Creio que não existe nada de mais belo, de mais profundo, de mais simpático, de mais viril e de mais perfeito do que o Cristo; e eu digo a mim mesmo, com um amor cioso, que não existe e não pode existir. Mais do que isto: se alguém me provar que o Cristo está fora da verdade e que esta não se acha n'Ele, prefiro ficar com o Cristo a ficar com a verdade. (Dostoievski)

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14 de set de 2007

Ultimato [1]

[Este texto é de 1999]

Seis bilhões de pecadores

É provável que agora em outubro completemos a marca de 6 bilhões de habitantes. O último pulo de 1 bilhão aconteceu em 1987, há 12 anos. O crescimento da população mundial no presente século, prestes a expirar, ultrapassou a casa de 4 bilhões. Éramos apenas 2 bilhões em 1913.

Afinal, quem somos nós, os 6 bilhões de habitantes? Necessitamos de uma resposta de ordem prática, não muito acadêmica nem muito simplória. Talvez possamos partir do mais evidente para o mais complexo. O mais óbvio é que somos 6 bilhões de mortais. O mais difícil de assumir é que somos 6 bilhões de pecadores. Entre uma declaração e outra, há mais confissões a fazer.

Seis bilhões de mortais

Apesar do avanço da medicina e da ciência, ainda somos como "a relva que de madrugada viceja e à tarde murcha e seca" (Sl 90.6) ou como "a sombra que declina" (Sl 102.11). Ainda somos estrangeiros e peregrinos, como pessoas que estão de passagem por aqui, sem permanência (1 Cr 29.15). Nossos dias ainda têm "o comprimento de alguns palmos" (Sl 39.5).

Não nos livramos ainda da morte somatopsíquica, do médico-legista, do atestado de óbito, da agência funerária, do caixão de defunto, da necrópole, do sepultamento, da decomposição do corpo e da redução deste ao pó (Ec 12.6-7).

O máximo que conseguimos até agora é empurrar a morte mais para a frente. Ela ainda é campeã invicta. "O último inimigo a ser destruído", a morte, ainda não foi destruído (1 Co 15.26).

Seis bilhões de complicados

Não suportamos a solidão e, ao mesmo tempo, não sabemos viver juntos. Casamo-nos e nos separamos. Os pais abandonam os filhos e os filhos abandonam os pais. Brigamos no lar, na escola, no trabalho, na igreja e na cidade. Fazemos amor e fazemos guerra. Bombardeamos pontes, refinarias e estradas, e depois gastamos uma fortuna para construir tudo de novo. Espalhamos minas, matamos e mutilamos muita gente e depois desminamos os campos.

Temos sentimentos de superioridade e sentimentos de inferioridade. Machucamos e somos machucados. Temos repentes de coragem e repentes de medo. Consideramo-nos ora uns vermes ora uns portentos. Temos pouca fé -- incredulidade -- e fé em excesso -- fanatismo.

Mesmo sabendo que o cigarro, o álcool e as drogas matam, continuamos a fabricar, a vender e a usar cigarros, bebidas alcóolicas e drogas.

Seis bilhões de selvagens

Desde que Caim matou Abel, seu irmão (Gn 4.8), a violência se apoderou de nós. Não damos bola para o sexto mandamento, que diz: "Não matarás" (Êx 20.13). Matamos em nome da lei e contra a lei. Matamos por inveja, matamos por vingança, matamos para ocultar o crime, matamos para roubar, matamos em defesa própria, matamos porque temos pavio curto, matamos porque estamos alcoolizados, matamos por causa da orgia sexual, matamos por força da discriminação racial e religiosa, matamos por prazer. Matamos "com a espada dos filhos de Amom" (2 Sm 12.9) e com as nosas próprias armas. Matamos crianças, jovens, adultos e idosos, e descontinuamos a "substância ainda informe", que está sendo assombrosamente formada no ventre materno (Sl 139.13-16).

Criamos a palavra guerra para legitimar a matança coletiva e inventamos uma série enorme de tipos de guerra: guerra atômica, guerra biológica, guerra civil, guerra convencional, guerra de extermínio, guerra econômica, guerra fria, guerra global, guerra psicológica, guerra química, guerra revilucionária, guerra relâmpago, guerra total e até guerra santa.

Nossa história é a história da guerra. Desde aquela guerra que envolveu nove povos palestinos na época de Abraão (Gn 14.1-11) até os 27 grandes conflitos armados ocorridos em 1998, quase todos civis, que resultaram em mais de 1 milhão de mortes.

Embora digamos que a guerra não é uma coisa de civilizados, continuamos a nos justificar, afirmando que "a guerra pode ser necessária para preservar a civilização", como declarou Tony Blair, o primeiro-ministro britânico, referindo-se à guerra entre a OTAN e a Iugoslávia.

Seis bilhões de injustos

Só no ano passado despendemos 745 bilhões de dólares com gastos militares globais, o que corresponde a 125 dólares per capita. Muito embora 1,5 bilhão de habitantes vivam com menos de um dólar e meio por dia, algo em torno de 81 reais por mês [HOJE CERCA DE TRÊS REAIS].

Não temos leis justas, governos justos nem sociedades justas. Não deixamos as viúvas, os órfãos e os estrangeiros, isto é, os deserdados, entrar em nossas propriedades para colher o que ficou da primeira colheita (Dt 24.19-22). Nossa estrutura é injusta, nossa história é injusta, nossa índole é injusta. Não nos lembramos de fazer justiça e não queremos fazer justiça. O problema é tão velho, tão vasto e tão complexo, que não encontramos caminhos para resolver ou minorar a injustiça.

Estamos anos-luz do segundo grande mandamento, que é amar o próximo como a si mesmo (Lv 19.18; Mc 12.31). Mas continuamos a nos amar cada vez mais. Vemos o homem semimorto à beira do caminho e passamos sempre de largo (Lc 10.30-37). Não nos angustiamos quando lemos nos jornais que as 225 pessoas mais ricas do planeta têm a mesma renda anual das 2,5 bilhões de pessoas mais pobres.

Seis bilhões de pecadores

Na Bíblia está o registro de que "todos se extraviaram e juntamente se corromperam" (Sl 14.3). Mas não há necessidade de consultá-la para descobrir que somos 6 bilhões de pecadores. Não há necessidade porque as confissões anteriores deixam patente esse fato, malgrado a má vontade em torno do assunto. Por sermos 6 bilhões de mortais, 6 bilhões de complicados, 6 bilhões de selvagens e 6 bilhões de injustos, somos 6 bilhões de pecadores. Esta é a palavra que esclarece tudo.

Somos 6 bilhões de habitantes que erramos o alvo, à semelhança das gerações anteriores. Não guardamos a imagem de Deus, não o respeitamos, não o amamos, não lhe prestamos obediência. Somos ovelhas continuamente desgarradas (Is 53.6).

Somos 6 bilhões de pecadores por fora e por dentro. Mais por dentro do que por fora. O pecado não é algo esporádico. O pecado é uma mania, é uma doença, é uma loucura, é um transtorno. O pecado habita em nós (Rm 7.21). É propriedade pessoal, é algo latente, é material explosivo, que quer ter vez, que quer vir à tona, que quer se efetivar. Daí as palavras de Jesus: "De dentro do coração é que vêm os maus pensamentos que levam às coisas imorais: o adultério, a avareza, as maldades, as mentiras, as imoralidades, a inveja, a calúnia, o orgulho, a falta de juízo" (Mc 7.20-22).

Éramos meio bilhão de pecadores em 1650, 1 bilhão em 1804, 2 bilhões em 1913, 3 bilhões em 1965, 4 bilhões em 1974, 5 bilhões em 1987 e somos 6 bilhões agora em outubro [1999]. Se na época de Noé, quando havia apenas alguns milhares de pecadores, "a terra estava corrompida e cheia de violência" (Gn 6.11), quanto mais agora que somos 6 bilhões!

Deus tenha piedade de nós!

***
Texto publicado na revista Ultimato de setembro/outubro de 1999, pp. 36-37.
Editora Ultimato - Caixa Postal 43 - 36570-000 - Viçosa-MG

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