Creio que não existe nada de mais belo, de mais profundo, de mais simpático, de mais viril e de mais perfeito do que o Cristo; e eu digo a mim mesmo, com um amor cioso, que não existe e não pode existir. Mais do que isto: se alguém me provar que o Cristo está fora da verdade e que esta não se acha n'Ele, prefiro ficar com o Cristo a ficar com a verdade. (Dostoievski)

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24 de jul. de 2009

o machismo dos modernos


O machismo dos modernos

UM: José Simão foi processado pela atriz Juliana Paes, por ter feito, em seus textos engraçadinhos, comentários e trocadilhos com nome da atriz e a palavra "casta", que pode ser tanto substantivo, no sentido de camada social, como adjetivo, no sentido de pura. Juliana não gostou e a Justiça proibiu o humorista de citar o nome da atriz, sob pena de pagar multas nada castas. De súbito, levantam-se os defensores da liberdade, contra a censura. Gente que eu costumo admirar e cujos textos leio. Na esteira deles, que são formadores de opinião, vai uma renca de não-pensadores, macaqueadores do que parece antenado e moderno. Eles, todos homens, alegam que é um absurdo que uma mulher que tenha posado nua e colocado seu traseiro à mostra para quem quisesse ver (ou comprar, no caso a revista Playboy) fique incomodada com piadinhas. Dizem que a Juliana não tem o direito de se sentir incomodada com ataques à sua honra, já que, provavelmente, honra (ou "castidade") não teria mais nenhuma, depois de fazer uma propaganda de cerveja em que usa minissaia e decote avantajado. Pois é. Já que "se deu ao desfrute", que

agora aguente as consequências. Alguns comentários, nesses blogs, chegam a chamá-la de "puta", e dizem que ela deve se conformar em ser objeto de pilhéria e afronta. Se esquecem, esses filhinhos-da-mamãe, que ninguém é obrigado a suportar referências grosseiras e ofensivas ao seu nome, não importa se quem fez a referência foi o gênio "Macaco Simão" ou o Zé Mané da esquina. Se esquecem que todos têm suas susceptibilidades, e nem mesmo uma prostituta de um bordel de periferia é obrigada a tolerar, ou a gostar, de xingamentos, por mais que elas sejam, sim, prostitutas. É claro, é demais pedir a esses paladinos da moral que ajam, pelo menos, como Jesus: não atirem pedras na Juliana, já que a consideram uma "não-casta". Disse isso em um desses blogs, e repito: Todos têm a sua sensibilidade. A atriz não gostou, e tem o direito de não gostar. Meu raciocínio primeiro foi: "É verdade, ela já posou pelada, porque se importa com isso?" Mas não é assim que a roda roda. Primeiro: José Simão não é Deus, e, por mais competente que seja, não tem o direito, mesmo, de enxovalhar o nome de quem quer que lhe dê na telha. Juliana Paes não gostou, e tem o direito de não gostar do tratamento que ele lhe conferiu. O fato de Juliana ter posado nua não quer dizer que quem queira, agora, tem o direito de se fazer em cima disso. E se fosse o contrário? E se Juliana Paes escrevesse um texto engraçadinho chamando o Macaco Simão de "bicha louca"? Já que ele é homossexual assumido, qual é o problema? Não saiu na chuva? E se ela dissesse que o cara, um "DESviado" (olha que engraçadinho!), não tem moral para falar da castidade de ninguém? Bom, tenho certeza que todas as ONGs GLBT se levantariam, no dia seguinte, para reclamar, choramingar e processar Juliana. Sem contar que os críticos de plantão certamente se calariam. Talvez, é possível, que o próprio Simão se sentisse ofendido... O problema é: Juliana é mulher, e, para ela, não existe ponderação. Como disse um compositor famoso, "joga pedra na Geni!"

DOIS: De novo, os machistas modernos. Na semana passada, um blog criticou um programa do missionário RR Soares, no qual ele divulgou o fato de que uma mulher que se converteu teve seu hímen restaurado pelo poder de Deus. O autor do texto genial aproveitou e chamou essa pessoa de "safadinha", já que, antes de se converter, ela tinha tido relações sexuais, e, depois de se converter, tendo sido purificada e perdoada por Jesus, talvez tenha ousado pedir a Ele que seu hímen fosse reconstituído (e nem isso foi dito!). Jesus pode até perdoar, mas uns não perdoam! E a falta do hímen, marca indelével da safadeza da "safadinha", deveria ser sempre lembrada.

Jesus pode até curar, restaurar um fígado de um ex-alcóolatra, restaurar os pulmões de um ex-fumante, mas restaurar o hímen de uma ex-pecadora? Jamais! E o texto ainda afirma que o fato de RR Soares pregar pela televisão "perturba o juízo"... Mas não perturba o juízo que outros, como Caio Fábio, também vítima de pecado sexual (mas vejam, Caio Fábio é homem, jamais será chamado de "safadinho". E não é uma irmã anônima, é um pastor conhecido), preguem. Não perturba o juízo que filmes com imoralidade, ou ONGs GBLT, divulguem seus pontos-de-vista. Perturba o juízo de uns que uma mulher, antigamente sujeita a morrer apedrejada pela Lei, tenha sido liberta, inclusive fisicamente, de seu pecado, e sem ter que pagar o preço de seu próprio pecado! Perturba o juízo de uns que Jesus não chame essa mulher de "safadinha", nem dê risinhos irônicos a seu respeito, mas a perdoe completamente de seu pecado sexual, ame-a profundamente e a abençoe de maneira incompreensível, por meio de sua graça. É que uns talvez nem saibam o que é graça, e por baixo de uma capa engraçadinha, mas visivelmente imatura, continuem vivendo na Lei que chama os fariseus de dignos e apedreja as mulheres adúlteras. É isso aí, e esses mesmos continuam dizendo: "Joga pedra na Geni!"



TRÊS: Só Jesus na causa.

22 de jul. de 2009

palavras

Guarde suas palavras

Sua vida é grandemente impactada pelas palavras que têm sido ditas a você. Da mesma forma, suas palavras têm impacto sobre aqueles que estão ao seu redor, para melhor ou para pior. Isso é algo sério.

Muitas pessoas têm lutado contra a insegurança porque seus pais falaram palavras de crítica, condenação e fracasso a respeito delas. Essas são pessoas feridas que podem ser curadas ao receber o amor incondicional de Deus, mas leva tempo para vencer a imagem deturpada que têm de si mesmas.

Eis porque é importante usar suas palavras para abençoar, curar e edificar, em vez de amaldiçoar, ferir e destruir. Se você foi ferido por palavras, seja rápido para receber o amor incondicional de Deus. Deixe-o curar qualquer imagem ruim que você possa ter de si mesmo. Se você tem sido abençoado o bastante escapando desse tipo de dano, determine que suas palavras tragam bênção e cura para os outros.

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Texto publicado no Boletim da Igreja Metodista de Icaraí, em 07/06/2009.

1 de mai. de 2009

reflexões sobre um texto de ricardo gondim


Repensando a fé

Ricardo Gondim

Certas coisas perderam ímpeto dentro de mim. Certas afirmações se esvaziam antes que alcancem o meu coração. Certas concepções já não fazem sentido quando organizo o meu dia.

Minha fé deixou de ser uma força dirigida a Deu que o induz a agir. Entendo fé como coragem de enfrentar a existência com os valores do Evangelho. Fé significa uma aposta; a verdade vivida e revelada por Jesus de Nazaré tornou-se suficiente para que eu encare as contingências do mundo sem me desumanizar. Fé não movimenta o Divino, mas serve de pedra de apoio onde me impulsiono para a deslumbrante (e perigosa) aventura de viver.

Já não espero que uma relação com Deus me blinde de percalços. Não acredito, e nem quero, que Deus me revista com uma carcaça impenetrável. Acho um despautério prometer, em meio a tanto sofrimento, que uma vida obediente e pura gere segurança contra doenças, acidentes, violência.

Considero leviano afirmar que, quando as mulheres oram, Deus poupa seus filhos de se envolverem com drogas, promiscuidade e outros males. Por que Deus ficaria de mãos atadas ou indiferente diante das opções, muitas vezes atrapalhadas, de rapazes e moças? Quer dizer que, se os pais não vigiarem, Deus permite que os filhos se percam? Como Deus induz alguém a se arrepender; Ele arrasta pela força em resposta ao pedido dos pais? Será se a "salvação" dos filhos não depende tanto de uma intervenção divina, mas do exemplo dos pais?

Tanto no Antigo Testamento como no ministério terreno de Jesus, há relatos de que Deus se recusa a manipular ou coagir para trazer qualquer pessoa para si. Deus é amor e quem ama se torna vulnerável ao abandono. Um exemplo clássico vem do profeta Oséias que encarnou um repudio semelhante ao de Deus.

Quando Israel era menino, eu o amei, e do Egito chamei o meu filho. Mas, quanto mais eu o chamava mais eles se afastavam de mim (11.1).

No evangelho de Lucas, Jesus lamentou sobre a cidade de Jerusalém que, além de repetir o padrão de perseguir os profetas, o rejeitou:

Jerusalém, Jerusalém, você, que mata os profetas e apedreja os que lhe são enviados! Quantas vezes eu quis reunir os seus filhos, como a galinha reúne os seus pintinhos debaixo das suas asas, mas vocês não quiseram! (13.34).

Não acredito que, para os que cumprem ritos religiosos, a existência se transforme em céu de brigadeiro. Não imagino que, ao obedecer corretamente os mandamentos, o mar da vida deixe de ser arriscado.

Orar de olhos fechados, debulhar terços em rezas, pedir ajoelhado, fazer campanhas, interceder ferozmente nas vigílias, clamar aos gritos, nenhuma dessas expressões religiosas significa devoção, se contempla vantagens que outros mortais, que não fizerem o mesmo, não alcançarão. Considero-as puro clientelismo, vãs repetições, murros em ponta de faca, mistura de ilusão com esperança.

Assemelham-se ao esforço da tartaruga que sonha com as altitudes, mas se vê obrigada a respirar o pó da estrada.

Acho indigno um cristão pedir que Deus lhe ajude a passar em concurso público. Aliás, considero um horror ético. Da mesma forma, em economias que produzem excluídos, não é lícito rogar que “o Senhor abra uma porta de emprego”. Não faz sentido conceber que o Todo Poderoso consiga recolocar mais pessoas no mercado de trabalho de países emergentes do que nos bolsões miseráveis do mundo, onde bilhões sobrevivem com menos de 1 dólar por dia.

Já me indispus com grandes segmentos do mundo evangélico, mas não consigo calar. Por todos os lados, ouço clichês como se fossem afirmações piedosas de fé. Infelizmente, tais jargões cumprem o papel ideológico de afastar as pessoas da realidade, empurrando-as para o delírio religioso. Religião, nesse caso, não passa de ópio.

Soli Deo Gloria.

FONTE: Blog do Pr. Julio Soder.

IMAGEM: Hardy, personagem de desenho animado de Hanna & Barbera.


***

Minha crítica: Não me lembro de ter lido um texto do Gondim que não fosse sombrio, pessimista, depressivo. Este, em particular, afirma coisas que desacreditam a própria Bíblia: "Considero leviano afirmar que, quando as mulheres oram, Deus poupa seus filhos de se envolverem com drogas, promiscuidade e outros males." A própria Palavra fala de oração, fé, intercessão, e do poder e da graça de Deus. Quem conhece a Bíblia sabe das muitas passagens que estimulam o crente a orar, a expor a Deus suas preocupações e necessidades, sejam quais forem. Gondim fala como se o Senhor não concedesse graça. O Deus de Gondim é um Pôncio Pilatos sob lente de aumento, está sempre lavando as mãos, sem interferir no destino do ser humano, sem ajudar ninguém, deixando o homem perecer e sofrer as consequências de suas próprias "opções". É um Deus indiferente, impessoal e surdo. "Minha fé deixou de ser uma força dirigida a Deu [sic] que o induz a agir. Entendo fé como coragem de enfrentar a existência com os valores do Evangelho." Ou seja: fé não é o que diz Hebreus 11:1-13 (de 1 a 3: Ora, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que se não vêem. Porque por ela os antigos alcançaram testemunho. Pela fé entendemos que os mundos pela palavra de Deus foram criados; de maneira que aquilo que se vê não foi feito do que é aparente.), mas uma atitude que me parece resignada diante de percalços da vida, ainda que o texto não explicite isso - o contexto global me deixa entender essa significação. Mediante a fé, Deus agia e seu poder curava, transformava vidas, atuava em cumprimento de promessas feitas a seus filhos, mas parece-me que para Gondim isso não vale tanto assim hoje. Depois de tudo o que fez na Bíblia, Deus resolveu tirar férias. É muito interessante "enfrentar a existência com os valores do Evangelho", mas pela fé a mulher que sangrava intermitentemente foi curada, recebendo a bênção por meio da virtude de Deus. Pelo que diz a Bíblia, Deus atua, muda os rumos da existência, interfere, é ator e co-participante na vida dos homens. Isso deixou de ser verdade? Para mim, não. Pedi, e dar-se-vos-á. Deus não especifica que devemos pedir apenas a "coragem para enfrentar a existência...". Por que não seria legítimo pedir a Deus para passar em um concurso público? Onde está a falta de ética? Nem todos vivem dos dízimos e das ofertas, como Gondim, que é pastor. Alguns estudam e se esforçam, vejam só, para fazer provas em concurso público. Por que não poderiam orar e pedir a Deus para passar, se estão envolvidos nisso, estudando, sem emprego e querendo melhorar de vida? Isso é ilegítimo? Onde?

"Não acredito que, para os que cumprem ritos religiosos, a existência se transforme em céu de brigadeiro. Não imagino que, ao obedecer corretamente os mandamentos, o mar da vida deixe de ser arriscado." É claro que não, não é a lei que nos livra do mal, mas a graça. Gondim parece que só enxerga a graça quando ela é concedida por meio da lei, e aí é que está o problema, porque ele nela desacredita. Felizes aqueles que andam em obediência e guardam a sua Palavra no coração: a chuva cai para eles também, mas a diferença está no ânimo que Deus dá a seus filhos, por meio da fé. Ainda bem que Jesus não pensa como Gondim, pois ele disse: No mundo, tereis provações; mas tende bom ânimo, eu venci o mundo. Gondim, no lugar de Cristo, provavelmente diria: "e tende desânimo, porque o mundo é muito ruim mesmo e Deus não liga muito pra nós aqui embaixo". E de que ritos religiosos fala ele? O não-cumprimento desse ritos acarretaria, porventura, o contrário do que ele afirma? Haveria uma relação entre o "fazer" (ou o não-fazer) e a situação de vida, para o autor? Sera um legalismo ao contrário, tomado como regra?

E mais: “Da mesma forma, em economias que produzem excluídos, não é lícito rogar que ‘o Senhor abra uma porta de emprego’. Não faz sentido conceber que o Todo Poderoso consiga recolocar mais pessoas no mercado de trabalho de países emergentes do que nos bolsões miseráveis do mundo, onde bilhões sobrevivem com menos de 1 dólar por dia.” Por esse raciocínio, é errado orar a oração que nos ensinou o Senhor: “O pão nosso de cada dia nos dai hoje”. Ela é a mesma há cerca de dois mil anos, o que nos leva, talvez, a um "rito religioso" que quase sempre é feito "de olhos fechados". De acordo com o texto, posso concluir que, como muitos morrem de fome, é um “horror ético” pedir e agradecer a Deus, todos os dias, pelo alimento. Gondim se culpa o tempo todo, em um texto lamuriento e choroso, como se isso fosse eximi-lo, a si mesmo, de ter uma casa, um carro, TV e DVD, geladeira e computador, laptop etc. num mundo onde a imensa maioria sobrevive com “menos de 1 dólar por dia”. Seu discurso é o tempo todo autopunitivo, talvez no afã de aliviar sua consciência. Nesse mesmo afã, ele aproveita para acusar indiretamente seus leitores de culpados por esse mundo injusto, sobretudo os que oram para poder “passar num concurso público” (poderia ser uma oração para ir bem em uma entrevista de emprego, ou para ter o currículo selecionado numa empresa: haveria diferença?)... Ou seja: é antiético orar para melhorar de vida e progredir, o melhor mesmo é ficar chorando as pitangas sem fazer nada para que o mundo ande. Eu proponho que cada leitor redija uma carta pedindo a Gondim que doe todos os seus bens, o carro, a casa, as roupas novas, o forno de microondas e o celular, em solidariedade aos que vivem com menos de 1 dólar por dia. Sugiro que o dinheiro da venda de seus bens seja enviado aos necessitados.

Porque não basta cada um tentar viver de modo mais ou menos digno, quem sabe ajudar o próximo (e há quem ajude o próximo por hábito ou por legalismo, e há quem se torture em culpa pela miséria da maioria também por hábito ou por legalismo), amar a Deus, estudar, trabalhar, ou pelo menos tentar trabalhar, orar pelos filhos, pedir a Deus para passar em um concurso público: é necessária uma autoimolação, um espírito permanente de sacrifico próprio, um estado constante de infelicidade, para poder amenizar a culpa ou não se sentir culpado pela miséria do mundo. Nesse caso, não demos ouvidos a Jesus, que nos diz para amar o próximo como a si mesmo. Porque evidentemente Gondim não consegue amar a si mesmo, e vive num eterno remorso por conta do estado atual do mundo e, possivelmente, de sua condição econômico-financeira em relação à realidade. Não amando a si mesmo, ele também não consegue amar o próximo, o que também me parece evidente. Ou ele vê esse próximo como um objeto inerte e vítima (e não como uma pessoa que faz sua própria história e tem liberdade para agir em prol de si mesmo e protagoniza sua história, ainda que sofra também ações de terceiros), o que é necessário para sua condição de mártir/herói, ou ele vê o próximo como um hipócrita, que ora para passar em concurso público, ora pelos filhos e, tendo fé, nada mais faz que tentar manipular Deus, o que é necessário também para sua condição de mártir/herói. Estas duas figuras são importantes para validar a condição de profeta messiânico (e ele chega a citar Jesus, em sua crítica aos que perseguiam os profetas) que Gondim claramente se atribui. Afinal, ele não apenas se autoimola: ele é imolado por todos os que ele critica, os que oram pelos filhos e pedem a Deus para passar num concurso público, como deixa claro: “Já me indispus com grandes segmentos do mundo evangélico, mas não consigo calar. Por todos os lados, ouço clichês como se fossem afirmações piedosas de fé.” Ele não consegue calar: só ele consegue ver a verdade e dizê-la, vocação que é maior que ele mesmo, pois não "consegue calar" nem elaborar estratégias para reformular seu discurso - sem deixar de expressar suas ideias.

Gondim também não concebe uma relação com Deus livre de culpas. Uma relação de amizade na qual o crente tem a consciência de que Deus é maior, é poderoso e, por amor, e por ser quem é (pois Ele concede graça a quem quer conceder, é soberano), pode responder positivamente às orações feitas, não importando aí a condição de pecador do que ora.

Ele ouve clichês: os outros são menos capazes do que ele, ou são menos verdadeiros, ou são menos alguma coisa, pois produzem clichês, enquanto ele fala a verdade, colocando-se como a voz que clama no deserto do século XXI, "indispondo-se contra muitos evangélicos". O que ele faz, além de escrever para seu site - que, vaidade das vaidades, enquanto a maioria da população mundial vive com menos de 1 dólar por mês, pode ser lido em espanhol e inglês -, escrever seus livros e artigos, pregar confortavelmente em sua Igreja, em São Paulo, e participar de maratonas? – coisa que deveria lhe parecer absurda, diante do fato de que muitos vivem com menos de 1 dólar por dia... É possível que para se sentir menos culpado e repartir o peso da autoacusação ele culpe os outros, que não têm fé como ele acha que deveriam ter, que não se culpam intermitentemente, como ele faz, que oram por suas próprias vidas e por coisas até mesmo banais – como um emprego – como ele não faz, já que seu emprego está garantido. O que me deixa realmente desanimada é ver a tendência de Gondim, revelada em todos os textos que escreve, para mártir e ente sacrificial e heróico. Alguém que não só diz a verdade absoluta, mas se indispõe com todos os outros por causa dela: ou seja, ele não se indispõe por causa de suas limitações pessoais, ele se indispõe porque proclama a verdade, tal qual um João Batista da Terra da Garoa, e alguns não a aceitam porque não têm entendimento suficiente (e produzem muitos clichês por isso), como ele. Poderia tecer mais comentários, mas paro por aqui. O texto de Gondim é, no final das contas, repetitivo e circular.

30 de ago. de 2008

dreams



Animals

Animals are particulary powerful dream symbols, and usually carry a universal meaning, although they can also appear as specific animals know to the dreamer, in which case their significance tends to be personal. As well as real animals (general or specific), dreams may also make use of animals encountered in films, myths or fairytales. Sometimes, too, there may be a reference to animal associations embedded in the similes and clichés of idiomatic language (linking foxes with cunning, elephants with long memories, pigs with gluttony, and so on).

Animals have always signified our natural, instinctive and sometimes baser energies and desires, and in dreams they often draw our attention to undervalued or repressed aspects of the self, and put us in touch with a source os transforming energy dep within the collective unconcious. Devouring an animal can represent the assimilation of natural wisdom, just as in Nordic myth Siegfried learned the language of animals after eating the heart of the dragon Fafnir.

Animals in dreams may be frightening os friendly, wild or tame, and their demeanour can be an important clue for interpretation. They may even speak or change their form. In the native American tradition the shaman (spiritual magus) seeks a power animal in dreams, who will then act as a wisdom guide during the shaman's journeys to other worlds.

A dog can represent devotion, as symbolized by Argos, the first creture to recognize the Grrek hero Odysseus when he returned from his wanderings, but it can also stand for the destructive force of misused or neglected instincts, just as the hounds of the Greek hunting goddess Artemis tore Actaeon to pieces when he invaded her privacy. Cats are among the most common dream animals, and often stand for intuitive feminine wisdom and the imaginative power of the unconscious.

Horse - The horse generally symbolizes mankind's harnessing of the wild forces of nature, while a winged or flying horse can represent the unleashing of energy for psychological or spiritual growth. In Freudian dream interpretation, a wild horse represents the dreaded, terrifying aspect of the father.

Lion - The lion almost invariably appears in dreams as a regal symbol of power and pride, and often represents the archetypal, powerful and admired aspect of the father.

Wild beasts - Freud considered that ferocious, untamed animals represent passionate impulses of which the dreamer is ashamed; the more numerous and diverse the animals concerned, the more varied and threatening these impulses may be.
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Impossibilities

Dreams are not bound by the rules of waking life, but operate in the normal way of perceiving reality is only one of many possible states of conciousuness. Reminiscent of the Zen Buddhist koan technique, which asks the initiate impossible questions, drams may deliberately distort waking reality, "shaking" the dreamer's mental kaleidoskope, and producing new juxtapositions of ideas and experiences, which give rise to new patterns of thought or behaviour.

When a dream presents material that appears impossible to waking mind, this very incongruity may be the crux of the meaning. One manifestation of this is the reversed relationship. A platform, for example, may move toward a train instead of vice versa, perhaps emphasizing to the dreamer that it is necessary to approach life from a completely new perspective. The dreamer may appear in the opposite sex, drawing attention to his or her neglect of the Anima or Animus, the female aspect of man and the male aspect of woman. Winter and summer may be combined or reversed, flowers may bloom in a snowfield. Such reversals may sometimes be aiming to teach the dreamer thet seeing everything in terms of opposites (including forces at war withing the dreamer's mind) is limiting: only by uniting our various energies can we realize our full potential.
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The Secret Language of Dremas - A Visual Key to Dreams and Their Meanings (David Fontana)
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Eu nem me lembrava desse livro, que eu ganhei de um amigo. Mas fui procurar, em virtude do sonho, e achei algumas coisas interessantes.
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sábado de Aleluia

FOTOGRAFIA: Mayalu Felix
Parede do restaurante Cabana do Sol, em São Luis (MA)


Eu tive um sonho tão estranho... Tinha em minhas mãos um catálogo, e havia fotos de animais. Eu achava que era um catálogo científico, mas depois descobri que não era. Havia uma inscrição, ao final de uma página: "Para decorar sua fazenda, seu spa, sua propriedade particular... Contate nossos serviços". Havia sobretudo felinos, mas eram animais que não existem, como a Onça da Cabeça Grande. Tinha a cabeça enorme, desproprocional ao corpo, e dois olhos em cima, na parte superior. Mais dois olhos vinham embaixo, e eram quatro, no total. Na fotografia o animal dormia sobre um pedaço de chão de barro vermelho, desse típicos do cerrado. Havia outra onça, essa tinha vários padrões de pele. O pescoço era branco com pequenas manchas pretas, como a pelagem de um dálmata. Já o corpo era alaranjado, como o de uma onça normal. As patas eram pequenas, desproporcionais ao corpo, e o desenho da pelagem já mudava, também. Eram animais não-harmônicos, pareciam colagens. E havia um cavalo, que tinha pelagem de tigre. Mas o fundo era marrom, e não alaranjado, com raias de tigre. Não era semelhante a uma zebra, como alguns podem imaginar, era mesmo um cavalo marrom raiado de preto. E na foto aparecia a cabeça dele, em primeiro plano. Quando toquei, ele saiu correndo, e eu estava dentro da fotografia. Mas ele saiu correndo como se fosse um ser humano, foi muito rápido, e ele se escondeu atrás de um arbusto, com medo. Então eu percebi que as fotos poderiam viver. Olhei a Onça de Cabeça Grande, os quatro olhos estavam fechados, porque ela dormia. E eu percebi que ela respirava, foi assustador. Eu sabia que se tocasse a foto ela acordaria, e eu não tinha idéia de qual seria a reação dela. Era um catálogo de algum criadouro de grandes animais, sobretudo felinos, estranhíssimos. Será que eram animais produzidos em laboratório? Combinações genéticas? Não sei. Acho que também não me lembro do sonho todo. Quando acordei, para não esquecer, comecei a relembrar, e repassei algumas imagens várias vezes, descrevendo o que tinha "visto". Mas alguma coisa me escapou.

Mudando de assunto, ontem recebi a documentação da Visão Mundial, porque eu agora vou apadrinhar uma criança. Recebi a foto da criança, com seu nome, o que gosta de fazer, idade, cidade onde mora. Também me foi enviado um manual do apadrinhador, mais uma carta da Visão Mundial e outros papéis, a maioria para me orientar acerca do que é apadrinhar uma criança de de como trabalha a ONG. Pode parecer besteira, mas fiquei emocionada. Porque eu sei, primeiro, que o trabalho da Visão Mundial é sério e limpo. Ouço falar da ONG há muitos anos, por diferentes fontes e canais, e pelo que sempre ouvi e vi eu sei que a criança vai realmente receber, em forma de ajuda nutricional, escolar, médica e social, por meio da ONG, o dinheiro que todo mês eu vou enviar. É uma criança do Nordeste, isso me emociona também, e foi a única coisa que eu "escolhi", quando me perguntaram se eu tinha alguma preferência para apadrinhar (idade, sexo etc.). Eu disse que queria apadrinhar uma criança do Nordeste, e quanto às outras definições, não fazia questão de especificar mais nada. Quando vi a foto, era como se ganhasse, ali, um filho. Um filho que vou ajudar à distância, com míseros R$ 40,00 por mês, mas que farão diferença para aquele ser humano que começa a se desenvolver, e que infelizmente começou na pobreza. A Visão Mundial vai me enviar, de modo regular, relatórios sobre a criança de que sou madrinha, e vou sempre poder acompanhar seu progresso em diferentes áreas.

Eu virei uma "madrinha", por meio da Visão Mundial, e minha vida já ficou mais bonita. Esses R$ 40,00 vão ajudar mais a mim mesma que à criança, acabei entendendo, ontem, na minha cama, enquanto lia os documentos que havia recebido. E agradeci a Deus por essa alegria, por esse privilégio. Porque essa é uma coisa boa que acontece na minha vida, agora.

Hoje vou estudar por horas a fio. Tenho alguns textos para postar ainda aqui no Blog, uns trabalhos pra fazer no word, mas vou sair do PC e entrar no mundo dos papéis não-virtuais.

Em breve vou postar uma entrevista virtual que fiz com alguém que tem um Blog... mistério... Todo mês, agora, quero entrevistar alguém. E não tem pergunta do tipo "Qual sua canção preferida?", é um questionariozinho meio desafiador, para cada um, com umas perguntas não tão canônicas...

Sobre o sonho... Se alguém tiver alguma intuição sobre esse episódio de meu subconsciente, esse sonho estranhíssimo que eu tive esta noite, pode postar aqui. Sabe que eu fiquei com medo? Cada animal "medonho", como diz a minhavó.

Aliás, esta noite choveu muito, o vento estava forte. Era uma tempestade. Hoje está tudo acinzentado, faz frio, e continua a chover. De madrugada eu ouvi o barulho do vento, parecia que ia quebrar as janelas. Não tenho medo, ao contrário, eu gosto e durmo bem, quando há uma tempestade. Por que, não sei. Mas sempre foi assim. Tempestades me acalmam.

Sobre a Visão Mundial e seu trabalho, eu recomendo, muito, mesmo, a você que me lê agora, que visite o site e conheça o trabalho da ONG: http://www.visaomundial.org.br/visaomundial/. Dizem que não tem ONG no Nordeste, para ajudar as pessoas a sair da miséria... Tem, sim...


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30 de jan. de 2008

A função religiosa da alma

C.G.Jung
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Se comprovo que a alma possui naturalmente uma função religiosa, e se levo adiante a idéia de que a tarefa mais distinta de toda a educação (do adulto) é tornar consciente o arquétipo da imagem divina e seus respectivos efeitos e difusões, a teologia vem sobre mim e tenta me dirimir do “psicologismo”. Se na psique não existissem grandes valores referentes à experiência (sem prejuízo do já existente antinomon pneuma), a psicologia não me interessaria nem um pouco, já que a psique seria, então, nada mais que um deserto miserável. Mas com base em centenas de experiências sei que ela não é assim. Ao contrário, ela contém o correlato de todas aquelas experiências que formularam o dogma, e ainda mais alguma coisa que a torna capaz de ser o olho definido para ver a luz. (...) Acusaram-me de “deificação da psique”. Foi Deus, e não eu, quem a deificou! Não fui eu quem criou para a alma uma função religiosa. (...), somente expus os fatos que comprovam que a alma é naturaliter religiosa.
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"Colei" do Blog do Alysson Amorim, de BH. Buona gente, il ragazzo! Vale a pena curiar por lá...

11 de dez. de 2007

ESCUTA!

ESCUTA, ZÉ NINGUÉM!

“(...) Esta é a hora primeira de um futuro maior, do fim de toda a forma de mediocridade. Porque entretanto o modo como age a peste emocional se foi tornando demasiado óbvio. Acusa a Polônia das intenções de agressão militar, depois de tomada a decisão de agredir a Polônia. Acusa o rival da intenção do crime depois de decidir eliminá-lo. Acusa de pornografia a vida sexual sã, porque tem em mente intenções pornográficas. Já te topamos, Zé Ninguém; vais-te tornando transparente sob tua fachada de desgraça a submissão. O que te é pedido é que determines o rumo do mundo com o teu trabalho e a tua realização — substituir uma forma de tirania por outra é que nunca. O que se te exige é que te submetas às leis da vida tal como quererias que os outros fizessem; que te modifiques à medida que os vais criticando. Cada vez é mais óbvia a tua tagarelice, a tua avidez, a tua irresponsabilidade — o mal de ti que conspurca toda a beleza da Terra. Sei que não te agrada o que ouves, que preferes berrar “Viva!”, que és bem capaz de parir o futuro do proletariado do IV Reich. Mas não é menor a minha convicção de que as coisas te vão sendo mais difíceis hoje que no passado — embora sejas ainda brutal sob a tua máscara de sociabilidade e gentileza, Zé Ninguém. Não acreditas? Deixe então que te refresque a memória:
Lembras-te da magnífica tarde em que vieste, como lenhador que eras, pedir trabalho à minha cabana na montanha? Depois de farejar-te, o meu cachorro saltou-te aos joelhos. Viste que era cão de boa raça e disseste então: “Devia amarrá-lo para se fazer bravo. O cão é manso demais.” Ao que te respondi: “Eu não quero ter uma fera amarrada com correntes. Não gosto de cães raivosos.” Ah, lenhador, tenho bem mais inimigos do que tu, mas continuo a preferir o meu majestoso cão, meigo com toda gente.
Lembras-te do domingo chuvoso em que a angústia perante o fenômeno da tua rigidez biológica me levou a sair de casa, largando o trabalho, para me enfiar num dos teus bares? Sentei-me a uma mesa e pedi um uísque (não, Zé Ninguém, não sou alcoólico, embora goste de beber de vez em quando). Ia, pois, bebendo o meu copo quando te ouvi, no teu paleio de recém-desmobilizado, descrever os Japoneses como “macacos horrendos”. E foi então que afirmaste, com a expressão facial que eu tão bem conheço do meu trabalho terapêutico: “Vocês sabem o que a malta devia fazer com os Japoneses da costa ocidental? Estrangulá-los todos, um por um, mas devagar, lentamente, apertar-lhes o garrote a pouco e pouco, assim...”, e ias fazendo o gesto com as mãos, Zé Ninguém. O criado apoiava-te, fazia que sim em admiração perante a tua heróica masculinidade. Já alguma vez tiveste um bebê recém-nascido nos braços, patriota de m...? Durante muitas décadas continuarás ainda a estrangular espiões japoneses, aviadores americanos, camponeses russos, oficiais alemães, anarquistas ingleses e comunistas gregos — hás-de fuzila-los, condená-los à cadeira elétrica, às câmaras de gás —, o que em nada irá alterar a tua prisão de ventre generalizada, a tua incapacidade de amar, o teu reumatismo ou a tua doença mental. Não serão os crimes que possas cometer que irão arrancar-te do lameiro. Olha para ti, Zé Ninguém. É a tua única esperança.
(...) A única coisa capaz de conquistar-te será o teu sentido de pureza, a tua aspiração à verdadeira vida — e quanto a isso, não tenho a menor dúvida. Uma vez superada a tua mediocridade e mesquinhez, começarás a pensar — de início, sem dúvida, errática, ridícula e erroneamente, mas pensarás com seriedade. Terás de aprender a superar a dor que todo esforço de pensamento comporta em si mesmo, tal como eu e outros suportamos a pena de pensar-te — durante anos, em silêncio, de dentes cerrados. Esta nossa dor far-te-á pensar. E quando começares a fazê-lo sentirás a magnitude do absurdo dos teus quatro milênios de “civilização”. Ser-te-á difícil entender como foi possível que os teus jornais nada mais tivessem a relatar e comentar que paradas sem sentido, condecorações, crimes, enforcamentos, diplomacias, calúnias, mobilizações, pactos, bombardeamentos — e que não tenhas nunca reagido com agressividade ou te tenhas sequer apercebido do perigo que corrias. Talvez te houvesse sido possível entenderes-te a ti próprio se não tivesses engolido bovinamente tudo o que te caía nas mãos. Mas o que deveras te será difícil é a verificação do fato de que tudo foste macaqueando e papagueando através dos séculos; o fato de que o que no teu íntimo acharas certo o era realmente, e que tomaste por patrióticos os teus erros. Terás vergonha do que fizeste, e nisso reside a única esperança de que os nossos bisnetos não venham a ser obrigados a ler a tua história militar. E não mais será possível a montagem duma grande revolução apenas para por em cena um novo “Pedro, o Grande”. (...).
(...) Quererás agora ouvir-me?
“Vamos a isso, porque é que eu não hei-de dar ouvidos a mais uma utopiazinha? Não há nada a fazer, meu caro doutor — sou e continuarei a ser um pobre diabo, o homem da rua, que não tem opinião própria. Aliás, quem sou eu para...”
Ouve. Escondes-te detrás da lenda do Zé Ninguém, porque tens medo de mergulhar e de ter de nadar no grande rio da vida, quanto mais não seja em nome dos teus filhos. A primeira de todas as coisas que não mais farás será consentir na percepção de ti próprio como sujeito insignificante e sem opinião, que afirma a todo momento “mas quem sou eu...”. Tu tens a tua opinião própria e no futuro que prevejo passarás a considerar como vergonha não a conheceres, não a defenderes, não a expressares.

***

Wilhelm Reich
Escuta, Zé Ninguém!
Livraria Martins Fontes Editora Ltda.
Portugal, abril de 1982; primeira edição: maio de 1972.
Trechos retirados das páginas 91, 92, 97, 98, 100 e 101.
.
NOTA: Já postei este trecho desse verdadeiro desabafo de Reich. Como gosto MUITO do que ele diz, aqui vai, de novo... Quem tem olhos para ler...

9 de dez. de 2007

Infinito Particular

O que cabe na minha bolsa?

Devo confessar que se há alguma coisa de que eu gosto, é bolsa. Tenho muitas, de algumas já me desfiz, mas outras estão comigo há anos e anos. De noite, antes de dormir, sempre tiro tudo da bolsa que estou usando naquele dia, guardo a bolsa e o conteúdo fica à espera de outra ou, quem sabe, da mesma. Agora mesmo olho o "cabideiro" de bolsas e vejo... jeans, dourada, prateada, preta, beige, de algodão cru, pequenas, grandes, mais formais, bem informais, preta e branca, channel total, estilo mais hippie, com franjas, sem franjas, com miçangas (é uma indiana, linda, de cetim), mais chiques (de verniz, uma preta e uma beige, lindas), uma beeem maltratada, que eu comprei em um brechó, em Paris, etc etc etc.


Mas me interessa aqui o conteúdo, não o continente. Por que não levo só os documentos? Só as chaves? Não seria mais fácil viver assim, sem tantas coisinhas? A verdade é que eu SEMPRE acho que vou precisar de alguma coisa, então essa coisa tem que vir comigo. Vou listar:

  1. documentos (doc. do carro, carteira de motorista e identidade);
  2. cartões (do supermercado, do restaurante x, visa, banco etc. e até do cybercafé do Macdonald's. Putz!) que estão acondicionados dentro de um porta-cartões;
  3. gel hidratante anti-séptico dispensa água e toalha (no caso de comer em um lugar em que não posso lavar as mãos antes);
  4. prendedor de cabelos;
  5. tiara, ou arco, ou atraca, como queiram, odeio cabelo na testa;
  6. máquina de calcular movida a energia luminosa bem pequenininha;
  7. porta-moedas;
  8. remédio para dor de cabeça (paracetamol);
  9. outro remédio para dor de cabeça (outra substância, se a primeira não resolver);
  10. remédio para alergia;
  11. descongestionante nasal;
  12. óculos escuros;
  13. protetor solar facial;
  14. lenços de papel - muitos;
  15. protetor de calcinhas (OK, se estou falando de TUDO, então esta intimidade também se revela!);
  16. batom;
  17. gloss;
  18. pó compacto;
  19. máscara para cílios;
  20. estojo com óculos de grau;
  21. escova de dente portátil;
  22. pasta de dente;
  23. enxaguatório bucal num vidrinho pequenininho - pouca coisa;
  24. perfume;
  25. pente;
  26. agenda;
  27. estojo (canetas, lápis, borracha, corretivo, mini-grampeador, clips, régua pequena, etc etc.);
  28. máquina de fotografar dntro de estojo (sempre acho que vai aparececer alguma coisa legal para fotografar);
  29. mini-lixa de unhas (pelo menos três);
  30. hidratante para as mãos;
  31. eventualmente um livro que estou lendo;
  32. celular;
  33. se vou ao cinema, um casaco (eles colocam a temperatura do ar condicionado nas baixuras);
  34. tic-tac (sabor menta);
  35. chave do carro, controle remoto da garagem do prédio onde moro, chaves da casa (2), chaves da Uema (3);
  36. eu tinha me esquecido... sempre tenho um bloquinho de notas, sabe? é um caderninho pra anotar alguma coisa de que me lembro, uma informação, algo que devo fazer urgentemente, um bloco de papel do qual eu também possa destacar uma folhinha - a agenda não pode ser "destacada";
  37. devo ter me esquecido de alguma coisa, fica aqui no espaço, se eu me lembrar, completo. Eventualmente um CD, o som do carro (só aquela parte da frente), um chocolate etc.

Me perguntem se uso tudo o que levo na bolsa. Eu respondo: Às vezes sim, às vezes não. Mas será que eu preciso usar tudo?

Abraços,

Maya

: )

1 de dez. de 2007

Tanatos
Morfeu
Seguem o cortejo
Sob o Sol
E eu
Pálida
Em teus braços outra
Hipnos
Em teus olhos sou
Hades
Senhora sou aqui
de Cérbero
de Eros
de Zeus
Senhora sou

***
Mayalu Felix
São Luis, França Equinocial
primeiro de dezembro MMVII

13 de set. de 2007

Melhoramento genético


"Sinto falta da galinha da minha mãe, do peixe do meu pai e da energia do povo brasileiro."

Gisele Bündchen, a top model, na coluna de Mônica Bérgamo, na Folha de S. Paulo.

FONTE: Revista Veja, ed. 2025, ano 40, nº 36, 12/09/2007, p. 58.

NOTA: OK, sem comentários. :/
Putz, "... a galinha da minha mãe..." ...
: (

8 de set. de 2007

Divã 'express'

Psicanalistas testam tratamentos gratuitos, com duração de quatro meses, para atrair mais pacientes.

Dois anos antes de sua morte, em 1937, o inventor da psicanálise, Sigmund Freud, já idoso e doente, demonstrou no ensaio "Análise terminável e interminável" a preocupação com a longa duração do tratamento das doenças mentais.

-- Freud assinala o fato de o sujeito nunca estar pronto não significa que o tratamento deva ser interminável. Ao contrário, é preciso haver um tempo determinado -- afirma o professor da UFRJ Theodor Lowenkron, que está lançando o livro "Psicanálise interminável ou com fim possível?"

No acelerado século XXI, eis que surge um movimento da Associação Mundial de Psicanálise, de orientação lacaniana, com questões semeadas naqueles textos e que ganham força nos dias de hoje. Em meio a tantas alternativas de terapias breves, psicanalistas encaram o desafio de modificar a ligação da psicanálise a algo lento e caro e mostrar que o tratamento pode ser curto e surtir efeito, sim.

Foram criados há quatro anos na França, berço de Jacques Lacan, o grande leitor de Freud, centros de tratamento gratuito com quatro meses de duração. A boa notícia para quem foge do divã pelos motivos citados acima é que eles já desembarcaram por aqui, em consultórios instalados no Rio, em Belo Horizonte e na Bahia.

Psicanalistas brasileiros iniciaram as pesquisas em torno do tema logo após a inauguração do primeiro CPCT (Centre Psychanalityque de Consultation et de Traitement), fundado por Jacques-Alain Miller, difusor e genro de Lacan, em Paris. Na prática, desde o início do ano, alguns profissionais brasileiros atendem com a nova proposta. Neste fim de semana, o XV Encontro Internacional e III Encontro Interamericano do Campo Freudiano, que acontece em Belo Horizonte com a presença de Judith Miller, filha de Lacan e espécie de madrinha dos novos centros, discutirá os (bons) resultados.

-- A preocupação é não deixar a psicanálise à margem do que acontece na contemporaneidade. Será que ela pode responder às urgências da nossa época? Os primeiros meses de tratamento são fundamentais, porque é quando o paciente faz uma pausa para pensar nas suas queixas e vê seus problemas acolhidos, o que produz alívio. Portanto, quatro meses podem ter ótimo efeito -- diz Heloisa Caldas, diretora da Escola Brasileira de Psicanálise no Rio.

As urgências mais comuns do nosso tempo, segundo os psicanalistas, são depressão, distúrbios alimentares, crianças hiperativas e angústias causadas por desemprego ou excesso de trabalho. É o perfil da maioria dos pacientes que batem à porta desses centros, espalhados também por Espanha, Itália, Bélgica e Argentina.

Novo centro
Na França, 1,9 mil pessoas já receberam o tratamento gratuito e de curta duração nos nove consultórios montados. No Brasil, a última novidade foi a abertura de um novo centro, chamado A Tempo, há um mês, na capital mineira. No Rio, esses espaços ganharam um caráter social, com os centros Digaí Maré, na favela da Maré, e Clac, em Botafogo, que atende a comunidades do Morro Santa Marta -- uma forma de reagir às críticas de que a psicanálise é elitista. Duzentas pessoas deitam no divã dos dois centros no momento.

-- O fundamento é: análise para todos. E o tempo pode ser prorrogado para até oito meses, dependendo do caso. Mas mesmo em períodos curtos é a psicanálise engajada com os seus princípios, só que em menos tempo. Ou seja, o método é fazer o analisado falar, sempre interrogando e tratando as particularidades de cada um -- esclarece Elisa Alvarenga, presidente da Escola Brasileira de Psicanálise, ressaltando as diferenças da psicanálise para as terapias breves.


ENTREVISTA


Reflexões psicanalíticas com a filha de Lacan


Seu pai é Jacques Lacan e seu marido, Jacques-Alain Miller, o criador dos centros psicanalíticos com tratamento de curto prazo. A francesa Judith Miller, presidente da Fundação do Campo Freudiano, cresceu e vive até hoje cercada pela psicanálise. Antes de embarcar para o Brasil para o congresso que acontece neste fim de semana em Belo Horizonte, ela conversou por e-mail com a "Revista da Família".


O que a senhora acha da iniciativa brasileira de seguir o exemplo dos analistas lacanianos franceses que atendem pessoas em situações de emergência, em um tratamento de curto prazo?
JUDITH MILLER: Com direção do psicanalista Hugo Freda, o Centro Psicanalítico de Consulta e Tratamento vem dando provas do seu valor. Demonstramos que todo cidadão pode exercer seu direito de tomar conhecimento da dimensão do seu inconsciente. Desse modo, ele tem a possibilidade de se aliviar de alguns sofrimentos e de sair do impasse no qual se via acuado. Eu só posso me alegrar com o fato de os colegas brasileiros declararem seu desejo de pôr em prática essa idéia.

De que outras maneiras a psicanálise pode ajudar, já que apenas poucas pessoas podem pagar por um tratamento desse tipo?
JUDITH MILLER: Quando a psicanálise se aplica à terapêutica, ela não é uma ortopedia. Freud sempre o disse, e, depois dele, Lacan. Aplicada à terapêutica, a psicanálise permite àquele que se dirige a um psicanalista encontrar outras soluções diferentes daquela construída pelos sintomas de que padece. A psicanálise não se propõe a "ajudar", como vocês dizem. E hoje, um século depois de publicada a "Interpretação dos sonhos", ela está em condições de fazer reconhecer o direito de cada um de se inscrever no laço social particular.

A senhora acredita que a modernização da linguagem freudiana feita por Lacan permitiu o progresso da psicanálise para tratar das novas doenças psíquicas como a depressão e os distúrbios alimentares, duas das mais encontradas entre os brasileiros?
JUDITH MILLER: Jacques Lacan não "modernizou" a linguagem feudiana. Inicialmente, ele leu Freud e restabeleceu o fio condutor da disciplina da qual Freud é o inventor. Não se deixem enganar. A anorexia, a bulimia e a depressão não são "novas doenças psíquicas"! Os laboratórios fabricam antidepressivos. Alguns deles gostariam de nos convencer dos benefícios dessas drogas no enfrentamento desse novo mal. É mais responsável estarmos suficientemente formados a fim de podermos distinguir de qual estrutura decore um sujeito deprimido, um sujeito anoréxico ou um sujeito bulímico para, então, intervirmos de modo conseqüente. Essa estrutura com freqüência é psicótica, mas nem sempre. Também é verdade que a psicose é cada vez mais freqüente, não apenas no Brasil.

Para a senhora, quais são as contribuições mais importantes da escola lacaniana para a clínica psicanalítica?
JUDITH MILLER: Jacques Lacan deu amplidão à clínica psicanalítica das psicoses. Ele nunca recuou diante dessa clínica, desde sua tese em psiquiatria, em 1932. Todo o seu ensino visa a circunscrever essa clínica cada vez mais e articular suas lições. Os que seguem seu ensino continuam nessa via, tão indispensável quanto apaixonante e decisiva.

Reportagem de Isabela Caban, publicada no Jornal O Estado do Maranhão de 05/08/2007, domingo, na Revista da Família, p. 5.

MAIS: Escola de Psicanálise do Maranhão - Av. do Vale, 23, salas 212-213 - Ed. Carrara - Renascença II - CEP: 65075-400 - Tel: (98) 32359847 - São Luis (MA).

2 de ago. de 2007

Fernando Pessoa [1]

Eros e Psique

Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.

Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.

A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera,
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.

Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado,
Ele dela é ignorado,
Ela para ele é ninguém.

Mas cada um cumpre o Destino
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.

E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora,

E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.

Fernando Pessoa

Publicado pela primeira vez in Presença, n.os 41-42, Coimbra, maio de 1934.

Escuta, Zé Ninguém! - W. Reich

Escuta, Zé Ninguém!

“(...) Esta é a hora primeira de um futuro maior, do fim de toda a forma de mediocridade. Porque entretanto o modo como age a peste emocional se foi tornando demasiado óbvio. Acusa a Polônia das intenções de agressão militar, depois de tomada a decisão de agredir a Polônia. Acusa o rival da intenção do crime depois de decidir eliminá-lo. Acusa de pornografia a vida sexual sã, porque tem em mente intenções pornográficas. Já te topamos, Zé Ninguém; vais-te tornando transparente sob tua fachada de desgraça a submissão. O que te é pedido é que determines o rumo do mundo com o teu trabalho e a tua realização — substituir uma forma de tirania por outra é que nunca. O que se te exige é que te submetas às leis da vida tal como quererias que os outros fizessem; que te modifiques à medida que os vais criticando. Cada vez é mais óbvia a tua tagarelice, a tua avidez, a tua irresponsabilidade — o mal de ti que conspurca toda a beleza da Terra. Sei que não te agrada o que ouves, que preferes berrar “Viva!”, que és bem capaz de parir o futuro do proletariado do IV Reich. Mas não é menor a minha convicção de que as coisas te vão sendo mais difíceis hoje que no passado — embora sejas ainda brutal sob a tua máscara de sociabilidade e gentileza, Zé Ninguém. Não acreditas? Deixe então que te refresque a memória:
Lembras-te da magnífica tarde em que vieste, como lenhador que eras, pedir trabalho à minha cabana na montanha? Depois de farejar-te, o meu cachorro saltou-te aos joelhos. Viste que era cão de boa raça e disseste então: “Devia amarrá-lo para se fazer bravo. O cão é manso demais.” Ao que te respondi: “Eu não quero ter uma fera amarrada com correntes. Não gosto de cães raivosos.” Ah, lenhador, tenho bem mais inimigos do que tu, mas continuo a preferir o meu majestoso cão, meigo com toda gente.
Lembras-te do domingo chuvoso em que a angústia perante o fenômeno da tua rigidez biológica me levou a sair de casa, largando o trabalho, para me enfiar num dos teus bares? Sentei-me a uma mesa e pedi um uísque (não, Zé Ninguém, não sou alcoólico, embora goste de beber de vez em quando). Ia, pois, bebendo o meu copo quando te ouvi, no teu paleio de recém-desmobilizado, descrever os Japoneses como “macacos horrendos”. E foi então que afirmaste, com a expressão facial que eu tão bem conheço do meu trabalho terapêutico: “Vocês sabem o que a malta devia fazer com os Japoneses da costa ocidental? Estrangulá-los todos, um por um, mas devagar, lentamente, apertar-lhes o garrote a pouco e pouco, assim...”, e ias fazendo o gesto com as mãos, Zé Ninguém. O criado apoiava-te, fazia que sim em admiração perante a tua heróica masculinidade. Já alguma vez tiveste um bebê recém-nascido nos braços, patriota de m...? Durante muitas décadas continuarás ainda a estrangular espiões japoneses, aviadores americanos, camponeses russos, oficiais alemães, anarquistas ingleses e comunistas gregos — hás-de fuzila-los, condená-los à cadeira elétrica, às câmaras de gás —, o que em nada irá alterar a tua prisão de ventre generalizada, a tua incapacidade de amar, o teu reumatismo ou a tua doença mental. Não serão os crimes que possas cometer que irão arrancar-te do lameiro. Olha para ti, Zé Ninguém. É a tua única esperança.
(...) A única coisa capaz de conquistar-te será o teu sentido de pureza, a tua aspiração à verdadeira vida — e quanto a isso, não tenho a menor dúvida. Uma vez superada a tua mediocridade e mesquinhez, começarás a pensar — de início, sem dúvida, errática, ridícula e erroneamente, mas pensarás com seriedade. Terás de aprender a superar a dor que todo esforço de pensamento comporta em si mesmo, tal como eu e outros suportamos a pena de pensar-te — durante anos, em silêncio, de dentes cerrados. Esta nossa dor far-te-á pensar. E quando começares a fazê-lo sentirás a magnitude do absurdo dos teus quatro milênios de “civilização”. Ser-te-á difícil entender como foi possível que os teus jornais nada mais tivessem a relatar e comentar que paradas sem sentido, condecorações, crimes, enforcamentos, diplomacias, calúnias, mobilizações, pactos, bombardeamentos — e que não tenhas nunca reagido com agressividade ou te tenhas sequer apercebido do perigo que corrias. Talvez te houvesse sido possível entenderes-te a ti próprio se não tivesses engolido bovinamente tudo o que te caía nas mãos. Mas o que deveras te será difícil é a verificação do fato de que tudo foste macaqueando e papagueando através dos séculos; o fato de que o que no teu íntimo acharas certo o era realmente, e que tomaste por patrióticos os teus erros. Terás vergonha do que fizeste, e nisso reside a única esperança de que os nossos bisnetos não venham a ser obrigados a ler a tua história militar. E não mais será possível a montagem duma grande revolução apenas para por em cena um novo “Pedro, o Grande”. (...).
(...) Quererás agora ouvir-me?
“Vamos a isso, porque é que eu não hei-de dar ouvidos a mais uma utopiazinha? Não há nada a fazer, meu caro doutor — sou e continuarei a ser um pobre diabo, o homem da rua, que não tem opinião própria. Aliás, quem sou eu para...”
Ouve. Escondes-te detrás da lenda do Zé Ninguém, porque tens medo de mergulhar e de ter de nadar no grande rio da vida, quanto mais não seja em nome dos teus filhos. A primeira de todas as coisas que não mais farás será consentir na percepção de ti próprio como sujeito insignificante e sem opinião, que afirma a todo momento “mas quem sou eu...”. Tu tens a tua opinião própria e no futuro que prevejo passarás a considerar como vergonha não a conheceres, não a defenderes, não a expressares.


Wilhelm Reich
Escuta, Zé Ninguém!
Livraria Martins Fontes Editora Ltda.
Portugal, abril de 1982; primeira edição: maio de 1972.
Trechos retirados das páginas 91, 92, 97, 98, 100 e 101.

Reich me surpreende neste livro por seu estilo contundente, ágil e sua percepção aguda das mazelas do ser humano -- esse que chamamos de normal, convencional, sociável, coerente, sensato. O mesmo que destrói, lentamente, a esperança de um novo e real pensamento que gere ações a fim de preservar a própria vida. Ou revolucionamos o planeta, ou morremos. Todos. Publico, aqui, o trecho que mais me chama a atenção em seu livro.

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