Creio que não existe nada de mais belo, de mais profundo, de mais simpático, de mais viril e de mais perfeito do que o Cristo; e eu digo a mim mesmo, com um amor cioso, que não existe e não pode existir. Mais do que isto: se alguém me provar que o Cristo está fora da verdade e que esta não se acha n'Ele, prefiro ficar com o Cristo a ficar com a verdade. (Dostoievski)

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5 de out de 2007

Micos, ou: Guarde o seu coração... (versão ilustrada)

De vez em quando me lembro de algumas coisas que já fiz e acho graça. Às vezes morro de rir, dependendo da lembrança. Quer rir de alguém? Olhe-se no espelho. Porque todos já pagaram mico, e necessitam da graça de Deus... Logo que cheguei a Paris conheci a Adela, uma filipina que fazia faxina na casa onde fiquei.

Tentávamos conversar, com muita mímica, até o dia em que ela viu um colar do qual pendia uma cruz. Então, pronto, éramos cristãs. Ela me convidou a conhecer sua igreja. Era uma igreja de maioria filipina. Os filipinos, quase sempre, são ilegais em Paris, já que seu país não mantém nenhuma ligação diplomática com a França. As pessoas eram muito simpáticas, sempre havia um almoço no final do culto (era pela manhã) e eles comiam de tudo: Misturavam porco com caranguejo, as coisas mais esdrúxulas. E ficava tudo uma delícia, tenho saudades.

O culto era todo em inglês, o que, devo confessar, não era tão fácil - não só pelo sotaque forte, que para mim fazia o inglês ficar bem difícil, como também pelo fato de que vivia imersa em um mundo francês e precisava mudar o registro sempre que chegava à igreja. Mas o que quero ressaltar, aqui, é que no final de todos os cultos o pastor - ou bispo, ou apóstolo, ou diácono - (nessa igreja tinha cargo para todos) gritava bem alto: "Hey, man!"

Ficava me perguntando o porquê de ele dizer sempre isso. Mas, sinceramente, tinha vergonha de perguntar o que me parecia óbvio. Todo mundo entendia, e repetia junto, depois dele: "Hey, man!" Logo achei que essa devia ser uma saudação típica das Filipinas. E que o pastor a repetia para encorajar os fiéis. Fazia sentido: "Ei, você que está na ilegalidade, que tem uma vida difícil em Paris, levante-se! Hey, man!"

Depois fiquei pensando que esse tal "homem" deveria ser Jesus. Fazia mais sentido ainda: "Hey, man, eu estou aqui!" Então eu também gritava: "Hey, man!"

Mas um dia, mais do que curiosa e não satisfeita com minhas hipóteses (afinal, quem era, de verdade, este homem?), perguntei a Adela quem era o cara. E ela me disse, então, que não havia "man" nenhum, mas sim "Amen!". OK, fiquei com vergonha, mas depois, em casa, ri até ficar com dor de barriga. Semana inteiras e eu pensando neste tal "man". Quem seria? Por que essa saudação a ele? Seria Jesus? Seria cada ser humano ali, em estado de reflexão, com suas melhores roupas para um culto de domingo? Assim como este há muitos micos. Uma vez disse a uma professora da universidade, numa confraternização, que seus netos eram uma gracinha. Queria ser simpática, mas ela me disse que não eram seus netos, mas filhos. Acho que vou inaugurar um marcador novo: Micos.

No final das contas, o que quero dizer é: Não se leve tão a sério. Do dia pra noite você passa desta para outra, e (não) vê que passou a vida se preocupando com o que os outros iriam pensar, em vez de ser feliz agora, hoje. Guarde o seu coração. Guarde na alegria, porque já existem motivos de sobra para a tristeza. E só com alegria podemos tentar mudar o mundo. Sou uma pessoa de pavio curto, às vezes. Sou dramática, pareço personagem de ópera (Lá eu me imagino cantando numa ópera... Ô mente fértil!) Nada melhor pra rir de mim mesma que me lembrar disso. É fácil descomplicar? Eu complico. Só rindo, mesmo. Aí, descomplica. Não é esta uma filosofia de "Polyanna"... Mas devo admitir que eu amei os dois livros, que li quando tinha uns nove anos pra dez. Coisas simples, que eu desaprendi nos anos que se passaram. Há pessoas que se preocupam muito em "ter". Acumular, guardar... E não aproveitam uma coisa besta como tomar água de côco a dois reais na beira da praia, no final da tarde... Estão muito preocupadas guardando dinheiro. Quando se dão conta, o tempo passou - mas a conta no banco está cheia! Há outros que se preocupam em "saber". O saber deve ser motivo de alegria, também. Saber para se conhecer, para viver melhor. Ou se torna motivo de arrogância, de angústia, de raiva e amargura permanentes. Passei muito tempo assim, admito, quando comecei a ler sobre o capitalismo, sobre o que esse sistema significa. Luto contra ele, mas devo entender que vivo nele. E não posso morrer por ele, porque ele já mata demais. Se você acha que sabe muito, brinque com o seu próprio saber. Conhecer, ler, aprender e saber para se tornar uma pessoa incapaz de rir de coisas trivias, de apreciar a simplicidade e de reconhecer que todos têm um "saber" (que não necessariamente é igual ao seu para ser válido) é um suicídio intelectual. Aliás, é um suicídio afetivo.

Viva o que está agora em suas mãos. Não espere melhorar de vida; não espere a pessoa ideal; não espere terminar a pós-graduação; não espere... Porque nada disso pode acontecer, e você perdeu a oportunidade de viver coisas ótimas, no final das contas. Coisas que estavam na sua frente, e você não viu porque ficou esperando chegar ao estado ideal da sua existência. Viva o que há agora, ainda que o presente também seja como água escorrendo entre seus dedos, fluido... Quando você se dá conta, já virou passado. Já é futuro. Lembre-se de que o passado é feito de sombras e o futuro, de fato, não existe. Faça o melhor neste momento. Ainda que o melhor seja deitar numa rede e ver o céu... Seja não fazer nada... Fazer o melhor não é ganhar prêmio por produtividade. Helô-ou!!! É estar em paz e viver alegremente. É guardar o seu coração. Hoje começo a entender uma coisa que o pastor Ricardo Barbosa sempre me dizia, em Brasília, quando eu conversava com ele e estava (geralmente) sofrendo, e sofrendo muito: "Tenha um coração grato". Ele sempre me dizia isso. Para cultivar a gratidão.

Acho que começo a entender com meu espírito. Porque é incoerente, diante de tantas catástrofes, fome, crimes, guerras, injustiças, desgraças, torpezas, mentiras... Mas ter o coração grato é algo que só é possível quando o guardamos. Sacou? Não? Então também não perca seu tempo com isso.


Beijos,

Maya

: )
.

2 comentários:

Edemir Antunes Filho disse...

Maya,
graça, paz e bem!

Graças a Deus pelos muitos micos que pagamos. Imagine numa reunião todos/as os/as presentes partilhando micos em nome da alegria, da descontração e da amizade? Isso é koinonia.

Muito obrigado pelos micos compartilhados aqui... conte mais.

Felicidades!

Maya disse...

Ah, obrigada, Edemir... Tenho muito a contar, pode acreditar.

Um abraço, bom fim de semana.

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