Creio que não existe nada de mais belo, de mais profundo, de mais simpático, de mais viril e de mais perfeito do que o Cristo; e eu digo a mim mesmo, com um amor cioso, que não existe e não pode existir. Mais do que isto: se alguém me provar que o Cristo está fora da verdade e que esta não se acha n'Ele, prefiro ficar com o Cristo a ficar com a verdade. (Dostoievski)

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5 de fev. de 2014

woody allen: a arte não está acima da vida.

Um assunto que causou discussões (e ainda vai causar mais, nos próximos dias) neste domingo, 2 de fevereiro, é a carta na qual Dylan Farrow, filha adotiva de Mia Farrow e Woody Allen, acusa seu pai adotivo de ter abusado sexualmente dela. Por conta disso, Dylan teve inúmeros problemas de ordem psicológica, que afetaram também seu estado de saúde física. O que me chamou a atenção neste episódio foram as reações dos internautas nas redes sociais. Segue, primeiro, um link para uma reportagem sobre o tema:
Agora, o link para a íntegra da carta traduzida:
Antes de mais nada, preciso informar que o cineasta declarou ser inocente e disse que em breve responderá em público às acusações. Mais um capítulo aguardado. O que diz Woody Allen:
Particularmente, creio que Dylan diz a verdade. É claro que ela pode ter inventado tudo isso. Mas penso que há evidências em seu discurso e nas situações que ocorreram simultaneamente ao abuso – e também depois dele – que podem apontar a culpa de Allen.
Aqui e ali vi, no Twitter, no Facebook, em sites de revistas e de jornais, que muita gente está defendendo o cineasta porque ele é talentoso e influente, não porque as evidências indicam que a filha dele provavelmente diz a verdade. O fato de que ele mesmo mantinha um romance com outra filha adotiva ainda estando casado e convivendo com a esposa e os demais filhos é uma evidência. Na época, Allen se separou de Mia Farrow para assumir esse relacionamento. Sua filha adotiva tinha, então 19 anos, e ele, mais de 50. Além disso, o filho dele também o critica duramente. Todos estão errados, então, e Allen diz a verdade? Essas são evidências, indícios de vericondicionalidade no discurso de Dylan Farrow.
Parece-me que W. Allen sempre negará ter abusado sexualmente de sua própria filha quando ela tinha sete anos. E me parece também certo que Dylan não voltará atrás em suas acusações. Se não podemos julgar nem condenar sem provas – sendo a palavra dela contra a dele – também não podemos inocentá-lo. Talvez jamais haja “provas” para o abuso relatado. Mas há pistas, evidências nos discursos, nas situações, nas reações não só da menina – hoje mulher – abusada como dos outros membros da família, e isso deve ser levado em consideração. Repito: creio que Dylan Farrow diz a verdade. O que desenvolvo a seguir baseia-se nessa premissa.
Os libertários e esquerdistas que vi se manifestando na internet preferem relativizar tudo: é impossível assumir uma posição (e aí já há uma “posição”, evidentemente). Afinal, ninguém de fato sabe; com sete anos há muitas ilusões, ideias, imagens decorrentes de autossugestão, de uma mente fértil etc.; Woody Allen é Woody Allen e mais umas tantas asneiras. Dizem isso como se defender o Woody Allen pai fosse necessário para endossar o Woody Allen artista, o que é importante para o pensamento esquerdista, ainda que Woody Allen pai e artista sejam O MESMO SER HUMANO.
Woody Allen é um grande diretor de cinema, era o meu preferido, mas a partir de hoje não vejo mais seus filmes, decidi. E o farei não por desconhecer sua competência como artista, mas por não concordar com o que ele, como ser humano, é. Eu também não compraria um quadro de Adolf Hitler (mesmo se ele tivesse sido um bom pintor). Eu não vi o filme O Pianista, de Roman Polanski, que é um estuprador pedófilo. Eu me recuso. Não vi Melancholia, quando estava morando em Paris, em 2011, no auge da crise que Lars Von Trier provocou no Festival de Cannes ao declarar que “entendia e simpatizava” com Hitler. E decidi também não ver Ninfomaníaca. Não vou ver não porque o filme tem cenas de sexo. Aliás, estava até curiosa para saber se era bom – e muita gente tem dito que é ótimo, pois o que importa no filme não é o sexo, mas o que se fala sobre ele. Mas eu decidi não ver Ninfomaníaca porque sei que a ARTE não é um valor absoluto, mas A VIDA é.
A VIDA ESTÁ ACIMA da arte. Como dizia aquele rapaz latino americano, “qualquer canto é menor do que a vida de qualquer pessoa…”. Para Lars Von Trier, um sujeito que provocou a morte de mais de 50 milhões de pessoas é um cara “simpático”. É em coisas assim que a “esquerda caviar” mostra sua natureza fútil. Aliás, recomendo (illico) a quem me lê agora o livro de Rodrigo Constantino. A esquerda erra e sempre errou: ama a humanidade como ideia abstrata, mas se lixa para o ser humano real. Exalta a arte, a cultura e a ciência como valores absolutos e que se dane o ser de carne e osso. Adora os valores da revolução cubana mas não se preocupa com os cubanos de verdade, que estão sofrendo em decorrência não do “ideal da revolução”, mas da revolução que de fato ocorreu. Eu ainda me lembro de um “artista” latino americano que deixou um pobre cão morrer de fome e de sede em uma “instalação”, há alguns anos. O escritor maranhense Ferreira Gullar escreveu um excelente artigo sobre isso:
Houve quem defendesse o “artista”. AFINAL, a arte justifica tudo. A ARTE justifica Chico Buarque elogiando ditadura cubana assassina, a arte justifica Woody Allen pedófilo, a arte justifica Lars Von Trier elogiando Hitler, a arte justifica Roman Polanski drogando e estuprando uma menina de 13 anos. Tudo e qualquer coisa. Sim, um artista pode errar (e é certo que todos erram, humanos que são). Sim, os erros de muitos artistas não maculam suas obras. Mas aí vejo proporções, vejo escalas, vejo limites. E eu tenho os meus limites. Não é que artista bom seja aquele que não estaciona em vaga especial nem fure a fila do banco. Mas estou dizendo que há um limite, então para mim a pedofilia é um limite. Ponto.
Maya Felix
São Luis, 2 fev 2014



*texto originalmente publicado no portal Gospel Prime.

30 de jan. de 2014

a censura, essa quimera

Falar sobre a censura no meio evangélico é falar sobre uma rede extensa e complexa de interesses. Buscar primeiro o reino de Deus ficou em último lugar, e hoje muitos pastores, teólogos, doutores, presidentes e advogados de associações que se denominam evangélicas, além de blogueiros e donos de site exercem a censura como meio de fazer prevalecer seu ponto de vista sobre as opiniões e as pessoas das quais discordam.
Censura. Pressões, chantagens. Parafraseando Shakespeare, há mais coisas entre evangélicos e a vida mundana do que pode supor nossa vã filosofia. Tenho um blog simples. Aliás, dois. Um no qual procuro discutir temas ligados à política e à religião, além de incluir postagens várias sobre literatura, música, cinema etc., e outro, no qual publico exclusivamente textos literários de minha autoria. Sou professora de uma universidade, gosto muito do que faço e em geral não me sobra tempo para postar com regularidade, a não ser nas férias, ou em um feriado prolongado. Então os blogs não são, definitivamente, uma atividade prioritária na minha vida.
Independentemente disso, desde que comecei a criticar um senhor calvinista que detém poder e influência, o nome do meu blog de textos político-religiosos desapareceu da listagem de vários blogs, inclusive de blogs de pessoas que estão em minha lista de amigos no Facebook, por exemplo. Coincidência? Tenho um amigo que passou pela mesma experiência.
A rede de interesses, barganhas, chantagens, comunicações subterrâneas, “truques” e atos aparentemente inocentes existe para tirar do oponente qualquer possibilidade de réplica e crítica. Esses que não gostam de críticas ostentam a imagem de amantes do debate. Mas o “debate” não ocorre, porque a mão pesada da censura e da intimidação elimina o gosto desagradável e incômodo do questionamento. Hoje não se questiona mais por que a teologia cessacionista é errada à luz da Bíblia. A web está repleta de blogs e sites pentecostais, mas ninguém fala nisso. Blogueiros pentecostais acham mais importante falar como a música pentecostal é ruim e sem imaginação a confrontar uma teologia visivelmente satânica.
Blogs cujos donos ou administradores pentecostais publicam artigos do senhor ao qual me refiro no início deste texto sem nenhum constrangimento – e escolhem em geral fotos muito boas para ilustrar seus textos! Que bom! Design é tudo. Ninguém ousa pensar. O mais irônico é que tanto se critica os neopentecostais por “não pensarem”. E isso é demonstrado quando publicam artigos do senhor teólogo que vê heresia, pura e simplesmente, nas experiências pentecostais.
Minha expressão de espanto é sobrepujada pela amargura em perceber a estrutura diabólica que tem alimentado a rede de blogs “evangélicos”. Aí vem a blogueira que sente “uma necessidade quase física” (sabem que eu gostei disso? É tão Lars Von Trier!) de expressar seus pensamentos… Seu blog é uma “tentativa” de “recolocar o cristianismo na via dos debates intelectuais”. Bonito, não? Não! Porque em um artigo recente ela diz exatamente o contrário! Ela diz que devemos separar bem as coisas: uma coisa é a igreja, outra é a universidade. Então para quê “recolocar o cristianismo na via dos debates intelectuais”? Mais adiante, ela explica humildemente (ainda bem, porque penso que seus textos são pedantes, e que ela é cheia de orgulho, habilmente encoberto por uma humildade falsa – uma das maiores evidências do orgulho): “Não por pedantismo ou orgulho, mas por uma necessidade quase física de dar nomes às minhas intuições”.
Segundo o artigo dessa moça, publicado na revista virtual “Teologia Brasileira”, teologia é uma coisa, mundo acadêmico é outra. E quem diz o contrário é… “conservador”! Ou seja: não podemos criticar o que ocorre em uma universidade como a Mackenzie, da Igreja Presbiteriana. Segundo ela, esse silêncio se chama “maturidade cristã”. Mas eu chamo de censura. Os que questionam o que ocorre na Mackenzie são tachados de conservadores, pessoas de visão turva, pouco inteligentes, mal esclarecidos. Afinal, como está escrito em Tito 1:15,  “tudo é puro para os que são puros…” Não é assim que os cristãos liberais justificam Marx, Luiz Mott, Teologia da Libertação, Missão Integral et caterva no meio evangélico? É assim também que os cessacionistas justificam qualquer coisa. Justificam o Genizah, justificam as pressões, justificam a censura, justificam as ações nada cristãs da Anajure a favor de uma denominação específica, de uma visão teológica estreita, de determinadas pessoas e blogs.
E mais uma coisa, que eu já disse em texto anterior: a censura ocorre também contra os que a praticam. A liberdade plena é concedida apenas aos cessacionistas: eles escrevem e publicam o que bem entendem, no blog de quem bem entendem. Em seus blogs, não há nem mesmo uma citação ou link para qualquer blog pentecostal — nem mesmo para os blogs que os citam, elogiam e divulgam. Definitivamente, esse desequilíbrio é a face mais visível de um processo de degradação espiritual sem precedentes no meio. Uma “tentativa” de “recolocar o cristianismo na via dos debates intelectuais”. Bonito, não? Mas toda turma cessacionista odeia ter sua heresia cessacionista contestada, questionada, debatida. Essa blogueira é incapaz, por agradecimento, por cortesia ou por gratidão, de citar ou divulgar os links dos blogs que recomendam seu blog como digno de ser lido. O que é isso? Uma opção pessoal, diriam alguns. Censura, eu afirmo.
Desisti de escrever para um portal de blogs para o qual escrevia sobre política. Minha interlocutora, ali, sempre foi de uma gentileza ímpar comigo. Mas uma entrevista que dei para o Blog do Júlio Severo foi rejeitada. Foi censurada. Não pela minha interlocutora, mas por irmãos pentecostais que têm interesses em jogo com a VINACC, a Mackenzie e a Anajure, todas dominadas pela fatia cessacionista da Igreja Presbiteriana, sobretudo na figura do ilustre chanceler. Não, não é coincidência. Isso tem nome. Isso tem explicação. Isso tem autor. Isso tem razão de ser. Pense com sua cabeça, investigue e analise. Você vai se surpreender.
Maya Felix, jan 2014
* Texto postado também no portal Gospel Prime  e no Blog do Júlio Severo.

25 de jan. de 2014

c'est moi le nouveau parfum




Nouveau Parfum

Boggie


Soit Prada, Hugo Boss, Chan
el, Giorgio Armani, Cartier, Azzaro, Sisley, Escada, Gucci, Naf Naf, Nina Ricci, Lancôme, Kenzo et encore, encore

Soit Bruno Banani, La Bastidane, Estée Lauder, Guerlain, Burberry et Thierry Mugler, Bourjois, Chloé, Jean-Paul Gautier, Valentino et je n'en sais plus

Lequel je choisis ?
Pourquoi je choisis ?
Qui veut que je choisisse ?
Je ne suis pas leur produit

De beauté, d'préciosité
Ils ne peuvent pas me changer
Sans pareille, non pareille,
Le nouveau parfum, c'est moi-même, le nouveau parfum

C'est moi le nouveau parfum

Soit Roberto Cavalli, Bulgari, Givenchy, Dolce & Gabana, Paco Rabanne, soit Lacoste, Tommy Hilfiger, Yves Saint Laurent et je n'en sais plus

Lequel je choisis ?
Pourquoi je choisis ?
Qui veut que je choisisse ?
Je ne suis pas leur produit


De beauté, d'préciosité
Ils ne peuvent pas me changer
Sans pareille, non pareille,

Le nouveau parfum, c'est moi-même, le nouveau parfum
C'est moi le nouveau parfum

8 de jan. de 2014

a crítica selvagem e a selvageria acrítica

Sim, gente, tudo bem. O homem tem uns textos interessantes. Não li os livros porque achei alguns de uma chatice ímpar. Como diz Jorge Luis Borges, citando Montaigne: "eu diria que a literatura é [...] uma forma de alegria. Se lemos algo com dificuldade, o autor fracassou. Por isso, acho que um escritor como Joyce fracassou, em sua essência, já que sua obra requer esforço para ser lida. Um livro não deve exigir esforço: a felicidade não deve exigir esforço". 

E quando eu digo chatice não quero dizer "complexidade". Quero dizer chatice, mesmo. Já li muito livro "complexo", de raciocínio bastante elaborado, de Filosofia da Linguagem, Linguística, Semiótica. E penso que quase todos eram apaixonantes, interessantes, instigantes como enigmas prontos a serem desvendados. Mas os livros desse senhor me parecem chatos mesmo, com uma certa pretensão àquilo que eu chamo de "profundidez", uma mistura de profundidade com sordidez intelectual. Sim, ele escreve textos bons, de vez em quando. Reconheço sem nenhum problema. Mas alguns outros são chatos. Só isso, chatos. 

E tenho dificuldade para engolir a figura sempre fumando, nos vídeos, e declamando amorosamente três palavrões em cada cinco vocábulos de uma oração. Não, não dá. Não acho engraçado, não amenizo, não busco a compensação: "Ah, ele fala palavrão, mas em compensação..." Não, não há compensação nenhuma. Uma pessoa que não consegue se expressar com o mínimo de compostura não compensa. Volto a preservar a face: sim, ele tem ideias com as quais eu concordo. Sim, ele escreve coisas muito boas. Sim, ele deve ser inteligente. Mas agora volto à carga: não, eu não tenho a menor paciência pra ouvir os maravilhosos programas nos quais ele mostra sua superior superioridade sobre todos os demais mortais que não pensam como ele. "Ah, então você é de esquerda!" Não, não sou. Eu sou é independente de grupos. Eu penso com o meu próprio cérebro. Eu não tenho necessidade de me afirmar admirando fulano, beltrano e sei lá mais quem. Já saí da adolescência, então a turma não é, digamos, uma necessidade. Não penso em bloco. Não faço parte de escola de samba. Então não tenho medo de fazer crítica a ninguém. A ninguém, certo? Porque para mim só há um Deus (e até Ele sabe que de vez em quando eu reclamo do que Ele anda fazendo, com todo o respeito). Mais: não gosto de astrologia, não gosto de islamismo, não gosto de palavrão, não sou católica (com todo o respeito). Então só por aí há divergências. E ponto. 

Também não aprovo o tom bastante arrogante (mas esse não é um privilégio dele, somente) com que se expressa. Toda crítica que faz é arrogante, é feita num tom próprio de quem deseja não apenas criticar, mas escarnecer. De quem pretende não só expor suas ideias, mas precisa humilhar o adversário para que elas sejam validadas. Não gosto do tom histriônico, quase histérico, com que afirma suas certezas. Não aprovo o desprezo com que fala de seus opositores. Aliás, o desprezo com que fala do Brasil e dos brasileiros. É o que eu digo sempre: senhor gênio, por que ainda não dá aulas em Oxford, a fim de abandonar de vez esses pobres selvagens que jamais estarão à altura de seu brilhantismo intelectual? Mas não: é daqui que o gênio sagaz tira seu sustento. Vende seus livros no Brasil. Seus programas são vistos aqui. Seus artigos são publicados em jornal brasileiro. Seus alunos, que pagam um preço alto para fazer seus cursos de Filosofia, saem daqui.

Relutei em escrever este texto. Conheço pessoas que concordam comigo em muito do que eu disse, mas não ousam criticá-lo. Eu não ousei nominá-lo. Todos sabem que o senhor tem uma torcida organizada, fãs ardorosos, alunos aplicados e uma tropa de choque fiel. Criticá-lo pode significar perder amizades virtuais, receber o desprezo de muitos e a incompreensão de outros tantos. Mas, que me entendam, não se trata de uma questão emocional. Faço uma crítica sincera e pondero, reconhecendo tanto as qualidades inegáveis de seu trabalho quanto seus defeitos crônicos. Se alguém que me lê agora realmente não é um idiota, deve compreender.

Por fim, meu apelo. Senhor, se tem certeza de que está certo, fale calmamente, decorosamente, respeitosamente. Não insulte o outro. Use a ironia na boa medida -- assim como ela pode ser uma aliada, pode também se tornar uma inimiga impiedosa. Mas agora entro particularmente na questão do estilo literário, e não tenho paciência para fazer essa análise neste momento. Já deu. Ah, sim: quanto ao cigarro, de que falei logo acima. É certo, o fumo faz mal e deixa a pessoa fedendo, e sei disso porque já fumei. Mas isso não é problema meu.

1 de jan. de 2014

o engano da aparência: blogs, blogueiros, blogagens e blogosfera cristã.

Neste ano de 2013 comecei a me dar conta de que as postagens da página de um portal de blogs de maioria pentecostal no Facebook traziam cada vez mais frases, pequenos textos e imagens de pastores calvinistas. Não só calvinistas, eu percebi: cessacionistas. Mas o que é um “calvinista cessacionista”? Em linhas muito gerais, é alguém que não somente crê que o homem não tem absolutamente nenhum papel, nenhuma escolha a desempenhar no processo da salvação (pois ele é um “escolhido”, ou seja, será salvo mesmo se não quiser ser salvo) como também que os dons do Santo Espírito, revelados ao longo de todo o Novo Testamento, não mais nos são dados hoje. Isso que dizer: Deus não mais age, por meio de homens, para curar, por exemplo. Dons de língua também não existem, são apenas invencionices. Para os calvinistas cessacionistas, o movimento pentecostal não passa de uma heresia. Sim, para os cessacionistas eu sou uma herege.

Ao fazer um tour por blogs de calvinistas cessacionistas, como o famoso Ó Tempora, Ó Mores! [célebre frase do senador romano Cícero, em latim, que foi publicada nas famosas Catilinárias, discursos em que Cícero condenava Catilina, outro senador, e apontava os tempos e costumes perversos da época. Significa: Ó tempos, ó costumes!] e o Blog da Norma Braga, não vi nem sequer um link para algum blog pentecostal, arminiano, adepto do sinergismo. Todos eles só têm entre seus links “recomendados”, blogs e sites calvinistas cessacionistas. É claro, têm toda a liberdade para tal e para mim isso não é nenhuma surpresa.

O que me deixa perplexa é perceber quantos blogs pentecostais, cujos autores se definem como arminianos, de igrejas como Assembleia de Deus ou Metodista, recomendam expressamente, com links e artigos copiados, esses blogs que se intitulam “reformados” [que designa uma parcela muito pequena dos cristãos adeptos do evangelicalismo no Brasil e no mundo: os calvinistas cessacionistas].

É claro, não indico um blog em minha lista de blogs somente se esse blog me indicar. A questão não é precisamente a “reciprocidade”, apesar de ela ter, também, sua razão de ser. O ponto central é precisamente a base da doutrina teológica dos que se chamam reformados e por que tantos pentecostais se rendem a seus textos sem enxergar o que de fato eles pregam.

Vamos por partes:

  1. Os calvinistas cessacionistas advogam o total alijamento da vontade do homem no processo de salvação. Ainda que eu quisesse crer nisso, pois sei que Deus é onipotente, não poderia, pois, como disse C. S. Lewis, entre tantos outros, podemos impedir Deus de agir, se quisermos: temos o livre-arbítrio (Cristianismo Puro e Simples, p. 271). Não porque Deus não seja onipotente, mas porque escolheu limitar-se em relação à nossa escolha de amá-lo ou não. Assim como Cristo escolheu limitar-se a um corpo humano para nos salvar. Os arminianos, pentecostais ou não, creem que o homem escolhe amar a Deus; os calvinistas creem que o homem não tem nenhuma escolha a fazer em relação à sua salvação;
  2. Em segundo lugar, os dois blogs de que eu falei, além de outro, do pastor Renato Vargens, de Niterói – entre tantos – apoiam declaradamente ou tacitamente os blogs “apologéticos”, conhecidos pelo escárnio e pela zombaria com que tratam assuntos ligados aos neopentecostais. Refiro-me ao blog Genizah, sobretudo, conhecido por sua falta de postura leal e de ética no debate teológico. Só o escárnio e a falta de respeito que têm para com outros cristãos [que eles nem mesmo consideram cristãos, aliás] já seria motivo para nos afastarmos de blogs que se julgam sérios mas nada dizem contra os “apologéticos”. Mas os blogueiros pentecostais fecham os olhos para isso também. Julgam a Teologia da Prosperidade mais grave – e mais kitsch, mais brega, menos chique, menos “acadêmica” – que a Teologia Cessacionista. Ora, ora. Os cessacionistas, que fique registrado, apresentam-se envoltos em uma aura de academicismo, racionalidade, cientificidade, ordem... Já os neopencostais são barulhentos, ridículos, ostentadores de riquezas... E aí fica meio difícil julgar as pessoas pelo que elas realmente são: mentirosas. Os cessacionistas mentem, quando afirmam que o Espírito Santo não mais age nos dias de hoje, produzindo “maravilhas e sinais” como nos tempos de Jesus. Os adeptos da Teologia da Prosperidade mentem, quando afirmam que se você der muito dinheiro para a igreja, Deus vai recompensá-lo. Tanto uma quanto outra teologia podem se embasar em trechos da Bíblia. Se até Jim Jones se baseou em trechos da Bíblia, nenhuma dessas teologias leva vantagem sobre outra;
  3. O problema é que muitos pentecostais acreditam que as igrejas neopentecostais são um mal maior diante dos cessacionistas. Porque os neopentecostais estão na TV, nas ruas, nas gravadoras, em todo lugar. Não queremos que nossa fé, tão “pura”, seja maculada pelo vil metal, não querermos nos identificar com os neopentecostais. Já os cessacionistas, até por serem em número muito menor, não se colocam em franca evidência. São discretos, repetem o mantra da “ordem no culto” [será que pode bater palmas, falar um “aleluia” de vez em quando, um “oh! Glória!”...?], não gostam da “música gospel”, condenam o excesso de entusiasmo nas orações, no louvor, na pregação. Ou seja: os cessacionistas estão para os neopentecostais como a bossa nova está para o axé music. E, é claro, como somos todos muito civilizados, cultos e racionais, não examinamos as escrituras: preferimos a bossa nova, ainda que seja tão herética quanto a axé music [foi só uma ilustração, eu gosto do João Gilberto, ok?];
  4. Além de tudo o que já disse, devo acrescentar: os cessacionistas combatem a Teologia Pentecostal. Sim, é isso mesmo. Enquanto blogueiros pentecostais fazem propaganda de blogs cessacionistas, os cessacionistas não se cansam de repetir, entre si ou, mais discretamente, em seus blogs, que crer na ação do Espírito Santo nos dias de hoje – nas curas, na glossolalia, em arrebatamentos e outros fenômenos espirituais sobrenaturais – é mistificar a fé cristã. E aí, mais uma vez, os pentecostais morrem de medo de serem identificados com a toalhinha da Igreja Mundial do apóstolo Valdemiro Santiago. Por isso, tendem a se aproximar, na crítica aos excessos dos neopentecostais, de quem nega por completo a ação do Espírito. Não conseguem explicar – e acham que ninguém vai entender, tão tênue é a linha – que os fenômenos do Espírito Santos existem, mas que precisamos ser um tanto céticos quanto à maneira como acontecem e examinar tudo à luz da Bíblia, já que há mais mercado da fé hoje do que nos tempos de Lutero;

  1. A prova do que acabo de dizer no ponto anterior é exatamente a lista de blogs recomendados pelos blogueiros cessacionistas. Visite um deles. Dois. Dez. Dificilmente, quase nunca, provavelmente jamais haverá a divulgação de blogs pentecostais/arminianos nos blogs dos irmãos calvinistas cessacionistas. E os pentecostais, ao desejar alcançar a unidade com tais irmãos, não percebem que a reciprocidade na divulgação dos blogs não existe porque eles descreem e condenam tudo o que é arminiano e pentecostal. Só que, ao contrário dos pentecostais, os cessacionistas não fazem propaganda do que não creem em seus sites. E, se nós [estou me incluindo como pentecostal, mas não faço propaganda de blogs que combatem a minha fé] fazemos propaganda de seus blogs, é porque cremos no que eles dizem, certo? Errado. Não podemos blasfemar contra o Espírito Santo, afirmando que Ele não mais cura, e que os sinais não mais se fazem ver. Não podemos afirmar que o homem é uma marionete, se cremos que todo homem escolhe a salvação, dá um passo em direção a Deus, toma a decisão de amá-lo, ainda que de modo imperfeito. Por curiosidade, a fim de escrever este texto, visitei o Blog da Norma. Deparei-me com seus desejos para 2014. Entre eles, dois me chamaram a atenção: “Que a igreja se desembarace cada vez mais da influência do paganismo, da teologia da prosperidade e da teologia da libertação”. Bravo! Concordo! Mas... e o cessacionismo? A igreja não deveria se desembaraçar dele também, a fim de perceber que os sinais e maravilhas de que Deus fala claramente na Bíblia se cumprem e que a volta de Cristo deve estar próxima? Não seria um desserviço a Deus, um agir demoníaco, não divulgar que Cristo está voltando? Como está escrito em Atos, capítulo 2, verso 17: “E nos últimos dias acontecerá, diz Deus, que do meu Espírito derramarei sobre toda a carne; e os vossos filhos e as vossas filhas profetizarão, os vossos jovens terão visões, e os vossos velhos sonharão sonhos; e também do meu Espírito derramarei sobre os meus servos e as minhas servas naqueles dias, e profetizarão [...]” Por que não devemos tirar as vendas dos olhos da Igreja quanto ao derramamento do Santo Espírito nos dias de hoje? Outro desejo de Norma para 2014: “Que mais livros reformados sejam lidos, escritos, debatidos (orem por mim!)”. Sabemos que quando Norma Braga e todos os demais cessacionistas falam “reformados” eles se referem especificamente à literatura calvinista cessacionista. Não se referem aos pentecostais, nem aos metodistas, nem à Igreja Cristã Maranata, nem à Quadrangular... Por que Norma Braga não desejou simplesmente que mais livros “cristãos” sejam “lidos, escritos, debatidos (orem por ela!)” em 2014? Ou então "mais livros cristãos protestantes..."? Alguém aí sabe dizer? E o seu blog, irmão arminiano, sinergista e pentecostal, não está entre os recomendados por Norma Braga e Augustus Nicodemus?;

  1. No mais, e para fechar, gostaria de mencionar uma curiosidade que vou desenvolver em outro texto: alguém além de mim já percebeu o quanto a ideia errônea de Deus dos cessacionistas se aproxima da ideia de Deus também equivocada dos teístas abertos? Não? Pensem a respeito. Voltarei ao tema depois.



E que o Santo Espírito nos alimente em 2014, nos cure, nos transforme, nos abençoe, nos perdoe, nos leve a pregar a Palavra da verdade e a repudiar as mentiras que têm se abatido sobre os cristãos. Que em 2014 estejamos mais atentos aos nossos irmãos perseguidos em tantos países. Que a nossa palavra seja mais ação para um mundo sedento de amor. Que nossa mão esteja pronta a ser estendida aos que sofrem. Que Deus tenha misericórdia de todos nós. E que Jesus venha!

Um abraço, feliz 2014.

Maya Felix




15 de ago. de 2013

Olha a cabeleira do Zezé




Olha a cabeleira do Zezé

            Cena um: Casal evangélico, homem pastor, mulher grávida, entra em aeronave da Azul. Senta-se no final. Cena dois: O deputado pró-lobby gay Jean Wyllys entra na mesma aeronave, com um assessor, e se senta um pouco mais à frente do casal evangélico. Cena três: Casal evangélico identifica o deputado e prontamente resolve ir até sua poltrona. Mulher pede para passageiro filmar o que irá acontecer em seguida. Cena quatro: Homem e mulher gritam: “É você, hein, Jean Wyllys?” Ato contínuo, começam a cantar, a plenos pulmões: “Olha a cabeleira do Zezé, será que ele é, será que ele é… BICHAAA!!!” A mulher tenta passar a mão na cabeça de Jean Wyllys e diz: “Não gosta de mulher, Jean? Por quê???” O pastor completa: “Vai pra nossa igreja que tem cura!” Logo depois, o casal evangélico grita: “Vamos aí, gente, todos juntos! Batendo palmas!” e recomeçam: “Olha a cabeleira do Zezé…” Jean Wyllys se sente desconfortável, finge que não é com ele, baixa a cabeça e tenta se concentrar na leitura da revista G Magazine que havia comprado na livraria do aeroporto. Mas o casal evangélico não para: “Deputadoooo… canta com a genteeee! Olha a cabeleira do Zezé…” O assessor de Wyllys, em vão, tenta protegê-lo das tentativas de toque da mulher, que continua querendo encostar a mão na testa do deputado. De repente, ela tira um vidrinho da bolsa, derrama uma parte do conteúdo na palma da mão e passa na testa de Jean Wyllys: “É óleo para ungir você, rapaz! Larga essa bichice!” Ele retira um lenço do bolso do paletó e tenta limpar o óleo da testa. Continua sem dizer nada, mas está visivelmente constrangido. Os passageiros, atônitos, assistem à cena sem fazer nada. O pastor ri alto e canta: “Só não vale dançar homem com homem, nem mulher com mulher…”. Cena cinco: A essa altura, uma mulher sentada logo atrás de Jean Wyllys se levanta e diz: “Chega! Vocês estão me incomodando! Assim não dá!” Cena seis: O casal evangélico decide, então, sentar-se em seu lugar. Mas continua a gritar, desta vez dizendo: “Ô Jean Wyllys, pode esperar, a sua hora vai chegar!!!” Repetem umas seis vezes o refrão e logo depois – sempre filmando, é claro – o pastor decide entrevistar um terapeuta cristão que, coincidentemente, estava no avião: “O senhor acha que o gay pode mudar a sua orientação sexual, se quiser?” FIM DO PRIMEIRO ATO.
            Você conseguiu imaginar as cenas narradas acima? São bastante inverossímeis, não? Elas têm pouquíssimas chances de acontecer, pelo menos com um casal evangélico que seja de fato seguidor de Jesus. Talvez não por falta de vontade de “dar o troco”, afinal o deputado e pastor Marco Feliciano passou por constrangimento semelhante ao relatado acima no ultimo dia 9 de agosto, a bordo de uma aeronave da Companhia Azul, indo de Brasília a São Paulo: Eric Corazza e Conrado Ribeiro fizeram com ele e um assessor o que, na hipotética situação que narro, o casal evangélico fez com Jean Wyllys.
            Episódio semelhante jamais aconteceria com o deputado ex-BBB porque os evangélicos sabem que escarnecer não é agradável a Deus, ainda que seja agradável à carne e tentador. Não vemos evangélicos constrangendo gays em suas marchas de “orgulho”. Tampouco vemos, em igrejas, predicações jocosas ou irônicas sobre o assunto. A prática homossexual é tratada como ela é: pecado. Pode ser que em algumas igrejas não tenha havido tato ou suficiente familiaridade com o assunto para que pessoas com tendências homossexuais fossem adequadamente encaminhadas a um diálogo cristão e à exortação amorosa e franca que recomendam a Bíblia. Mas nunca se tratou o assunto levemente, debochadamente, levianamente. As crenças dos cristãos, entretanto, são costumeiramente vistas com desprezo e tratadas com galhofa e desrespeito por militantes de causas gays, feministas e esquerdistas em geral.
            Durante a Jornada Mundial da Juventude, da Igreja Católica, quem não se lembra dos dois jovens, Raíssa Senra Vitral e Gilson Rodrigues Silva Júnior, que, mascarados e seminus, quebraram imagens de santos católicos e simularam cenas de sexo com elas? Em 1995, o pastor Sérgio Von Hélder, da Igreja Universal do Reino de Deus, chutou a imagem de uma santa católica em rede nacional. Houve grande comoção pelo desrespeito à crença alheia. A Rede Globo de televisão, com interesses mais comerciais que religiosos, repetiu a cena ad nauseam. O mesmo não aconteceu com os dois jovens que quebraram as imagens durante a JMJ. Não houve nem mesmo uma tentativa de entrevistar a dupla. Por quê? Os dois homens que agrediram Marco Feliciano, soube-se depois, dizem não ser gays, como se isso eximisse a militância que faz lobby pró-gay de qualquer responsabilidade do acontecido. Ou diminuísse a gravidade do fato. Ou fosse motivo para não imputá-lo ao crescente ódio insuflado pela mídia contra os evangélicos e conservadores por grupos de pressão e lobby pró-gay.
            Quando vi a cena, fiquei estarrecida. Não acreditei que a falta de respeito fosse chegar a esse ponto. Na verdade, fiquei furiosa e cheguei a trocar palavras destemperadas com defensores do ato em uma rede social. A banalização das atitudes totalitárias em nossa sociedade, fruto da imposição de uma visão como única possível sobre qualquer outra, faz com que não nos cause mais espanto a agressão, o escárnio, o vandalismo e a ironia barata, a crítica sem inteligência e o debate impositivo. Como os cristãos têm histórico de tolerância e bom trato, as cenas do início deste texto provavelmente não acontecerão. Já as cenas de desrespeito vistas contra evangélicos se multiplicam em progressão geométrica, aparentemente sem a reação do restante da sociedade. Lembra-me a perseguição nazista aos judeus: começou com atos públicos de hostilidade, terminou onde todos conhecemos bem. Em 2014, políticos de partidos que sustentam esses desrespeitos e atos de barbárie, como PT, PSOL, PC do B, PDT e PSTU, pedirão o voto dos evangélicos. O que você vai fazer?


*Texto escrito em 11/08/2013 e publicado originalmente no Blog da União de Blogueiros Evangélicos. Meu agradecimento a Rodrigo Magaldi Merlino, por me ajudar com alguns dados.

1 de ago. de 2011

Tentação totalitária, por Luis Felipe Pondé



Você se considera uma pessoa totalitária? Claro que não, imagino. Você deve ser uma pessoa legal, somos todos.

Às vezes, me emociono e choro diante de minhas boas intenções e me pergunto: como pode existir o mal no mundo? Fossem todos iguais a mim, o mundo seria tão bom... (risadas).

Totalitários são aqueles skinheads que batem em negros, nordestinos e gays.

Mas a verdade é que ser totalitário é mais complexo do que ser uma caricatura ridícula de nazista na periferia de São Paulo.

A essência do totalitarismo não é apenas governos fortes no estilo do fascismo e comunismo clássicos do século 20.

Chama minha atenção um dado essencial do totalitarismo, quase sempre esquecido, e que também era presente nos totalitarismos do século 20.

Você, amante profundo do bem, sabe qual é? Calma, chegaremos lá.

Você se lembra de um filme chamado "Um Homem Bom", com Viggo Mortensen, no qual ele é um cara legal, um professor universitário não simpatizante do nazismo (o filme se passa na Alemanha nazista), e que acaba sendo "usado" pelo partido?

Pois bem. Neste filme, há uma cena maravilhosa, entre outras. Uma cena num parque lindo, verde, cheio de árvores (a propósito, os nazistas eram sabidamente amantes da natureza e dos animais), famílias brincando, casais se amando, cachorros correndo, até parece o Ibirapuera de domingo.

Aliás, este é um dos melhores filmes sobre como o nazismo se implantou em sua casa, às vezes, sem você perceber e, às vezes, até achando legal porque graças a ele (o partido) você arrumaria um melhor emprego e mais estabilidade na vida.

Fosse hoje em dia, quem sabe, um desses consultores por aí diria, "para ter uma melhor qualidade de vida".

E aí, a jovem esposa do professor legal (ele acabara de trocar sua esposa de 40 anos por uma de 25 - é, eu sei, banal como a morte) o puxa pelo braço querendo levá-lo para o comício do partido que ia rolar naquele domingão no parque onde as famílias iam em busca de uma melhor qualidade de vida.

Mas ele não tem nenhuma vontade de ir para o comício porque sente um certo "mal-estar" com aquilo tudo. Mas ela, bonita, gostosa, loira, jovem e apaixonada (não se iluda, um par de pernas e uma boca vermelha são mais fortes do que qualquer "visão política de mundo"), diz: "Meu amor, tanta gente junta querendo o bem não pode ser tão mau assim".

É, meu caro amante do bem, esta frase é uma das melhores definições do processo, às vezes invisível, que leva uma pessoa a ser totalitária sem saber: "Quero apenas o bem de todos".

Aí está a característica do totalitarismo que sempre nos escapa, porque ficamos presos nas caricaturas dos skinheads: aquelas pessoas, sim, se emocionavam e choravam diante de tanta boa vontade, diante de tanta emoção coletiva e determinação para o bem.

Esquecemos que naqueles comícios, as pessoas estavam ali "para o bem".

Se você tem absoluta certeza que "você é do bem", cuidado, um dia você pode chorar num comício achando que aquilo tudo é lindo e em nome de um futuro melhor.

E se essa certeza vier acompanhada de alguma "verdade cientifica" (como foi comum nos totalitarismos históricos) associada a educadores que querem "fazer seres humanos melhores" (como foi comum nos totalitarismos históricos) e, finalmente, se tiver a ambição política, aí, então, já era.

Toda vez que alguém quiser fazer um ser humano melhor, associando ciência (o ideal da verdade), educação (o ideal de homem) e política (o ideal de mundo), estamos diante da essência do totalitarismo.

O que move uma personalidade totalitária é a certeza de que ela está fazendo o "bem para todos", não é a vontade de destruir grupos diferentes do dela.

Primeiro vem a certeza de si mesmo como agente do "bem total", depois você vira autoritário em nome desse bem total.

O melhor antídoto para a tentação do totalitarismo não é a certeza de um "outro bem", mas a dúvida acerca do que é o bem, aquilo que desde Aristóteles chamamos de prudência, a maior de todas as virtudes políticas.

Não confio em ninguém que queira criar um homem melhor.

***

Luiz Felipe Pondé, especial para a Folha.

19 de mai. de 2011

Grande manifestação em favor da família, da liberdade de expressão, da liberdade religiosa e contra o PLC 122/2006 em Brasília

Se você mora em Brasília, em Goiânia ou em Belo Horizonte, ou em alguma cidade próxima, ou em alguma cidade distante, mas crê que vale a pena participar... Se você acredita que a liberdade de expressão está ameaçada com o PLC 122/2006, de autoria do PT... Se você acredita no que diz a Bíblia sobre a família e quer continuar a ter o direito de expressar o que pensa... Se você acredita que o Brasil deve evitar a todo custo entrar numa ditadura de poucos... Se você acredita que todo ser humano deve ser respeitado, mas não há uma categoria ou um grupo acima de outros... Se você acredita... Participe!

13 de fev. de 2011

relativismo cultural é blablablá que só funciona em conversa de mesa de bar



Blablablá



por Luiz Felipe Pondé

O que você faria se estivesse a ponto de assistir a um ritual de antropofagia? Interromperia (sem risco para você)? Ou deixaria acontecer em nome do relativismo cultural (essa ideia que afirma que cada um é cada um, que as culturas devem ser respeitadas em sua individualidade e que não podemos compará-las)?

No primeiro caso, você seria um horroroso descendente dos "jesuítas"; no segundo você seria um relativista chique. Sempre suspeitei que esse papo relativista fosse blablablá. Funciona bem em aula de antropologia, em bares, em parques temáticos e lojas de curiosidades. É evidente que "jesuítas" de todos os tipos fizeram horrores nas Américas. Todo adulto bem educado sabe que é feio condenar cultos à lua ou à chuva. Mas há algo no relativismo cultural que me soa conversa fiada: o relativismo cultural morre na praia quando você é obrigado a conviver com o Outro. E o "Outro" nem sempre é legal.

Se você aceita a antropofagia em nome do respeito à "cultura", aceita implicitamente a ideia de que o valor da vida humana seja subordinado à "cultura". A vida humana não tem valor em si. Todo estudante de antropologia sabe recitar esse credo. Quando confrontado com dilemas como esse, o relativista diz que se trata de uma situação meramente hipotética (hoje não existe mais antropofagia). Mas a verdade é que quando o relativista diz que a antropofagia é hoje quase nula, e, portanto, esse dilema não tem "validade científica", está literalmente correndo do pau porque "alguém" acabou com a antropofagia, não? Por que a antropofagia "acabou"?

Algumas hipóteses: 1) os antropófagos foram mortos por gripes ou em batalhas; 2) foram convertidos pelos horrorosos "jesuítas" e seus descendentes; 3) descobriram formas mais fáceis de comer e rituais que deixam as pessoas (isto é, os Outros) menos irritadas e com menos nojo. É importante conhecer o "lugar" da antropofagia nas religiões dos canibais, mas isso é apenas um "dado" antropológico. Uma descrição de hábitos (ruins). Mas o relativista tem que correr do pau mesmo, porque seu credo funciona bem apenas nas conversas de salão. A vida é sempre pior do que as festas. Relativistas culturais são, no fundo, puritanos disfarçados, gostam de "aquários humanos".

Os seres humanos são culturalmente promíscuos, e "a cultura" sem promiscuidade (trocas, misturas, confusões) só existe nos livros. Use internet, televisão, celulares, aviões e estradas, faça sexo ou guerra, e o papo do relativismo cultural vira piada. Na realidade, as pessoas lançam mão do argumento relativista somente quando lhes interessa defender a "tribo" com a qual ganha dinheiro e fama. O problema com o debate sobre os índios (ou qualquer outra cultura considerada "coitada") é a mitologia que ela provoca. Se, de um lado, alguns falaram dos índios (erradamente) como inferiores, bárbaros ou inúteis, por outro lado, os que "defendem" os índios normalmente caem no mito oposto: eles são legais e só querem viver "sua cultura", e eles não são "capitalistas" como nós, e blablablá. Índios gostam de poder como todo mundo, vide os índios "conscientes de seus direitos" devorando computadores, celulares e internet no Fórum Social, em Belém -ou ficam na idade da pedra mesmo e precisam que o Estado os defenda do mundo.

As culturas mais bem-sucedidas são predadoras e seduzem as mais fracas (ser mais bem-sucedida não implica ser legal). Por que levar medicina científica (invenção dos "opressores") para as aldeias? Não seria contaminação "cultural"? Vamos ou não brincar de "curandeiros"? Que tal abraçar árvores? Se você é católico e quer ser fiel aos seus princípios, você é um retrógrado; se você quer viver no meio da selva (com direitos adquiridos porque você é de uma cultura "coitada"), você é apenas uma tribo com direito a integridade cultural. O conceito de cultura é quase um fetiche do mercado das ciências humanas. Não que não existam culturas, mas o conceito na sua inércia preguiçosa só funciona no laboratório morto da sala de aula ou do museu. A vida se dá de forma muito mais violenta, se misturando, se devorando.

Nada disso é "contra" os índios, mas sim contra o relativismo como ética festiva. O oposto dele não é o obscurantismo, mas a dinâmica da vida real. O relativismo é um (velho) problema filosófico e um "dado" antropológico. Um drama, e não uma solução.


***

Pesquei do Paulo Lopes Weblog. Sugestão de leitura do Gutierres Fernandes Siqueira.

Leia também: Brasil: infanticídio indígena e relativismo multicultural, no Mídia Sem Máscara.

4 de fev. de 2011

um estudo sobre o orgulho


UM ESTUDO SOBRE O ORGULHO

Mayalu Felix

Este estudo está fundamentado em trechos de duas obras de C. S.Lewis, Cristianismo Puro e Simples e O Problema do Sofrimento, em excertos de Ortodoxia, de G. K. Chesterton, e em exemplos bíblicos acerca do orgulho. Segundo C. S. Lewis, há duas naturezas de pecado: os carnais e os de natureza espiritual.

“Os pecados da carne são maus, mas, dos pecados, são os menos graves. Todos os prazeres mais terríveis são de natureza puramente espiritual: o prazer de provar que o próximo está errado, de tiranizar, de tratar os outros com desdém e superioridade, de estragar o prazer, de difamar. São os prazeres do poder e do ódio.” (Cristianismo Puro e Simples, p. 135)

O orgulho, segundo Lewis, pertence à categoria de pecados de natureza espiritual. Vale a pena ler, na íntegra, o que diz ele no capítulo oito de seu livro:

“Chego agora à parte em que a moral cristã difere mais nitidamente de todas as outras morais. Existe um vício do qual homem algum está livre, que causa repugnância quando é notado nos outros, mas do qual, com a exceção dos cristãos, ninguém se acha culpado. Já ouvi quem admitisse ser mal humorado, ou não ser capaz de resistir a um rabo de saia ou à bebida, ou mesmo ser covarde. Mas acho que nunca ouvi um não cristão que tenha alguma tolerância com esse vício nas outras pessoas. Não existe nenhum outro defeito que torne alguém tão impopular, e mesmo assim não existe defeito mais difícil de ser detectado em nós mesmos. Quanto mais o temos, menos gostamos de vê-lo nos outros.

O vício do qual estou falando é o orgulho ou a presunção. A virtude oposta a ele, na moral cristã, é chamada de humildade. [...] De acordo com os mestres cristãos, o vício fundamental, o mal supremo, é o orgulho. A devassidão, a ira, a cobiça, a embriaguez e tudo o mais não passam de ninharias comparadas com ele. É por causa do orgulho que o diabo se tornou o que é. O orgulho leva a todos os outros vícios; é o estado mental mais oposto a Deus que existe.

Parece que estou exagerando? Se você acha que sim, pense um pouco mais no assunto. Agora há pouco, observei que, quanto mais orgulho uma pessoa tem, menos gosta de vê-lo nos outros. Se quer descobrir quão orgulhoso você é, a maneira mais fácil é perguntar-se: ‘Quanto me desagrada que os outros me tratem como inferior, ou não notem a minha presença, ou interfiram nos meus negócios, ou me tratem com condescendência, ou se exibam na minha frente?’ A questão é que o orgulho de cada um está em competição direta com o orgulho de todos os outros.” (Id., p. 161)

Quando lemos a Bíblia, podemos perceber que o orgulho é a base de praticamente todos os conflitos humanos e entre os homens e Deus apresentados tanto no Velho quanto no Novo Testamento. Quando José apressou-se em contar à sua família sobre seu sonho, ele o fez por orgulho: sentia-se superior [Gn 37:5], ainda que de modo bastante infantil. Quando seus irmãos o traíram, também o fizeram por orgulho: irritaram-se ao se sentirem inferiores [o que já era provocado pela diferença de tratamento que Jacó instituiu entre eles]. E Mical? Ao repreender Davi, que dançava junto ao povo sem se sentir superior por ser rei, Mical demonstrou orgulho, desprezando Davi, e foi severamente punida por isso [2 Sm 6: 14-23]. E em Davi, havia orgulho? Durante sua trajetória, percebemos a humildade profunda de seu coração, diante de seus irmãos e diante do povo, mesmo sendo ele rei de Israel. Nesse aspecto, ele era um homem segundo o coração de Deus [1 Sm 13:14]. Isso não isenta Davi de ter sentido profunda inveja de Urias, a ponto de enviá-lo para a morte. A inveja é um tipo de pecado decorrente do orgulho. Davi queria o que era de Urias porque se achava mais merecedor de Betsabá do que ele. Isso também é uma forma de orgulho.

Na Bíblia, Deus nos mostra que toda reação de orgulho tem sua punição. A maior demonstração de orgulho e a maior queda de todas é a do anjo Lúcifer, uma palavra do Latim (lucem ferre) que quer dizer "portador de luz". Da ordem dos querubins, Lúcifer era um anjo poderoso. Seu poder e sua beleza, entretanto, levaram-no a se achar igual ou melhor que Deus. Em Ezequiel, capítulo 28, versos de 1 a 19, o orgulho do rei de Tiro é comparado ao de Lúcifer. Diz o texto:

“Tu és o aferidor da medida, cheio de sabedoria e perfeito em formosura. Estavas no Éden, jardim de Deus; toda pedra preciosa era a tua cobertura [...] Tu eras querubim ungido para proteger, e te estabeleci [...] Perfeito eras nos teus caminhos, desde o dia em que foste criado, até que se achou iniquidade em ti. [...] Elevou-se o teu coração por causa da tua formosura, corrompeste a tua sabedoria por causa do teu resplendor; por terra te lancei [...].”

Em Isaías, cap. 14, versos de 12 a 20, a queda de Nabucodonosor também é comparada à queda de Lúcifer:

“Como caíste do céu, ó estrela da manhã, filha da alva! Como foste lançado por terra, tu que debilitavas as nações! E tu dizias no teu coração: Eu subirei ao céu, e, acima das estrelas de Deus, exaltarei o meu trono [...] Subirei acima das mais altas nuvens e serei semelhante ao Altíssimo.”

Mais uma vez, o orgulho atua de forma decisiva para a queda do anjo Lúcifer. E como ele tentou Eva e Adão? Com o orgulho: “... no dia em que dele comerdes, se abrirão os vossos olhos, e sereis como Deus...” (Gn 3:5). Todo o trabalho de Deus no homem é para fazê-lo menos orgulhoso. O homem orgulhoso é o que deseja ser como Deus. É o que tem o ego superestimado, e não permite que Cristo cresça em sua vida. É claro, existem graus de orgulho, mas, como diz Lewis, “é a comparação que torna uma pessoa orgulhosa: o prazer de estar acima do restante dos seres” (Ibid., p. 163).

No Novo Testamento, também não nos faltam exemplos de orgulho. Um dos mais interessantes, que muitos cristãos não interpretam como orgulho, é a reação do irmão do filho pródigo quando o pai recebe com honras o filho que estava longe. O filho que jamais havia se afastado do pai sentia-se superior a seu irmão, e não admitiu, portanto, que o pai o honrasse. Isso é orgulho. Alguns cristãos acham justificável ou menos importante a reação do irmão do filho pródigo. Jesus usou a parábola para ilustrar a reação de muitos cristãos diante de bênçãos que Deus concede a outros irmãos.

Outro exemplo bastante claro de orgulho é Pedro. Pedro não era somente orgulhoso, ele não tinha domínio próprio, era impulsivo e imaturo. Quando Pedro declara que jamais trairá Jesus, ele acredita em si mesmo. Ele acredita que, diferentemente dos demais, é bom o suficiente para permanecer fiel a Cristo mesmo diante de toda a pressão política e religiosa que os discípulos de Jesus estavam sofrendo. O que curou Pedro? Como Jesus curou Pedro de seu orgulho, para poder usá-lo? Jesus fez Pedro reconhecer seu orgulho e seu amor por Cristo. Quando Pedro disse: “Senhor, estou pronto para ir contigo até à prisão e à morte” (Lc 22:33), ele estava centrando suas palavras e seus sentimentos sobre si mesmo e acreditando em suas próprias forças. Isso é orgulho. Por que Jesus perguntou a Pedro: “Simão, filho de Jonas, tu me amas?” Essa era a cura do orgulho de Pedro. Ele deixava de centrar seu discurso em si mesmo e passava a colocar Cristo no centro de suas palavras: “Sim, Senhor; tu sabes que te amo”. Entre “estou pronto” e “tu sabes” existe uma grande diferença: na primeira frase, o “eu” assume papel central. Na segunda, o “tu” [que é Jesus] é que é relevante. O orgulho faz com que nos coloquemos, nós e nossa capacidade, no centro. A humildade coloca Jesus no centro do nosso discurso (e, consequentemente, do coração). O exemplo perfeito de humildade foi Cristo. Cristo não tinha orgulho. Andava com os humildes, não se importava em ser visto como inferior, lavava os pés de seus discípulos, desafiava os conceitos orgulhosos da sociedade de sua época. Deus nos mandou Jesus para que víssemos como Ele mesmo é. Não há orgulho em Deus. C. S. Lewis, em O Problema do Sofrimento, diz:

“Da mesma forma que o jovem deseja uma mesada do pai, que possa considerar como sua, com a qual faz seus próprios planos (e com justiça, pois o pai é afinal de contas um semelhante) eles [os seres humanos] também desejavam agir por conta própria, cuidar de seu futuro, planejar para o seu prazer e segurança, ter um meu do qual sem dúvida pagariam um tributo razoável a Deus em termos de tempo, atenção, e amor, mas que em todo caso era deles e não dEle. Eles queriam, como dizemos hoje, ser 'seus próprios donos'. Mas isso significa viver uma mentira, porque na verdade não somos donos de nós mesmos, nossa alma não é nossa. Eles queriam um lugar no universo de onde pudessem dizer a Deus: 'Este negócio é nosso e não seu'. Mas não existe um canto assim. […] Este ato de obstinação por parte da criatura, que constitui uma absoluta falsidade em relação à sua posição de criatura, é o único pecado que pode ser concebido como a Queda. [...] Dessa forma o orgulho e a ambição, o desejo de ser belo a seus próprios olhos e de oprimir e humilhar todos os rivais, a inveja e a busca incessante de mais e mais segurança, eram agora as atitudes que tomava com maior facilidade.” (p. 60 a 63)

O orgulho de Pedro, centrado na ilusão de sua própria autossuficiência, levou-o a afirmar que jamais negaria Cristo e a negá-lo pouco tempo depois. Não tenho dúvidas de que Pedro, realmente, acreditava em si mesmo quando afirmava que jamais negaria a Cristo. Um dos problemas do orgulho é que ele leva as pessoas a acreditarem em si mesmas, negando a Deus o seu lugar em suas vidas. Pessoas orgulhosas acreditam-se suficientemente importantes ao ponto de acharem que podem, por seus esforços, manterem-se fieis a Deus. O humilde crê que tudo pode por Deus, como fez Davi ao atacar Golias. O orgulhoso acredita em si mesmo, como fez Pedro. Creio que deve ser muito difícil ser líder em uma igreja. A tentação de um líder é acreditar em si mesmo. Aí começa a possibilidade de Satanás fazer desse líder alguém que de fato ignora Deus, embora pareça agir com temperança, equilíbrio e sensatez. E Satanás se compraz nesses seres religiosos que não só acreditam em si mesmos como buscam não as virtudes espirituais, mas apenas as virtudes morais. Alguns têm orgulho de sua humildade, de sua dedicação a Deus, do trabalho que realizam na Igreja... Como diz C. S. Lewis, também em O Problema do Sofrimento:

“Em Deus defrontamos com algo que é, em todos os aspectos, infinitamente superior a nós. Se você não sabe que Deus é assim – e que, portanto, você não é nada comparado a ele –, não sabe absolutamente nada sobre Deus. O homem orgulhoso sempre olha de cima para baixo para as outras pessoas e coisas: é claro que, fazendo assim, não pode enxergar o que está acima de si.

Isso levanta uma questão terrível. Como podem existir pessoas evidentemente cheias de orgulho que declaram acreditar em Deus e se consideram muitíssimo religiosas? Infelizmente, elas adoram um Deus imaginário. Na teoria, admitem que não são nada comparadas a esse Deus fantasma, mas na prática passam o tempo todo a imaginar o quanto ele as aprova e as tem em melhor conta que ao resto dos mortais. Ou seja, pagam alguns tostões de humildade imaginária para receber uma fortuna de orgulho em relação a seus semelhantes [...].

Mais de um homem conseguiu superar a covardia, a luxúria ou o mau humor pela crença inculcada de que tudo isso estava abaixo de sua dignidade. Ou seja, venceram pelo orgulho. O diabo ri às gargalhadas. Fica satisfeitíssimo de nos ver castos, corajosos e controlados desde que, em troca, prepare para nós uma Ditadura do Orgulho. Do mesmo modo, ele ficaria contente de curar as frieiras dos nossos pés se pudesse, em troca, nos deixar com câncer. O orgulho é um câncer espiritual: ele corrói a possibilidade mesma do amor, do contentamento e até do bom senso." (p. 165-167)

Por outro lado, a autossuficiência aliada à “crença em si mesmo” gera o que descreve G. K. Chesterton, em Ortodoxia:

"Pessoas completamente mundanas nunca entendem sequer o mundo; elas confiam plenamente numas poucas máximas cínicas não verdadeiras. Lembro-me de que, certa vez, fiz um passeio com um editor de sucesso, e ele fez uma observação que eu ouvira muitas vezes antes; é, na verdade, quase um lema do mundo moderno. Todavia, eu ouvi essa máxima cínica mais uma vez e não me contive: de repente vi que ela não dizia nada. Referindo-se a alguém, disse o editor: 'Aquele homem vai progredir; ele acredita em si mesmo'.

Lembro-me de que, quando levantei a cabeça para escutar, meus olhos se fixaram num ônibus no qual estava escrito 'Hanwell' [nome de um asilo para loucos, como será verificado mais à frente]. Disse-lhe eu então: 'Quer saber onde ficam os homens que acreditam em si mesmos? Eu sei. Sei de homens com uma confiança mais colossal do que a de Napoleão ou César. Sei onde arde a estrela fixa da certeza e do sucesso. Posso conduzi-lo aos tronos dos super-homens. Os homens que realmente acreditam em si mesmos estão todos em asilos de lunáticos'.

Ele disse calmamente que, no fim das contas, havia um bom número de homens que acreditavam em si mesmos e que não eram lunáticos internados em asilos. 'Sim, certamente', retruquei, 'e você mais do que ninguém deve conhecê-los. Aquele poeta bêbado de quem você não quis aceitar uma lamentável tragédia, ele acreditava em si mesmo. Aquele velho ministro com um poema épico de quem você se escondia num quarto dos fundos, ele acreditava em si mesmo. Se você consultasse sua experiência profissional em vez de sua horrível filosofia individualista, saberia que acreditar em si mesmo é uma das marcas mais comuns de um patife. Atores que não sabem representar acreditam em si mesmos; e os devedores que não vão pagar. Seria muito mais verdadeiro dizer que um homem certamente fracassará por acreditar em si mesmo. Total autoconfiança é uma fraqueza. Acreditar absolutamente em si mesmo é uma crença tão histérica e supersticiosa como acreditar em Joanna Southcote [Ela (1750-1814) se dizia virgem e grávida do novo Messias, e chegou a ter muitos seguidores]: quem o faz traz o nome 'Hanwell' escrito no rosto com a mesma clareza com que ele está escrito naquele ônibus.'

A tudo isso meu amigo editor deu esta profunda e eficaz resposta: 'Bem, se um homem não acredita em si mesmo, em que vai acreditar?' Depois de uma longa pausa eu respondi: 'Vou para casa escrever um livro em resposta a essa pergunta'. Este é o livro que escrevi para responder-lhe." (p. 25-27)

Essa é, em suma, a tendência do homem: acreditar em si mesmo e deixar Deus de fora. Assim fez Jonas, quando foi enviado para pregar em Nínive. Assim fez Moisés, quando em vez de falar à rocha feriu-a com o cajado, para obter água. Tudo isso é fruto do “eu” inchado. Essa tendência, hoje, é exacerbada em céticos e ateus. Na Igreja, por mais que isso nos custe admitir, convivemos com pessoas que acreditam que Deus serve para algumas coisas, mas não para todas. Nós mesmos, e isso é ainda mais difícil de admitir, nos forçamos a acreditar em nós mesmos diariamente – em como somos de fato merecedores da graça de Deus e especiais, por termos sido “escolhidos”. Afinal, escrevemos em letras pequenas “se Deus é por nós” e em letras garrafais “QUEM SERÁ CONTRA NÓS?" E nos achamos inatingíveis.

“Todavia, Deus, que nos fez, sabe o que somos e que nossa felicidade está nEle. Nós porém não a buscamos nEle enquanto permitir-nos qualquer outro recurso onde ela possa plausivelmente ser procurada. Enquanto aquilo que chamamos de ‘nossa própria vida’ permanecer agradável, não iremos entregá-la a Ele. O que pode então Deus fazer em nosso benefício senão tomar ‘nossa vida’ menos agradável, e remover as fontes plausíveis da falsa felicidade? É justamente aqui, onde a providência divina parece à primeira vista ser mais cruel, que a humildade divina, o rebaixamento do Altíssimo merece o maior louvor.

Quero implorar ao leitor que tente crer, embora apenas por um momento, que o Deus que fez todas essas pessoas cheias de mérito, possa estar realmente certo quando pensa que sua modesta prosperidade e a felicidade de seus filhos não bastam para fazê-las abençoadas: que tudo isso deve deixá-las no final, e que se não tiverem aprendido a conhecê-lo se sentirão miseráveis. E assim Ele as perturba, advertindo-as antecipadamente de uma insuficiência que um dia terão de descobrir. A vida para elas e suas famílias se interpõe entre as mesmas e o reconhecimento de sua necessidade; Ele torna essa vida menos suave para elas. Chamo a isto de humildade divina porque é deprimente procurar Deus quando o navio está afundando debaixo de nós; deprimente achegar-nos a Ele como um último recurso, oferecer nossa pessoa quando não vale mais a pena guardá-la.

Se Deus fosse orgulhoso, Ele jamais nos aceitaria nesses termos, mas Ele não é orgulhoso, Ele se abaixa para conquistar, Ele nos aceita embora tenhamos mostrado que preferimos tudo o mais a Ele, e nos achegamos porque agora não há ‘nada melhor’ que possamos ter. A mesma humildade é manifestada através de todos os apelos divinos aos nossos temores, o que perturba alguns leitores das Escrituras. É bem pouco simpático para Deus que o escolhamos como uma alternativa para o inferno: mas até mesmo isto ele aceita. A ilusão de autossuficiência da criatura deve, em seu próprio benefício, ser destruída; e pelas dificuldades ou medo das dificuldades na terra, pelo medo indisfarçado das chamas eternas. Deus a destroça ‘não levando em conta a diminuição de sua glória’. Os que desejariam que o Deus da Bíblia fosse mais puramente ético, não sabem o que estão pedindo. Se Deus fosse um kantista, que não quisesse aceitar-nos senão quando nos aproximássemos dele baseados nos motivos mais puros e melhores, quem poderia ser então salvo? E essa ilusão de autossuficiência pode ser mais forte em algumas pessoas muito honestas, bondosas e temperantes, e sobre elas, então, a desgraça deve cair.

Os perigos da autossuficiência aparente explicam por que Nosso Senhor considera os vícios dos fracos e dissipados com muito maior tolerância do que os vícios que levam ao sucesso mundano. As prostitutas não correm o risco de considerar sua vida presente tão satisfatória que não possam voltar-se para Deus: os orgulhosos, os avarentos, os que possuem autorretidão, correm esse perigo.” (O Problema do Sofrimento, p. 75 a 77)

Mas, afinal, de onde vem o orgulho? Ele pode ser vencido? Com a queda, a visão do homem turvou-se. Todo homem tem uma visão distorcida de si mesmo, de Deus e de seu próximo. Jesus veio corrigir essa visão, ao nos mostrar, em si mesmo, o exemplo do que já houve de mais humilde sobre a Terra. O orgulho é um sentimento decorrente das falsas perspectivas que temos acerca de nós mesmos, do próximo e de Deus. Não é um problema impossível de ser amenizado, mas exige uma morte diária, o que Cristo chamou de “tomar a sua cruz e segui-lo”. Quando falo aqui de "morte diária", não estou falando da mera manutenção de hábitos e costumes aceitáveis dentro da igreja, como não fumar, não beber, ser educado e dizer ‘por favor’, mas de uma revisão geral de ideias que cada um tem sobre si mesmo. O dia a dia nos leva, automaticamente, a sermos confrontados com nossa própria visão de mundo. Nesse confronto, temos a escolha de deixar o “eu” morrer, o que é doloroso, ou deixar o “eu” permanecer: temos de ter razão? Temos de ser importantes? Somos indispensáveis? Somos “bons cristãos”? Somos melhores que outros seres humanos? Você se importa muito se as pessoas têm uma visão negativa a seu respeito? Você se preocupa demais com o que dizem de você? Ao deixarmos o “eu” morrer, certamente seremos pisados. Nossa tentação de retrucar e recuperar o nosso “eu” e seu suposto “valor” é muito grande. Mas, se deixamos o “eu” morrer, de fato, Cristo pode finalmente ocupar algum espaço em nós. Não há outro caminho. Em vez de confiarmos em nós mesmos, em nossa perspicácia ou inteligência, devemos, como crianças, procurar o olhar do Pai. Como diz C. S. Lewis, o orgulho jamais poderá ser vencido: ele é a própria natureza do velho homem - “Daí a necessidade de morrer diariamente: por mais que julguemos ter esmagado o ‘eu’ rebelde, vamos sempre descobri-lo vivo.” (O Problema do Sofrimento, p. 71)


REFERÊNCIAS

CHESTERTON, G. K. Ortodoxia. São Paulo: Mundo Cristão, 2008.

LEWIS, C. S. Cristianismo Puro e Simples. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

______. O Problema do Sofrimento. São Paulo : Vida, 2002.

Bíblia de Estudo Pentecostal.

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