Creio que não existe nada de mais belo, de mais profundo, de mais simpático, de mais viril e de mais perfeito do que o Cristo; e eu digo a mim mesmo, com um amor cioso, que não existe e não pode existir. Mais do que isto: se alguém me provar que o Cristo está fora da verdade e que esta não se acha n'Ele, prefiro ficar com o Cristo a ficar com a verdade. (Dostoievski)

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18 de set de 2007

Luiz Carlos Cagliari [2]


O QUE É ENSINAR PORTUGUÊS?

A questão mais fundamental do ensino de português é obviamente a seguinte: o que é ensinar português para pessoas que já sabem falar o português? Por que não se ensina português no Brasil como se ensinaria para falantes nativos de outras línguas?

Ensinar português para falantes nativos como se fosse uma língua estrangeira é de fato um absurdo. A questão assim colocada tem uma resposta pronta e fácil, mas, na prática escolar, pode-se constatar que muitas das atividades que a escoloa realiza com os alunos revelam uma atitude perante a linguagem semelhante à que teria se estivesse ensinando uma língua estrangeira.

Mas, se o aluno já sabe português, vamos ensinar o quê? Em primeiro lugar, não é bem verdade que o aluno já sabe português. Ele sabe algumas coisas e não sabe outras. Mas há muita coisa a se fazer de novo e interesante no ensino da língua materna e isso não se restringe à alfabetização, apesar de este período ser, na verdade, muito especial.

O objetivo mais geral do ensino de português para todas as séries da escola é mostrar como funciona a linguagem humana e, de modo particular, o português; quais os usos que tem, e como os alunos devem fazer para estenderem ao máximo, ou abrangendo metas específicas, esses usos nas modalidades escrita e oral, em diferentes situações da vida. Em outras palavras, o professor de português deve ensinar aos alunos o que é uma língua, quais as propriedades e usos que ela realmente tem, qual é o comportamento da sociedade e dos indivíduos com relação aos usos lingüísticos, nas mais variadas situações de suas vidas.

A escola, tradicionalmente, tem se apegado a umas tantas coisas a respeito da língua e julgado que isso é tudo. Mais especificamente, tem se apegado ao que diz nossa gramática normativa e à metodologia de exigir redações e fichas de leitura, na melhor das hipóteses. O aluno que passa pelo 1º e pelo 2º grau é treinado nesses moldes. Os vestibulares, concursos etc. só levam isso em consideração.

Ao aluno não se ensina adequadamente como ele fala, qual o valor funcional dos segmentos fônicos de sua língua, como se compõe a morfologia desta, a sintaxe, a semântica etc. O aluno faz centenas de redações e não sabe o que está realmente fazendo, como deve elaborar um texto escrito ou dizer um texto oral em situações diferentes.

A criança que se inicia na alfabetização já é um falante capaz de entender e falar a língua portuguesa com desembaraço e precisão nas circunstâncias de sua vida em que precisa usar a linguagem. Mas não sabe escrever nem ler. Esses são usos novos da linguagem para ela, e é sobretudo isso o que ela espera da escola. Em muitos casos, há ainda o interesse em aprender uma variedade do português de maior prestígio.

Essa criança não só sabe falar o português, como sabe também refletir sobre a sua própria língua. De fato, as crianças se divertem manipulando a linguagem: compõem palavras novas, a partir da análise dos processos de formação de palavras, às vezes criando formas surpreendentes; adoram traduzir a sua própria língua em códigos, como a língua do P, e falar invertendo sílabas, substituindo certos segmentos por outros, com uma destreza que o adulto dificilmente consegue acompanhar.

As respostas que as crianças dão às perguntas que lhes são feitas revelam a incrível capacidade que têm de manipular fatos semânticos de alta complexidade, como a pressuposição, a argumentação lógica, sem contar com a expressão de metáforas e o poder de abstração e generalização claramente revelados numa análise de seu comportamento lingüístico. Além disso, elas contam ainda com uma capacidade enorme de anélise da linguagem oral, o que irão perder logo que entrarem na escola, sufocadas pelo modo como se ensina o português, tomando-se a escrita ortográfica como base para tudo. Na análiser de muitos erros encontrados em provas e nas avaliações feitas na alfabetização, é fácil observar que, em muitos casos, a criança revela um apego às formas fonéticas da língua, em lugar das formas ortográficas, não raramente deixando o professor perplexo com a "burrice do aluno", devido a sua incapacidade de analisar a fala com a mesma competência que a criança apresenta.

A escola não parte do conhecimento que a criança tem de sua fala e da fala de seus colegas para a partir daí ensinar o que deve. A escola parte de um abecedário e de uma fala (típica de "professora primária") completamente estranha à criança. Talvez isso até sirva de motivação para as crianças considerarem a escola um desafio a sua capacidade de realização, o "diferente" que esperam ali encontrar. Mas, sem dúvida alguma, essa não me parece uma maneira correta de tratar a linguagem na alfabetização.
(...)

Luiz Carlos Cagliari, em Alfabetização e Lingüística. São Paulo: ed. Scipione, 2001, pp. 28-30.

NOTA DA MAYA: Na aula de ontem, com os alunos de Letras, discutimos parte deste livro -- este trecho aqui publicado incluso. A mim me parece que a escola, os mass media, a sociedade em geral se apega à noção de "certo" e "errado" acerca da língua e da fala (o que é mais grave). E o padrão do "certo" é a chamada "norma (o)culta", como diz o Marcos Bagno, ou o uso de uma forma lingüística de prestígio, dentre tantas outras que temos. Os manuais e cartilhas ensinam regras fragmentadas e desapegadas da prática linguageira. Assim também não mais se lêem os livros, mas seus resumos. O distanciamento da língua ensinada e da língua vivida é tamanho que muitos jovens dizem "eu odeio português" sem se dar conta de que odeiam, de fato, uma metodologia de ensino massificadora, estúpida e ideologicamente elitista. Ontem perguntei na sala quem gostava das letras da Legião Urbana e do Renato Russo (OK, eu sou fãããããã.... putz! Sabe aquele show de Brasília, que não aconteceu, que deu o maior problema??? Eu estava lá. O único e último grande show da Legião em Brasília, e foi aquela confusão...). Quase todos levantaram as mãos, até uma aluna que é da Assembléia de Deus, usa saia e cabelos longos como manda o figurino assembleiano. Disse a eles: isso é dominar a língua, e não ser dominado e escravizado por "regras da língua". O Renato Russo soube utilizá-la a seu favor, e é isso que a escola deve ter em perspectiva quando se trata do ensino da língua. De fato, os jovens que "odeiam" o português falam, usam e pensam em português. O desafio, no curso de Letras, é trazer essa discussão para a sala de aula em TODAS as disciplinas, e não só na que ensino -- Lingüística. É necessário, neste país, modificar o pensamento vigente em relação ao ensino de 1º e 2º graus. Mas os PCNs/MEC já apontam para uma ampla mudança, como mostra Ingedore Koch em excelente artigo publicado no site da Abralin (link à direita da página deste Blog) há um tempo. É necessário formar, na Universidade, multiplicadores que proponham o ensino de língua materna como uma tomada de consciência da criança em relação ao que ela JÁ POSSUI. Tomada de consciência, acréscimo, desenvolvimento de habilidades. Disso muito bem fala o Cagliari quando toca na questão dos (quase inexistentes) instrumentos que a escola disponibiliza para os alunos, entre outros fatores. Além disso, penso eu que a decoreba de regras é inútil. O mais importante é que o usuário da língua compreenda essas regras de modo natural, mediante a leitura, sobretudo. Na leitura, até mesmo palavras cujo significado ele desconhece são compreendidas por meio do contexto. Mas, como falar de leitura em escolas públicas sem bibliotecas, sem livros? Ou entulhadas de livros velhos, sujos, sem nenhum atrativo (esses que as pessoas "doam"...)? Tive a sorte de crescer cercada por livros, música, histórias em quadrinhos etc. Meu pai me ensinou a ler com dois anos e meio, por meio de um método norte-americano, cartazes, muita paciência e amor. Então fui para o "Jardim" aos quatro ou cinco anos, e já sabia ler (como era muito ativa e já sabia ler, "atrapalhava" o aprendizado dos coleguinhas. Me mandaram de volta pra casa e só pude iniciar meu "Jardim" aos seis anos). Mas casos como o meu são muito raros, infelizmente -- ou felizmente. Tinha muito a falar sobre essa questão do ensino da língua materna, mas paro por aqui.

2 comentários:

adilma disse...

Olá,
Sou Adilma Costa acadêmica do curso de pedagogia quarto período e, tivemos estudando esse livro de Cagliari-Alfabetização e Linguística para um debate,e me foi muito útil o seu parecer para fundamentar o meu entendimento.
Por acreditar que as escolas segregam alunos que são considerados falidos,ou seja, crianças com auto estima baixa devido a situação misserável que vivem,por não acreditar e mais ainda não valorizar o dialeto que geralmente essas crianças falam;considerando como errado do ponto de vista da gramática a sua forma de falar e com isso,desmotivando o interesse da criança em aprender o português,sendo esse falante nativo,acredito que se faz necessário sim a conscientização de professores de todas as disciplinas para a valorização do contexto em que a criança está inserida como algo que vnha faorecer a aprendizagem da criança,também não pode ficar de fora a paciência o amor pela educação.Onde não é o que vemos em escolas públicas.

Anônimo disse...

O Cagliari é meu prof.

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