assuntos, e sobre a greve, mesmo, só de raspão, mas foi o suficiente para ouvirem do governador a reafirmação de sua inabalável e inflexível decisão de pedir à Justiça que decretasse a ilegalidade do movimento, o que, de fato, ocorreu, para a decepção plena dos que votaram em Jackson, certos de estarem elegendo um Governo democrático.
”
           
Como está claro, tentamos de todas as maneiras conversar com o senhor. Nossa intenção não era, de início, entrar em greve. Mas o caráter autoritário de seu Governo, assim como sua inflexibilidade, levou-nos a reagir, a fim de tentar preservar o pouco que tínhamos de nossas  carreiras. Procuramos informar a sociedade maranhense que havia algo errado, profundamente errado, em sua iniciativa. Fiz parte da Comissão de Greve e pude acompanhar de perto o esforço dos colegas para esclarecer o povo, pedir ajuda, abrir o diálogo com as autoridades, levar as informações corretas aos estudantes e suas famílias e à população, de modo geral. É claro, tentamos falar com o senhor, que não nos recebeu em nenhum momento, tratando-nos como indigentes à porta de seu palácio. Logo a nós, senhor Jackson, que tanto havíamos lutado para que o senhor se elegesse! Que grande e triste surpresa! A cada assembleia, a cada reunião, chegávamos à conclusão de que elegê-lo havia sido um erro. Não bastasse a Educação e a Saúde estarem vivendo graves problemas, a crise da Segurança Pública tornava-se mais e mais complexa – a secretária, Eurídice Vidigal, era mulher de seu amigo, Edson Vidigal. A propósito, seu Governo, em termos da contratação e do beneficiamento de amigos e parentes não foi muito diferente dos sucessivos governos da oligarquia. Mas vou falar disso em outro momento.

Também preciso dizer, oportunamente, que seu Governo não se fez sozinho. Por isso mesmo, o hoje candidato pelo PC do B ao Governo do Maranhão, dono de um discurso quase idêntico ao seu, o juiz Flávio Dino, na época foi ao Supremo Tribunal Federal a fim de defender a Lei 8592/07, a nefasta "Lei do Cão", implantada pelo senhor e derrubada pela governadora Roseana Sarney assim que assumiu o comando do Estado, em 2009. Quem denunciou isso? O hoje candidato ao Governo pelo PSTu, Saulo Arcângeli, que na época era professor da Universidade e estava conosco no propósito de barrar a citada Lei. Flávio Dino, que era então deputado federal, também se preocupou em ir aos sindicatos e associações de servidores – Sindjus (Sindicato dos Servidores da Justiça do Estado do Maranhão), Sinproesemma (Sindicato dos Trabalhadores em Educação Pública do Maranhão), Sintuema (Sindicato dos Trabalhadores da Universidade Estadual do Maranhão), Assuema (Associação dos Professores da Uema) – a fim de nos pressionar a aceitar o acinte que sua Lei nos impunha.

No final das contas, o senhor deve também se recordar, o STF determinou que seu Governo suspendesse a vigência da malfadada Lei 8.592/2007. Essa suspensão foi solicitada pelo PMDB e aprovada por 10 dos 11 ministros do Supremo. Isso obrigou seu Governo a retornar ao sistema antigo de pagamento dos salários dos 120 mil servidores da administração direta e indireta, suspensos pela sua Lei do Cão. No Magistério, somente, ficaram parados 35 mil professores do Ensino Básico (83 dias) e da Uema (103 dias).

Mais? O senhor quer mais? Ora, quem sou eu, senhor Jackson, para contestar esse tal “legado” que seus amigos dizem que o senhor nos deixou. Não é? Porque aqui no Maranhão a construção política quase sempre não é feita com fatos, mas com relações de compadrio, de camaradagem, de oportunismo, cobertas de inverdade e interesses escusos. Obviamente, quem quer que conteste seu grande legado será mal visto. E mal quisto. Eu me preparo para as pedras e para os tomates, como sempre me preparei. O que não faço nem farei é engolir mentiras para dizer que estou do lado de alguma verdade.

Sigamos. Vamos mais adiante. Em uma de nossas passeatas, pacífica, como todas as que ajudei a organizar e das quais participei, o senhor enviou a Polícia Militar para nos receber. Devo dizer ao senhor que tenho verdadeiro respeito pela PM, e que já tinha dado aulas para turmas do Curso de Formação de Oficiais, na mesma Uema que o senhor queria destruir. Por isso mesmo, encontrava, aqui e ali, alguns de meus alunos. Estupefatos, pediam desculpas por estarem ali. Sabiam que nosso movimento era legítimo. Que não estávamos armados. Que estávamos caminhando pacificamente – assim como pacificamente havíamos acampado em frente ao Palácio dos Leões, e ali também cheguei a passar uma ou duas noites – nós, professores e estudantes, funcionários, parentes. Pacificamente, portanto, recebemos as balas de borracha e os gases lançados contra nós. O que fizemos? Corremos. Uma de minhas alunas, que estava próxima a mim, foi baleada com as tais balas de borracha. Sua perna, inchada, aparecia sob o jeans da calça, rasgado.

Levei-a ao hospital, aquele da Rua do Passeio, chamado de “Socorrão”. Novo choque, senhor Jackson! O que vi ali me deixou mais horrorizada ainda com seu Governo. Os corredores estavam lotados, não havia circulação de ar, doentes velhos, novos, graves e menos graves se misturavam. Esperei minha aluna ser atendida e fui me embora dali. Se na Educação seu Governo demonstrava total inépcia, na Saúde não se saía melhor. E o senhor era médico. Médico. Isso nunca me saiu da cabeça. E há os que defendem o “seu legado”! Minha aluna ficou semanas sem andar direito, sentindo muita dor. A dor que eu sentia era no coração. Eu me sentia enganada. Saí daquele hospital, fui para casa e, nos dias seguintes, adoeci. Devo ter pego alguma virose no Socorrão. Enquanto esses fatos se passavam, o senhor deveria estar em seu gabinete, cercado por seus assessores. Soube, aliás, que alguns deles saíram de seu Governo em ótimas condições financeiras. Pelo menos alguém foi ajudado, diria Oscar Wilde, ironicamente. Seus assessores, secretários, amigos, correligionários. Seus cúmplices.

Quando o STF cassou seu mandato, estávamos exaustos. Achei a cassação injusta, fruto de manipulação política orquestrada pelo grupo que manda há muito tempo no Estado. O senhor tinha sido eleito pela maioria, e eu chamei essa cassação de golpe branco. Apesar disso, – e peço que o senhor tente se colocar no meu lugar – não fui às ruas para defendê-lo. Eu e meus colegas, alunos, parentes e amigos teríamos ido às ruas defender sua permanência, mas estávamos cansados, ainda estupefatos com a sua Lei do Cão e, finalmente, preocupados em repor os dias de aula perdidos. Teríamos ido às ruas lutar para que o senhor terminasse seu tempo de Governo, mas nós nos perguntávamos qual a razão para defender um político que só havia nos atacado. Por que ir ao STF pedir que anulasse sua decisão a fim de beneficiar um Governador que estava prejudicando o Maranhão. Por que lutar para que o senhor continuasse propondo leis injustas, prejudicando a Educação, a Saúde, a Segurança Pública, como era notório. Então não fomos. Então o senhor saiu do Governo. Perdeu a melhor oportunidade da “oposição”, até aquele momento, para melhorar o Maranhão. Continuamos ruins. Continuamos deficitários. Continuamos nos últimos lugares. Continuamos sendo notícia por causa de nossa ineficiência, do roubo dos políticos, da violência, da falência do sistema prisional. Se for falar para o senhor de todos os nossos problemas, terei que produzir uma enciclopédia.

Por outro lado, senhor Jackson, sinto que devo agradecê-lo, sinceramente. Porque comecei a perceber, com o senhor, que ser oposição ou situação, aqui no Maranhão, dá na mesma: resume-se a quem vai comer o bolo. Quem vai enriquecer. Quem vai ser o califa da vez. Os grupos podem se alternar, e neste exato momento o senhor deve estar acompanhando estas eleições, em que o então na época deputado federal Flávio Dino, que lutou para nos prejudicar, publica aos quatro ventos que quer “mudar o Maranhão”. Ele está certo. Ele quer tirar a oligarquia do poder porque talvez tenha chegado a sua hora de abocanhar o bolo. O que entendo é que seja ele, seja outro, o Maranhão continuará a mesma coisa. Por isso costumo dizer que o único legado que o senhor nos deixou foi a decepção – ainda que esta seja a inaceitável verdade.

Maya Felix
São Luis, 25 ago 2014.

P.S. Devo fazer um mea culpa, sr. Jackson: o hospital Socorrão, que cito neste texto, não era nem é responsabilidade do Governo do Estado do Maranhão, mas da Prefeitura de São Luis. E em 2007 o prefeito era o sr. Tadeu Palácio, médico como o sr. Desculpe-me pela injustiça. O estado lastimável do Socorrão, de fato, não era culpa de sua administração.

13 de fev. de 2011

relativismo cultural é blablablá que só funciona em conversa de mesa de bar



Blablablá



por Luiz Felipe Pondé

O que você faria se estivesse a ponto de assistir a um ritual de antropofagia? Interromperia (sem risco para você)? Ou deixaria acontecer em nome do relativismo cultural (essa ideia que afirma que cada um é cada um, que as culturas devem ser respeitadas em sua individualidade e que não podemos compará-las)?

No primeiro caso, você seria um horroroso descendente dos "jesuítas"; no segundo você seria um relativista chique. Sempre suspeitei que esse papo relativista fosse blablablá. Funciona bem em aula de antropologia, em bares, em parques temáticos e lojas de curiosidades. É evidente que "jesuítas" de todos os tipos fizeram horrores nas Américas. Todo adulto bem educado sabe que é feio condenar cultos à lua ou à chuva. Mas há algo no relativismo cultural que me soa conversa fiada: o relativismo cultural morre na praia quando você é obrigado a conviver com o Outro. E o "Outro" nem sempre é legal.

Se você aceita a antropofagia em nome do respeito à "cultura", aceita implicitamente a ideia de que o valor da vida humana seja subordinado à "cultura". A vida humana não tem valor em si. Todo estudante de antropologia sabe recitar esse credo. Quando confrontado com dilemas como esse, o relativista diz que se trata de uma situação meramente hipotética (hoje não existe mais antropofagia). Mas a verdade é que quando o relativista diz que a antropofagia é hoje quase nula, e, portanto, esse dilema não tem "validade científica", está literalmente correndo do pau porque "alguém" acabou com a antropofagia, não? Por que a antropofagia "acabou"?

Algumas hipóteses: 1) os antropófagos foram mortos por gripes ou em batalhas; 2) foram convertidos pelos horrorosos "jesuítas" e seus descendentes; 3) descobriram formas mais fáceis de comer e rituais que deixam as pessoas (isto é, os Outros) menos irritadas e com menos nojo. É importante conhecer o "lugar" da antropofagia nas religiões dos canibais, mas isso é apenas um "dado" antropológico. Uma descrição de hábitos (ruins). Mas o relativista tem que correr do pau mesmo, porque seu credo funciona bem apenas nas conversas de salão. A vida é sempre pior do que as festas. Relativistas culturais são, no fundo, puritanos disfarçados, gostam de "aquários humanos".

Os seres humanos são culturalmente promíscuos, e "a cultura" sem promiscuidade (trocas, misturas, confusões) só existe nos livros. Use internet, televisão, celulares, aviões e estradas, faça sexo ou guerra, e o papo do relativismo cultural vira piada. Na realidade, as pessoas lançam mão do argumento relativista somente quando lhes interessa defender a "tribo" com a qual ganha dinheiro e fama. O problema com o debate sobre os índios (ou qualquer outra cultura considerada "coitada") é a mitologia que ela provoca. Se, de um lado, alguns falaram dos índios (erradamente) como inferiores, bárbaros ou inúteis, por outro lado, os que "defendem" os índios normalmente caem no mito oposto: eles são legais e só querem viver "sua cultura", e eles não são "capitalistas" como nós, e blablablá. Índios gostam de poder como todo mundo, vide os índios "conscientes de seus direitos" devorando computadores, celulares e internet no Fórum Social, em Belém -ou ficam na idade da pedra mesmo e precisam que o Estado os defenda do mundo.

As culturas mais bem-sucedidas são predadoras e seduzem as mais fracas (ser mais bem-sucedida não implica ser legal). Por que levar medicina científica (invenção dos "opressores") para as aldeias? Não seria contaminação "cultural"? Vamos ou não brincar de "curandeiros"? Que tal abraçar árvores? Se você é católico e quer ser fiel aos seus princípios, você é um retrógrado; se você quer viver no meio da selva (com direitos adquiridos porque você é de uma cultura "coitada"), você é apenas uma tribo com direito a integridade cultural. O conceito de cultura é quase um fetiche do mercado das ciências humanas. Não que não existam culturas, mas o conceito na sua inércia preguiçosa só funciona no laboratório morto da sala de aula ou do museu. A vida se dá de forma muito mais violenta, se misturando, se devorando.

Nada disso é "contra" os índios, mas sim contra o relativismo como ética festiva. O oposto dele não é o obscurantismo, mas a dinâmica da vida real. O relativismo é um (velho) problema filosófico e um "dado" antropológico. Um drama, e não uma solução.


***

Pesquei do Paulo Lopes Weblog. Sugestão de leitura do Gutierres Fernandes Siqueira.

Leia também: Brasil: infanticídio indígena e relativismo multicultural, no Mídia Sem Máscara.

17 de set. de 2010

a formiga e a cigarra: atualizando a fábula!


A FORMIGA E A CIGARRA


Era uma vez uma formiga que trabalhava duro, de sol a sol, construindo sua toca e acumulando suprimentos para o longo inverno que se aproximava.

A cigarra viu aquilo e pensou:

- Que idiota!

E passava o tempo todo dando gargalhadas, cantando e dançando. Assim, passou todo o verão...

Ao chegar o inverno, enquanto a formiga estava aquecida e bem alimentada, a cigarra, que não tinha abrigo nem comida, morreu de fome.

MORAL DA HISTÓRIA:

Trabalhe duro! Seja previdente e responsável!


VERSÃO BRASILEIRA:

Era uma vez uma formiga que trabalhava duro, no sol escaldante de verão, construindo sua toca e acumulando suprimentos para o longo inverno que se aproximava.

A cigarra pensou:

- Que idiota!

E passou o verão dando gargalhadas, cantando e dançando como nunca.

Ao chegar o inverno, a cigarra, tremendo de frio, armou uma barraca de lona na entrada da toca da formiga, convocou toda a imprensa para uma entrevista e exigiu explicações!

- Por que é permitido à formiga ter uma toca aquecida e boa alimentação, enquanto as cigarras estão expostas ao frio e morrem de fome?

Todos da imprensa compareceram à entrevista: SBT, Band, Zero Hora, Jornal do Brasil, Correio Braziliense, Estadão, Rede Globo, CBN etc. Tiraram muitas fotos da cigarra trêmula de frio e com sinais de desnutrição! As imagens dramáticas na televisão mostraram uma cigarra em deplorável condição, sentada num banquinho, debaixo de uma barraca de plástico preto... E, mais adiante, mostraram a formiga, em sua toca confortável, com uma mesa farta e variada! O canalha do Datena apresentou um quadro de 15 minutos, mostrando a cigarra cambaleante!

O povo brasileiro fica perplexo e chocado com o contraste!

A BBC de Londres manda ao Brasil uma equipe para fazer uma reportagem especial a ser distribuída em rede para toda a Europa! A CBS, nos EUA, interrompe uma entrevista coletiva sobre as ações no Iraque, antes da entrega do Oscar, para mostrar como anda a cidadania das cigarras brasileiras... A notícia recebe o apoio imediato do PT, com a ressalva de que os recursos devem ser dirigidos ao programa Fome Zero, do Governo Lula... E cogita-se uma Emenda Constitucional para que se aumente os impostos para as formigas e ainda obriga as comunidades a promoverem a integração social das cigarras.

A formiga, multada por supostamente não entregar sua quota de folhas verdes ao Ministério das Folhas e não tendo como pagar todos os impostos e contribuições que foram apurados retroativamente, pede falência!

A Câmara Federal instala uma comissão de inquérito para investigar a falência fraudulenta de inúmeras formigas abastadas.

O Ministério das Folhas nomeia uma comissão de auditores fiscais, suspeitando que as formigas tenham desviado recursos do FF5 (Folhas Frescas nº 5, do Banco Central), lavando folhas!

A cigarra decide invadir a toca da formiga e lá acampa!

A formiga pede ajuda à polícia, mas essa informa que não dispõe de efetivo para atender ocorrências dessa natureza, e, que, também por orientação do Secretário de Segurança, deseja evitar confronto com os "Sem Tocas", não podendo atuar.

A formiga entra na justiça para obter a reintegração da toca, mas o pedido é negado! O juiz, invocando um novo ramo do direito, "o econômico", sentencia que a formiga não provou a produtividade da Toca!

O Ministério da Reforma Agrária desapropria a Toca da Formiga, por não cumprir sua função social, e a entrega à friorenta e desnutrida cigarra...

O Ministério da Justiça, examinando exemplares do jornal Última Hora, descobre que a cigarra fora presa no passado, por promover greves, assaltos e sequestros ("crimes políticos")... Assim, inclui a cigarra no grupo dos perseguidos políticos com direito a indenização federal e pensão vitalícia!

Agora, quando começa novamente o verão, as formigas trabalham e as cigarras cantam e dançam...

MORAL DA HISTÓRIA?

Você decide!
 
***
 
COLABORAÇÃO: Paula Costa

2 de dez. de 2009

enfim uma oração profética...


"... todas as armas podem ser falhas, todos os planejamentos podem falhar, mas o Senhor nunca falha..." [trecho da oração de César Brunelli, após ter recebido propina do Governo do DF]

***

FONTE: G1


***

NOTA: E eu ainda diria mais a esses deputados corruptos que se denominam evangélicos: “Nada há encoberto que não venha a ser revelado; e oculto que não venha a ser conhecido.” (Lucas 12:2) 

22 de abr. de 2009

"CGADB é você!" ? Não, não sou eu.

O que observo da reunião dos pastores das Assembléia de Deus, em Vitória (ES), para a eleição do do novo Presidente da Convençao Geral das Assembléias de Deus no Brasil, não é nada animador. 

Eu penso que se Jesus viesse hoje, alguns dos que lá estão seriam os primeiros a crucificá-lo. Se tivessem vivido nos tempos dos profetas, seriam aqueles que os teriam matado.

A respeito desses, o Mestre disse:


"Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Pois que dizimais a hortelã, o endro e o cominho, e desprezais o mais importante da lei, o juízo, a misericórdia e a fé; deveis, porém, fazer estas coisas, e não omitir aquelas.

Condutores cegos! Que coais um mosquito e engolis um camelo. 

Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Pois que limpais o exterior do copo e do prato, mas o interior está cheio de rapina e de iniquidade. 

Fariseu cego! Limpa primeiro o interior do copo e do prato, para que também o exterior fique limpo.

Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Pois que sois semelhantes aos sepulcros caiados, que por fora realmente parecem formosos, mas interiormente estão cheios de ossos de mortos e de toda imundícia.

Assim também vós exteriormente pareceis justos aos homens, mas interiormente estais cheios de iniquidade.

Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas!" (Evangelho de Mateus, cap. 23, versos 23-29a)

Reproduzo aqui, também, a respeito dos fatos, o trecho de um comentário que li a respeito da postagem sobre a Convenção no Blog do Pr. Altair Germano. É uma adaptação dos versos 10 a 13 da primeira carta de Paulo aos Coríntios:

10 Rogo-vos, porém, irmãos, pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo, que digais todos uma mesma coisa, e que não haja entre vós dissensões; antes sejais unidos em um mesmo pensamento e em um mesmo parecer. 
11 Porque a respeito de vós, irmãos meus, me foi comunicado PELO BLOG DO PR. ALTAIR que há contendas entre vós. 
12 Quero dizer com isto, que cada um de vós diz: Eu sou de JOSE WELLINGTON, e eu de SAMUEL CÂMARA, e eu de Cristo. 
13 Está Cristo dividido? Foi JOSE WELLINGTON crucificado por vós? Ou fostes vós batizados em nome de SAMUEL CÂMARA? 


Então, enquanto morrem muitos sem conhecer a Cristo, e o mundo descrê cada vez mais de Deus, por serem os tempos maus, o testemunho que temos de alguns pastores da Assembléia de Deus no Brasil é esse? É tempo de rasgarmos nossas vestes e cobrirmos nossas cabeças de cinzas. Que vergonha! Uma pessoa há 22 anos no poder de uma organização religiosa rica e influente insiste e faz de tudo para continuar! E o que isso tem causado? É só observar. O que não faz o amor ao poder e ao dinheiro! Por outro lado, não vale tudo para que o candidato opositor seja eleito! Os fins não justificam os meios! O que é isso, gente? Dos dois lados temos o desprazer de ver procedimentos imorais e imundos?

22 de mar. de 2009

bráulia ribeiro

De como a ideologia matou Tititu


Numa sala apertada, com janelas pequenas e paredes de cal desbotadas, sentaram-se, desiludidos, índios e não-índios.

-- É sempre muito triste. -- disse-me a Lucília na volta. 

Ela tinha ido à cidade de Lábrea para a reunião do Distrito de Saúde Indígena (DISEI), da qual participavam a JOCUM e o CIMI, juntamente com órgãos públicos. Lucília sempre ora pela microcidade e por suas mazelas: corrupção, devassidão extrema, doenças, entre outras. 

Os habitantes de Lábrea têm os rostos macilentos das muitas malárias e cachaças. Falam sem convicção, parecendo não saber o que dizem. Mas sabem; só não creem mais que algo possa mudar no caos de desserviços que o governo finge prestar àquele arremedo de cidade.

-- Isto é o que mais me dói -- me diz Lucília na volta. -- Os índios baixam a cabeça como animais domesticados à custa de muita dor. O formato da reunião é excludente. Discute-se como em uma repartição pública, e os indígenas não acompanham. 

A situação Suruwahá é debatida. Lucília imagina a dificuldade dos técnicos presos no posto distante de tudo. Parece que nem visitar a aldeia eles conseguem. O medo, a pouca educação, o salário menor ainda -- os índios que se virem para chegar até o posto.

E assim foi. No dia 14 de janeiro Naru caminhou sete horas com Tititu nos braços, antes saudável, agora sem vida. A menina estava em péssimo estado e o técnico não sabia como tratá-la. Fez gestos e sons imitando um avião, para mostrar aos pais da menina que ela deveria ser retirada. A noite caiu, a menina piorou. De madrugada o corpinho esfriou e foi endurecendo aos poucos. A alma de Tititu foi para Jaxuwá, no reino onde as bananas são fartas e os peixes, grandes.

Tititu foi escolhida para morrer desde que nasceu. A ideologia que impede os Suruwahá de obter tratamento médico decente prevê que casos de deformidade congênita sejam “eliminados” no nascimento. O pai da menina recusa-se a matá-la ao ver a deformidade com que nasceu. Não conhece a ideologia, ainda se sente gente. Pede ajuda, e Lucília e Moisés conseguem retirá-la da aldeia. Com a oferta de muitos irmãos, ela vai a São Paulo para ser operada no Hospital das Clínicas. Mas a ideologia envia um procurador do Ministério Público, que proíbe a cirurgia. Os médicos ficam chocados com a proibição. A mídia divulga o caso e a pressão aumenta. O procurador desiste do impedimento e a menina é operada. Volta à aldeia, mas precisa de um medicamento mensal. Enquanto a JOCUM está presente, o remédio chega -- agitamos meio mundo, vamos para a Funasa a cada atraso. Até que a ideologia nos impede de voltar à aldeia. Nas mãos da ideologia, os índios não têm chance. Para o CIMI, a Funai e a Funasa eles não são gente. São um construto, uma abstração antropológica, um número nos gráficos. A falta do medicamento na data precisa poderia causar a morte da menina Tititu; morte já prevista, escrita, desenhada e explicada academicamente na voz estridente da ideologia.

É a inexorável força darwiniana. Tristes, imaginamos o sofrimento de Naru, o pai, e de Kusiumã, a mãe, carregando a filha na mata escura para vê-la esfriar de repente ao som de um forró desafinado no barraco de madeira do posto da Funai.


• Texto de Bráulia Ribeiro, missionária em Porto Velho, RO, e autora de Chamado Radical (Editora Ultimato). Contato: braulia_ribeiro@yahoo.com.
FONTE: Revista Ultimato mar-abr/2009.

NOTA: No discurso de abertura do Congresso da Abralin houve a citação de missões que trabalham com os índios: a antiga SIL, a ALEM e a JOCUM. Infelizmente, a visão dos linguistas que trabalham com a cultura indígena é a de que as entidades missionárias prejudicam não só os índios, mas o trabalho dos linguistas. No discurso de abertura do Congresso foi salientado que as instituições brasileiras produzem poucos linguistas que trabalham com línguas indígenas, e que, talvez devido a essa lacuna a Europa se organiza e cria fóruns de apoio ao trabalho de europeus no registro fonográfico dessas línguas. No discurso de abertura do VI Congresso da Associação Brasileira de Linguística (João Pessoa-PB, 04/03/2009), que completou 40 anos, seu fundador, Prof. Dr. Aryon D'Alligna,  o maior especialista em línguas indígenas brasileiras do mundo, frisou: os linguistas brasileiros tem dedicado pouco de seu trabalho e de seu tempo ao estudo dessas línguas. Como ressaltou o Prof. Aryon, antes que os linguistas brasileiros começassem a estudá-las, missionários protestantes chegaram ao Brasil com esse propósito, e, apesar das proibições (a missão SIL foi proibida de atuar no Brasil) as organizações missionárias continuam a trabalhar com indígenas (é o caso da ALEM e da JOCUM).  Hoje, entidades européias se organizam para obter a permissão governamental para entrar nas aldeias e registrar as línguas (gravar) a fim de estudá-las depois: registrar as línguas como objeto, coisa morta ou em vias de se deteriorar. Para mim, a questão é muito complexa. Concordo com o professor Aryon, em sua crítica à escassez de linguistas se dedicando ao estudo das línguas indígenas no Brasil. Eu mesma me dedico a outra coisa, não às línguas indígenas, e como brasileira me cobro por isso. Também concordo com ele e me preocupo com a chegada de europeus que vêm às aldeias com o único objetivo (único?) de registrar as línguas nativas, como se as aldeias, em seguida, fossem rumar para a destruição. Mas não concordo com a visão negativa das entidades missionárias, o que corrobora um pensamento antropológico purista e, quem sabe, um tanto irreal a respeito dos indígenas.  Infelizmente, para a maioria dos que se dedica ao estudo da cultura indígena brasileira, seja sob o aspecto linguista, seja sob outros, os índios não passam de objeto de estudo: eles são números, línguas, abstrações culturais e antropológicas, como salienta Bráulia Ribeiro. Não vejo como diferentes visões acerca da cultura indígena poderiam conviver harmoniosamente.

31 de jan. de 2009

guardei a fé


Olá, leitores! Comecei a escrever sobre a morte, a vida, a espiritualidade, a crença em Deus e tudo o mais que está relacionado a isso no dia 20 de janeiro, quando postei aqui o texto Contar os dias com o pensamento da eternidade. Para entender melhor este, leia aquele primeiro...

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Corri muito hoje, estou cansada... Fiz de tudo um pouco, de serviços de casa a três horas de atividades físicas intensas. Li, escrevi, vi TV. E pensei. Muito. Continuo pensando na finitude da vida. Nasci sob a existência do conflito entre Israel e os palestinos. Será que vou morrer sem que esse problema (problemão) termine? Talvez alguém se pergunte: mas não é muito cedo para pensar na morte? Talvez sim. Talvez não... Acho que uma das dificuldades de nossa cultura é a relação pesada com a morte e seus sinais. Não que devamos cultuá-la, não é isso. Há pessoas que o fazem: filmes de terror, roupas com desenhos de caveiras, cores fúnebres, comunicação com os mortos. Há os que a evitam, evitam até mesmo pensar que vão morrer um dia e querem ter 70 anos com carinha de 30 eternamente. E haja cirurgia plástica, né? Mas eu não me refiro exatamente a isso, não. Penso que o desenvolvimento de uma espiritualidade centrada em Jesus e no que diz a Bíblia nos leva a perceber a morte como fim carnal e passagem espiritual. A velhice nos prepara o corpo: vamos perdendo vitalidade, deixamos de nos reproduzir, nosso corpo inteiro se fragiliza. A morte é o fim do que já dá sinais de caminhar para sua anulação. E então? Creio que a angústia do homem ateu reside no fato de que a morte física é concebida como última fronteira da existência. Alguns ainda pensam, com grande desconfiança, que "pode haver" mundo espiritual ou manutenção de uma "energia vital" para além da desintegração do corpo. Mas aquele que crê em Cristo sabe que a morte é o fim da existência do corpo físico, mas o começo de outro caminho para o espírito. Muitos cristãos talvez se percam em elucubrações sobre a morte e esta vida terrena, e muitos acreditam, mesmo diante das evidências da superação da morte humana pela ressurreição de Jesus, que só temos esta vida. Ah, esta vida... Gosto de algumas coisas dela, sim, mas ela não é tudo. Creio que Deus tem muito mais que nossos míseros 70, 80 ou 90 anos. Acredite: Jesus disse que a casa do Pai tem muitas moradas, e que está preparando lugar para os seus. Eu vou pra lá.

2 de nov. de 2008

capoeira


Ontem à noite vi um documentário no canal 2 - TV Brasil - e me emocionei. O nome do filme é Como a capoeira se espalhou pelo mundo - Mandinga em Manhattan.

O papel divulgador da cultura brasileira que a capoeira tem exercido é impressionante. Quando morei em Paris, soube de professores (infelizmente, conheci um tal mestre alguma coisa que, logo se via, não era mestre coisíssima nenhuma, e estava apenas enganando os pobres europeus ávidos por algumas aulinhas), mas não conheci quase nada. No documentário, é possível perceber como a capoeira resgata toda uma cultura e elementos de história nacional, além de promover a transmissão de valores favoráveis ao exercício físico e à vida social.
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A capoeira divulga a língua portuguesa no mundo, por meio de suas ladainhas. Um aluno de capoeira, no Japão ou na Finlândia, precisa cantar em português. Quando eu fiz judô, aprendi a contar em japonês, e tinha que contar em japonês, além de ter que usar várias palavras de origem nipônica. Com a capoeira, o processo é semelhante. Depoimento do mestre Alabama, que corre o mundo ensinando capoeira, deixa isso claro. Diante do "capoerrá" dos franceses, ele responde: "Pronuncie comigo, é ca-po-ei-ra", com nosso 'r' lingual, fonema que a língua francesa não tem. Assim como o brasileiro precisa fazer biquinho ao pés da Torre Eiffel, o francês tem que enrolar a língua pra aprender a capoeira.

A mundialização da prática também tem levado muitos brasileiros, professores, mestres e contramestres, ao exterior, na busca de uma vida melhor e da valorização de uma profissão que, como tantas, é muitas vezes desprezada em sua própria terra. Com mestre João Grande, da Bahia, aluno de mestre Pastinha, aconteceu isso, e o documentário mostra muito bem que um dos maiores mestres da capoeira angola ainda vivo lavou muitos carros e passou fome antes de ter sua escola em Nova Iorque.
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Poucos países, muitos poucos mesmo, ainda não conhecem a capoeira. Japão, Turquia, EUA, França, Inglaterra, Alemanha, Noruega, Finlândia, Espanha, Portugal, Argentina, México e tantos mais já têm escolas e associações de capoeira, com brasileiros ensinando como é o gingado desta que é considerada a legítima arte marcial brasileira. Os que saem do Brasil para divulgar a prática têm, graças à capoeira, oportunidade de trabalho, além de popularizarem a língua portuguesa, a história do Brasil e os valores associados à miscigenação e à formação cultural e social do país.

Mas a capoeira não é só uma luta, e talvez nesse aspecto residam seus maiores atrativos. A capoeira é um esporte, uma dança, um jogo. Tem música, ritmo e instrumentos próprios, e se organiza de modo particular. Diferentemente de muitos esportes, não tem confederação internacional nem é praticado nas Olimpíadas. As regras inexistem, não há pontuação nem disputas por vitória. O jogo se impõe pela necessidade do próprio movimento corporal, mudando conforme a ginga e o ritmo. Há muitos mestres, grupos, escolas e associações, e, basicamente, dois jogos: angola e regional. Penso que o caráter anárquico da capoeira é o que faz com que ela se expanda, ganhe adeptos e se preserve, ao recusar uma hierarquia vertical e rígida. Os maiores mestres são os que mais trabalharam pela difusão e melhoria da capoeira e das condições de vida de seus praticantes, inicialmente índios e escravos fugidos do regime de opressão criado pelos colonizadores portugueses. Os maiores mestres foram Bimba, Caiçara e Pastinha, seguidos por João Grande e João Pequeno, alunos de mestre Pastinha e ainda vivos, até hoje dando aulas nos EUA, em Nova Iorque, e no Brasil, em Salvador, respectivamente.

A direção do documentário, muito boa, é de Lázaro Faria. A fotografia e a câmera, de Luiz Saldanha. Parabéns aos dois.

Há algum tempo fiz, por conta própria, algumas pesquisas sobre a capoeira, na net, por meio de entrevistas com praticantes e de bibliografia impressa, o que publico aqui no blog.
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Este trabalho nasceu de uma necessidade particular de conhecer melhor a origem, a história e a própria capoeira, como arte, luta, manifestação cultural. Como aluna de capoeira regional, tenho me esforçado para atingir fisicamente a destreza e a agilidade que a capoeira pede. Mas, como professora, sempre em busca dos porquês e das causas, decidi pesquisar também o que significa a capoeira — o que foi, o que é.
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Introdução
Este documento, muito simples, é o resultado da compilação e do resumo de vários textos, retirados de diversos endereços da web.
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Este trabalho é dedicado a dois grandes mestres da capoeira: Mestre Pastinha e Mestre Bimba.

1. A escravidão
A escravidão já era parte da sociedade feudal européia. Em Portugal, no fim do século XVII, a luta entre cristãos e muçulmanos pelo domínio da península Ibérica custou a liberdade de quase 250 mil europeus.

Após seu descobrimento, em no ano de 1500, o Brasil foi um dos primeiros países da América a conhecer a escravidão. No começo foram os índios nativos, sobretudo os de cultura tupinambá, que foram obrigados a trabalhar nas plantações e nas vilas. Os colonizadores, fomentando combates entre as tribos nativas, ajudando-os e logo os atacando, aprisionavam mais cativos. Os índios escravizados não resistiram ao tratamento desumano que os portugueses davam a eles: a má alimentação, as doenças européias e o trabalho excessivo levaram à quase extinção dos índios da costa brasileira.

A triste solução para esta forma cruel de exploração do trabalho duraria mais de 300 anos. O principal motivo da substituição dos cativos americanos pelos africanos foi a extinção das comunidades nativas. Além disso, os índios eram definidos como selvagens, frágeis, incapazes para o trabalho contínuo e extenuante. Os negros, dóceis e resistentes, adaptados ao trabalho duro e penoso, eram talhados para a escravidão.

Multidões de africanos seriam trocados por mercadorias baratas na costa da África e vendidos a preços elevados no Novo Mundo. Entre 10 e 15 milhões de africanos foram desembarcados nas Américas, e estima-se que entre três e cinco milhões chegaram ao Brasil. Os povos africanos, entretanto, nunca deixaram de lutar contra essa condição, imposta pelos ditos “civilizados”. A escravidão do povo negro foi, sem dúvida, o maior e mais cruel massacre que um povo poderia sofrer, em toda a história da humanidade.
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1.1 Transporte e desembarque
Os cativos chegavam do interior do continente africano e permaneciam nos barracões, atados em grupos de dez. Mulheres e crianças circulavam soltas no interior da “moradia” provisória. Eram muito mal alimentados, e por isso a taxa de mortalidade era alta: muitos morriam antes mesmo de ser embarcados. Os compradores europeus examinavam detidamente a “mercadoria”, e compravam somente escravos jovens e em boa saúde.

Os navios negreiros demoravam muito tempo para chegar à África, e mais ainda para desembarcar no Brasil. Antes de partir, os cativos eram bem alimentados, lavados e rapados. Depois, eram marcados com ferro em brasa e embarcavam, nus.

Milhares de cativos morriam durante a viagem; muitos eram jogados no mar ainda vivos, mas nunca tinham visto o mar e não sabiam nadar. Um martírio acontecia durante o transporte dos escravos. Os negreiros sabiam que só uma parte dos cativos chegaria ao Novo Mundo, e assim os sobreviventes eram vendidos a preços dez vezes mais altos que os que eram pagos na África.

Mas o pesadelo do transporte sofreu mudanças, ao longo do tempo. Navios maiores permitiam a separação dos cativos em três categorias: homens, mulheres e crianças, que na segunda metade do século XIX já eram vacinados contra a varíola. A taxa de mortalidade durante a viagem era, em média, de 20%. Estima-se que mais de um milhão e meio de africanos morreram durante as travessias.
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1.2 A vida no Brasil
Capturados pelos europeus ou vendidos por africanos de tribos diferentes, os cativos eram vigiados pelos comerciantes armados de fuzis e chicotes. Atados pelo pescoço, carregavam pesadas cargas sobre a cabeça. Os escravos avançavam aterrorizados, com pernas e pés feridos, em caminhadas que poderiam durar meses Os que eram incapazes de continuar eram deixados no caminho com as gargantas cortadas.

Os africanos capturados eram “recebidos” por outros escravos da mesma tribo e etnia para que ficassem “tranqüilos”, já que muitos pensavam que seriam devorados em festas canibalescas. A “mercadoria” era armazenada em grupos de até 400 cativos. Eram alimentados abundantemente, tinham suas enfermidades cuidadas e o aspecto visual tratado, para que fossem expostos sentados em bancos, na frente ou no interior das lojas. Os doentes eram vendidos a preço de liquidação.

Cada escravo comprado era rigorosamente controlado por seu amo e seu “médico”, ou feitor. Os clientes compravam negros de diferentes tribos, que falavam línguas diferentes, para que não pudessem se comunicar entre si.

Nas fazendas, os cativos passavam a morar em residências coletivas ao estilo de prisões — as senzalas. Ali, os escravos acendiam fogueiras para preparar alimentos, afastar os insetos e os maus espíritos. As portas das senzalas eram acorrentadas de noite, depois que o feitor contava os escravos. Os africanos tentavam se aproximar de outros, da mesma tribo, a fim de cultivar a língua, as músicas, as danças e a religião, para preservarem sua cultura. Entretanto, os senhores proibiam toda manifestação cultural africana.

Apesar dos terríveis castigos impostos a todos os que se rebelavam contra a escravidão, a fuga era uma prática constante. Individual ou coletiva, representava uma ameaça aos senhores de escravos. O “fujão” perdia seu valor no mercado, pois a fuga era considerada um grande vício. Surgiu, então, a profissão de “capitão do mato”. Ele se dedicava a capturar os fugitivos e a entregá-los a seus amos, sempre em troca de dinheiro. Bem armado, o capitão do mato penetrava em matas e serras. Freqüentemente, contudo, o caçador virava caça: era encontrado por grupos de “fujões” e morto.

Muito mal alimentados, os que permaneciam cativos passavam fome. Farinha de mandioca, feijão, milho e arroz eram os alimentos consumidos pelos escravos, e sempre em quantidades mínimas. Depois do dia de trabalho, alguns escravos eram castigados nas “casas do tronco” (muitas fazendas possuíam as suas casas de tortura). O tronco era um instrumento em forma de tesoura, feito de madeira ou ferro, com buracos para os pés. Os escravos, então, ficavam deitados com os pés imóveis. As palmatórias e os chicotes eram as principais ferramentas de castigo. Um escravo podia receber até mil chicotadas, se cometesse um delito considerado grave pelo senhor da fazenda.

Mas os negros continuavam a fugir, para escaparem dos castigos constantes, da pouca comida, da vida triste e sem esperanças. Assim, os quilombos cresceram. Os negros, ali, viviam da agricultura, as caça, da pesca, da coleta e do saque. Desde fins do século XVI, milhares de escravos se refugiaram na inóspita região da Serra da Barriga (Estado de Pernambuco). O Estado negro livre, no coração do Brasil escravista, era a Confederação dos Quilombos dos Palmares, que resistiu por muitos anos aos ataques dos brancos escravistas, mas foi destruída em 1694, por um poderoso ataque militar, comandado por Domingos Jorge Velho.

Apesar da existência dos quilombos, que eram pontos de luta e de resistência, os escravos jamais organizaram movimentos gerais contra a escravidão. As mais importantes rebeliões limitaram-se a um ou outro município. Não houve uma liderança escrava que dirigisse movimentos rebeldes. O escravo rebelava-se contra sua própria condição, e não contra a instituição. A contínua renovação de escravos dificultava a formação de uma consciência antiescravista. Após as longas jornadas de trabalho, os cativos queriam descansar e se alimentar, e por isso não tinham tempo nem disposição para refletir nem se organizar.

1.3 O início do fim
A Inglaterra, no início do século XIX, começou a pressionar as nações escravistas, a fim de obter vantagens comerciais na exportação de seus produtos. O fim do tráfico, em 1807, e a abolição da escravidão, em 1833, fizeram aumentar o preço do açúcar nas Antilhas, mas no Brasil ele ainda era muito baixo.

Nos anos 1820, com o esgotamento das minas e a crise da produção açucareira, a escravidão começava a acabar no Brasil. Mas o desenvolvimento da cafeicultura exigiria quantidades crescentes de escravos, e assim milhares foram ainda desembarcados clandestinamente na costa brasileira. Não sendo respeitado o acordo entre a Inglaterra e D. Pedro I, de 1826, Bill Aberdeen autoriza a Marinha de Guerra Inglesa, em oito de agosto de 1845, a prender os navios negreiros brasileiros como navios piratas. Em setembro de 1850, o Parlamento brasileiro finalmente votou a lei Eusébio de Queirós, que finalmente proibia e reprimia o tráfico de escravos. Mas o tráfico interno, contudo, continuou.

Em 1871 foi votada a primeira lei que reformaria a escravidão, dando o direito ao escravo de comprar sua liberdade, mesmo contra a vontade dos senhores. Essa lei também libertava os filhos de mães escravizadas. Foi a chamada “Lei do ventre livre”. Os que nasciam após 1871 eram “livres”. Outra lei, a chamada “Lei do Sexagenário”, dava ao escravo já velho, muitas vezes doente e sem condições para trabalhar, a “liberdade”. Assim, os senhores das fazendas não eram mais obrigados a sustentá-los. As brigas entre escravistas e antiescravistas daria ainda uma década aos cafeicultores para que explorassem seus escravos.

Entretanto, anos depois o movimento abolicionista ressurgiu com mais força. Cativos e homens livres começaram a lutar juntos contra a instituição. Organizações clandestinas organizavam fugas de cativos nas fazendas paulistas. Por outro lado, os capangas e capitães do mato organizavam atentados contra os líderes abolicionistas. Como resposta à mão de obra que fugia, começou a ser promovida a imigração de europeus.

No dia 13 de maio de 1888, após 350 anos de inferno, foi abolida a escravidão no Brasil. O país foi a última nação moderna a extinguir a escravidão.

2. Zumbi dos Palmares
A partir do século XVI o Brasil foi o palco de uma das maiores violências contra um povo. Mais de dois milhões de negros foram trazidos da África pelos colonizadores portugueses para se tornarem escravos nas lavouras de cana-de-açúcar. Tribos inteiras foram subjugadas e obrigadas a cruzar o oceano como animais em grandes galeotas chamadas de navios negreiros. Pernambuco, Bahia e Rio de Janeiro foram os portos finais da maior parte desse tráfico.

Apesar de escravizados e exauridos pelos duros trabalhos, os negros não aceitaram pacificamente o cativeiro; a história brasileira está cheia de episódios nos quais os escravos se rebelaram contra a humilhante situação em que se encontravam.

Uma dessas formas de resistência foram os quilombos, comunidades organizadas pelos negros fugitivos em locais de difícil acesso, geralmente em pontos altos das matas. O maior desses quilombos estabeleceu-se em Pernambuco, no século XVII, numa região conhecida como Palmares. Uma espécie de Estado Africano foi formada; o quilombo era distribuído em pequenas povoações chamadas mocambos.

A partir das lutas com os holandeses, o destino do grande quilombo de Palmares aparece ligado à família da princesa Aqualtune. Dois de seus filhos, Ganga Zumba e Ganga Zona, tornaram-se chefes dos mocambos mais importantes do quilombo. O mais provável é que tenham recebido estas chefias de herança. Como em algumas tribos africanas a sucessão não se fazia de pai para filho e sim de tio para sobrinho, Ganga Zumba e Ganga Zona devem ter substituído algum irmão de Aqualtune, do qual até hoje nenhum registro foi encontrado.

Mas Aqualtune também tivera filhas e uma delas, a mais velha, que se chamava Sabina, deu-lhe um neto, nascido quando Palmares se preparava para mais um ataque holandês, previamente descoberto. Por isso, os negros cantaram e rezaram muito aos deuses, pedindo que o sobrinho de Ganga Zumba e, portanto, seu herdeiro, crescesse forte. E para sensibilizar o deus da guerra, deram-lhe o nome Zumbi.

A criança cresceu livre e passou sua infância ao lado de seu irmão mais novo, chamado Andalaquituche, em pescarias, caçadas, brincadeiras, ao longo dos caminhos camuflados, que ligavam os mocambos entre si. Garoto ainda, Zumbi conhecia Palmares inteiro. Suas árvores, seus rios, suas plantações e aldeias.

Os anos corriam tranqüilos para Zumbi, que da escravidão só conhecia as histórias terríveis, que os mais velhos contavam, lembrando-se da escuridão e da umidade das senzalas, da fome e da morte nos navios negreiros.

Passaram-se anos e Palmares tornava-se cada vez mais uma potência. Na década que si iniciou em 1670, Palmares viveu seu apogeu. Mais de 50 mil habitantes livres, distribuídos em vários mocambos. Zumbi e Andalaquituche, já homens feitos, chefiavam suas próprias aldeias. Nesse tempo, o crescimento do quilombo e as novas necessidades de defesa haviam transformado Palmares numa federação. Ganga Zumba, que governava a maior das aldeias, chamada Cerra dos Macacos, presidia o conselho de chefes dos mocambos e passou a ser considerado rei de Palmares.

Sempre muito perseguidos, os negros que conseguiam chegar a Palmares eram considerados livres e logo se transformavam em guerreiros, pois foram muitos anos de lutas sangrentas em defesa do quilombo. Tantas foram essas lutas que doze anos mais tarde o velho Ganga Zumba via seu reinado ameaçado por uma espécie de força que Zumbi tinha e exercia sobre os guerreiros que seguiam muito mais suas ordens do que as do rei Ganga Zumba.

Por isso, numa noite de festa em comemoração à vitória em uma luta, Ganga Zumba reuniu todo o povo de Palmares para que testemunhassem a coroação de Zumbi como novo rei de Palmares. Nesta mesma noite, contudo, Ganga Zumba traiu Zumbi, dividindo a opinião do povo e colocando a grande maioria contra Zumbi.

Ganga Zumba foge de Palmares com um grupo muito grande de guerreiros, mulheres e crianças e se refugia no Vale do Cacuá, logo abaixo da Serra da Barriga. Lá, Ganga Zumba procurava fundar um novo quilombo. Mas os guerreiros que o acompanhavam começaram a se desentender com as ordens quase suicidas do velho Ganga Zumba e também o traíram. Deram-lhe vinho envenenado para beber, dizendo que aquele era um vinho especial, que haviam roubado na vila do Porto Calvo, somente para agradar o rei. Com a morte de Ganga Zumba, os guerreiros voltaram para Palmares e se uniram a Zumbi.

Foi quando se deu a batalha mais cruel de toda a existência do quilombo, fazendo com que fosse desfeita toda a soberania de Palmares.

Zumbi foi morto em 20 de novembro de 1695, vítima da traição de um de seus homens de confiança. Após a queda de Palmares e a morte de Dandara, a esposa de Zumbi e mãe de todos os seus três filhos, Zumbi se refugiou na mata, numa pequena caverna à beira de um riacho. Muito ferido da guerra e já sem muitas forças, tinha consigo apenas a ajuda de uma criança abençoada, chamada Lualua. Foi então que seu traidor levou um dos homens do exército de Domingos Jorge Velho até o esconderijo de Zumbi. Este homem, André Furtado de Mendonça, levou Zumbi até Domingos Jorge Velho, que o matou a sangue frio com dois tiros à queima-roupa.

Era o fim. A cabeça de Zumbi foi cortada e levada para a vila do Recife como prova do fim da rebeldia dos negros, que, desde então, eram constantemente ameaçados por feitores que diziam fazer com eles o mesmo que foi feito com Zumbi.

Hoje, Zumbi é o símbolo máximo da liberdade para os negros do Brasil e de muitas partes do mundo. Seu nome é o mais puro significado do que quer dizer lutar pela própria liberdade e ser livre.

3. Sobre a Capoeira...
As tradições e a história africanas foram transmitidas e registradas mais pela tradição oral que por documentos históricos. Pelo Decreto de 14 de dezembro de 1890, do então ministro da Fazenda Rui Barbosa, toda a documentação referente à escravidão negra no Brasil foi queimada, razão pela qual se tem tão pouca documentação referente à escravidão para reconstituir a história.

Entretanto, acredita-se que para colonizar o Brasil, colônia recém descoberta da América do Sul, os portugueses precisavam de mão de obra suficiente para a construção do império e para o plantio de cana-de-açúcar, algodão, café e fumo.

Após a fracassada tentativa de utilizar a mão de obra indígena, os portugueses trouxeram os primeiros escravos da África, em navios negreiros. Os africanos eram vendidos em regime de completa escravidão. Ao tornar o negro escravo, suprimiam sua cultura, sua alma, e assim o torturavam. Todos os que participavam do comércio escravagista interessavam-se apenas pelo corpo do escravo, pois daí vinha sua força de trabalho.

A capoeira nasceu nesse período, como uma forma de resistência dos escravos negros, um instrumento de libertação contra um sistema dominante e opressor, uma forma de buscar a liberdade.

Acredita-se que Palmares pode ter sido o berço das primeiras manifestações de capoeira, mas há controvérsias sobre sua origem.

4. Como nasceu a Capoeira: África ou Brasil?
Capoeira significa mato ralo, aquele que já era; palavra de origem tupi, o que nega a idéia de que seja de origem exclusivamente africana. Capoeiras eram também áreas semidesmatadas, onde os escravos treinavam seus golpes, e esta é outra teoria sobre a origem do nome. Ouviu-se falar de capoeira pela primeira vez durante as invasões holandesas de 1624, quando escravos e índios, as duas primeiras vítimas da colonização, fugiram para as matas. Conta a lenda que Zumbi, líder do quilombo de Palmares, era guerreiro, estrategista invencível e “capoeira”.
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De acordo com uma corrente de mestres, quando o Brasil foi descoberto a capoeira já existia e era praticada pelos índios Tupis, principalmente na Bahia, com o nome de capuêra. Na terra de Santa Cruz, os indígenas praticavam a capuêra e se reuniam em forma de roda batendo as mãos e os pés em ritmo constante e, às vezes, usando também uma caixa de madeira entre as pernas.
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Mas, segundo outros antigos mestres, a capoeira nasceu na Serra da Barriga, em uma das clareiras do quilombo dos Palmares, onde escravos fugitivos dominavam técnicas de uma luta ágil e manhosa usada para a libertação. Sabe-se que o quilombo não era habitado somente por negros, mas também por índios e brancos foragidos. Assim, no quilombo dos Palmares era realizada, com muito respeito, a tradicional Ceia dos Palmares, que reunia negros, índios e brancos foragidos, na época do império.
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Segundo historiadores, o nome capoeira vem do seguinte fato: os escravos, ao fugirem para as matas, eram perseguidos pelos famigerados Capitães do Mato, enviados pelos senhores. Os escravos em fuga reagiam e os atacavam, nas clareiras de mato ralo, cujo nome é capoeira, com pés, mãos e cabeças, dando-lhe surras ou até mesmo matando-os. Porém, os que sobreviviam, voltavam indignados. Quando o senhor da fazenda perguntava onde estavam os negros, o Capitão do Mato lhe respondia: “Eles nos pegaram na capoeira”, referindo-se ao local onde foram vencidos.

Também deu-se o nome de Capoeira a um jogo de destreza que teve suas origens remotas em Angola. O que se sabe é que na África existia o Jogo de Zebra, ou N’Golo, uma dança que era praticada com bastante violência. Esse jogo fazia parte de um ritual de passagem da infância para a vida adulta. Os negros lutavam em um pequeno recinto, e os vencedores poderiam desposar as meninas da tribo que ficavam “mocinhas” sem o pagamento do tradicional dote. Sabe-se que os negros que vinham para o Brasil eram, sobretudo, Bantos, de Angola, considerados mais fortes e ágeis, tendo mais aproveitamento no trabalho. Esses negros teriam dado origem à capoeira, daí o nome capoeira de Angola.

Outra versão diz que quando os senhores flagravam os negros jogando, perguntavam o que eles estavam fazendo. “Os negros estão brincando de Angola”, respondiam. Por fim, Câmara Cascudo afirma que a capoeira foi trazida pelos Bantos-congoleses, que praticavam danças litúrgicas ao som de instrumentos de percussão, transformando-se em lutas aqui no Brasil, devido à necessidade de defesa destes negros.
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A discussão é interminável: pesquisadores, folcloristas, historiadores e africanistas ainda buscam respostas para a seguinte questão: “A capoeira é uma invenção africana ou brasileira? Teria sido uma criação do escravo com fome de liberdade?”
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As opiniões tendem para o lado brasileiro, e aqui vão alguns exemplos: na obra do padre José de Anchieta, A Arte da Gramática de língua mais usada na Costa do Brasil, editado em 1595, há a seguinte citação: “(...)os índios Tupi-Guarani divertiam-se jogando capoeira”. Guilherme de Almeida, no livro Música no Brasil, sustenta serem indígenas as raízes da capoeira. No clássico Capoeira Angola — Ensaio Sócio-etnográfico (Rego, 1968), procura-se também comprovar que a capoeira é brasileira, tendo sido criada pelos escravos na sua luta pela liberdade. Até hoje nenhum pesquisador conseguiu encontrar nada de concreto que levasse a crer que a capoeira fosse africana.

O navegador português Martim Afonso de Sousa, observou tribos indígenas jogando capoeira. Como se não bastasse, a palavra capoeira (CAÁPUÉRA), como já foi dito, é um vocábulo Tupi-Guarani, que significa “mato ralo”, ou “mato que foi cortado”.
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Num trabalho publicado pela Xerox do Brasil, o professor austríaco Gerhard Kubik, antropólogo, membro da Associação Mundial de Folclore e profundo conhecedor de assuntos africanos, diz estranhar “que o brasileiro chame capoeira de Angola, quando ali não existe nada semelhante”.

O estudioso Waldeoir Rego, que escreveu um artigo considerado o melhor trabalho sobre o assunto, defende a tese de que a capoeira é de origem brasileira. Brasil Gerson, historiador das ruas do Rio de Janeiro, acha que o jogo nasceu no mercado, quando os escravos chegavam com um cesto (capoeira) de aves na cabeça e, até serem atendidos, ficavam brincando de luta, surgindo a partir daí a verdadeira capoeira.

Antenor Nascente diz que a luta da capoeira está ligada à ave Uru (odontophorus capueira-spix), cujo macho é muito ciumento e trava lutas violentas com o rival que ousa entrar em seus domínios, sendo que os movimentos de luta se assemelham aos da capoeira.

Alguns historiadores alegam que o grande motivo pelo qual não conseguimos provas documentais para resolver a polêmica, se a capoeira é africana ou brasileira, é o fato de Rui Barbosa, então ministro da Fazenda do Governo de Deodoro da Fonseca, ter mandado queimar todos os documentos relativos à escravidão no Brasil. Segundo ele, o ato que praticou era necessário para apagar da memória da Nação o fato de o país ter sido, anos antes, escravocrata. No entanto, sabemos haver outras razões, dentre elas evitar o pagamento de indenizações aos senhores de engenho e aos escravos libertos.

4.1 Luta violenta ou jogo inocente?
Os golpes quase acrobáticos e com aspecto de dança da capoeira muito contribuíram para enganar os senhores de engenho, que permitiam a prática, julgando-a como uma brincadeira dos escravos. Segundo Areias (1983), a dança, por sua vez, representada pela ginga, servia para disfarçar a luta dando-lhe um caráter lúdico e inofensivo. A capoeira serviu por muitos anos como instrumento de luta dos escravos.
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Se nas fazendas a capoeira era praticada como um jogo inocente, uma dança, no meio das matas, por sua vez, ela era praticada como luta mortal. Nas fazendas, para disfarçarem a luta, os escravos utilizavam a ginga, a base de qualquer capoeirista; é dela que saem todos os golpes. A capoeira é, portanto, uma luta disfarçada em dança que foi criada, segundo alguns estudiosos, na era colonial do Brasil, por volta do século XVII. Ela foi desenvolvida pelos escravos para que se salvassem, quando fugiam, das capturas violentas e cruéis dos chamados capitães do mato. O disfarce da luta em dança pôde preservar a sobrevivência dos escravos, pois a capoeira é, principalmente, na sua origem, uma luta de resistência.

Era nas fazendas, sobretudo, que o ensino da capoeira começava. Os negros que eram capturados e voltavam aos engenhos ensinavam a luta aos cativos. Para não levantar suspeitas, os movimentos de luta foram sendo adaptados às cantorias e músicas africanas, para que parecessem uma dança. Assim, como no candomblé, cercada de segredos, a capoeira pôde se desenvolver como forma de resistência.

Do campo para a cidade a capoeira ganhou a malícia dos escravos de “ganho” e dos freqüentadores da zona portuária. Na cidade de Salvador, capoeiristas organizados em bandos provocavam arruaças nas festas populares e reforçavam o caráter marginal da luta.
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A fama de lutadores dos capoeiristas, ou capoeiras, aumentou com o passar do tempo. Eles se vestiam de modo particular, chapéu de lado e argola na orelha, eram capazes de fazer grandes desordens em segundos e conseguir escapar ilesos. Dessa forma, alguns capoeiristas se ofereciam mercenariamente para assassinatos e emboscadas. Alguns políticos os tinham como capangas e eles eram temidos pela própria polícia.

De 1865 a 1870 houve a Guerra do Paraguai, para a qual muitos capoeiras foram enviados, a fim de lutar na frente de batalha. Muitos voltaram como heróis, pelo sangue frio e pela astúcia que demonstraram nos campos de batalha.

Nesta época, a capoeiragem encontrava-se em seu apogeu. As principais cidades onde a capoeira se desenvolveu e proliferou foram o Rio de Janeiro, Recife e Salvador. Por outro lado, os lutadores eram também identificados como criminosos profissionais. O nome “capoeira” passou a ser associado, também, ao malandro, desordeiro e ladrão.

4.2 A proibição da capoeira no Brasil
Durante décadas a capoeira foi proibida no Brasil. A liberação de sua prática deu-se apenas na década de 30, quando uma variação da capoeira, mais para o esporte que para manifestação cultural, foi apresentada ao então presidente, Getúlio Vargas.

Foi com a chegada da República, em 1889, que o Marechal Deodoro da Fonseca, pressionado pela onda de criminalidade, iniciou uma camapanha de combate à capoeira.

Qualquer indivíduo que fosse encontrado praticando capoeira era sumariamente recolhido à ilha Trindade (Fernando de Noronha) para trabalhos forçados. O código penal de 1890 previa de dois a seis meses de prisão aos praticantes dos exercícios de agilidade e destreza corporal conhecidos pela denominação de capoeiragem. Era expressamente proibido:

“Art. 402. Fazer nas ruas e praças públicas exercícios de agilidade e destreza corporal conhecidos pela denominação capoeiragem; andar em carreiras, com armas ou instrumentos capazes de produzir uma lesão corporal, promovendo tumulto ou desordens, ameaçando pessoa certa ou incerta, ou incutindo temor de algum mal. Pena: de prisão celular de dois meses a seis meses.” (Barbieri, 1993: p. 118)
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De lá para cá a capoeira Angola se aperfeiçoou na Bahia mantendo fidelidade às tradições. Isso ocorreu, principalmente, graças ao seu grande mestre, Pastinha, que jogou capoeira até os 79 anos, formando gerações de angoleiros.

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Expressão brasileira surgida nos guetos negros há mais de um século como forma de protesto às injustiças sociais, arte que se confunde com esporte, mas que já foi considerada luta, a capoeira foi reconhecida como patrimônio imaterial da cultura brasileira. A decisão do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) foi concretizada nesta terça-feira no Palácio Rio Branco, em Salvador.
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Para comemorar o resultado, que é definido pelos 22 membros do Conselho Consultivo do Iphan, foi inaugurada, no mesmo local, a exposição Rodas de Capoeira, com pinturas, esculturas em barro, instrumentos musicais, xilogravuras e folhetos de cordel que retratam o universo da arte que agora é patrimônio.
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O ministro da Cultura, Gilberto Gil, já havia declarado, em reunião da Organização das Nações Unidas (ONU) que homenageava o embaixador Sérgio Vieira de Mello morto durante atentado terrorista na guerra do Iraque, que a capoeira do Brasil "poderia ser vista como instrumento da construção da paz mundial" e levou uma roda de capoeira para se apresentar aos líderes.
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Desde então, as ações do ministério voltadas à valorização da capoeira como a criação do programa Capoeira Viva começaram a se voltar para o reconhecimento da expressão como patrimônio, segundo a diretora de Patrimônio Imaterial do Iphan, Márcia Sant'anna.
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"O começo do processo de registro já começou no âmbito dessas ações de apoio. Foi um projeto iniciado pelo ministério e do Iphan, mas contou com a participação de estudiosos e pesquisadores de três estados do Brasil: do Rio de Janeiro, da Bahia e de Pernambuco", conta a diretora.

Ela acrescenta que o registro é de significado simbólico. "Ocorre um aumento muito grande da auto-estima dessas pessoas. Embora a capoeira esteja disseminada em todo o mundo, alguns mestres da tradição oral nunca tiveram, pelo menos até recentemente, nenhum programa de valorização do seu saber", aponta.

A capoeira é a 14ª expressão artística do país registrada como patrimônio imaterial. A diferença deste registro para o tombamento como patrimônio material caso de edifícios históricos é que "o registro volta-se a ações de apoio às condições sociais, materiais, ambientais e de transmissão que permitem que esse tipo de bem cultural continue existindo", de acordo com Sant'anna.

Fonte:Agência Brasil

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NOTA: Por conta da Lei nº 10.639/2003, que obriga a inclusão do ensino da história e da cultura afro-brasileira e africana nos currículos oficiais da rede pública, nos níveis fundamental e médio, o Departamento de Letras da Universidade Estadual do Maranhão, onde eu trabalho, recebeu a sugestão de implementar disciplinas de literatura africana. Durante uma reunião de professores do Departamento (que é chamada pomposamente de "Assembléia Departamental"), no início de março deste ano, a idéia foi colocada em pauta e em discussão pela chefe do Departamento, e rechaçada por alguns professores, que a consideraram absurda, assim como consideram absurda a política de cotas. Participei de parte da reunião (mas já estava de licença para fazer a pós-graduação), e argumentei a favor da implementação de disciplinas que trouxessem ao corpo estudantil, em grande parte de origem africana, elementos da cultura daquele continente. O que eu argumentei? Ora, é muito cômodo para alguns exaltarem a cultura africana para fazer propaganda de turismo para o Maranhão. Do Tambor de Crioula à Capoeira, das comidas típicas ao Bumba meu Boi, em tudo há a herança cultural africana no Maranhão, que é o segundo estado brasileiro com maior percentual de população negra (o primeiro é a Bahia). As ladainhas, a tradição oral, as histórias que enaltecem São Luis do Maranhão e atraem os turistas são, em grande parte, oriundas da cultura africana. Infelizmente, na hora de se implementar na Universidade disciplinas que trazem melhor entendimento acerca dessa cultura, o que se vê é preconceito, desconhecimento e obscurantismo. A proposta, até onde pude acompanhar, recebeu críticas contumazes, principalmente por parte de dois professores (um, casado com uma mulher negra, e outro, ele mesmo, negro). Penso que, assim como se estuda literatura portuguesa, é necessário, a fim de melhor conhecer a formação cultural brasileira, estudar literatura africana. Por ignorância pura ou preconceito, muitos professores se colocam contra a implementação de disciplinas voltadas para o estudo da cultura afro-americana em cursos de Letras e nem sabem que existe uma literatura africana, sim, vigorosa, atual e plural, assim como estudos lingüísticos antigos sobre línguas africanas e fenômenos relacionados. Enquanto a Bahia valoriza a cultura negra e progride, amplia seus horizontes e confere a seu povo maior conhecimento acerca de sua própria formação e cultura, o Maranhão regride (o que não é, aliás, novidade), pois se prende ainda a idéias atrasadas, antigas e fundadas sobre um modelo de progresso predatório e explorador, cuja ideologia exalta figuras como Ana Jansen, uma escravagista cruel que submetia "seus" escravos à tortura com naturalidade, e difunde idéias como a de que os portugueses que colonizaram a região foram, de alguma maneira, superiores aos negros que lá chegaram ou aos índios que já habitavam no local. É uma vergonha que o Curso de Letras da Universidade Estadual do Maranhão ainda não tenha implementado disciplinas que estudem e investiguem a influência e a herança das culturas indígena e africana na formação lingüistica e literária do Estado - e imaginem vocês que Aluísio Azevedo, maranhense nascido em São Luis que morreu há quase um século, já cultivava visão cultural e literária mais aguçada que a de muitos, pois em sua época se questionava acerca dos preconceitos e ideologias sociais, tendo escrito ele O Mulato...
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