Creio que não existe nada de mais belo, de mais profundo, de mais simpático, de mais viril e de mais perfeito do que o Cristo; e eu digo a mim mesmo, com um amor cioso, que não existe e não pode existir. Mais do que isto: se alguém me provar que o Cristo está fora da verdade e que esta não se acha n'Ele, prefiro ficar com o Cristo a ficar com a verdade. (Dostoievski)

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18 de ago. de 2008

Barack Obama


Barack Obama

Monsieur Barack Obama a de la chance. Il veut succéder à un des présidents les plus impopulaires de l’histoire de son pays, il est jeune, il est métis, la planète entière semble attendre qu’il entre à la Maison Blanche. Il paraît donc mieux armé qu’un autre pour « renouveler le leadership américain dans le monde (
1) ». C’est-à-dire réhabiliter la marque Amérique, rendre plus performantes parce que mieux acceptées — et plus accompagnées — les interventions des Etats-Unis à l’étranger.

Y compris les interventions militaires, en Afghanistan en particulier : « Je construirai, promet-il, une armée du XXIe siècle et un partenariat aussi puissant que l’alliance anticommuniste qui a remporté la guerre froide, afin que nous demeurions partout à l’offensive, de Djibouti à Kandahar (
2). » A ceux qui rêvent encore qu’un président « multiculturel » né d’un père kényan signalerait ipso facto la venue d’une Amérique new age et la farandole d’une ronde où tous les gars du monde se donneraient la main, le candidat démocrate a déjà dit qu’il s’inspirerait moins des Pink Floyd ou de M.George McGovern que de la politique étrangère « réaliste et bipartisane du père de George Bush, de John Kennedy et, à certains égards, de Ronald Reagan (3) ». Le multilatéralisme n’est pas pour demain ; l’impérialisme serait néanmoins plus soft, plus habile, plus concerté et, qui sait, peut-être un peu moins meurtrier. Les huit ans d’embargo de la présidence Clinton avaient toutefois tué énormément d’Irakiens...

M. Barack Obama a du talent. L’Audace d’espérer, son livre-programme, donne la mesure de son mélange d’intelligence historique, de rouerie, d’« empathie » politique pour ses adversaires — dont il dit « comprendre les motivations et reconnaître chez eux des valeurs [qu’il] partage » —, de tournures savamment balancées qui ne résolvent pas grand-chose mais qui satisfont (presque) chacun, d’humour, de conviction aussi. De conviction, mais tempérée par un hommage inquiétant à l’ancien président William Clinton, qui aurait « extirpé du Parti démocrate certains des excès qui l’empêchaient de gagner les élections (
4) ». Quels excès ? Le refus de la peine de mort ? L’aide sociale aux pauvres ? La défense des libertés publiques ? Une certaine redistribution des revenus ?

M. Barack Obama a de l’ambition. Jusqu’où le conduira celle, légitime, de « gagner les élections » ? Ces derniers mois semblent suggérer la réponse : plus à droite. Pas au point, tout de même, de rendre M. Obama interchangeable avec le républicain John McCain et de justifier alors le raccourci « bonnet blanc et blanc bonnet ». Mais assez éloigné déjà du discours progressiste du début de sa campagne, et plus loin encore de celui que ses partisans les plus idéalistes ont cru entendre. Car « Yes, we can » est également devenu : oui, nous pouvons critiquer un arrêt de la Cour suprême, pourtant fort conservatrice, qui prohibe l’exécution de violeurs non coupables d’assassinat ; oui, nous pouvons prononcer devant le lobby pro-israélien un discours qui s’aligne sur les positions les plus inflexibles du gouvernement de M. Ehoud Olmert ; oui, nous pouvons associer systématiquement créativité et secteur privé, compléter la mission de redéfinition du progressisme lancée par MM. Clinton et Anthony Blair, promouvoir une alliance de classes dont les managers et les cadres seraient les acteurs-clés.

Il y a plus troublant. Enhardi par les flots de contributions financières qui enflent les coffres de sa campagne, M. Obama vient de porter un coup sévère, peut-être fatal, au système de financement public des élections. Ainsi, il a annoncé qu’il serait le premier candidat à la présidence depuis le scandale du Watergate à renoncer au versement par l’Etat d’un montant donné (84,1 millions de dollars en 2008), lequel est alloué à chacun des deux grands rivaux en échange de leur acceptation d’un plafond de dépenses équivalant à la somme reçue. Le poids de l’argent en politique n’est pourtant pas un problème mineur aux Etats-Unis. M. Obama a signalé qu’il ne le résoudrait pas. Il lui reste, ailleurs, quelques occasions de ne pas décevoir. Ce qui permettrait aux vrais amis du peuple américain de conserver... l’audace d’espérer.
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(1) Barack Obama, « Renewing American leadership », Foreign Affairs, New York, juillet 2007.
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2) Ibid. Une telle ambition impliquera d’ailleurs une augmentation du budget du Pentagone et l’addition de « soixante-cinq mille soldats et de vingt-sept mille marines » aux forces armées américaines.
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3) Discours de Greensburg (Pennsylvanie), le 28 mars 2008.
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4) Barack Obama, The Audacity of Hope, Crown, New York, 2006, p. 35.
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Texto de Serge Halimi publicado no site do jornal Le Monde Diplomatique.

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Muito lúcido este artigo de Serge Halimi, no Le Monde Diplomatique. "A esquerda precisa de intelectuais orgânicos"... Que ironia essa frase gramsciana. Porque a esquerda precisa, hoje, é de intelectuais, tão pobre e moribunda se encontra. Basta ver as "torcidas" pró-Barack Obama entre partidecos ditos de esquerda, aqui no Brasil Ah, e tem também a torcida da Rede Globo e do Arnaldo Jabor... Infelizmente, os "dizquerda" já não sabem mais o que é a esquerda. Não leram sobre mais-valia, imperialismo, capitalismo, capitalismo de Estado, enfim, conceitos basilares para a ação política que se deve esperar de grupos que desejam a mudança econômica da estrutura mundial e, por conseguinte, a mudança social. Os governos "de esquerda", hoje, apresentam diferenças cosméticas em relação aos governos "de direita", pois todos servem ao capital. Essa é a verdade. Sempre que penso sobre isso me vem à memória o que falava de modo sempre correto o professor Lauro Campos - esse, sim, um homem que lutou pela esquerda. Voltando ao artigo, finalmente alguém consegue escrever de maneira absolutamente realista sobre o "fenômeno" Barack Obama. Só uns idiotas podem acreditar que ele representa algo de bom para o mundo. Ele é a salvação do mundo capitalista, só isso.

25 de jun. de 2008

do site Jornal Recomeço, edição n. 144

Eduardo Galeano .
Os funcionários não funcionam.
Os políticos falam mas não dizem.
Os votantes votam mas não escolhem.
Os meios de informação desinformam.
Os centros de ensino ensinam a ignorar.
Os juízes condenam as vítimas.
Os militares estão em guerras contra seus compatriotas.
Os policiais não combatem os crimes, porque estão ocupados cometendo-os.
As bancarrotas são socializadas, os lucros são privatizados.
O dinheiro é mais livre que as pessoas.
As pessoas estão a serviço das coisas.

Eduardo Galeano

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FONTE: Site Jornal Recomeço de Glória Reis. Edição nº 144. Acesse.

16 de fev. de 2008

Caros Amigos

Correio Caros Amigos‏
De: Caros Amigos (correiocaros@carosamigos.com.br)
Enviada: sábado, 16 de fevereiro de 2008 6:50:36
Para: maya


Na Caros Amigos de fevereiro:

A entrevista é explosiva com o lingüista MARCOS BAGNO.“É preciso acabar com a cultura do erro”

CONFIRA NAS BANCAS!


Assassinatos políticos no Brasil hoje
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por Natalia Viana, de Londres
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Passado o carnaval, é hora de encarar 2008, ano em que a Declaração Universal dos Direitos Humanos completa 60 anos. E o Brasil já entra na comemoração com um puxão de orelha: segundo relatório lançado pela organização internacional Human Rights Watch, a impunidade segue sendo o principal combustível das violações aos direitos humanos no país. O relatório diz ainda que o governo federal até tem ações em defesa dos direitos humanos, mas falha em não “apontar os responsáveis”.
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O ministro da Justiça, Tarso Genro, protestou, disse que é “óbvio” que há impunidade, mas que a coisa está mudando. Apesar da cara feia, o veredito da HRW é claro: o governo Lula, já no seu segundo mandato, não faz o suficiente para mudar esse quadro.
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Se a impunidade reina, ela é ainda mais grave no caso dos assassinatos políticos de hoje em dia. A cada ano, centenas de militantes dos direitos humanos são vítimas de violência – muitos acabam assassinados – por estarem lutando por direitos expressos na Constituição. Infelizmente, ao permitir que essa rotina siga impune, nosso governo permite que a democracia brasileira continue sendo decidida a bala.
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Isso porque o assassinato político não é só a morte de um militante, é um pouco a morte da causa que ele defende. Seu intuito é refrear a demanda legitima de um grupo representado por aquela pessoa. São os chamados defensores de direitos – no linguajar da ONU – ou militantes de movimentos sociais, tema do livro Plantados no Chão, que publiquei pela editora Conrad no ano passado.
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Conseguimos listar mais de 180 casos de militantes assassinados somente durante o primeiro mandato de Lula. Para cada caso, um resumo, para cada resumo uma nova impunidade. Além disso, o livro relata com detalhe seis casos ocorridos em diferentes contextos – sindicalistas, sem-terras, militantes – dando especial atenção à lentidão judicial e à impunidade que acaba unindo todos eles num único drama.
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Por exemplo, no caso dos conflitos por terra, o livro conta o seguinte: de 1985 a 2006 haviam sido assassinados 1.464 trabalhadores; só 85 casos haviam ido a julgamento, e só 71 executores e 19 mandantes condenados. Desde então, a situação mudou pouco.
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Está na hora de ampliar esse grito de indignação. A partir desta semana, o livro Plantados no Chão estará disponível para download gratuito no site www.conradeditora.com.br.Queremos que o seu conteúdo se espalhe bem mais do que seria possível no formato papel, para que esse debate encontre espaço nos mais diferentes cantos possíveis. Por isso, como autora, peço: baixe o livro, copie, imprima, critique, entre no debate. Espalhe.
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Dá para acabar com esse ciclo de impunidade sim, desde que haja genuína disposicão. A impunidade aos que matam quem defende direitos não pode mais ser, como disse o ministro Tarso Genro, um dado “óbvio”.
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Natalia Viana é jornalista.
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O livro Plantados no Chão pode ser baixado de graça no site www.conradeditora.com.br
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NOTA: Recebi este texto por e-mail. Visite o Site da revista Caros Amigos.

29 de dez. de 2007

L'Afrique dit "non"

Ainsi donc, au grand dam de l’arrogante Europe, l’inimaginable s’est produit : dans un élan de fierté et de révolte, l’Afrique, que certains croyaient soumise parce qu’appauvrie, a dit « non ». Non à la camisole de force des accords de partenariat économique (APE). Non à la libéralisation sauvage des échanges commerciaux. Non à ces ultimes avatars du « pacte colonial ».
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Cela s’est passé à Lisbonne, en décembre dernier, lors du IIe sommet Union européenne - Afrique, dont l’objectif principal était de contraindre les pays africains à signer de nouveaux traités commerciaux (les fameux APE) avant le 31 décembre 2007, en application de l’accord de Cotonou (juin 2000), qui prévoit la fin de la convention de Lomé (1975). Selon celle-ci, les marchandises en provenance des anciennes colonies d’Afrique (et des Caraïbes et du Pacifique) entrent dans l’Union quasiment sans droits de douane, à l’exception de produits sensibles pour les producteurs européens comme le sucre, la viande et la banane.
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L’Organisation mondiale du commerce (OMC) a exigé le démantèlement de ces relations préférentielles, ou alors leur remplacement – seul moyen, selon l’OMC, de préserver la différence de traitement en faveur des pays africains – par des agréments commerciaux fondés sur la réciprocité (1). C’est cette seconde option qu’a retenue l’Union européenne, le libre-échange intégral camouflé sous l’appellation « accords de partenariat économique ».
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Autrement dit, ce que les Vingt-Sept exigent des pays d’Afrique (et de ceux des Caraïbes et du Pacifique (2)), c’est d’accepter de laisser entrer dans leurs marchés les exportations (marchandises et services) de l’Union européenne, sans droits de douane.
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Le président sénégalais Abdoulaye Wade a dénoncé ce forcing et a refusé de signer. Il a claqué la porte. Le président de l’Afrique du Sud, M. Thabo Mbeki, l’a immédiatement soutenu. Dans la foulée, la Namibie a également pris la courageuse décision de ne pas signer, alors qu’une augmentation des droits de douane de l’Union européenne sur sa viande bovine marquerait la fin de ses exportations et la mort de cette filière.
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Même le président français, M. Nicolas Sarkozy, qui avait pourtant eu des mots fort malheureux à Dakar en juillet 2007 (3), a apporté son appui aux pays les plus opposés à ces traités léonins : « Je suis pour la mondialisation, je suis pour la liberté – a-t-il déclaré –, mais je ne suis pas pour la spoliation de pays qui, par ailleurs, n’ont plus rien (4). »
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Cette fronde contre les APE – qui suscitent, au sud du Sahara, une immense vague d’inquiétude populaire ainsi qu’une intense mobilisation des mouvements sociaux et des organisations syndicales – a porté. Le sommet s’est terminé sur un constat d’échec. M. José Manuel Barroso, président de la Commission européenne, a été contraint de céder et d’accepter la revendication des pays africains de poursuivre le débat. Il s’est engagé à reprendre les négociations en février prochain.
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Cette cruciale victoire de l’Afrique est un signe supplémentaire du moment favorable que connaît le continent. Au cours des dernières années, les conflits les plus meurtriers se sont terminés (seuls demeurent ceux du Darfour, de la Somalie et de l’est du Congo), et les avancées démocratiques ont été consolidées. Les économies continuent de prospérer – même si les inégalités sociales demeurent – et sont pilotées par une nouvelle génération de jeunes dirigeants.
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Autre atout enfin : la présence de la Chine, qui, investissant massivement, est sur le point de supplanter l’Union européenne au premier rang des fournisseurs du continent africain, et qui, par ailleurs, pourrait devenir, dès 2010, son premier client, devant les Etats-Unis. Il est loin le temps où l’Europe pouvait imposer de désastreux programmes d’ajustement structurel. L’Afrique se rebiffe désormais. Et c’est tant mieux.
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Ignacio Ramonet.
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(1) Lire Alternatives économiques, Paris, décembre 2007.
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2) Les pays des Caraïbes ont accepté, le 16 décembre 2007, de parapher un APE avec l’Union européenne.
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3) Dans son discours à l’université de Dakar, le 26 juillet 2007, M. Sarkozy avait déclaré : « Le drame de l’Afrique, c’est que l’homme africain n’est pas assez entré dans l’histoire (...), jamais l’homme ne s’élance vers l’avenir. » Lire Anne-Cécile Robert, « L’Afrique au kärcher », Le Monde diplomatique, septembre 2007.
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4) Le Monde, 15 décembre 2007.
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NOTA: este pode ser o começo para uma reviravolta também na África. Vejo aí surtir efeito o Fórum Social Mundial, no qual reafirmamos nossa certeza de que as pessoas são mais importantes que o lucro das empresas reunidas no Foro de Davos. Cá entre nós, Ignácio Ramonet continua brilhante.

19 de out. de 2007

Vladimir Ilyich Lenin [1]

O Materialismo Dialético e o Anarquismo

Não somos dos que quando se menciona a palavra "anarquismo" viram com desdém as costas e, com um gesto de repulsa, dizem: "Tendes a liberdade de ocupar-vos disso; mas não vale sequer a pena falar no assunto!" Julgamos que semelhante "critica" barata é indigna e infecunda. Não somos tampouco dos que se consolam pensando que os anarquistas "não têm apoio de massa" e por isso não são, afinal, tão "perigosos". Não se trata de saber quem é seguido por "massa" maior ou menor", trata-se da substância da doutrina. Se a "doutrina" dos anarquistas exprimir a verdade é obvio então que ela necessariamente abrirá o caminho para si e reunirá em torno de si a massa. Se, pelo contrário, for inconsistente e alicerçada numa base falsa, não subsistirá por muito tempo ou ficará suspensa no ar. A inconsistência do anarquismo deve, portanto, ser demonstrada.

Julgamos que os anarquista são verdadeiros inimigos do marxismo. Por conseguinte, reconhecemos também que, contra inimigos verdadeiros, é preciso travar uma luta verdadeira. E por isso é necessário examinar a "doutrina" dos anarquistas de alto a baixo e colocá-la à prova sistematicamente em todos os aspectos. Mas alem da crítica dos anarquistas é necessária uma explicação da nossa posição e, portanto, uma exposição sumária da doutrina de Marx e Engels. Isso é tanto mais necessário quanto alguns anarquistas difundem uma falsa versão do marxismo e causam confusão na cabeça dos leitores. Metamos, pois, mão à obra. No mundo tudo se move... transforma-se a vida, crescem as forcas produtivas, as velhas relações sociais são destruídas... O eterno movimento e a eterna destruição-criação: tal é a essência da vida (Karl Marx, Miséria da filosofia).

O marxismo não é só a teoria do socialismo; é uma concepção completa do mundo, um sistema filosófico do qual emana logicamente o socialismo proletário de Marx. Esse sistema filosófico chama-se materialismo dialético. Por que esse sistema se chama materialismo dialético ? Porque o seu método é dialético e a sua teoria materialista. Que é o método dialético? Que é a teoria materialista? Diz-se que a vida consiste num incessante crescimento e desenvolvimento, e isso é verdadeiro: a vida social não é algo de imutável e cristalizado, não se detém nunca no mesmo nível, está em eterno movimento, num eterno processo de destruição e de criação. Não era por acaso que Marx dizia que o eterno movimento e a eterna destruição-criação são a substância da vida. Por isso na vida existe sempre o ‘novo’ e o ‘velho’, o que cresce e o que morre e, ao mesmo tempo, incessantemente, sempre, algo nasce... O método dialético diz que é preciso considerar a vida como ela é na realidade. A vida encontra-se em incessante movimento, por conseguinte devemos também considerar a vida no seu movimento, na sua destruição e criação. Para onde vai a vida, que é que morre, que é que nasce na vida, que é que se destrói, que é que se cria, eis que espécie de questões devem antes de mais nada interessar-nos. Tal é a primeira conclusão do método dialético. O que na vida nasce e cresce dia a dia é invencível; deter seu movimento para a frente é impossível; sua vitoria é inelutável. Isto é, se, por exemplo, na vida, o proletariado nasce e cresce dia a dia, então, por mais débil e pouco numeroso que seja hoje, acabará vencendo afinal. Ao contrário, o que na vida morre e vai em direção ao túmulo deve ser inevitavelmente derrotado, isto é, se, por exemplo, a burguesia sente faltar-lhe o chão debaixo dos pés e recua dia a dia, então, por mais forte e numerosa que ela seja hoje, acabará sendo afinal derrotada e baixará ao túmulo. Surge daí a conhecida tese da dialética: tudo o que é real, isto é, tudo o que de dia para dia se desenvolve, é racional. Tal é a segunda conclusão do método dialético.

No penúltimo decênio do século passado, entre os intelectuais revolucionários russos travou-se uma polêmica importante. Os populistas diziam que a forca principal que pode executar a tarefa da "libertação da Rússia" são os camponeses pobres. Por que? - perguntavam os marxistas. Porque, diziam eles, os camponeses são os mais numerosos de todos e, ao mesmo tempo, os mais pobres de todos na sociedade russa. Os marxistas respondiam: é verdade que os camponeses, hoje, constituem a maioria e são muito pobres, mas será acaso esse o problema? Já de há muito constituem os camponeses a maioria, mas até agora, sem o auxilio do proletariado, eles não tomaram nenhuma iniciativa na luta pela "liberdade". E por que? Porque o campesinato, como camada social, "desagrega-se dia a dia", subdividem-se em proletariado e burguesia, ao passo que o proletariado, como classe, "dia a dia se desenvolve" e se fortalece. E aqui neste caso a pobreza não tem uma importância decisiva: os "vagabundos" são mais pobres que os camponeses, mas ninguém dirá que possam executar a tarefa da "libertação da Rússia". A questão é somente ver quem cresce e quem envelhece na vida. E uma vez que o proletário é a única classe que cresce e se fortalece ininterruptamente, é nosso dever colocarmo-nos a seu lado e reconhecê-lo como força principal na revolução russa; assim respondiam os marxistas. Como vedes, os marxistas consideravam a questão de um ponto de vista dialético, ao passo que os populistas raciocinavam metafisicamente, porque consideravam os fenômenos da vida "imutáveis, cristalizados de uma vez para sempre" (vide Engels, Filosofia, economia política, socialismo). Assim o método dialético considera o movimento da vida.

Mas há movimento e movimento. Havia um movimento social nas "jornadas de dezembro", quando o proletariado ergueu a cabeça, assaltou os depósitos de armas e atacou a reação. Mas, se deve chamar movimento social também o movimento dos anos anteriores, quando o proletariado, num período de desenvolvimento "pacifico", limitava-se a greves parciais e à fundação de pequenos sindicatos. É evidente que o movimento possui diversas formas. E o método dialético diz que o movimento tem uma forma dupla: evolução e revolução. O movimento tem a forma de evolução quando os elementos progressistas continuam espontaneamente seu trabalho cotidiano e introduzem na velha ordem pequenas modificações "quantitativas". O movimento é revolucionário quando esses mesmos elementos, dominados por uma só idéia, unem-se e lançam-se contra o campo inimigo, para destruir pela raiz a velha ordem com as suas caraterísticas "qualitativas" e instaurar uma nova ordem. A evolução prepara a revolução e cria o terreno para esta, e a revolução coroa a evolução e contribui para o seu trabalho ulterior.
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Os mesmos processos ocorrem também na vida da natureza. A história da ciência demonstra que o método dialético é um método efetivamente cientifico: por toda a parte - da astronomia à sociologia - encontra confirmação a idéia de que no mundo não há nada de eterno, que tudo se modifica, tudo se desenvolve. Por conseguinte, na natureza, tudo deve ser considerado do ponto de vista do movimento, do desenvolvimento. E isso significa que o espirito da dialética penetra toda a ciência moderna. No que diz respeito às formas do movimento, no que diz respeito ao fato de que, de conformidade com a dialética, as pequenas mudanças "quantitativas" conduzem no final a grandes mudanças "qualitativas", essa lei possui igual valor também na história natural. O "sistema periódico dos elementos" de Mendeleiev demonstra claramente a grande importância que tem na historia natural o fato de surgirem das mudanças quantitativas, mudanças qualitativas. Na biologia, a teoria do neolamarckismo, a que cede lugar o neodarwinismo, atesta a mesma coisa. Dispensamo-nos de referir outros fatos esclarecidos de maneira assaz exaustiva por F. Engels no seu Anti-Duhring. Assim, conhecemos agora o método dialético. Sabemos que, segundo esse método, o mundo se encontra em perpétuo movimento, num perpétuo processo de destruição e de criação e que, por conseguinte, todo fenômeno, seja na natureza como na sociedade, deve ser considerado no seu movimento, no processo de destruição e de criação e não como algo cristalizado e imóvel. Sabemos também que esse mesmo movimento possui uma forma dupla: evolução e revolução...

Como consideram, porem, os anarquistas, o método dialético? O fundador do método dialético, como se sabe, foi Hegel. Marx somente depurou e melhorou esse método. Essa circunstancia também é conhecida pelos anarquistas; sabem eles também que Hegel era conservador e, aproveitando a "ocasião", atacam furiosamente Hegel, arrastam-no na lama como reacionário e partidário da "restauração"; demonstram com ardor que "Hegel é... o filosofo da restauração... que ele exalta o constitucionalismo burocrático na sua forma absoluta, que a idéia geral da sua filosofia da historia "serve à tendência filosófica da época da restauração e é subordinada a esta" e assim por diante (vide Nobati, n. 6, artigo de V. Tcheerkezichvili). Para dizer a verdade, neste ponto ninguém diverge deles, antes todos convém em que Hegel não era um revolucionário, mas partidário da monarquia, porem os anarquistas, apesar disso, "demonstram" e julgam necessário "demonstrar" interminavelmente que Hegel era partidário da "restauração". Com que objetivo? Provavelmente, com o objetivo de desacreditar Hegel com tudo isso e dar a entender ao leitor que também o método do "reacionário" de Hegel é reprovável e não científico. Se assim se passam efetivamente as coisas, se os senhores anarquistas pensam refutar por esse meio o método dialético, devo dizer que eles por esse meio não demonstram outra coisa senão a sua própria ignorância. Pascal e Leibnitz não eram revolucionários, mas o método matemático descoberto por eles é agora reconhecido como método cientifico; Mayer e Helmholtz não eram revolucionários, mas suas descobertas no campo da física tornaram-se uma base da ciência; nem tampouco Lamarck e Darwin eram revolucionários, mas seu método evolucionista criou o fundamento da ciência biológica. Sim, por esse meio os anarquistas demonstraram somente sua própria ignorância.

Continuemos. Segundo os anarquistas, "a dialética é metafísica" (vide Nobati, n. 9 Ch. G.) e uma vez que "desejam libertar a ciência da metafísica, a filosofia da teologia" (vide Nobati, n. 3, Ch. G.), repelem também o método dialético. Ah, os anarquistas! Como se costuma dizer, confundem alhos com bugalhos. A dialética amadureceu na luta contra a metafísica, nessa luta cobriu-se de gloria, e segundo os anarquistas segue-se daí que "a dialética é metafísica"! Proudhon, "pai" do anarquismo, acreditava que no mundo existisse uma "justiça imutável" estabelecida de uma vez para sempre (vide o Anarquismo de Eltzbcher, pags. 64-68, edição estrangeira) e por isso Proudhon era chamado de metafísico. Marx lutou contra Proudhon valendo-se do método dialético e demonstrou que se no mundo tudo muda, deve mudar também a "justiça", e por conseguinte a "justiça imutável" é uma fantasia metafísica (vide Miséria da Filosofia, de Marx). E os discípulos georgianos do metafísico Proudhon tomam posição e "demonstram" que "a dialética é metafísica", que a metafísica admite o "incognoscível" e a "coisa em si" e, em última análise, não passa de uma teologia privada de conteúdo. Em contraposição a Proudhon e a Spencer, Engels, valendo-se do método dialético, lutou quer contra a metafísica quer contra a teologia (vide Ludwig Feuerbach e Anti-Duhring de Engels) e demonstrou a ridícula vacuidade delas. Ao contrario, nossos anarquistas "demonstram" que Proudhon e Spencer eram cientistas e Marx e Engels metafísicos. Das duas uma: ou os senhores anarquistas enganam a si mesmos ou não compreendem o que é a metafísica. Em todo o caso, o método dialético aí não desempenha nenhum papel. Que outra acusação movem os senhores anarquistas contra o método dialético? Dizem eles que o método dialético é um "artificio", um "método de sofismas", um "salto mortal mental e lógico" (vide Nobati, n. 8, Ch. G.), "mediante o qual é igualmente fácil demonstrar o verdadeiro e o falso" (vide nobati, n. 4, V. Tcherkezichvili). À primeira vista, pode parecer que a acusação lançada pelos anarquistas seja justa. Escutai o que diz Engels sobre o adepto do método metafísico: "O seu discurso é se sim, sim, se não, não; tudo quanto ultrapassa isso pertence ao diabo". Para ele uma coisa existe ou não existe; igualmente é impossível que uma coisa ao mesmo tempo ser boa e má?! Isso, na verdade, é uma "sofisma", um "jogo de palavras"; isso significa que "desejais com igual facilidade demonstrar o verdadeiro e o falso..."

Consideremos contudo a essência da questão. Hoje reivindicamos a república democrática; e a república democrática reforça a propriedade burguesa; pode-se dizer que a república burguesa é boa sempre e por toda a parte? Não, não se pode. Por quê? Porque a república democrática é boa somente "hoje", enquanto destruímos a propriedade feudal, mas "amanhã", quando iniciarmos a destruição da propriedade burguesa e a instauração da propriedade socialista, a república democrática já não será mais boa; pelo contrário, se transformará num impecilho que despedaçaremos e repeliremos; e uma vez que a vida está em continuo movimento, uma vez que não se pode operar uma ruptura entre o passado e o presente, uma vez que lutamos simultaneamente não só contra os elementos feudais, como também contra a burguesia, dizemos: na medida em que destrói a propriedade feudal, a republica democrática é boa e nos apoiamos; mas na medida em que reforça a propriedade burguesa, ela é má e por isso a criticamos. Segue-se daí que a república democrática é ao mesmo tempo "boa" e "má" e por isso, à pergunta feita, pode-se responder "sim" e "não". Justamente a esses fatos referia-se Engels quando, com as palavras acima, demonstrava a validade do método dialético. Os anarquistas, porem, não compreenderam isso e tomaram-no por um "sofisma"! Por certo, os anarquistas podem ressaltar ou não ressaltar esses fatos. Podem também não notar a areia em uma praia arenosa: é direito seu. mas o fato é que aqui entra o método dialético que, diferentemente dos anarquistas, não olha a vida com os olhos fechados, escuta o pulsar da vida e diz explicitamente: uma vez que a vida muda, uma vez que a vida está em movimento, todo fenômeno vital tem dois aspectos: positivo e negativo. Devemos sustentar o primeiro e rejeitar o segundo? Que estranha gente os anarquistas: invocam continuamente a "justiça", porém com o método dialético comportam-se de modo muito diferente do justo!

Prossigamos. Segundo os nossos anarquistas, "o desenvolvimento dialético é um desenvolvimento catastrófico, através do qual, em primeiro lugar, se destrói completamente o passado, e depois, de maneira completamente isolada, constrói-se o futuro... Os cataclismas de Cuvier eram gerados por causas desconhecidas, as catástrofes de Marx e de Engels são, ao invés, geradas pela dialética" (vide Nobati, n. 8, Ch. G.). Mas, noutro trecho, o mesmo autor diz que "o marxismo se apoia no darwinismo e tem para este uma atitude acrítica (vide Nobati, n. 6). Atentai bem nisso, leitor! Cuvier nega a evolução darwiniana, admite somente os cataclismos, e o cataclismo é uma explosão inesperada, "gerada por causas desconhecidas". Os anarquistas nos dizem que os marxistas se acusam a Cuvier e por conseguinte rejeitam o darwinismo. Darwin rejeita os cataclismos de Cuvier; admite a evolução gradual. E eis aqueles mesmos anarquistas a afirmar que "o marxismo apóia-se no darwinismo e tem uma atitude acrítica para com este": por conseguinte, os marxistas não são partidários dos cataclismos de Cuvier. Eis o que é o anarquismo! Isso significa, como se costuma dizer, bater com o martelo no próprio dedo! É claro que o Ch. G. do número oito do Nobati esqueceu-se do que havia dito o Ch. G. do número seis. Qual dos dois tem razão? O do sexto ou o do oitavo número? Ou mentem ambos? Consideremos os fatos. Marx diz: "Num determinado grau de seu desenvolvimento, as forças produtivas materiais da sociedade entram em contradição com as relações de produção existentes, isto é, com as relações de propriedade (o que é o equivalente jurídico de tal expressão)..., então sobrevem uma época de revolução social". Mas "uma formação social não perece enquanto não estejam desenvolvidas todas as forças produtivas que nela se contém..." (vide K. Marx, Contribuição à critica da economia política, Prefácio). Se aplicarmos essa idéia de Marx à vida social contemporânea, veremos que entre as modernas forças produtivas, que têm caráter social, e a apropriação dos produtos, que tem caráter privado, existe um conflito fundamental que deve resolver-se com a revolução socialista (vide F. Engels, Anti-Duhring, segundo capítulo da terceira parte). Como vedes, segundo Marx e Engels, a "revolução" (a "catástrofe") não é gerada pelas "causas desconhecidas" de Cuvier, mas por causas sociais totalmente determinadas, que operam na vida e chamadas "desenvolvimento das forças produtivas". Como vedes, segundo Marx e Engels, a revolução se efetua somente quando as forças produtivas estão bastante maduras e não inesperadamente, como parecia a Cuvier. É claro que entre os cataclismos de Cuvier, como também a concepção dialética da revolução, a mudança quantitativa e a qualitativa são duas formas necessárias de um só e mesmo movimento. É evidente que não se pode sequer dizer de maneira alguma que "o marxismo... tem uma atitude acrítica para com o darwinismo". Segue-se daí que o Nobati mente em ambos os casos, tanto no número seis quanto no número oito. E eis esses "críticos" mentirosos a repetir monotonamente e com insistência: queirais ou não, nossa mentira é melhor que vossa verdade. Eles, provavelmente, supõem que aos anarquistas tudo é perdoável. Uma outra coisa os senhores anarquistas não podem perdoar ao método dialético: "A dialética... não oferece a possibilidade nem de sair ou pular para fora de si, nem de saltar por cima de si mesmo" (vide Nobati, n. 8, Ch. G.). Eis que, senhores, tendes totalmente razão: o método dialético não dá essa possibilidade. Mas por que não a dá? Porque "pular para fora de si mesmo e saltar por cima de si mesmo", são ocupações próprias de cabras monteses, e o método dialético, ao invés, é feito para os homens. Eis onde está o segredo! Essas são, de modo geral, as opiniões dos nossos anarquistas sobre o método dialético. É claro que os anarquistas não compreendem o método dialético de Marx e de Engels; elaboraram uma dialética própria e justamente contra ela combatem tão implacavelmente. Não nos resta senão rir diante desse espetáculo, porque como não rir quando se vê um homem que luta contra as próprias fantasias, aniquila suas invenções e ao mesmo tempo afirma com ardor que derrotou o adversário?
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Texto extraído do site http://www.comunismo.com.br/inicialnovaera.html.

NOTA: Os grifos do texto são meus.

18 de out. de 2007

Jacques Prévert [2]

La grasse matinée
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Il est terrible
Le petit bruit de l'oeuf dur cassé sur un comptoir d'étain
Il est terrible ce bruit
Quand il remue dans la mémoire de l'homme qui a faim
Elle est terrible aussi dans la tête de l'homme
La tête de l'homme qui a faim
Quand il se regarde à six heures du matin
Dans la glace du grand magasin
Une tête couleur de poussière
Ce n'est pas sa tête pourtant qu'il regarde
Dans la vitrine de chez Potin
Il s'en fout de sa tête l'homme
Il n'y pense pas
Il songe
Il imagine une autre tête
Une tête de veau par exemple
Avec une sauce de vinaigre
Ou une tête de n'importe quoi qui se mange
Et il remue doucement la mâchoire
Doucement
Et il grince des dents doucement
Car le monde se paye sa tête
Et il ne peut rien contre ce monde
Et il compte sur ses doigts un deux trois
Un deux trois
Cela fait trois jours qu'il n'a pas mangé
Et il a beau se répéter depuis trois jours
Ça ne peut pas durer
Ça dure
Trois jours
Trois nuits
Sans manger
Et derrière ces vitres
Ces pâtés ces bouteilles ces conserves
Poissons morts protégés par les boîtes
Boîtes protégées par les vitres
Vitres protégées par les flics
Flics protégés par la crainte
Que de barricades pour six malheureuses sardines...
Un peu plus loin le bistrot
Café-crême et croissants chauds
L'homme titube
Et dans l'intérieur de sa tête
Un brouillard de mots
Un brouillard de mots
Sardines à manger
Oeuf dur café-crème
Café arrosé rhum
Café-crème
Café-crème
Café-crime arrosé sang !...
Un homme très estimé dans son quartier
a été égorgé en plein jour
L'assassin le vagabond lui a volé
Deux francs
Soit un café arrosé
Zéro franc soixante-dix
Deux tartines beurrées
Et vingt-cinq centimes pour le pourboire du garçon.

Jacques Prévert

NOTE: Jacques Prévert est l'un de mes poètes le plus aimés dans ce monde. J'aime "Barbara": Quelle connerie la guerre... Oui, j'aime Jacques Prévert. J'aime "Déjeuner du matin", "Chanson dans le sang". Je crois même qu'il est avec Dieu, ce terrible athée.

17 de out. de 2007

Vinícius de Moraes [6]

Poema Enjoadinho

Filhos... Filhos?
Melhor não tê-los!
Mas se não os temos
Como sabê-lo?
Se não os temos
Que de consulta
Quanto silêncio
Como os queremos!
Banho de mar
Diz que é um porrete...
Cônjuge voa
Transpõe o espaço
Engole água
Fica salgada
Se iodifica
Depois, que boa
Que morenaço
Que a esposa fica!
Resultado: filho.
E então começa
A aporrinhação:
Cocô está branco
Cocô está preto
Bebe amoníaco
Comeu botão.
Filhos? Filhos
Melhor não tê-los
Noites de insônia
Cãs prematuras
Prantos convulsos
Meu Deus, salvai-o!
Filhos são o demo
Melhor não tê-los...
Mas se não os temos
Como sabê-los?
Como saber
Que macieza
Nos seus cabelos
Que cheiro morno
Na sua carne
Que gosto doce
Na sua boca!
Chupam gilete
Bebem shampoo
Ateiam fogo
No quarteirão
Porém, que coisa
Que coisa louca
Que coisa linda
Que os filhos são!

Vinícius "Poetinha" de Moraes...

O texto acima foi extraído do livro "Antologia Poética", Editora do Autor - Rio de Janeiro, 1960, pág. 195.

Frase do dia!

A utilidade da vida não está na sua extensão, mas no seu uso.
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Montaigne

10 de out. de 2007

Menor esforço e analogia....

Você sabia... que há duas forças poderosas que impulsionam as mudanças na forma das palavras? São elas a lei do menor esforço (ou lei da economia fisiológica) e a analogia. Essas forças sempre atuaram e continuam atuando nas línguas em geral e na portuguesa, em particular.

Os usuários da língua - os falantes - tendem a pronunciar as palavras da forma mais fácil e para isso retiram ou acrescentam sons com o passar do tempo. Foi assim que o latim legenda transformou-se no português "lenda" e spiritu passou a "espírito".

Esse fenômeno continua a acontecer, como podemos observar em para, que se está transformando em "pra" (na língua falada, há muito tempo e já se começa a ver aqui ou ali na escrita). Da mesma forma, pneu já é "peneu" na fala e sua oficialização na escrita é questão de tempo.

A analogia opera com base em formas regulares, que servem de modelo para outras se modificarem. "Os fatos mais comuns e gerais são os que servem de modelo para os outros; raramente se dá o contrário" e "A princípio, as formas analógicas são tachadas de errôneas pelas pessoas instruídas" (COUTINHO, 1958), mas depois muitas acabam por prevalecer. Assim, verbos como impedir e despedir - que ainda no século XVII eram conjugados no presente do indicativo como "eu impido", "eu despido" -, por analogia com pedir, com o qual nada têm a ver, passaram a "impeço", "despeço", etc. Da mesma forma, o latim stella deveria ter originado a forma portuguesa "estela" (existe uma "estela" - coluna de pedra -, mas que tem outra origem), mas deu "estrela". Esse "r" apareceu por analogia com "astro".

A analogia continua agindo, mais bem observada na linguagem inculta e na das crianças. Quando um pequenino diz fazi em vez de "fiz", está se baseando em outro verbo da mesma conjugação, por exemplo, "correr". Dessa maneira, correr está para corri assim como fazer está para... fazi, claro. O falante inculto usa "ponhar", em vez de "pôr", por analogia com verbos de sonoridade parecida da primeira conjugação, terminados em "ar" (que são a maioria), como "sonhar". Portanto, sonho está para sonhar assim como ponho está para... ponhar.
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4 de out. de 2007

Ponto de vista... USP: UNIVERSIDADE EM (discrimin)AÇÃO!

Trecho de texto da seção Opinião de RAÇA (Ponto) da revista Raça ano 11, nº 114, p. 14. Texto de Maurício Pestana, presidente do Conselho Editorial da revista Raça Brasil. O bom é que há outro texto, contrário a esta posição: O Contraponto. É de José Roberto Ferreira Militão, advogado, membro da Comissão de Negros CONAD-OAB/SP, ex-secretário geral do Conselho da Cominidade Negra do estado de São Paulo.

veja: como no tempo dos nossos avós

(...)

Diante da irredutível e míope visão dos detentores do poder, acabamos sendo o último país do mundo a abolir a escravidão.

Assistimos na atualidade os descendentes daqueles retrógrados pensamentos mais ferozes, pois hoje contam a seu dispor com poderosíssimos instrumentos de persuasão, entre eles os meios de comunicação de massa, para aniquilar qualquer diálogo sobre ações afirmativas, entre os quais o sistema de cotas ou qualquer alternativa de reparação.

Olhem para a USP, a mais elitizada universidade do País, onde apenas 1,3% dos alunos são negros (dados da própria universidade). E o mercado de trabalho? No Brasil um trabalhador negro recebe em média a metade do salário de um trabalhador branco (dados do Dieese). Observe nos noticiários de TV a cor daqueles que estão morrendo nos morros cariocas e nas periferias das grandes cidades, a ponto de alguns órgãos oficiais falarem em genocídio da juventude masculina negra entre 15 e 24 anos, em que a taxa de mortalidade é 73,1% superior à da juventude branca. Dados da Unesco em 2006.

(...)

Trecho de texto de Maurício Pestana, presidente do Conselho Editorial da revista Raça Brasil.

O texto inteiro é muito bom. Desmistifica muita coisa aí... Como diz uma amiga, ela mesma negra, quem melhor diferencia branco de negro neste país não são os critérios genéticos: é a Polícia Militar. Bingo! Recomendo a todos comprar a revista. Está nas bancas. Outra coisa: escrevi o nome da revista veja, no título, em caixa baixa (na revista Raça está em caixa alta, a inicial). Mas neste Blog, daqui pra frente, tudo será diferente... Brincadeirinha: a revista veja, exceção, é escrita somente em caixa baixa, baixíssima...

3 de out. de 2007

A UnB e as cotas: Entrevista com o reitor, Timothy.

Para ampliar, clique na imagem.

NOS ÚLTIMOS MESES O SENHOR E A UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA - UnB, TÊM ESTADO NO OLHO DO FURACÃO COM RELAÇÃO ÀS QUESTÕES RACIAIS E O SISTEMA DE COTAS. AS CRÍTICAS VÊM DE TODOS OS LADOS, PRINCIPALMENTE DOS GRANDES VEÍCULOS DE COMUNICAÇÃO DO PAÍS. COMO O SENHOR VÊ ISSO?
Os ataques ao sistema de cotas da UnB surgiram desde que começamos a discutir o assunto. Eles se devem por termos sido a primeira universidade federal do Brasil a criar o sistema de ações afirmativas. Hoje são mais de 17 federais e inúmeras em outras instâncias do estado brasileiro, por isso somos os principais alvos dos ataques pelos setores mais conservadores desta nação.

O SENHOR ESPERAVA ESSA REAÇÃO? QUEM SÃO ESSES SETORES?
Esperava uma ou outra reação, mas o que me surpreendeu foi a violência dos ataques que partiram de setores acadêmicos e principalmente dos grandes jornais, de revistas e até da televisão, enfim, setores da mídia brasileira.

O SENHOR FALA EM VIOLÊNCIA, COMO ASSIM?
Falo em violência porque uma coisa é você ser contra ou a favor do sistema de cotas deste ou daquele modo; você pode também ser contra qualquer tipo de ação afirmativa por uma questão de princípio, mas a violência dos ataques mostra um sentimento de hostilidade a qualquer gesto que vise resolver o gravíssimo problema de exclusão dos negros no Brasil.

ESSA VIOLÊNCIA PODE SER INTERPRETADA COMO RACISMO DESSES SETORES?
Acho que essa interpretação tem que ser mais bem estudada e analisada por sociólogos e antropólogos que tentam compreender as origens do conservadorismo brasileiro, mas é interessante que não exista a mesma reação violenta com relação ao encaminhamento a programa de ações afirmativas de outros grupos historicamente discriminados, como mulheres, índios, portadores de necessidades especiais e homossexuais. As questões desses grupos são vistas muitas vezes até com aplausos. Veja a parada gay em São Paulo, foi manchete em vários jornais do país como uma coisa positiva, o que é muito bom, mas quando falamos em abrir as portas de instituições e acesso aos bens públicos mais valiosos, como é o caso da Educação para a população excluída, a reação é brutal, é violenta e isso precisa ser mais bem estudado e compreendido.

ESSES ATAQUES E ESSA VIOLÊNCIA NÃO ESFRIAM OS ÂNIMOS?
A imprensa certamente faz a cabeça das pessoas no Brasil. O poder da mídia é gigantesco, porém neste caso, apesar de simbolicamente a UnB ser a primeira peça do dominó por sua importância estratégica, só temos avançado; exemplo: um mês e pouco depois do último ataque que veio da revista veja [inicial minúscula por iniciativa e convicção da dona deste Blog] no caso dos gêmeos, mais quatro ou cinco universidades federais seguiram o caminho da UnB e adotaram ações afirmativas, ou seja, o pensamento segue mesmo com toda a violência no sentido de nos humilhar como instituição e seus dirigentes. No meu caso, o lado que sentimos que absorveu mais essas críticas foi o Congresso Nacional: existem lá leis muito importantes para expansão das cotas, mas sentimos um certo recuo e um desânimo dos congressistas.

POR FALAR EM REVISTA veja [idem], COMO FOI LIDAR COM AQUELA EXPLOSIVA MATÉRIA DE CAPA DA REVISTA?
O ataque partiu inicialmente da família, que pegou um resultado parcial, foi para a mídia e isso foi um grande alento para as forças conservadoras, mas o fato é que o processo ainda não havia sido concluído, tinha um recurso ainda sendo analisado. O sistema de cotas na UnB existe há três anos e até hoje somente com uma ação na justiça é que fomos parcialmente vencidos, mas que ainda está passiva de recurso. No caso dos gêmeos eles entraram nas cotas como uma aventura: um dizendo ser negro e outro branco. Isso é falsidade ideológica, passivos inclusive de serem processados. O sistema de cotas não é uma loteria; ele existe para dar as mesmas oportunidades para cidadãos que são discriminados pela cor de sua pele ou por origem ancestral escrava, e isso tem que ser levado a sério. A verdade é que nosso sistema de avaliação é muito bem-feito, o que acontece é que algumas pessoas se inscrevem no sistema de cotas por brincadeira e por isso eles ainda estavam sendo avaliados.

PARA ALGUNS INTELECTUAIS, INCLUSIVE NEGROS, A DENOMINAÇÃO "RAÇA" TAMBÉM É RACISTA E CONTRIBUI COM O SISTEMA RACISTA DE EXCLUSÃO. O QUE O SENHOR ACHA DISSO?
Isso é uma tentativa de mudar o eixo da discussão para o plano genético. É de uma desonestidade intelectual brutal, porém ela tem espaço nos campos acadêmicos e precisa ser esclarecida. Quando falamos raça negra no sentido sociológico, não tem nada a ver com a genética, e sim com pessoas sendo discriminadas na sociedade, é racismo! E isso não tem nada a ver com aquele racismo de Hitler que se propagava como uma supremacia de raça. Existe gente mal intencionada que deseja confundir as coisas. Temos que esclarecer a sociedade para essas armadilhas.

O BRASIL RECENTEMENTE FOI MANCHETE DE PRIMEIRA PÁGINA EM VÁRIOS PAÍSES AFRICANOS, PELOS ATAQUES RACISTAS A ESTUDANTES DAQUELE CONTINENTE. EM SUA UNIVERSIDADE, OS ESTUDANTES O ACUSAM DE TER SIDO LENTO NAS APURAÇÕES. O QUE FOI FEITO E CADÊ OS CULPADOS?
É natural o desejo de justiça imediata. É meu desejo também, mas a justiça brasileira é lenta, temos uma investigação em andamento na qual estão a polícia federal e a polícia civil. Neste caso temos duas polícias, porque temos dois crimes: um contra o patrimônio público federal e possivelmente crime de racismo e xenofobismo, já que os ataques se deram somente contra africanos; temos uma investigação também sendo feita pela universidade; houve até coleta de DNA, porém essas investigações são lentas. Estamos trabalhando para punir os rsponsáveis o mais breve possível.

O SENHOR E A UnB FORAM DURAMENTE CRITICADOS QUANDO PELA PRIMEIRA VEZ NA HISTÓRIA DA UNIVERSIDADE SE AFASTOU UM PROFESSOR POR PRÁTICAS DISCRIMINATÓRIAS. COMO FOI ISSO?
O professor punido tem muito acesso à mídia. Ele é um cientista político famoso e consultor político, freqüentemente está na mídia, então era natural que ele utilisasse esse espaço para se defender. Nossa universidade não tem tradição de jogarmos ao vento os processos disciplinares e por isso mais uma vez fomos atacados de forma desigual.

NA ÉPOCA FALOU-SE MUITO NA MÍDIA EM "LIBERDADE DE CÁTEDRA" DO PROFESSOR, QUE NÃO FOI RESPEITADO.
O que se discutiu naquele caso foi o direito de cada indivíduo. Você não pode, só porque é professor, ofender ou pisotear na sala de aula seus alunos por serem negros ou pertencerem a qualquer grupo social que não seja o seu. Isso é falta de humanidade e de profissionalismo e foi por isso que o professor foi condenado, porque violou as normas do serviço público. Não censuramos o professor e nehum professor da UnB; cada um aqui tem o direito de ser marxista; de ser de direita ou esquerda, ou seja lá o que for. Só não tem o direito de humilhar nenhum aluno ou grupo social, pois isso é violar as normas do serviço público.

PROVAVELMENTE SUA FAMÍLIA E SEU CÍRCULO DE AMIGOS DEVEM SER TODOS BRANCOS. COMO ELES ASSITEM A SUA LUTA E OS ATAQUES QUE NO SENHOR TEM RECEBIDO POR SER DEFENSOR DE AÇÕES AFIRMATIVAS PARA NEGROS?
Muita gente que não aparece e não se manifesta publicamente são brancos e solidários à minha luta; o sentimento é de que esta luta é uma luta pelos direitos humanos, pela inclusão social. Minha família tem sido inteiramente solidária; há preocupação, sim, pela regularidade com que sou atacado pela mídia, mas se tranqüilizam, pois compreendem que estou trabalhando em algo que é urgente no país: a inclusão social no sentido amplo e irrestrito! Aqueles que são contra qualquer tipo de ação neste sentido, imaginando que um país de paz e tranqüilidade será possível sem esses avanços, estão enganados. O Brasil do jeito que está, com essa exclusão toda, vai explodir a qualquer momento, é só uma questão de tempo. O que esses setores não entendem é que estamos dando uma opção diferente para essa explosão iminente. É nossa missão dar oportunidade para as pessoas que vão assegurar nosso futuro como sociedade, como seres humanos, sem que simplesmente caiamos na barbárie. E minha família e meus amigos entendem isso!

QUAL O MAIOR RISCO QUE O SENHOR VÊ PARA AS AÇÕES AFIRMATIVAS HOJE NO BRASIL?
A injustiça e a desigualdade são tão gigantescas que existe uma pressão muito grande dos movimentos negros para que haja avanços em ritmos acelerados. A resistência na sociedade branca também é muito grande e, quando estamos entre esses dois pólos, aí vem o desafio: como avançar na igualdade de maneira a asegurar continuidade e evitar que em algum momento aconteçam falhas, pois aí o outro lado estará pronto a dizer: "Está vendo, isso está errado", como no caso dos gêmeos. Então, para quem está no meio, é como se estivéssemos caminhando na direção de uma navalha e tivéssemos que fazer de tudo para desviar. Por isso o aconselhamento com o pessoal do movimento negro, o pessoal dos direitos humanos e da academia é vital para não errarmos, mas o risco é sempre iminente.

COMO O SENHOR DESEJA SER AVALIADO DAQUI A 10 OU 20 ANOS?
Desejo que eu e a UnB sejamos avaliados como quem produziu vitórias permanentes para a sociedade brasileira.

NA SUA OPINIÃO, O QUE O PAÍS DEVERIA FAZER PARA ACABAR COM A BRUTAL DESIGUALDADE ENTRE BRANCOS E NEGROS?
Existem várias experiências no mundo, como é o caso da África do Sul e dos estados Unidos, que aplicaram soluções de longo alcance: algumas evidentes, como oferecer escolas de boa qualidade a seus cidadãos e a todos os grupos sociais nas periferias, nas favelas. Em todo lugar, a Educação é um grande emancipador e a qualidade da Educação no Brasil é um instrumento de exclusão, porque ela se distribui de forma totalmente heterogênea. Então os grupos sociais que têm acesso à Educação de boa qualidade levam vantagem diante dos demais; outra forma seria espalhar as ações afirmativas por toda a sociedade. É mais fácil aplicar ações afirmativas no setor privado que no setor público, as empresas têm que assumir esta responsabilidade; elas têm que aplicar no processo seletivo de seus funcionários e diretores, ajudando assim a diminuir e até a acabar a diferença entre negros e brancos no país. Está comprovado que essas ações inclusive aumentam a produtividade e a criatividade.

QUE CONSELHOS O SENHOR DARIA PARA JOVENS ALUNOS COTISTAS QUE EM BREVE SAIRÃO DA UnB E VÃO ENCONTRAR UM MERCADO DE TRABALHO SEM COTAS E PROVAVELMENTE SERÃO QUESTIONADOS POR TEREM SIDO COTISTAS?
O diploma e a formação deles são iguais aos de qualquer aluno aqui na UnB. A diferença foi o acesso que lhes era negado pela discriminação histórica no Brasil. Eles aqui dentro e fora serão distinguidos, não existem nenhuma proteção ou tratamento diferenciado quando eles forem para o mercado de trabalho. Levarão uma grande vantagem : o diploma de uma universidade respeitada em todo o país e isso não será mais um privilégio apenas de uma grande maioria branca.

QUAL O SEU SENTIMENTO DEPOIS DESSES ANOS TODOS DE LUTA?
É o sentimento de ganho e de que a causa dos direitos humanos não se larga. A forma de abordar a metodologia pode variar, mas a cara da universidade neste país mudou e este é um avanço para o Brasil!

Entrevista concedidà à revista Raça ano 11, nº 114, p. 10-12.

26 de set. de 2007

Caros Amigos [21]

Duas opiniões ilustres e ilustradas:
Laerte e Angeli.

Laerte, desenhista: "É uma idiotice de madame"

Eu me acho medíocre em relação a essa tarefa de analisar se o momento do Brasil é medíocre. Primeiro porque me falta ferramenta pra fazer esse tipo de análise. Medíocre em relação ao quê? Qual período? Anos 1950 talvez? Quer dizer, grande profusão de idéias, Bossa Nova e tal. Mas quem disse que a Bossa Nova é melhor que o rap? O esplendor do Oscar Niemeyer. Mas quem disse que o Niemeyer criou alguma coisa que preste?

Tenho encontrado pessoas preocupadas dentro da literatura, do cinema, dos quadrinhos. Há um movimento de busca. Classificar esse movimento como de mediocridade é meio bater um martelo na cabeça de um monte de gente que está aí sinceramente e h0nestamente buscando caminhos. Talvez a gente possa estar entrando num beco sem saída.

No humor, existem áreas de redundância, de chover no molhado, gente trabalhando com clichê e tal. Mas também existem lampejos e raios de coisas novas. O que o Angeli vem fazendo nas charges me parece absolutamente novo e indicador de direção.

Tem horas que bate um cansaço, uma insatisfação. Meus mestres, fontes, inspirações, essas coisas se esgotaram e saí em busca. Não achei ainda.

Esse momento é o resultado do que sstá acontecendo, na minha vida e no mundo. Mas não vejo como estagnação.

O Cansei é coisa de rico, se reúnem, tomam uns uísques, ligam para o Nizan Guanaes, e pronto: nasceu um movimento. Isso é coisa do d'Urso. Duvido que represente a maioria dos advogados do Brasil. Não é nem golpista, é mediocre demais para ser golpista, é uma idiotice de madame, é coisa de poodle, passa na Hebe. Não é à toa que o cara [João Dória] é o mesmo que fez a Cacherrata em Campos do Jordão. Não tem importância isso não.

Mas também existe uma quantidade de jovens perguntando como é a profissão de cartunista do ponto de vista de segurança, se tem seguro-saúde, como vai ser a aposentadoria. Um garoto de 17, 18 anos, se preocupando com isso é chocante.

Angeli, chargista: "As pessoas estão interessadas em coisas fúteis"


Estar cansado hoje em dia é bem natural. A gente pegou um país que foi aos poucos emburrecendo, ou rapidamente. Um período estranho. Mas acho engraçado a Hebe Camargo, que defendeu o Maluf a vida toda, agora fazer parte da campanha para moralizar alguma coisa. Ao mesmo tempo, essas coisinhas pequenininhas, pela moral, e no passado resultou num golpe, acho isso perigoso.

Eu sigo o blog que reproduz minhas charges e lá tem comentários. Parece que as pessoas estão atônitas. Conseguem enxergar só uma cor. Uma crítica ao Lula, e você é execrado. Uma crítica à direita, e os direitistas te execram. E esquecem o que fiz no dia anterior. Não percebem que não estou ali fazendo campanha nenhuma. Estou fazendo críticas, é a função da charge. Charge a favor nem existe. É gozado. E não é só comigo que acontece.

Não sei o que a esquerda quer e o que a direita está querendo. Essa gana aparecia em épocas de eleição, só que agora parece que dura mais. O Fora Lula, um absurdo, ele foi eleito, tem que respeitar, é democracia. O procurador da República denunciou 37 elementos ligados ao governo, quer dizer, as coisas funcionam. Mas parece que do lado oposto, a direita, eles querem em praça pública puxar pela barba o Lula e jogar na fogueira.

Essa elite tem que fazer uma revisão da postura dela para sair à rua para protestar. Uma charge minha falou isso, é como briga de quadrilha. Uma perdeu o espaço e está brigando com outra. Tenho aversão a esse tipo de movimento, muito medo, senhoras de Santana, peruas da Daslu, tudo isso é pra mim o excremento do pensamento político.

Vem de longe, de vícios da ditadura militar, daquela coisa mofada do Sarney, da coisa provinciana do Itamar, do autoritarismo do Collor, misturando tudo dá a política que a gente vive hoje. E contamina a imprensa. As pessoas estão interessadas em coisas fúteis, quem está comendo quem, o novo namorado da menininha que eu nem sei o nome. Sinto isso não só no Brasil, o mundo está medíocre, a reeleição do Bush é um exemplo. E nesse movimento todo incluo a esquerda também, pessoas que hoje são apenas caricaturas da esquerda.

Acho medíocre tudo isso, não leva a uma discussão inteligente, não se discute de maneira inteligente a política.

Textos publicados na revista Caros Amigos ano XI, nº 126, setembro/2007, Angeli na p. 31 e Laerte na p. 34. Ilustrações retiradas da web (ver site).

NOTA: OK, eu amo esses dois. Só acho que o Angeli colocou a questrão do Fora Lula como se isso fosse um pecado capital. Não, não é. Muito bem, o Collor saiu por menos que qualquer escândalo que o Lula nos proporciona. E eu fui pra rua, em BsB, brigar pro Collor sair. Mas, me digam: O que o Lula tem feito, realmente, pra reduzir a imensa desigualdade social do Brasil? Os bancos deixaram de lucrar horrores em cima da raia miúda? Os empresários, a Bolsa, os "investidores"... Estão todos muito bem, obrigado... O "Cansei" é um movimento de egos inflados. Ver o governo Lula como um efetivo fracasso para o povo é uma possibilidade, diante das estatísticas, dos dados, da violência, da natureza morrendo, da concentração de renda -- que não diminuiu -- etc. Sim, em relação à Daslu... eu prefiro a griffe Daspu. Transparência total e legitimidade... Diga não à pirataria, Daslu é pirataria. Daspu é como Havaianas: legítima.
:)

Caros Amigos [20]

Cansei

Creio que estamos perdendo muito tempo e preocupação com algo que se exauriu por si só. Devemos ficar atentos. Não devemos ignorar que, ao mesmo tempo em que condenamos qualquer tentativa de golpe, devemos deixar claro que o governo tem sido tímido na execução dos projetos sociais. Que ele escolha definitivamente um lado. Ele sabe com quem pode e não pode contar. Numa sociedade cuja cultura ainda é feudal e onde o exemplo das capitanias hereditárias é praticado diariamente, está mais do que na hora de uma ação objetiva. A ação é sempre mais importante que o discurso. É preciso decidir.

Esse é um sistema que produz a cada dia centenas de milhares de novos escravos, que nada mais são do que os excluídos, que vivem pior do que animais, já que estes não têm problemas com moradia ou alimentação. Alguém já viu uma ave sem ninho? Ou uma raposa sem toca? Seres humanos sem teto há aos milhões. Já é hora de agir. Sem discursos, piadas e metáforas.

A necessidade está matando a esperança. Se é que já não matou. Já não se trata mais do o que fazer? A questão agora é assumir a liderança ou ir a reboque.

É claro que seria ingênuo supor que um sistema planmetário vai permitir qualquer mudança substancial sem que haja uma ruptura. A História é cheia de exemplos. Ruptura exige sacrifícios. Ninguém vai entregar os anéis em nome da solidariedade num sistema que faz da exploração e da exclusão prioridade única. Ninguém vai rasgar o mísero papel que lhe dá direito a latifúndios sem fim em nome da solidariedade. Ninguém vai compartilhar sua empresa com os funcionários só porque eles são a verdadeira razão da existência dessa empresa.

A questão que se coloca é simples. Haverá coragem para a ruptura? Ou é mais fácil deixar tudo como está para ver como é que fica? Em todo o mundo, o que se vê é o sistema ruindo. E, se nada for feito, o planeta vai ruir com ele.

Texto de Geoges Bourdokan, jornalista e escritor, publicado na revista Caros Amigos ano XI, nº 126, setembro/2007, p. 40.
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NOTA DA MAYA: A revista Caros Amigos de setembro/2007 dedicou-se quase que inteiramente a analisar o movimento "Cansei".
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O movimento "Cansei" foi uma manifestação cívica e nacionalista, de caráter direitista, que se propunha a dizer: "Cansei" ao governo Lula. Madames, playboys, socialáites, mauricinhos e patricinhas made in Daslu, que nunca pisaram em um ônibus, nem fizeram fila em banco, nem passaram fome, nem precisaram de um hospital público, nem dormiram na rua, nem fizeram greve ou apanharam da PM participaram do "Cansei".
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O "movimento" foi em São Paulo. Ninguém pôde atirar ovos podres nos manifestantes, pois os manifestantes eram os que normalmente atiram ovos podres. Foi um sucesso.
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E a revista Caros Amigos perde seu tempo analisando o "movimento". Gasta seu papel. O Brasil se f%$&*endo e a gente dando holofotes pro "Cansei". O Governo Lula, que me desculpem os moderninhos e os atrasadinhos, é uma m.. Isso, graças a Deus, quase todo mundo já viu, mesmo aqueles que não se cansaram.
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Eu, que sou professora, moro no Maranhão, ajudei a eleger o Lula -- desde 89! -- e tô com "Nunca, na história deste país..." até a tampa, não me cansei. Mas estou quase vomitando. Sim, é isso. Vou lançar o movimento "Vomitei".

19 de set. de 2007

Marcos Bagno [4]


Mito nº 8

"O domínio da norma culta é um instrumento de ascenção social"
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Este mito, que vem fechar nosso circuito mitológico, tem muito que ver com o primeiro, o mito da unidade lingüística do Brasil. Esses dois mitos são aparentados porque ambos tocam em questões sociais. É muito comum encontrar pessoas muito bem-intencionadas que dizem que a norma padrão conservadora, tradicional, literária, clássica é que tem de ser mesmo ensinada nas escolas porque ela é um "instrumento de ascenção social". Seria então o caso de "dar uma língua" àqueles que eu chamei de "sem-língua"?

Ora, se o domínio da norma culta fosse realmente um instrumento de ascenção na sociedade, os professores de português ocupariam o topo da pirâmide social, econômica e política do país, não é mesmo? [grifo meu] Afinal, supostamente, ninguém melhor do que eles domina a norma culta. Só que a verdade está muito longe disso como bem sabemos nós, professores, a quem são pagos alguns dos salários mais obscenos de nossa sociedade. Por outro lado, um grande fazendeiro que tenha apenas alguns poucos anos de estudo primário, mas que seja dono de milhares de cabeças de gado, de indústrias agrícolas e detentor de grande influência política em sua região vai poder falar sua língua de "caipira", com todas as formas sintáticas consideradas "erradas" pela gramática tradiconal, porque ninguém vai se atrever a corrigir seu modo de falar.

O que estou tentando dizer é que o domínio da norma culta de nada vai adiantar a uma pessoa que não tenha todos os dentes, que não tenha casa decente para morar, água encanada, luz elétrica e rede de esgoto. O domínio da norma culta de nada vai servir a uma pessoa que não tenha acesso às tecnologias modernas, aos avanços da medicina, aos empregos bem remunerados, à participação ativa e consciente nas decisões políticas que afetam sua vida e a de seus concidadãos. O domínio da norma culta de nada vai adiantar a uma pessoa que não tenha seus direitos de cidadão reconhecidos plenamente, a uma pessoa que viva numa zona rural onde um punhado de senhores feudais controlam extensões gigantescas de terra fértil, enquanto milhões de famílias de lavradores sem-terra não têm o que comer.

Achar que basta ensinar a norma culta a uma criança pobre para que ela "suba na vida" é o mesmo que achar que é preciso aumentar o número de policiais na rua e de vagas nas penitenciárias para resolver o problema da violência urbana.

A violência urbana está intimamente ligada a uma situação social de profunda injustiça, que dá ao Brasil, como eu já disse, o triste segundo lugar entre os países com a pior distribuição de renda de todo o mundo, perdendo apenas para Botswana, um país africano desértico, muito menor e muito menos desenvolvido.

É preciso garantir, sim, a todos os brasileiros o reconhecimento (sem o tradicional julgamento de valor) da variação lingüística, porque o mero domínio da norma culta não é uma fórmula mágica que, de um momento para outro, vai resolver todos os problemas de um indivíduo carente. É preciso também garantir o acesso à educação em seu sentido mais amplo, aos bens culturais, à saúde e à habitação, ao transporte de boa qualidade, à vida digna de cidadão merecedor de todo respeito.
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Como é fácil perceber, o que está em jogo não é a simples "transformação" de um indivíduo, que vai deixar de ser um "sem-língua padrão" para tornar-se um falante da variedade culta. O que está em jogo é a transformação da sociedade como um todo, pois enquanto vivermos numa estrutrura social cuja existência mesma exige desigualdades sociais profundas, toda tentativa de promover a "ascenção social" dos marginalizados é, senão hipócrita e cínica, pelo menos de uma boa intenção paternalista e ingênua.

Por isso eu me pergunto: será que "doando" a língua padrão a um indivíduo das classes subalternas ele vai, automaticamente, tornar-se um patrão? Não é mera coincidência etimológica o fato de padrão e patrão serem duas formas divergentes de uma mesma origem comum: o latim patronu-, que tem também a mesma raiz de paternalismo e patriarcalismo.
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Valerá a pena promover a "ascenção social" para que alguém se enquadre dentro desta sociedade em que vivemos, tal como ela se apresenta hoje? Basta pensar um pouco nos indivíduos que detêm o poder no Brasil: não são (quando são) apenas falantes da norma culta, mas são sobretudo, em sua grande maioria, homens, brancos, heterossexuais, nascidos/criados na porção Sul-sudeste do país ou oriundos das oligarquias feudais do Nordeste.

Como eu já tinha avisado na abertura do livro, falar da língua é falar de política, e em nenhum momento esta reflexão política pode estar ausente de nossas posturas teóricas e de nossas práticas de cidadão, de professor e de cientista. Do contrário, estaremos apenas contribuindo para a manutenção do círculo vicioso do preconceito lingüístico e do irmão gêmeo dele, o círculo vicioso da injustiça social.

Marcos Bagno, em Preconceito lingüístico -- o que é, como se faz. São Paulo: Edições Loyola, 1999, pp. 69-72.
A militância de Bagno contra toda forma de exclusão social pela linguagem se tornou mais conhecida depois da publicação do livro Preconceito lingüístico: o que é, como se faz (Ed. Loyola) que, desde seu lançamento, em 1999, vem sendo reeditado de modo ininterrupto e constante, com uma edição nova a cada mês. [Extraído do site de Marcos Bagno: http://www.marcosbagno.com.br/ ]

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