Creio que não existe nada de mais belo, de mais profundo, de mais simpático, de mais viril e de mais perfeito do que o Cristo; e eu digo a mim mesmo, com um amor cioso, que não existe e não pode existir. Mais do que isto: se alguém me provar que o Cristo está fora da verdade e que esta não se acha n'Ele, prefiro ficar com o Cristo a ficar com a verdade. (Dostoievski)

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26 de ago de 2007

Elegia da sexta-feira

E então agora que caminho sob esse sol, Pai, vejo como a caminhada é difícil, e cada rosto da multidão que me vê nessa estrada é tão familiar, rostos de desprezo, mesmo um aqui que precisou de mim, outra que acreditou no que eu disse, e cantava meu nome como uma música, mas vou passando e a sede aumenta, e nada há que possa beber, e o sol arde em minhas costas e as marcas do chicote, e no rosto além do suor as feridas e as marcas e sinto em meus ombros um peso tão grande caminho como se não soubesse para onde vou mas sei que logo vou morrer, ô, Pai, quem me dera agora parar e olhar de que cor está o céu, mas minha cabeça olha o chão, o chão, perco-me nas lembranças esparsas que me vêm, quando uma multidão me seguia e havia perfume para me lavar os pés, mas neste momento ouço mais um que ri, e cada riso do meu povo, meu povo, cada riso me dói mais que o chicote dos soldados. Ainda mais um pouco e chegarei, mais um pouco, mais um pouco, e já enxergo o lugar.

Ô, Pai, queria que tudo parasse e acabasse, e fosse um pesadelo, mas não posso fugir do destino que eu mesmo me dei, que eu mesmo escolhi, e tremo diante do que me espera ainda, não recebi misericórdia, não recebi perdão, não sei que mal cometi, e o sol queima meu rosto irreconhecível, há mais de um dia não como, um pedaço de pão me daria força, um pouco de água, mas sei que já estou perto da morte.

Minha mãe, meus irmãos, poucos amigos, a angústia de vê-los diante de mim, a vergonha de não poder cobrir minha nudez, cuspiram em meu rosto, minhas roupas foram sorteadas entre aqueles soldados que agora querem que eu suporte a dor, meu Pai, a dor de ser perfurado e cortado e pendurado e a dor, a dor de ser humilhado e não poder dizer nada contra a mentira, toda a mentira, não podem ver, não podem. Mesmo minha cabeça já não consegue pensar, tudo se mistura e sinto-me tão fraco peço água mas querem me dar um vinagre que vai aliviar minha dor, não quero, não quero, essa dor é minha, isso não podem me tirar, e já é tarde agora estou aqui no alto e não consigo mais respirar, há moscas sobre minhas feridas e todo o meu rosto quero gritar mas não posso mais, nem sinto a tua presença, nem consigo mais ver os que estão perto mas peço, peço, eles não têm idéia do que fazem, por favor, Pai, eles não têm idéia do mal que me fazem, já não respiro mais, Pai, onde você está, por um instante não consigo ouvir, choro na dor solitária que sempre esteve guardada me esperando, desde o dia em que nasci, vim para esse momento, vivi para morrer, meus amigos, os doze mais próximos, um que teve medo, isso eu já sabia, outro que me feriu antes da minha hora, mas isso eu já sabia, outro que me seguiu quando chamei mas agora não está aqui.

Escuro, escuro, vou morrer, minha infância, minha mãe, estava no Templo, a madeira, aprendi a tornear, a moldar, a cortar, tudo sei. Meu primo que também já morreu vejo ali em baixo uma menina que chora, é aquela que estava morta, sua mãe ao lado, a mulher que conheci no poço, vou morrer, vou morrer, o céu está vermelho também, e a poeira, tudo se vai, 33 anos e tudo se vai, sou jovem ainda, e sinto medo, mas vou morrer, e tudo vai passar. Sinto que há nuvens no céu quem dera chova e a água lave esse sangue e o sal do meu suor tenho calor e sinto o fogo de dez infernos me esperando.

Mas não sei se vou esperar a chuva estou cansado tenho sede e sinto tanta dor nada mais posso agora nada posso e sou entregue ao que me espera. Sim, tudo o que fiz foi loucura, loucura e amor. Tudo está pago, meu Pai, em tuas mãos entrego meu espírito.

***

Mayalu Felix, 2001

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