



Creio que não existe nada de mais belo, de mais profundo, de mais simpático, de mais viril e de mais perfeito do que o Cristo; e eu digo a mim mesmo, com um amor cioso, que não existe e não pode existir. Mais do que isto: se alguém me provar que o Cristo está fora da verdade e que esta não se acha n'Ele, prefiro ficar com o Cristo a ficar com a verdade. (Dostoievski)





Repensando a fé
Ricardo Gondim
Certas coisas perderam ímpeto dentro de mim. Certas afirmações se esvaziam antes que alcancem o meu coração. Certas concepções já não fazem sentido quando organizo o meu dia.
Minha fé deixou de ser uma força dirigida a Deu que o induz a agir. Entendo fé como coragem de enfrentar a existência com os valores do Evangelho. Fé significa uma aposta; a verdade vivida e revelada por Jesus de Nazaré tornou-se suficiente para que eu encare as contingências do mundo sem me desumanizar. Fé não movimenta o Divino, mas serve de pedra de apoio onde me impulsiono para a deslumbrante (e perigosa) aventura de viver.
Já não espero que uma relação com Deus me blinde de percalços. Não acredito, e nem quero, que Deus me revista com uma carcaça impenetrável. Acho um despautério prometer, em meio a tanto sofrimento, que uma vida obediente e pura gere segurança contra doenças, acidentes, violência.
Considero leviano afirmar que, quando as mulheres oram, Deus poupa seus filhos de se envolverem com drogas, promiscuidade e outros males. Por que Deus ficaria de mãos atadas ou indiferente diante das opções, muitas vezes atrapalhadas, de rapazes e moças? Quer dizer que, se os pais não vigiarem, Deus permite que os filhos se percam? Como Deus induz alguém a se arrepender; Ele arrasta pela força em resposta ao pedido dos pais? Será se a "salvação" dos filhos não depende tanto de uma intervenção divina, mas do exemplo dos pais?
Tanto no Antigo Testamento como no ministério terreno de Jesus, há relatos de que Deus se recusa a manipular ou coagir para trazer qualquer pessoa para si. Deus é amor e quem ama se torna vulnerável ao abandono. Um exemplo clássico vem do profeta Oséias que encarnou um repudio semelhante ao de Deus.
Quando Israel era menino, eu o amei, e do Egito chamei o meu filho. Mas, quanto mais eu o chamava mais eles se afastavam de mim (11.1).
No evangelho de Lucas, Jesus lamentou sobre a cidade de Jerusalém que, além de repetir o padrão de perseguir os profetas, o rejeitou:
Jerusalém, Jerusalém, você, que mata os profetas e apedreja os que lhe são enviados! Quantas vezes eu quis reunir os seus filhos, como a galinha reúne os seus pintinhos debaixo das suas asas, mas vocês não quiseram! (13.34).
Não acredito que, para os que cumprem ritos religiosos, a existência se transforme em céu de brigadeiro. Não imagino que, ao obedecer corretamente os mandamentos, o mar da vida deixe de ser arriscado.
Orar de olhos fechados, debulhar terços em rezas, pedir ajoelhado, fazer campanhas, interceder ferozmente nas vigílias, clamar aos gritos, nenhuma dessas expressões religiosas significa devoção, se contempla vantagens que outros mortais, que não fizerem o mesmo, não alcançarão. Considero-as puro clientelismo, vãs repetições, murros em ponta de faca, mistura de ilusão com esperança.
Assemelham-se ao esforço da tartaruga que sonha com as altitudes, mas se vê obrigada a respirar o pó da estrada.
Acho indigno um cristão pedir que Deus lhe ajude a passar em concurso público. Aliás, considero um horror ético. Da mesma forma, em economias que produzem excluídos, não é lícito rogar que “o Senhor abra uma porta de emprego”. Não faz sentido conceber que o Todo Poderoso consiga recolocar mais pessoas no mercado de trabalho de países emergentes do que nos bolsões miseráveis do mundo, onde bilhões sobrevivem com menos de 1 dólar por dia.
Já me indispus com grandes segmentos do mundo evangélico, mas não consigo calar. Por todos os lados, ouço clichês como se fossem afirmações piedosas de fé. Infelizmente, tais jargões cumprem o papel ideológico de afastar as pessoas da realidade, empurrando-as para o delírio religioso. Religião, nesse caso, não passa de ópio.
Soli Deo Gloria.
FONTE: Blog do Pr. Julio Soder.
IMAGEM: Hardy, personagem de desenho animado de Hanna & Barbera.
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Minha crítica: Não me lembro de ter lido um texto do Gondim que não fosse sombrio, pessimista, depressivo. Este, em particular, afirma coisas que desacreditam a própria Bíblia: "Considero leviano afirmar que, quando as mulheres oram, Deus poupa seus filhos de se envolverem com drogas, promiscuidade e outros males." A própria Palavra fala de oração, fé, intercessão, e do poder e da graça de Deus. Quem conhece a Bíblia sabe das muitas passagens que estimulam o crente a orar, a expor a Deus suas preocupações e necessidades, sejam quais forem. Gondim fala como se o Senhor não concedesse graça. O Deus de Gondim é um Pôncio Pilatos sob lente de aumento, está sempre lavando as mãos, sem interferir no destino do ser humano, sem ajudar ninguém, deixando o homem perecer e sofrer as consequências de suas próprias "opções". É um Deus indiferente, impessoal e surdo. "Minha fé deixou de ser uma força dirigida a Deu [sic] que o induz a agir. Entendo fé como coragem de enfrentar a existência com os valores do Evangelho." Ou seja: fé não é o que diz Hebreus 11:1-13 (de 1 a 3: Ora, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que se não vêem. Porque por ela os antigos alcançaram testemunho. Pela fé entendemos que os mundos pela palavra de Deus foram criados; de maneira que aquilo que se vê não foi feito do que é aparente.), mas uma atitude que me parece resignada diante de percalços da vida, ainda que o texto não explicite isso - o contexto global me deixa entender essa significação. Mediante a fé, Deus agia e seu poder curava, transformava vidas, atuava em cumprimento de promessas feitas a seus filhos, mas parece-me que para Gondim isso não vale tanto assim hoje. Depois de tudo o que fez na Bíblia, Deus resolveu tirar férias. É muito interessante "enfrentar a existência com os valores do Evangelho", mas pela fé a mulher que sangrava intermitentemente foi curada, recebendo a bênção por meio da virtude de Deus. Pelo que diz a Bíblia, Deus atua, muda os rumos da existência, interfere, é ator e co-participante na vida dos homens. Isso deixou de ser verdade? Para mim, não. Pedi, e dar-se-vos-á. Deus não especifica que devemos pedir apenas a "coragem para enfrentar a existência...". Por que não seria legítimo pedir a Deus para passar em um concurso público? Onde está a falta de ética? Nem todos vivem dos dízimos e das ofertas, como Gondim, que é pastor. Alguns estudam e se esforçam, vejam só, para fazer provas em concurso público. Por que não poderiam orar e pedir a Deus para passar, se estão envolvidos nisso, estudando, sem emprego e querendo melhorar de vida? Isso é ilegítimo? Onde?
"Não acredito que, para os que cumprem ritos religiosos, a existência se transforme em céu de brigadeiro. Não imagino que, ao obedecer corretamente os mandamentos, o mar da vida deixe de ser arriscado." É claro que não, não é a lei que nos livra do mal, mas a graça. Gondim parece que só enxerga a graça quando ela é concedida por meio da lei, e aí é que está o problema, porque ele nela desacredita. Felizes aqueles que andam em obediência e guardam a sua Palavra no coração: a chuva cai para eles também, mas a diferença está no ânimo que Deus dá a seus filhos, por meio da fé. Ainda bem que Jesus não pensa como Gondim, pois ele disse: No mundo, tereis provações; mas tende bom ânimo, eu venci o mundo. Gondim, no lugar de Cristo, provavelmente diria: "e tende desânimo, porque o mundo é muito ruim mesmo e Deus não liga muito pra nós aqui embaixo". E de que ritos religiosos fala ele? O não-cumprimento desse ritos acarretaria, porventura, o contrário do que ele afirma? Haveria uma relação entre o "fazer" (ou o não-fazer) e a situação de vida, para o autor? Sera um legalismo ao contrário, tomado como regra?
E mais: “Da mesma forma, em economias que produzem excluídos, não é lícito rogar que ‘o Senhor abra uma porta de emprego’. Não faz sentido conceber que o Todo Poderoso consiga recolocar mais pessoas no mercado de trabalho de países emergentes do que nos bolsões miseráveis do mundo, onde bilhões sobrevivem com menos de 1 dólar por dia.” Por esse raciocínio, é errado orar a oração que nos ensinou o Senhor: “O pão nosso de cada dia nos dai hoje”. Ela é a mesma há cerca de dois mil anos, o que nos leva, talvez, a um "rito religioso" que quase sempre é feito "de olhos fechados". De acordo com o texto, posso concluir que, como muitos morrem de fome, é um “horror ético” pedir e agradecer a Deus, todos os dias, pelo alimento. Gondim se culpa o tempo todo, em um texto lamuriento e choroso, como se isso fosse eximi-lo, a si mesmo, de ter uma casa, um carro, TV e DVD, geladeira e computador, laptop etc. num mundo onde a imensa maioria sobrevive com “menos de 1 dólar por dia”. Seu discurso é o tempo todo autopunitivo, talvez no afã de aliviar sua consciência. Nesse mesmo afã, ele aproveita para acusar indiretamente seus leitores de culpados por esse mundo injusto, sobretudo os que oram para poder “passar num concurso público” (poderia ser uma oração para ir bem em uma entrevista de emprego, ou para ter o currículo selecionado numa empresa: haveria diferença?)... Ou seja: é antiético orar para melhorar de vida e progredir, o melhor mesmo é ficar chorando as pitangas sem fazer nada para que o mundo ande. Eu proponho que cada leitor redija uma carta pedindo a Gondim que doe todos os seus bens, o carro, a casa, as roupas novas, o forno de microondas e o celular, em solidariedade aos que vivem com menos de 1 dólar por dia. Sugiro que o dinheiro da venda de seus bens seja enviado aos necessitados.
Porque não basta cada um tentar viver de modo mais ou menos digno, quem sabe ajudar o próximo (e há quem ajude o próximo por hábito ou por legalismo, e há quem se torture em culpa pela miséria da maioria também por hábito ou por legalismo), amar a Deus, estudar, trabalhar, ou pelo menos tentar trabalhar, orar pelos filhos, pedir a Deus para passar em um concurso público: é necessária uma autoimolação, um espírito permanente de sacrifico próprio, um estado constante de infelicidade, para poder amenizar a culpa ou não se sentir culpado pela miséria do mundo. Nesse caso, não demos ouvidos a Jesus, que nos diz para amar o próximo como a si mesmo. Porque evidentemente Gondim não consegue amar a si mesmo, e vive num eterno remorso por conta do estado atual do mundo e, possivelmente, de sua condição econômico-financeira em relação à realidade. Não amando a si mesmo, ele também não consegue amar o próximo, o que também me parece evidente. Ou ele vê esse próximo como um objeto inerte e vítima (e não como uma pessoa que faz sua própria história e tem liberdade para agir em prol de si mesmo e protagoniza sua história, ainda que sofra também ações de terceiros), o que é necessário para sua condição de mártir/herói, ou ele vê o próximo como um hipócrita, que ora para passar em concurso público, ora pelos filhos e, tendo fé, nada mais faz que tentar manipular Deus, o que é necessário também para sua condição de mártir/herói. Estas duas figuras são importantes para validar a condição de profeta messiânico (e ele chega a citar Jesus, em sua crítica aos que perseguiam os profetas) que Gondim claramente se atribui. Afinal, ele não apenas se autoimola: ele é imolado por todos os que ele critica, os que oram pelos filhos e pedem a Deus para passar num concurso público, como deixa claro: “Já me indispus com grandes segmentos do mundo evangélico, mas não consigo calar. Por todos os lados, ouço clichês como se fossem afirmações piedosas de fé.” Ele não consegue calar: só ele consegue ver a verdade e dizê-la, vocação que é maior que ele mesmo, pois não "consegue calar" nem elaborar estratégias para reformular seu discurso - sem deixar de expressar suas ideias.
Gondim também não concebe uma relação com Deus livre de culpas. Uma relação de amizade na qual o crente tem a consciência de que Deus é maior, é poderoso e, por amor, e por ser quem é (pois Ele concede graça a quem quer conceder, é soberano), pode responder positivamente às orações feitas, não importando aí a condição de pecador do que ora.
Ele ouve clichês: os outros são menos capazes do que ele, ou são menos verdadeiros, ou são menos alguma coisa, pois produzem clichês, enquanto ele fala a verdade, colocando-se como a voz que clama no deserto do século XXI, "indispondo-se contra muitos evangélicos". O que ele faz, além de escrever para seu site - que, vaidade das vaidades, enquanto a maioria da população mundial vive com menos de 1 dólar por mês, pode ser lido em espanhol e inglês -, escrever seus livros e artigos, pregar confortavelmente

"Colei" do Blog do Alysson Amorim, de BH. Buona gente, il ragazzo! Vale a pena curiar por lá...
Mas me interessa aqui o conteúdo, não o continente. Por que não levo só os documentos? Só as chaves? Não seria mais fácil viver assim, sem tantas coisinhas? A verdade é que eu SEMPRE acho que vou precisar de alguma coisa, então essa coisa tem que vir comigo. Vou listar:
Me perguntem se uso tudo o que levo na bolsa. Eu respondo: Às vezes sim, às vezes não. Mas será que eu preciso usar tudo?
Abraços,
Maya
: )


Escuta, Zé Ninguém!
“(...) Esta é a hora primeira de um futuro maior, do fim de toda a forma de mediocridade. Porque entretanto o modo como age a peste emocional se foi tornando demasiado óbvio. Acusa a Polônia das intenções de agressão militar, depois de tomada a decisão de agredir a Polônia. Acusa o rival da intenção do crime depois de decidir eliminá-lo. Acusa de pornografia a vida sexual sã, porque tem em mente intenções pornográficas. Já te topamos, Zé Ninguém; vais-te tornando transparente sob tua fachada de desgraça a submissão. O que te é pedido é que determines o rumo do mundo com o teu trabalho e a tua realização — substituir uma forma de tirania por outra é que nunca. O que se te exige é que te submetas às leis da vida tal como quererias que os outros fizessem; que te modifiques à medida que os vais criticando. Cada vez é mais óbvia a tua tagarelice, a tua avidez, a tua irresponsabilidade — o mal de ti que conspurca toda a beleza da Terra. Sei que não te agrada o que ouves, que preferes berrar “Viva!”, que és bem capaz de parir o futuro do proletariado do IV Reich. Mas não é menor a minha convicção de que as coisas te vão sendo mais difíceis hoje que no passado — embora sejas ainda brutal sob a tua máscara de sociabilidade e gentileza, Zé Ninguém. Não acreditas? Deixe então que te refresque a memória:
Lembras-te da magnífica tarde em que vieste, como lenhador que eras, pedir trabalho à minha cabana na montanha? Depois de farejar-te, o meu cachorro saltou-te aos joelhos. Viste que era cão de boa raça e disseste então: “Devia amarrá-lo para se fazer bravo. O cão é manso demais.” Ao que te respondi: “Eu não quero ter uma fera amarrada com correntes. Não gosto de cães raivosos.” Ah, lenhador, tenho bem mais inimigos do que tu, mas continuo a preferir o meu majestoso cão, meigo com toda gente.
Lembras-te do domingo chuvoso em que a angústia perante o fenômeno da tua rigidez biológica me levou a sair de casa, largando o trabalho, para me enfiar num dos teus bares? Sentei-me a uma mesa e pedi um uísque (não, Zé Ninguém, não sou alcoólico, embora goste de beber de vez em quando). Ia, pois, bebendo o meu copo quando te ouvi, no teu paleio de recém-desmobilizado, descrever os Japoneses como “macacos horrendos”. E foi então que afirmaste, com a expressão facial que eu tão bem conheço do meu trabalho terapêutico: “Vocês sabem o que a malta devia fazer com os Japoneses da costa ocidental? Estrangulá-los todos, um por um, mas devagar, lentamente, apertar-lhes o garrote a pouco e pouco, assim...”, e ias fazendo o gesto com as mãos, Zé Ninguém. O criado apoiava-te, fazia que sim em admiração perante a tua heróica masculinidade. Já alguma vez tiveste um bebê recém-nascido nos braços, patriota de m...? Durante muitas décadas continuarás ainda a estrangular espiões japoneses, aviadores americanos, camponeses russos, oficiais alemães, anarquistas ingleses e comunistas gregos — hás-de fuzila-los, condená-los à cadeira elétrica, às câmaras de gás —, o que em nada irá alterar a tua prisão de ventre generalizada, a tua incapacidade de amar, o teu reumatismo ou a tua doença mental. Não serão os crimes que possas cometer que irão arrancar-te do lameiro. Olha para ti, Zé Ninguém. É a tua única esperança.
(...) A única coisa capaz de conquistar-te será o teu sentido de pureza, a tua aspiração à verdadeira vida — e quanto a isso, não tenho a menor dúvida. Uma vez superada a tua mediocridade e mesquinhez, começarás a pensar — de início, sem dúvida, errática, ridícula e erroneamente, mas pensarás com seriedade. Terás de aprender a superar a dor que todo esforço de pensamento comporta em si mesmo, tal como eu e outros suportamos a pena de pensar-te — durante anos, em silêncio, de dentes cerrados. Esta nossa dor far-te-á pensar. E quando começares a fazê-lo sentirás a magnitude do absurdo dos teus quatro milênios de “civilização”. Ser-te-á difícil entender como foi possível que os teus jornais nada mais tivessem a relatar e comentar que paradas sem sentido, condecorações, crimes, enforcamentos, diplomacias, calúnias, mobilizações, pactos, bombardeamentos — e que não tenhas nunca reagido com agressividade ou te tenhas sequer apercebido do perigo que corrias. Talvez te houvesse sido possível entenderes-te a ti próprio se não tivesses engolido bovinamente tudo o que te caía nas mãos. Mas o que deveras te será difícil é a verificação do fato de que tudo foste macaqueando e papagueando através dos séculos; o fato de que o que no teu íntimo acharas certo o era realmente, e que tomaste por patrióticos os teus erros. Terás vergonha do que fizeste, e nisso reside a única esperança de que os nossos bisnetos não venham a ser obrigados a ler a tua história militar. E não mais será possível a montagem duma grande revolução apenas para por em cena um novo “Pedro, o Grande”. (...).
(...) Quererás agora ouvir-me?
“Vamos a isso, porque é que eu não hei-de dar ouvidos a mais uma utopiazinha? Não há nada a fazer, meu caro doutor — sou e continuarei a ser um pobre diabo, o homem da rua, que não tem opinião própria. Aliás, quem sou eu para...”
Ouve. Escondes-te detrás da lenda do Zé Ninguém, porque tens medo de mergulhar e de ter de nadar no grande rio da vida, quanto mais não seja em nome dos teus filhos. A primeira de todas as coisas que não mais farás será consentir na percepção de ti próprio como sujeito insignificante e sem opinião, que afirma a todo momento “mas quem sou eu...”. Tu tens a tua opinião própria e no futuro que prevejo passarás a considerar como vergonha não a conheceres, não a defenderes, não a expressares.
Wilhelm Reich
Escuta, Zé Ninguém!
Livraria Martins Fontes Editora Ltda.
Portugal, abril de 1982; primeira edição: maio de 1972.
Trechos retirados das páginas 91, 92, 97, 98, 100 e 101.