Creio que não existe nada de mais belo, de mais profundo, de mais simpático, de mais viril e de mais perfeito do que o Cristo; e eu digo a mim mesmo, com um amor cioso, que não existe e não pode existir. Mais do que isto: se alguém me provar que o Cristo está fora da verdade e que esta não se acha n'Ele, prefiro ficar com o Cristo a ficar com a verdade. (Dostoievski)

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10 de set de 2007

Jorge Luis Borges [2]


O tempo

A Nietzsche desagradava que se estabelecessem paralelos entre Göethe e Schiller. E poderíamos dizer que, igualmente, é uma irreverência falar do espaço e do tempo, já que, em nossa mente, podemos prescindir do espaço, mas não do tempo.

Vamos supor que só tivéssemos um sentido, em lugar de cinco. Digamos que esse sentido fosse o da audição. Desse modo, desaparece o mundo visual, quer dizer, desaparecem o firmamento, os astros... E precisamos de nosso tato: aí desaparece a sensação do áspero, do liso, do rugoso etc. Se nos faltam igualmente o olfato e o gosto, perdemos também essas sensações localizadas na boca e no nariz. Restaria apenas a audição. Teríamos, então, um mundo possível, em que se poderia prescindir do espaço. Um mundo de indivíduos, de indivíduos que podem comunicar-se entre si, que podem ser milhares, ou milhões, e se comunicam por meio de palavras. Nada nos impede de imaginar uma linguagem tão complexa ou mais complexa do que a nossa -- e por meio da música. Quer dizer, poderíamos ter um mundo em que não houvesse outra coisa senão consciências e música. Poder-se-ia objetar no sentido de que a música necessita de instrumentos. Mas é absurdo supor que a música em si necessita de instrumentos. Os instrumentos são necessários para a produção da música. Se pensamos em tal ou qual partitura, podemos imaginá-la sem instrumentos: sem pianos, sem violinos, sem flautas, etc.

Teríamos, então, um mundo tão complexo como o nosso, feito de consciências individuais e de música. Como disse Schopenhauer, a música não é algo que se acrescenta ao mundo: a música já é um mundo. Nesse mundo, entretanto, haveria sempre o tempo. Porque o tempo é a sucessão. Se eu me imagino, ou se cada um de vocês se imagina em uma casa escura, desaparece o mundo visível, desaparece de seu corpo. Quantas vezes nos sentimos sem consciência de nosso corpo...?! Por exemplo, eu agora, somente neste momento em que toco a mesa com uma das mãos, tenho consciência da mão e da mesa. Mas algo acontece. Que é que acontece? É possível que sejam percepções, sensações ou, simplesmente, memórias ou coisas imaginadas. Mas sempre ocorre algo. E aqui eu me lembro de um dos formosos versos de Tennyson -- um dos primeiros versos escritos por ele: Time is flowing in the middle of the night (O tempo corre no meio da noite). É uma idéia poética esta, de que, enquanto todo o mundo dorme, o silencioso rio do tempo -- esta metáfora é inevitável -- corre nos campos, pelo espaço, flui entre os astros.

Ou seja, o tempo é um problema essencial. Quero dizer que não podemos prescindir do tempo. Nossa consciência está continuamente passando de um estado a outro, e isso é o tempo: uma sucessão. Creio que Henri Bergson disse que o tempo era o problema capital da metafísica. Resolvido esse problema, ter-se-ia resolvido tudo. Felizmente, creio eu que não há nenhum perigo de que ele se resolva, ou seja, permaneceremos sempre ansiosos. Sempre seremos capazes de dizer, como Santo Agostinho: "Que é o tempo? Se não me perguntam, eu sei. Se me perguntam, eu ignoro".

Não sei se ao fim de vinte ou trinta séculos de meditação avançamos muito na análise do problema do tempo. Eu diria que sempre sentimos essa antiga perplexidade, aquela perplexidade mortalmente experimentada por Heráclito, naquele exemplo ao qual volto sempre: por que ninguém desce duas vezes o mesmo rio? Em primeiro lugar, porque as águas do rio correm. Em segundo -- e isso é algo que já nos toca metafisicamente, que nos causa como que um princípio de horror sagrado -- porque nós mesmos somos igualmente um rio, nós também somos flutuantes.

O problema do tempo é esse. É o problema do fugidio: o tempo passa. Volto a recordar aquele belo verso de Boileau: "O tempo passa no momento em que algo já está longe de mim". Meu presente -- ou o que era meu presente -- já é o passado. Mas esse tempo que passa, não passa eternamente. Por exemplo, conversei com vocês na sexta-feira passada. Podemos dizer que somos outros, já que muitas coisas nos aconteceram ao longo de uma semana. Entretanto, somos os mesmos. Eu sei que estive dissertando aqui, que estive tratando de raciocinar e de falar aqui, e vocês talvez se recordem de terem estado comigo na semana passada. Em todo caso, a memória permanece. A memória é individual. Nós somos feitos, em boa parte, de nossa memória.

Essa memória, em grande parte, é feita de esquecimento.
Há, pois, o problema do tempo. Esse problema pode não ser resolvido, mas podemos revisar as soluções que lhe foram apresentadas. A mais antiga é a de Platão, em seguida a de Plotino, e, depois, a de Santo Agostinho. É a que se refere a uma das mais belas invenções do homem. Ocorre-me que se trata de uma invenção humana. Talvez vocês pensem de maneira diferente, caso sejam religiosos. Eu digo: essa bela invenção da eternidade. Que é a eternidade? A eternidade não é a soma de todos os nossos passados. A eternidade é todos os nossos tempos passados, todos os tempos passados de todos os seres conscientes. Todo o passado, esse passado que não se sabe quando começou. E, naturalmente, todo o presente. Este momento presente que engloba todas as cidades, todos os mundos, o espaço entre os planetas. E, é claro, o futuro. O futuro que ainda não foi criado, mas que também existe.

Os teólogos supõem que a eternidade vem a ser um instrumento no qual milagrosamente se integram esses diversos tempos. Podemos usar as palavras de Plotino, que sentiu profundamente o problema do tempo. Plotino disse que há três tempos, e os três são o presente. Um é o presente atual, o momento em que falo. Quer dizer, o momento em que falei, porque esse momento já pertence ao passado. A seguir, há o outro, que é o presente do passado e que se chama memória. E, o outro, o presente do futuro, que vem a ser aquilo imaginado por nossa esperança ou por nosso medo.

E agora passemos à solução dada, primeiramente, por Platão, que parece arbitrária, mas que não o é, como espero provar.

Platão disse que o tempo é a imagem móvel da eternidade. Há uma frase do grande místico inglês William Blake, segundo a qual "o tempo é a dádiva da eternidade". Se a nós nos dessem todo o ser... O ser é mais do que o universo, mais do que o mundo. Se nos revelassem o ser uma única vez, ficaríamos aniquilados, anulados, mortos. Por outro lado, o tempo é a dádiva da eternidade. A eternidade permite-nos todas essas experiências de um modo sucessivo. Há os dias e as noites, as horas, os minutos, a memória, as sensações presentes e, depois, o futuro cuja forma ignoramos, mas que pressentimos ou tememos.

Tudo isso nos é dado de modo sucessivo, eis que não podemos agüentar essa intolerável carga, ou descarga de todo o ser do universo. O tempo viria a ser um dom da eternidade. A eternidade permite-nos viver sucessivamente. Schopenhauer disse que, felizmente para nós, nossa vida é dividida em dias e em nossa noites, nossa vida é interrompida pelo sono. Levantamo-nos pela manhã, passamos nosso dia, em seguida dormimos. Se não houvesse sono, seria intolerável viver, não seríamos donos do prazer. A totalidade do ser é impossível para nós. Assim, dão-nos tudo, mas de forma gradual.

A transmigração corresponde a uma idéia parecida. Talvez, como crêem os panteístas, tenhamos sido, em certa época, o conjunto de todas as plantas, todos os animais, todos os minerais, todos os homens. Felizmente, porém, não sabemos. Felizmente, cremos em indivíduos. Do contrário, seríamos aniquilados por essa plenitude.

Chego agora, a Santo Agostinho. Creio que ninguém sentiu com maior intensidade do que Santo Agostinho o problema do tempo, essa dúvida sobre o tempo. Santo Agostinho diz que sua alma arde, arde por querer saber o que é o tempo. Ele pede a Deus que lhe revele o que é o tempo. Não por vã curiosidade, mas, sim, porque ele não pode viver sem saber isso. Esta se torna a pergunta essencial, ou seja -- o que Bergson diria depois --, o problema essencial da metafísica. Tudo isso foi dito ardorosamente por Santo Agostinho.

Agora que estamos falando do tempo, vamos analisar um exemplo aparentemente simples, o dos paradoxos de Zenão. Ele os aplica ao espaço, mas nós os aplicamos ao tempo. Vamos considerar o mais simples de todos: o paradoxo ou a aporia do elemento móvel , que se acha em um dos extremos de uma mesa e tem de chegar ao outro extremo. Primeiro, tem de chegar à metade; mas, antes, tem de passar pela metade da metade; em seguida, pela metade da metade, e assim infinitamente. O elemento móvel nunca chega ao outro extremo da mesa. Ou, ainda podemos utilizar um exemplo da geometria. Imagine-se um ponto. Supõe-se que o ponto não ocupa extensão alguma. Naturalmente, se consideramos uma sucessão infinita de pontos, teremos a linha. A seguir, com um número infinito de linhas, teremos uma superfície. E, com um número infinito de superfícies, teremos volume. Mas não sei até onde podemos entender isso , porque, se o ponto não é espacial, não se sabe de que modo uma soma, mesmo infinita, de pontos inextensos, pode dar-nos uma linha, que é extensa. Ao falar em linha, não penso em uma que vá deste ponto da Terra à Lua. Penso, por exemplo, nesta linha: a mesa que estou tocando. Também ela contém um número infinito de pontos. E para tudo isso se acreditou haver encontrado uma solução.

Bertrand Russel dá-nos a seguinte explicação: há números finitos -- a série natural dos números, ou seja, 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10 e assim indefinidamente. Mas logo levamos em conta outra série, e esta outra série terá exatamente a metade da extensão da primeira. É integrada por todos os números pares. Assim, ao 1 corresponde o 2, ao 2 corresponde o 4, ao 3 corresponde o 6... Em seguida, tomemos outra série. Vamos escolher um número qualquer. Por exemplo, 365. Ao 1 corresponde 0 365, ao 2 corresponde o 365 multiplicado por si mesmo, ao 3 corresponde o 356 elevado à terceira potência. Há, assim, várias séries de números que são todos infinitos. Quer dizer, nos números transfinitos as partes não são menos numerosas que o todo. Creio que isso foi aceito pelos matemáticos. Mas não sei até onde nossa imaginação pode aceitá-lo.

Consideremos o momento presente. Que é o momento presente? O momento presente é o momento que tem um pouco de passado e um pouco de futuro. O presente, em si, é como o ponto finito da geometria. O presente, em si, não existe. Não é um dado imediato de nossa consciência. Pois bem. Temos o presente, e vemos que o presente está gradativamente tornando-se passado., transformando-se em futuro. Há duas teorias sobre o tempo. Uma delas, que é a que corresponde, creio, a quase todos nós, vê o tempo como um rio. Um rio que corre desde o princípio, desde o inconcebível princípio, e chegou até nós. Em seguida, temos a outra, do metafísico James Bradley, inglês. Bradley diz que acontece o contrário: que o tempo corre do futuro para o presente. Que aquele momento no qual o futuro se torna passado é o momento que chamamos de presente.

Podemos escolher entre ambas as metáforas. Podemos situar o manancial do tempo no futuro ou no passado. Dá no mesmo. Sempre estaremos diante do rio do tempo. Agora, como resolver o problema de uma origem do tempo? Platão deu-nos uma solução: o tempo procede a eternidade, e seria um erro dizer que a eternidade é anterior ao tempo. Porque dizer "anterior" é dizer que a eternidade pertence ao tempo. Também é um erro dizer, como Aristóteles, que o tempo é a medida do movimento, pois o moviemnto acontece no tempo e não pode explicar o tempo.

Há uma frase muito linda de Santo Agostinho, que diz Non in tempore, sed cum tempore Deus creavit caela et terran (ou seja: "Não o tempo, senão no tempo, Deus criou os céus a Terra"). Os primeiros versículos do Gênesis referem-se não apenas à criação do mundo, à criação dos mares, da Terra, da escuridão, da luz, mas, também, do princípio do tempo. Não houve um tempo anterior: o mundo começou a ser com o tempo, e desde então é sucessivo.

Não sei se esse conceito de números transfinitos, que expliquei que há poucos instantes, pode ajudar-nos. Não sei se minha imaginação aceita essa idéia. Não sei se a de vocês pode aceitá-la. A idéia de quantidade cujas partes não sejam menos extensas do que o todo. No caso da série natural dos números, aceitamos que a cifra de números pares é igual à de números ímpares, ou seja, infinta; que a cifra de potência do número 365 é igual à soma total. Por que não aceitar a idéia de dois instantes de tempo? Por que não aceitar das 7 e 4 minutos e das 7 e 5 minutos? Parece muito difícil aceitar o fato de que entre esses dois instantes existe um número infinito e transfinito de instantes.

Contudo, Bertrand Russel pede-nos que o imaginemos assim.
Bernheim disse que os paradoxos de Zenão se baseavam em um conceito espacial do tempo. Que, na realidade, o que existe é o ímpeto vital e o que não podemos subdividi-lo. Por exemplo, se dizemos que enquanto Aquiles corre um metro a tartaruga correu um decímetro, isso é falso, porque estaremos dizendo que Aquiles corre a passos de tartaruga no final. Quer dizer, estamos aplicando ao tempo medidas que correspondem ao espaço. Mas poderíamos dizer igualmente -- e é o que diz William James: vamos supor um transcurso de cinco minutos de tempo. Para que transcorram cinco minutos de tempo, é necessário que transcorra a metade de cinco minutos. Para que transcorram dois minutos e meio, é necessário que transcorra a metade de dois minutos e meio. Par que transcorra a metade de dois minutos e meio, é preciso metade da metade, e assim indefinidamente, de sorte que jamais poderão passar os cinco minutos. Aqui temos as aporias de Zenão aplicadas ao tempo, com o mesmo resultado.
E podemos também analisar o exemplo da flecha. Zenão diz que uma flecha, em seu vôo, está imóvel em cada instante dele. Logo, o movimento é impossível, já que uma soma de imoblidades não pode constituir o movimento.

Se, no entanto, pensamos que existe espaço real, esse espaço pode ser divisível, finalmente, em pontos, mesmo que o espaço seja infintamente indivisível. Se pensamos em um espaço real também o tempo pode subdivirdir-se em instantes, em instantes de instantes, cada vez mais em unidades de unidades.

Se pensarmos que o mundo é simplesmente nossa imaginação, se pensamos cada um de nós está sonhando com um mundo, por que não supor que passamos de um pensamento a outro e que não existem essas subdivisões, já que não as sentimos? O único que existe é o que sentimos. Só existem nossas percepções, nossas emoções. Mas essa subdivisão é imaginária, não é real.

Há ainda, uma outra idéia, que também parece pertencer ao comum dos homens: a da unidade do tempo. Foi levantada por Newton, mas, antes dele, já tinha havido certo consenso em torno dela. Quando Newton falou do tempo matemático -- quer dizer, de um só tempo que flui através de todo o universo --, esse tempo está fluindo agora em lugares vazios, está fluindo entre os astros, está fluindo de um modo uniforme. Mas o metafísico inglês Bardley disse que não havia nenhuma razão para imaginar isso.

Podemos supor a existência de diversas séries de tempo -- dizia ele -- não relacionadas entre si. Teríamos um série que poderíamos chamar de "a", "b", "c", "d", "e", "f",... Esses dados relacionam-se entre si: um é posterior a outro, um é anterior a outro, um é contemporâneo de outro. Mas poderíamos imaginar outras séries de tempos.

Por que imaginar uma única série de tempo? Não sei se a imaginação de vocês aceita essa idéia. A idéia de que há muitos tempos e que essas séries de tempos -- naturalmente, os integrantes das séries são anteriores, contemporâneos ou posteriores entre si -- não são nem anteriores, nem posteriores, nem contemporâneas. São séries distintas. Isso poderíamos imaginar na consciência de cada de um de nós. Podemos pensar em Leibniz, por exemplo.

A idéia de que cada um de nós vive uma série de fatos, e essa série de fatos pode ser paralela ou não a outras. Por que aceitar essa idéia? É uma idéia possível; ele dar-nos-ia um mundo mais amplo, um mundo mais estranho que o atual. A idéia de que não há um tempo. Creio que essa ideía foi, de certo modo, absorvida pela física moderna, que não compreendo e não conheço. A idéia de vários tempos. Por que supor a idéia de um só tempo, um tempo absoluto, como imaginava Newton?

Retornemos, agora, ao tema da eternidade, a idéia do eterno que quer manifestar-se de algum modo, que se manifesta no espaço e no tempo.

O eterno é o mundo dos arquétipos. No eterno, por exemplo, não há triângulo. Há um só triângulo, que não é equilátero, nem isósceles nem escaleno. Esse triângulo é as três coisas ao mesmo tempo e nenhuma delas. O fato de que esse triângulo seja inconcebível não importa: esse triângulo existe.

Ou, por exemplo, cada um de nós pode ser uma cópia temporária e mortal do arquétipo do homem. Também surge em nós a questão sobre se cada homem tivesse seu arquétipo platônico. Desse modo, esse absoluto deseja manifestar-se, e se manifesta no tempo. O tempo é a imagem da eternidade.

Creio que este último nos ajudaria a entender por que o tempo é sucessivo. O tempo é sucessivo porque, tendo saído do eterno, quer voltar ao eterno. Ou seja, a idéia de futuro corresponde a nosso desejo de voltar ao princípio. Deus criou o mundo; todo o mundo, todo o universo das criaturas quer voltar a esse manancial eterno, que é intemporal, não ao anterior ao tempo, nem posterior, mas fora do tempo. E isso já se situaria no ímpeto vital. E também o fato de que o tempo está em contínuo movimento. Há os que negaram o presente. Há metafísicos do Industão que disseram que não há um momento em que a fruta cai. A fruta está para cair ou está no chão, mas não há um momento em que ela cai.

Que extraordinário pensar que dos três tempos em que temos dividido o tempo -- passado, presente, futuro -- o mais difícil, o mais inascível seja o presente! O presente é tão inascível como o ponto. Porque se o imaginamos sem extensão, não existe; temos de imaginar que o presente aparente viria a ser um pouco o passado e um pouco o futuro. Quer dizer, sentimos a passagem do tempo. Quando falo da passagem do tempo, estou falando de algo que vocês sentem. Se falo do presente, estou falando de uma entidade abstrata. O presente não é um dado imediato de nossa consciência.

Sentimos que estamos deslizando pelo tempo, ou seja, podemos pensar que passamos do futuro ao passado, ou do passado ao futuro, mas não há um momento em que possamos dizer ao tempo "Pára! És tão belo!...", como queria Göethe. O presente não se detém. Não poderíamos imaginar um presente puro; não teria valor. O presente tem sempre uma partícula de passado, uma partícula de futuro. E parece que isso é necessário ao tempo. Em nossa experiência, o tempo corresponde sempre ao rio de Heráclito - continuamos a usar essa antiga parábola. É como se não tivéssemos avançado em tantos séculos. Somos sempre Heráclito, vendo-se refletido no rio e pensando que o rio não é o rio, porque suas águas mudaram, e pensando que ele não é Heráclito porque ele foi outras pessoas entre aquele último momento em que viu o rio e este.

Somos, portanto, algo cambiante e algo permanente. Somos algo essencialmente misterioso. Que seria de cada um de nós sem a memória? É uma memória grande parte feita de ruído, mas que é essencial. Não é necessário que eu recorde, por exemplo, para ser quem eu sou, que vivi em Palermo, em Adrogué, em Genebra, ou na Espanha. Ao tempo, tenho de sentir que não sou o que fui nesse lugares, que sou outro. Este, o problema que nunca poderemos resolver, o problema da identidade cambiante. E talvez a própria palavra "cambiante" seja suficiente. Por que se falamos que algo está cambiando, não estamos dizendo que algo é por outra coisa. Dizemos "A planta cresce". Não queremos dizer, com isso, que uma pequena planta deva ser substituída por uma maior. Queremos dizer que essa planta se transforam em outra coisa. Trata-se, pois, da idéia de permanência no fugaz.

A idéia do futuro viria a justificar aquela antiga idéia de Platão, de que o tempo é a imagem móvel do eterno. Se o tempo é a imagem do eterno, o futuro viria a ser o movimento da alma rumo ao futuro. O futuro seria, por sua vez, a volta ao eterno. Ou seja, nossa vida é uma contínua agonia.

Quando São Paulo disse "morro a cada dia", não era esta uma expressão patética. A verdade é que morremos a cada dia e nascemos a cada dia. Estamos permanentemente nascendo e morrendo. Por isso o problema do tempo nos afeta mais que os outros problemas metafísicos. Por que os outros são abstratos. O do tempo é nosso problema. Quem sou eu? Quem é cada uma de nós? Quem somos? Talvez o saibamos algum dia. Talvez, não. Nesse meio tempo, entretanto, como dizia Santo Agostinho, minha alma arde, porque quero saber.

23 de junho de 1978

Jorge Luis Borges, Cinco visões pessoais. Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 2002, pp. 61-69.

O livro é uma coletânea de aulas do autor na Universidade de Belgrano, em Buenos Aires, Argentina.

NOTA DA MAYA: Utilizei este texto, genial, em um trabalho que fiz com uma das turmas na Universidade. Foi um prazer, uma alegria ver alunos descobrindo Borges, assim como é sublime quando lemos Roland Barthes, ou Foucault. Sempre me perguntam por que sou professora. Eu respondo: Não saberia ser outra coisa. Poderia fazer outras coisas, mas não saberia não ser professora. Compartilhar o conhecimento é um exercício sagrado.

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