Creio que não existe nada de mais belo, de mais profundo, de mais simpático, de mais viril e de mais perfeito do que o Cristo; e eu digo a mim mesmo, com um amor cioso, que não existe e não pode existir. Mais do que isto: se alguém me provar que o Cristo está fora da verdade e que esta não se acha n'Ele, prefiro ficar com o Cristo a ficar com a verdade. (Dostoievski)

FAÇA COMO EU: VISITE O BLOG DELES, E SIGA-OS TAMBÉM! :)

8 de set de 2007

Divã 'express'

Psicanalistas testam tratamentos gratuitos, com duração de quatro meses, para atrair mais pacientes.

Dois anos antes de sua morte, em 1937, o inventor da psicanálise, Sigmund Freud, já idoso e doente, demonstrou no ensaio "Análise terminável e interminável" a preocupação com a longa duração do tratamento das doenças mentais.

-- Freud assinala o fato de o sujeito nunca estar pronto não significa que o tratamento deva ser interminável. Ao contrário, é preciso haver um tempo determinado -- afirma o professor da UFRJ Theodor Lowenkron, que está lançando o livro "Psicanálise interminável ou com fim possível?"

No acelerado século XXI, eis que surge um movimento da Associação Mundial de Psicanálise, de orientação lacaniana, com questões semeadas naqueles textos e que ganham força nos dias de hoje. Em meio a tantas alternativas de terapias breves, psicanalistas encaram o desafio de modificar a ligação da psicanálise a algo lento e caro e mostrar que o tratamento pode ser curto e surtir efeito, sim.

Foram criados há quatro anos na França, berço de Jacques Lacan, o grande leitor de Freud, centros de tratamento gratuito com quatro meses de duração. A boa notícia para quem foge do divã pelos motivos citados acima é que eles já desembarcaram por aqui, em consultórios instalados no Rio, em Belo Horizonte e na Bahia.

Psicanalistas brasileiros iniciaram as pesquisas em torno do tema logo após a inauguração do primeiro CPCT (Centre Psychanalityque de Consultation et de Traitement), fundado por Jacques-Alain Miller, difusor e genro de Lacan, em Paris. Na prática, desde o início do ano, alguns profissionais brasileiros atendem com a nova proposta. Neste fim de semana, o XV Encontro Internacional e III Encontro Interamericano do Campo Freudiano, que acontece em Belo Horizonte com a presença de Judith Miller, filha de Lacan e espécie de madrinha dos novos centros, discutirá os (bons) resultados.

-- A preocupação é não deixar a psicanálise à margem do que acontece na contemporaneidade. Será que ela pode responder às urgências da nossa época? Os primeiros meses de tratamento são fundamentais, porque é quando o paciente faz uma pausa para pensar nas suas queixas e vê seus problemas acolhidos, o que produz alívio. Portanto, quatro meses podem ter ótimo efeito -- diz Heloisa Caldas, diretora da Escola Brasileira de Psicanálise no Rio.

As urgências mais comuns do nosso tempo, segundo os psicanalistas, são depressão, distúrbios alimentares, crianças hiperativas e angústias causadas por desemprego ou excesso de trabalho. É o perfil da maioria dos pacientes que batem à porta desses centros, espalhados também por Espanha, Itália, Bélgica e Argentina.

Novo centro
Na França, 1,9 mil pessoas já receberam o tratamento gratuito e de curta duração nos nove consultórios montados. No Brasil, a última novidade foi a abertura de um novo centro, chamado A Tempo, há um mês, na capital mineira. No Rio, esses espaços ganharam um caráter social, com os centros Digaí Maré, na favela da Maré, e Clac, em Botafogo, que atende a comunidades do Morro Santa Marta -- uma forma de reagir às críticas de que a psicanálise é elitista. Duzentas pessoas deitam no divã dos dois centros no momento.

-- O fundamento é: análise para todos. E o tempo pode ser prorrogado para até oito meses, dependendo do caso. Mas mesmo em períodos curtos é a psicanálise engajada com os seus princípios, só que em menos tempo. Ou seja, o método é fazer o analisado falar, sempre interrogando e tratando as particularidades de cada um -- esclarece Elisa Alvarenga, presidente da Escola Brasileira de Psicanálise, ressaltando as diferenças da psicanálise para as terapias breves.


ENTREVISTA


Reflexões psicanalíticas com a filha de Lacan


Seu pai é Jacques Lacan e seu marido, Jacques-Alain Miller, o criador dos centros psicanalíticos com tratamento de curto prazo. A francesa Judith Miller, presidente da Fundação do Campo Freudiano, cresceu e vive até hoje cercada pela psicanálise. Antes de embarcar para o Brasil para o congresso que acontece neste fim de semana em Belo Horizonte, ela conversou por e-mail com a "Revista da Família".


O que a senhora acha da iniciativa brasileira de seguir o exemplo dos analistas lacanianos franceses que atendem pessoas em situações de emergência, em um tratamento de curto prazo?
JUDITH MILLER: Com direção do psicanalista Hugo Freda, o Centro Psicanalítico de Consulta e Tratamento vem dando provas do seu valor. Demonstramos que todo cidadão pode exercer seu direito de tomar conhecimento da dimensão do seu inconsciente. Desse modo, ele tem a possibilidade de se aliviar de alguns sofrimentos e de sair do impasse no qual se via acuado. Eu só posso me alegrar com o fato de os colegas brasileiros declararem seu desejo de pôr em prática essa idéia.

De que outras maneiras a psicanálise pode ajudar, já que apenas poucas pessoas podem pagar por um tratamento desse tipo?
JUDITH MILLER: Quando a psicanálise se aplica à terapêutica, ela não é uma ortopedia. Freud sempre o disse, e, depois dele, Lacan. Aplicada à terapêutica, a psicanálise permite àquele que se dirige a um psicanalista encontrar outras soluções diferentes daquela construída pelos sintomas de que padece. A psicanálise não se propõe a "ajudar", como vocês dizem. E hoje, um século depois de publicada a "Interpretação dos sonhos", ela está em condições de fazer reconhecer o direito de cada um de se inscrever no laço social particular.

A senhora acredita que a modernização da linguagem freudiana feita por Lacan permitiu o progresso da psicanálise para tratar das novas doenças psíquicas como a depressão e os distúrbios alimentares, duas das mais encontradas entre os brasileiros?
JUDITH MILLER: Jacques Lacan não "modernizou" a linguagem feudiana. Inicialmente, ele leu Freud e restabeleceu o fio condutor da disciplina da qual Freud é o inventor. Não se deixem enganar. A anorexia, a bulimia e a depressão não são "novas doenças psíquicas"! Os laboratórios fabricam antidepressivos. Alguns deles gostariam de nos convencer dos benefícios dessas drogas no enfrentamento desse novo mal. É mais responsável estarmos suficientemente formados a fim de podermos distinguir de qual estrutura decore um sujeito deprimido, um sujeito anoréxico ou um sujeito bulímico para, então, intervirmos de modo conseqüente. Essa estrutura com freqüência é psicótica, mas nem sempre. Também é verdade que a psicose é cada vez mais freqüente, não apenas no Brasil.

Para a senhora, quais são as contribuições mais importantes da escola lacaniana para a clínica psicanalítica?
JUDITH MILLER: Jacques Lacan deu amplidão à clínica psicanalítica das psicoses. Ele nunca recuou diante dessa clínica, desde sua tese em psiquiatria, em 1932. Todo o seu ensino visa a circunscrever essa clínica cada vez mais e articular suas lições. Os que seguem seu ensino continuam nessa via, tão indispensável quanto apaixonante e decisiva.

Reportagem de Isabela Caban, publicada no Jornal O Estado do Maranhão de 05/08/2007, domingo, na Revista da Família, p. 5.

MAIS: Escola de Psicanálise do Maranhão - Av. do Vale, 23, salas 212-213 - Ed. Carrara - Renascença II - CEP: 65075-400 - Tel: (98) 32359847 - São Luis (MA).

Nenhum comentário:

Marcadores

Comportamento (719) Mídia (678) Web (660) Imagem (642) Brasil (610) Política (501) Reflexão (465) Fotografia (414) Definições (366) Ninguém Merece (362) Polêmica (346) Humor (343) link (324) Literatura (289) Cristianismo (283) Maya (283) Sublime (281) Internacional (276) Blog (253) Religião (214) Estupidez (213) Português (213) Sociedade (197) Arte (196) La vérité est ailleurs (191) Mundo Gospel (181) Pseudodemocracia (177) Língua (176) Imbecilidade (175) Artigo (172) Cotidiano (165) Educação (159) Universidade (157) Opinião (154) Poesia (146) Vídeo (144) Crime (136) Maranhão (124) Livro (123) Vida (121) Ideologia (117) Serviço (117) Ex-piritual (114) Cultura (108) Confessionário (104) Capitalismo (103) (in)Utilidade pública (101) Frases (100) Música (96) História (93) Crianças (88) Amor (84) Lingüística (82) Nojento (82) Justiça (80) Mulher (77) Blábláblá (73) Contentamento (73) Ciência (72) Memória (71) Francês (68) Terça parte (68) Izquerda (66) Eventos (63) Inglês (61) Reportagem (55) Prosa (54) Calendário (51) Geléia Geral (51) Idéias (51) Letras (51) Palavra (50) Leitura (49) Lugares (46) Orkut (46) BsB (44) Pessoas (43) Filosofia (42) Amizade (37) Aula (37) Homens (36) Ecologia (35) Espanhol (35) Cinema (33) Quarta internacional (32) Mudernidade (31) Gospel (30) Semiótica e Semiologia (30) Uema (30) Censura (29) Dies Dominicus (27) Miséria (27) Metalinguagem (26) TV (26) Quadrinhos (25) Sexo (25) Silêncio (24) Tradução (24) Cesta Santa (23) Gente (22) Saúde (22) Viagens (22) Nossa Linda Juventude (21) Saudade (21) Psicologia (18) Superação (18) Palestra (17) Crônica (16) Gracinha (15) Bizarro (14) Casamento (14) Psicanálise (13) Santa Casa de Misericórdia Franciscana (13) Carta (12) Italiano (12) Micos (12) Socialismo (11) Comunismo (10) Maternidade (10) Lêndias da Internet (9) Mimesis (9) Receita (9) Q.I. (8) Retrô (8) Teatro (7) Dããã... (6) Flamengo (6) Internacional Memória (6) Alemão (5) Latim (5) Líbano (5) Tecnologia (5) Caninos (4) Chocolate (4) Eqüinos (3) Reaça (3) Solidão (3) TPM (2) Pregui (1)

Arquivo