Creio que não existe nada de mais belo, de mais profundo, de mais simpático, de mais viril e de mais perfeito do que o Cristo; e eu digo a mim mesmo, com um amor cioso, que não existe e não pode existir. Mais do que isto: se alguém me provar que o Cristo está fora da verdade e que esta não se acha n'Ele, prefiro ficar com o Cristo a ficar com a verdade. (Dostoievski)

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10 de set de 2007

Eni Orlandi [1]


Silêncio e sentido

No início é o silêncio. A linguagem vem depois

Quando o homem, em sua história, percebeu o silêncio como significação, criou a linguagem para retê-lo.

O ato de falar é o de separar, distinguir e, paradoxalmente, vislumbrar o silêncio e evitá-lo. Este gesto disciplina o significar, pois já é um projeto de sedentarização do sentido. A linguagem estabiliza o movimento dos sentidos. No silêncio, ao contrário, sentido e sujeito se movem largamente.

Em suma: quando o homem individualizou (instituiu) o silêncio como algo significativamente discernível, ele estabeleceu o espaço da linguagem.

Apreendendo o silêncio

Estudando o discurso religioso, tive de passar necessariamente pela questão do silêncio. E para não estacionar no tão conhecido silêncio místico, fiz um esforço de reflexão para pensar as outras formas de silêncio, eu diria mesmo, os outros silêncios.

As palavras são múltiplas mas os silêncios também o são. A especificação dessa idéia começou a se elaborar a partir da minha observação sobre diferentes ordens de discurso em suas distintas propriedades e definições.

A primeira coisa que percebi é que, inadvertidamente, eu havia mal-definido o discurso religioso como "aquele em que fala a voz de Deus" (Orlandi, 1983). esta definição pode ser interessante para o teólogo mas não o é para o analista do discurso.

Dessa perspectiva, a do analista do discurso, o que se pode dizer é que o que funciona na religião é a onipotência do silêncio divino. Mais particularmente, isto quer dizer que, na ordem do discurso religioso, Deus é o lugar da onipotência do silêncio. E o homem precisa desse lugar, desse silêncio, para colocar uma sua fala específica: a de sua espiritualidade.

Nem por isso a religião deixa de lhe ser fundamental: no discurso religioso, não é apenas o mesmo sempre-homem falando; o que importa é que a religião institui um outro lugar e assim dá um estatuto (e, logo, um sentido) diferente a essa fala. Diferença à qual o homem não é indiferente.

A partir dessas reflexões, e conduzida pela minha convivência com a discussão sobre o político na linguagem, interessei-me por outra característica desse mesmo tema: a política do silêncio. Isto é, o silenciamento.

Aí entra toda a questão do "tomar" a palavra, "tirar" a palavra, obrigar a dizer, fazer calar, silenciar etc.

Em face dessa sua dimensão política, o silêncio pode ser considerado tanto como parte da retórica da dominação (a da opressão) como de sua contrapartida, a retórica do oprimido (a da resistência). E tem todo um campo fértil para ser observado: na relação entre índios e brancos, na fala sobre a reforma agrária, nos discursos sobre a mulher, só para citar alguns terrenos já explorados por mim.

A partir daí uma nova passagem teórica se faz necessária. Não é suficiente pensar o silenciamento. Para compreender a linguagem é preciso entender o silêncio para além de sua dimensão política.

Desenvolvendo então essa reflexão podemos chegar a algo que, ao meu ver, coloca em estado de questão a própria história da reflexão sobre a linguagem, tanto com respeito à Gramática quanto à Retórica.

Chegamos então a uma hipóteses que é extremamente incômoda para os que trabalham com a linguagem: o silêncio é fundante. Quer dizer, o silêncio é a matéria significante por excelência, um continuum significante. O real da significação é o silêncio. E como o nosso objeto de relexão é o discurso, chegamos a uma outra afirmação que sucede a essa: o silêncio é o real do discurso.

O homem está "condenado" a significar. Com ou sem palavras, diante do mundo, há uma injunção à "interpretação": tudo tem que fazer sentido (qualquer que ele seja). O homem está irremediavelmente constituído pela sua relação com o simbólico.

Numa certa perspectiva, a dominante nos estudos dos signos, se produz uma sobreposição entre linguagem (verbal e não-verbal) e significação.

Disso decorreu um recobrimento dessas duas noções, resultando de uma redução pela qual qualquer matéria significante fala, isto é, é remetida à linguagem (sobretudo verbal) para que lhe seja atribuído sentido.

Nessa mesma direção, coloca-se o "império do verbal" em nossas formas sociais: traduz-se o silêncio em palavras. Vê-se assim o silêncio como linguagem e perde-se sua especificidade, enquanto matéria significante distinta da linguagem.

Revendo o dilema entre Semiologia e Lingüística -- qual contém qual? -- podemos colocá-lo como um falso dilema, pois pressupõe a dominância da linguagem verbal: toda linguagem está repassada de linguagem verbal ou, como se diz, todo sistema de signos (de qualquer natureza) é atravessado (interpretado) pela linguagem verbal. São pensadas aí várias linguagens, sem contudo, se conceder um lugar mais decisivo a seu exterior. Sendo a relação do homem com o sentido uma relação necessária, o significar não tem exterior; no entanto, se concebemos o silêncio tal como estamos propondo, a linguagem tem.

Só se pode pensar o silêncio, sem cair na armadilha dessa relação, quando se pensa "o avesso da estrutura", sem o binarismo, sem as oposições e regras estritas e categóricas. Quando se pensam radicalmente não os produtos mas os processos de significação, isto é, o discurso.

Então, ao invés de pensar o silêncio como falta, podemos, ao contrário, pensar a linguagem como excesso.

Essa possibilidade, aliás, já está tematizada na linguagem corrente em expressões que se opõem, como as que se seguem:

Estar em silêncio/Romper o silêncio
Guardar o silêncio/Tomar a palavra
Ficar em silêncio/Apropriar-se da palavra

Onde se pode perceber o silêncio como estado primeiro, aparecendo a palavra já como movimento em torno.

Na perspectiva que assumimos, o silêncio não fala. O silêncio é. Ele significa. Ou melhor: no silêncio, o sentido é.

Podemos mesmo chegar a uma proposição mais forte, invertendo a posição que nos é dada pelo senso comum (e sustentada pela ciência), na qual a linguagem aparece como "figura" e o silêncio como "fundo". Desse modo, podemos dizer que o silêncio é que é "figura", já que é fundante. Estruturante, pelo avesso. Fazendo-se um paralelo com o que diz Hjelmslev (1943) a propósito dos três níveis, o da substância, o da forma e o da matéria (sens), é no nível dessa última que localizamos o silêncio fundante.

Constitutivo em primeira e múltiplas instâncias, ela tem primazia sobre as palavras.

A linguagem, por seu lado, já é categorização do silêncio. É movimento periférico, ruído.

O desejo de unicidade que atravessa o homem é função da sua relação com o simbólico sob o modo do verbal.

A linguagem é conjugação significante da existência e é produzida pelo homem, para domesticar a significação.

A fala divide o silêncio. Organiza-o. O silêncio é disperso, e a fala é voltada para a unicidade e as entidades discretas. Formas. Segmentos visíveis e funcionais que tornam a significação calculável.

Se tudo isso pode ser dito a propósito da linguagem, falar do silêncio traz, em si, uma dificuldade maior, já que ele se apresenta como absoluto, contínuo, disperso.

O silêncio não está disponível à visibilidade, não é diretamente observável. Ele passa pelas palavras. Não dura. Só é possível vislumbrá-lo, de modo fugaz. Ele escorre por entre a trama das falas.

(...)

Eni Pulcinelli Orlandi, em As Formas do Silêncio - No movimento dos Sentidos. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 1995, pp.29-34

NOTA DA MAYA: Acho que esse é um dos melhores livros que já li da profª Eni Orlandi, fundadora da Análise do Discurso de linha francesa no Brasil e professora da Unicamp. Sempre estudamos o discurso como manifestação verbal, mas pensar o silêncio como fundante da significação faz perceber que dentro dele eclodem sentidos, que são delimitados com as palavras, com o discurso. Mas o silêncio é também, no discurso. O silêncio fundante me faz pensar, sempre, no caos. E a palavra, delimitadora de sentidos, delineadora, é o próprio ato de trazer à existência. Mas aquilo que a palavra delimitou já estava lá. O Verbo é a manifestação do não cogniscível, daquele que está em tudo e move-se no silêncio.

Mas Eni Orlandi, mais à frente, fala de outras formas de silêncio, distintas do silêncio fundante mas também merecedoras de investigação: o silêncio do fazer calar, o silêncio da censura, o silêncio do poder, a política do silêncio.
.
A política do silêncio, por sua vez, segundo Orlandi, distingue "duas subdivisões: a) o constitutivo (todo dizer cala algum sentido necessariamente) e b) local (a censura)." (Id., p. 105).

Veremos essas considerações depois.

3 comentários:

Anônimo disse...

Muito legal seu post sobre o silêncio. Aborda de forma fácil este interessante conceito abordado pela Eni.

Mayalu Moreira Felix disse...

Olá,

Obrigada por sua visita e por seu comentário. Eni Orlandi é brilhante, e é um prazer pensar acerca de suas publicações.

Um abraço, volte sempre,

Maya

Anônimo disse...

OLá, boa tarde!!

Eu estou pensando em um tema para minha monografia na faculdade e estou pensando em fazer algo voltado á análise de discurso mas com base no filme "DANÇANDO COM O DIABO" que traz uma discussão sobre a guerra do trafico no Rio de Janeiro, eu penso em fazer a análise discurso da versão marginal e da versão policial, então estou pensando em ler alguma obra de Eny Orlandi que me auxilie nesse sentido. Será que você pode indicar alguma obra dela, ou qu seja até de ouro autor mas que auxilie no sentido de análise do discurso?

Desde já agradeço,

Carlos Torres.

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