Creio que não existe nada de mais belo, de mais profundo, de mais simpático, de mais viril e de mais perfeito do que o Cristo; e eu digo a mim mesmo, com um amor cioso, que não existe e não pode existir. Mais do que isto: se alguém me provar que o Cristo está fora da verdade e que esta não se acha n'Ele, prefiro ficar com o Cristo a ficar com a verdade. (Dostoievski)

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26 de dez de 2007

O Quinteto e o Movimento Armorial

Gravura de Gilvan Samico: Alexandrino e o pássaro de fogo
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Contracapa do disco, com texto de Ariano Suassuna.
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O QUINTETO E O MOVIMENTO ARMORIAL
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Iniciado oficialmente em 1970, o Movimento Armorial interessa-se por Cerâmica, Pintura, Tapeçaria, Gravura, Teatro, Escultura, Romance, Poesia e Música, sendo que estamos a ponto de tentar nossas primeiras experiências no campo do Cinema e no da Arquitetura.

No que se refere à Música, o trabalho do Quinteto Armorial é o que, na minha opinião, temos de mais importante, pois contamos com compositores que já estão dando o que falar, no campo da Música brasileira e erudita, de raízes nacionais e populares. Sem se falar de nossos dois grandes patronos de nome já firmado - Guerra Peixe e Capiba, aqui presentes neste disco - trata-se de gente como Antonio Carlos Nóbrega de Almeida, Jarbas Maciel, Egildo Vieira, e, sobretudo, esse extraordinário Antonio José Madureira, a meu ver a maior esperança da Música brasileira atual. Assim como Gilvan Samico, partindo das xilogravuras da Literatura de Cordel, criou importância para a Cultura brasileira, o mesmo está fazendo Antonio José Madureira a partir dos cantores do nosso Romanceiro Nordestino, dos toques de pífano, das violas e rabecas dos nossos Cantadores - toques ásperos, "desafinados", arcaicos, acerados como gumes de faca-de-ponta. Foram os compositores armoriais que revalorizaram o pífano, a viola sertaneja, a guitarra ibérica, a rabeca e o marimbau nordestino, estranho e belo instrumento, de som áspero e monocórdico, lembrando - como a rabeca também - os instrumentos hindus ou árabes, estes últimos de presença tão marcante no nordeste, por causa da nossa herança ibérica.

Os músicos do Quinteto Armorial poderiam ter partido em busca de dois caminhos fáceis: limitar-se, por um lado, à boa execução da Música européia, tradicional ou "de vanguarda", e procurar, por outro lado, o fácil sucesso popular, tocando, à sua maneira, "baiões" comerciais. Não o quiseram. Convencidos de que a criação é muito mais importante do que a execução, preferiram a tarefa mais dura, mais ingrata, mais difícil e mais séria: a procura de uma composição nordestina renovadora, de uma Música erudita brasileira de raízes populares, de um som brasileiro, criado para um conjunto de câmera, apto a tocar a Música européia, é claro - principalmente a ibérica mais antiga, tão importante para nós mas principalmente apto a expressar o que a cultura brasileira tem de singular, de próprio e de não-europeu.

O Quinteto Armorial tem seu trabalho ligado ao departamento de extensão Cultural da Pré-Reitoria para Assuntos Comunitários da UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO.

Ariano Suassuna

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NOTA: Quando criança eu me lembro do LP que meu pai guardava e ouvia, do Quinteto Armorial - Do romance ao galope nordestino. Na verdade, salvo engano, o único trabalho do grupo que foi comercializado. Mais tarde, encontrei o CD, como uma jóia... Este texto, já na grande capa do LP, apresentava o Quinteto aos ouvintes. O Movimento Armorial, iniciado em Pernambuco, bucou resgatar as origens ibéricas da cultura nordestina, como tão bem explica o texto de Ariano Suassuna, considerado o pai do Movimento. O próprio sebastianismo, marcante no nordeste brasileiro por sustentar políticos salvadores, que resgatariam o nordeste de sua miséria secular, traz a figura de D. Sebastião, rei de Portugal que, jovem, teria se perdido em batalha e foi aguardado pelo povo português, durante séculos, para livrá-los de seus opressores e decadência. Isso foi muito bem tratado por José Saramago, em A Jangada de Pedra: o desejo da separação, da independência de Portugal dos ricos próximos, fosse a Espanha, fosse a Inglaterra, fosse a França. A poesia de Fernando Pessoa, em Mensagem, sinaliza a melancolia portuguesa dos dias de glória das navegações. E, assim como foi a Península Ibérica fortemente influenciada pelos árabes, ou "mouros", assim também toda a cultura de Portugal e Espanha, sobretudo no sul, que se diferencia deveras da cultura do sul da França e da Itália, por exemplo, ligada à cultura provençal-românica das línguas da Langue D'Oc (que não deixou de abarcar parte do sul da Espanha, que se faça justiça), Langue d'Oui e de outras (mais fortemente, na França, pela Langue D'Oc, na verdade um conjunto de dialetos). E, marcado de modo indelével pela riqueza da cultura árabe, Portugal colonizou o Brasil e deixou no nordeste, de modo mais visível, esses contornos. O sul e o sudeste, recebedores de alemães, italianos, poloneses, japoneses e outros, no início do século XX e depois da Segunda Guerra, sofreu maior apagamento desta influência. Portanto, as feiras nordestinas, as xilogravuras, as músicas, a literatura de Cordel, as procissões, as festas populares, as crenças... tudo traz a marca árabe-portuguesa do medievo. E o Movimento Armorial, de maneira brilhante, resgata essas origens e nos oferece a beleza. Minhas homenagens a Ariano Suassuna e ao Quinteto Armorial, que marcaram minha infância, minha adolescência e minha "universidadiência". A irmã de minha avó paterna, Professora Maria do Socorro de Almeida, que traduziu e estudou o El Cid do Espanhol medieval para o português, é professora aposentada de literatura e cultura ibéricas da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Vem-me à memória sua casa, em Santa Teresa, Rio de Janeiro, abarrotada de livros, e uma das belas xilogravuras de seu marido, Sérgio, que se tornou a capa do livro de poesias de minha avó, Aurora Felix, o Poemas Brancos. Tinha muito a dizer do Movimento Armorial, El Cid e, me lembrei disso agora, Gargantua, de Rabelais, tão bem lido por minha orientadora do mestrado, Professora Michele Perret, hoje aposentada da Université de Nanterre, em seus estudos diacrônicos sobre o uso de dêiticos e em seu livro Introduction à l'histoire de la langue française, que ela me enviou de Paris, com bela dedicatória. Mas fico por aqui, esperando que a curiosidade os leve além.
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Mais uma coisa: O presidente estadunidense, que hoje arroga a superioridade de sua cultura em relação aos árabes, é tão burro que desconhece o fato de que enquanto seus ancestrais europeus subiam em árvores os árabes já possuiam desenvolvidas a medicina, a poesia e a álgebra, para citar as áreas mais conhecidas. Forte, grande e rica foi e é a cultura árabe, hoje desprezada e rotulada por esses que invadiram a Europa como "bárbaros", a fim de suplantar o decadente império romano. Há árabes islâmicos, cabe também lembrar, e árabes cristãos. Foi o caso do meu bisavô e de sua família, vindos do Líbano para o nordeste brasileiro, pelo que me contaram tios-avós, por conta de perseguição religiosa. Salaam Aleikum!

2 comentários:

liberdade de expressão disse...

Oi Maya, muito legal você estar disponibilizando essa informação (e esse som) aqui.
Tenho esse disco do Armorial, em vinil, adquirido há um tempo. É realmente maravilhoso!
Abraços,
Carlos

Maya disse...

Sim, muuuito bom! Coisas assim não tocam nas FMs!

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