Creio que não existe nada de mais belo, de mais profundo, de mais simpático, de mais viril e de mais perfeito do que o Cristo; e eu digo a mim mesmo, com um amor cioso, que não existe e não pode existir. Mais do que isto: se alguém me provar que o Cristo está fora da verdade e que esta não se acha n'Ele, prefiro ficar com o Cristo a ficar com a verdade. (Dostoievski)

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24 de set de 2007

Eric Hobsbawm [1]

I


Se a economia do mundo do século XIX foi constituída principalmente sob a influência da revolução industrial britânica, sua política e ideologia foram constituídas fundamentalmente pela Revolução Francesa. A Grã-Bretanha forneceu o modelo para as ferrovias e fábricas, o explosivo econômico que rompeu com as estruturas socioeconômicas tradicionais do mundo não-europeu; mas foi a França que fez suas revoluções e a elas deu suas idéias, a ponto de bandeiras tricolores de um tipo ou de outro terem-se tornado o emblema de praticamente todas as nações emergentes, e as políticas européias (ou mesmo mundiais), entre 1789 e 1917, foram em grande parte lutas a favor e contra os princípios de 1789, ou ainda mais incendiários princípios de 1793. A França forneceu o vocabulário e os temas da política liberal e radical-democrática para a maior parte do mundo. A França deu o primeiro grande exemplo, o conceito e o vocabulário do nacionalismo. A França forneceu os códigos legais, o modelo de organização técnica e científica e o sistema métrico de medidas para a maioria dos países. A ideologia do mundo moderno atingiu, pela influência francesa, as antigas civilizações que até então resistiam às idéias européias. Esta foi a obra da Revolução Francesa. [grifos meus]

O final do século XVIII foi uma época de crise para os velhos regimes da Europa e seus sistemas econômicos, e suas últimas décadas foram cheias de agitações políticas, chegando até o ponto de revoltas, de movimentos coloniais em busca de autonomia, às vezes atingindo o nível de secessão: não só nos EUA (1776-83) mas também na Irlanda (1782-4), na Bélgica em Liége (1787-90), na Holanda (1783-7), em Genebra e, até mesmo, na Inglaterra (1779). A quantidade de agitações políticas é tão grande que alguns historiadores recentes falaram de uma “era da revolução democrática”, na qual a Revolução Francesa foi apenas um exemplo, embora o mais dramático e de maior alcance e repercussão.

Na medida em que a crise do velho regime não foi puramente um fenômeno francês, há algum peso nestas observações. Igualmente se pode argumentar que a Revolução Russa de 1917 (que ocupa uma posição de importância análoga em nosso século) foi meramente o mais dramático de toda uma série de movimentos semelhantes, tais como os que – alguns anos antes de 1917 – finalmente puseram fim aos antigos impérios turco e chinês. Ainda assim, há aí um equívoco. A Revolução Francesa pode não ter sido um fenômeno isolado, mas foi muito mais fundamentalmente do que outros fenômenos contemporâneos e suas conseqüências foram, portanto, muito mais profundas. Em primeiro lugar, ela aconteceu no mais populoso e poderoso Estado da Europa (com exceção da Rússia). Em 1789, cerca de um em cada cinco europeu era francês. Em segundo lugar, ela foi, diferentemente de todas as revoluções que a precederam e a seguiram, uma revolução social de massa, e incomensuravelmente mais radical do que qualquer levante comparável. Não foi casual que os revolucionários americanos e os jacobinos britânicos que emigraram para a França, devido a suas simpatias políticas, tenham sido vistos, na França, como moderados. Tom Paine era um extremista na Grã-Bretanha e na América; mas, em Paris, ele estava entre os mais moderados dos girondinos. Resultaram das revoluções americanas, grosseiramente falando, países que continuaram a ser o que eram, apenas em controle político dos britânicos, espanhóis e portugueses. O resultado da Revolução Francesa foi o de que era de Balzac substitui a era de Mme. Dubarry.

Em terceiro lugar, entre todas as revoluções contemporâneas, a Revolução Francesa foi a única ecumênica. Seus exércitos partiram para revolucionar o mundo; suas idéias de fato revolucionaram. A revolução americana foi um acontecimento crucial na história americana, mas (exceto para os países diretamente envolvidos nela ou por ela) deixou poucos traços relevantes em outras partes. A Revolução Francesa é um marco em todos os países. Suas repercussões, ao contrário daquelas da revolução americana, ocasionaram levantes que levaram à libertação da América Latina depois de 1808. Sua influência direta se espalhou até Bengala, onde Ram Mohan Roy foi inspirado a fundar o primeiro movimento de reforma hindu, predecessor do nacionalismo indiano moderno. (Quando visitou a Inglaterra, em 1830, ele institiu em viajar num navio francês para demonstrar o entusiasmo pelos princípios da Revolução). A Revolução Francesa foi, como bem disse, "o primeiro grande movimento de idéias da cristandade ocidental que teve algum efeito real sobre o mundo islâmico", isto quase que de imediato. Por volta da metade do século XIX, a palavra turca vatan, que até então simplesmente descrevia o local de nascimento ou a residência de um homem, tinha começado a se transformar, sob a influência, em algo parecido com patrie; o termo “liberdade”, antes de 1800, sobretudo uma expressão legal que denotava o oposto de “escravidão”, tinha começado a adquirir um novo conteúdo político. Sua influência direta é universal, pois ela forneceu o padrão para todos os movimentos revolucionários subseqüentes, tendo incorporado suas lições (interpretadas segundo o gosto de cada um) ao socialismo e ao comunismo modernos. [grifos meus]

A Revolução Francesa é assim a revolução do seu tempo, e não apenas uma revolução, [grifos meus] embora a mais proeminente de sua espécie. E suas origens devem, portanto, ser procuradas não meramente nas condições gerais da Europa, mas sim na situação específica da França. Sua peculiaridade talvez seja mais bem ilustrada em termos internacionais. Durante todo o século XVIII a França foi o maior rival econômico da Grã-Bretanha. Seu comércio externo que multiplicou quatro vezes entre 1720 e 1780, causava preocupação; seu sistema colonial foi em certas áreas (como nas Índias Ocidentais) mais dinâmico que o britânico. Mesmo assim, a França não era uma potência com a Grã-Bretanha, cuja política externa já era substancialmente determinada pelos interesses da expansão capitalista. Ela era a mais poderosa, e sob vários aspectos a mais típica, das velhas e aristocráticas monarquias absolutas da Europa. Em outras palavras, o conflito entre a estrutura oficial e os interesses estabelecidos do Antigo Regime e as novas forças sociais ascendentes era mais agudo na França do que em outras partes.


FONTE: HOBSBAWM, E. J. A Revolução Francesa. 3ª edição. São Paulo: Paz e Terra, 2000, pp 7 -11.

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