Creio que não existe nada de mais belo, de mais profundo, de mais simpático, de mais viril e de mais perfeito do que o Cristo; e eu digo a mim mesmo, com um amor cioso, que não existe e não pode existir. Mais do que isto: se alguém me provar que o Cristo está fora da verdade e que esta não se acha n'Ele, prefiro ficar com o Cristo a ficar com a verdade. (Dostoievski)

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16 de ago de 2007

Eugène Ionesco [1]


A Cantora Careca
(final da Cena Um)

“Sr. SMITH, sempre com seu jornal: Há uma coisa que eu não compreendo. Por que no item ‘estado civil’, no jornal, dão sempre a idade das pessoas falecidas e nunca a dos recém-nascidos? É um contra-senso.

Srª. SMITH: Eu nunca me dei conta disso!

Um outro momento de silêncio. O pêndulo bate sete vezes. Silêncio. O pêndulo bate três vezes. Silêncio. O pêndulo não bate nenhuma vez.

Sr. SMITH, sempre com seu jornal: Veja só, está escrito que Bobby Watson morreu.

Srª SMITH: Meu Deus, coitado, quando ele morreu?

Sr. SMITH: Por que esse ar surpreso? Você já sabia. Ele morreu há dois anos. Você se lembra, fomos ao seu enterro, há um ano e meio.

Srª. SMITH: É claro que eu me lembro. Eu me lembrei agora mesmo, mas eu não compreendo por que logo você ficou tão surpreso por ver isso no jornal.

Sr. SMITH: Isso não estava no jornal. Já faz três anos que se fala de sua morte. Eu me lembrei por associação de idéias!

Srª. SMITH: Que pena! Ele estava tão bem conservado.

Sr. SMITH: Era o mais lindo cadáver da Grã-Bretanha! Ele não aparentava sua idade. Pobre Bobby, havia quatro anos que ele tinha morrido e ele ainda estava quente. Um verdadeiro morto vivo. E como ele estava alegre!

Srª. SMITH: Oh, a pobre Bobby!

Sr. SMITH: Você quer dizer ‘o’ pobre Bobby.

Srª. SMITH: Não, é em sua mulher que eu penso. Ela se chamava Bobby, Bobby Watson, como ele. Como eles tinham o mesmo nome, não se podia distinguir um do outro quando eles estavam juntos. Foi só após a morte dele que podemos realmente saber quem era um e quem era o outro. No entanto, ainda hoje, há pessoas que a confundem com o morto e lhe apresentam as condolências. Você a conhece?

Sr. SMITH: Eu só a vi uma vez, por acaso, no enterro de Bobby.

Srª. SMITH: Eu nunca a vi. Ela era bonita?

Sr. SMITH: Ela tem traços regulares, e no entanto não se pode dizer que ela é bonita. Ela é muito alta e muito forte. Seus traços não são regulares e no entanto pode-se dizer que ela é muito bonita. Ela é um pouco pequena demais e muito magra. Ela é professora de canto.

O pêndulo bate cinco vezes. Durante muito tempo.

Srª. SMITH: E quando os dois pensam em se casar?

Sr. SMITH: Na próxima primavera, o mais tardar.

Srª. SMITH: Sem dúvida nós teremos que ir ao seu casamento.

Sr. SMITH: Teremos que lhes oferecer um presente de núpcias. Eu me pergunto: qual?

Srª. SMITH: Por que não lhes oferecemos uma das sete travessas de prata que nos deram em nosso casamento e que nunca nos serviram pra nada?

Um curto silêncio. O pêndulo bate duas vezes.

Srª. SMITH: É triste, para ela, ficar viúva tão jovem.

Sr. SMITH: Felizmente, eles não tiveram filhos.

Srª. SMITH: Só lhes faltava essa! Filhos! Pobre mulher, o que ela não teria feito!

Sr. SMITH: Ela ainda é jovem. Pode muito bem se casar novamente. Ela fica tão bem de luto.

Srª. SMITH: Mas quem cuidará das crianças? Você sabe muito bem que eles tiveram um menino e uma menina. Como eles se chamavam, mesmo?

Sr. SMITH: Bobby e Bobby como seus pais. O tio de Bobby Watson, o velho Bobby Watson, é rico e gosta do garoto. Ele poderia muito bem se encarregar da educação de Bobby.

Srª. SMITH: Seria natural. E a tia de Bobby Watson, a velha Bobby Watson, poderia muito bem, por sua vez, cuidar da educação de Bobby Watson. Assim, a mamãe de Bobby Watson, Bobby, poderia se casar novamente. Ela tem alguém em vista?

Sr. SMITH: Sim, um primo de Bobby Watson.

Srª. SMITH: Quem? Bobby Watson?

Sr. SMITH: De que Bobby Watson você fala?

Srª. SMITH: De Bobby Watson, o filho do velho Bobby Watson, o outro tio de Bobby Watson, o morto.

Sr. SMITH: Não, não é esse, é um outro. É Bobby Watson, o filho da velha Bobby Watson, a tia de Bobby Watson, o morto.

Srª. SMITH: Você está falando de Bobby Watson, o caixeiro-viajante?

Sr. SMITH: Todos os Bobby Watson são caixeiros-viajantes.

Srª. SMITH: Que trabalho duro! No entanto, fazem bons negócios.

Sr. SMITH: Sim, quando não há concorrência.

Srª. SMITH: E quando não há concorrência?

Sr. SMITH: Às terças, quintas e terças.

Srª. SMITH: Ah! Três dias por semana? E o que faz Bobby Watson durante esse período?

Sr. SMITH: Ele repousa, dorme.

Srª. SMITH: Mas por que ele não trabalha nesses três dias, se não há concorrência?

Sr. SMITH: Eu não posso saber tudo. Eu não posso responder a todas as suas questões idiotas!

Srª. SMITH, ofendida: Você diz isso para me humilhar?

Sr. SMITH, todo sorridente: Você sabe muito bem que não.

Srª. SMITH: Os homens são todos iguais! Ficam por aí, o dia todo, com um cigarro na boca, ou então passam pó no rosto e batom nos lábios, cinqüenta vezes por dia, isso se vocês não estão bebendo sem parar!

Sr. SMITH: Mas o que você diria se visse os homens fazer como as mulheres, fumar o dia inteiro, passar pó no rosto, colocar batom nos lábios, beber uísque?

Srª. SMITH: Quanto a mim, pouco me importa! Mas se você diz isso para me irritar, então... eu não gosto desse gênero de brincadeira, você sabe muito bem!


Fim da Cena Um

Eugène Ionesco, em La Cantatrice Chauve. Saint Amand (France): Gallimard, 1999.

Tradução: Mayalu Felix

2 comentários:

Mamanunes disse...

Oi Maya! Tudo bem?

Já passou o "dodói"?
Espero que sim e, ainda mais, espero que vc logo encontre outra companheirinha.

Um abraço apertado.

Maya disse...

Já encontrei! Me deram uma filha, ontem, 8/08/07!!!

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