Creio que não existe nada de mais belo, de mais profundo, de mais simpático, de mais viril e de mais perfeito do que o Cristo; e eu digo a mim mesmo, com um amor cioso, que não existe e não pode existir. Mais do que isto: se alguém me provar que o Cristo está fora da verdade e que esta não se acha n'Ele, prefiro ficar com o Cristo a ficar com a verdade. (Dostoievski)

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27 de jan de 2008

De onde tirei essa idéia

A primeira coisa ao mesmo tempo evidente e terrível a se reconhecer é que o texto não é idêntico à sua interpretação. Texto algum bastará para fazê-lo abraçar essa convicção, mas se você chegar até aqui, se for capaz de ultrapassar esse ponto, poderá palmilhar sozinho o restante do caminho. Não precisará mais de mim, dos parágrafos seguintes ou de texto algum.

As sociedades construídas ao redor da palavra escrita vivem debaixo de uma maldição e de uma contradição. A maldição está em que as palavras não existem no mundo real, são sinais mágicos, aproximações e convenções que tatuamos no papel e que só têm vida e realidade na mente de quem acontece de estar pensando nelas. A contradição está em que, embora nos afirmemos leais às palavras e ao sentido das palavras, somos na verdade leais à vida artificial que imprimos (ou deixamos que outros imprimam) às palavras na nossa própria mente. Afirmamos fidelidade e reverência ao texto, mas na realidade somos fiéis à interpretação que elaboramos para o texto na nossa cabeça.

Essas limitações (esses recursos) da palavra escrita produzem efeitos muito reais em todos os níveis, quer estejamos falando em recados escritos em notinhas adesivas ou na publicação de ciclos de palestras sobre Shakespeare. Porém em nenhuma área de atividade humana esse temperamento particular da palavra escrita, sua disposição de prestar-se a todo tipo de contorção enquanto retém a aparência de austera imutabilidade, traz conseqüencias mais amplas, curiosas e duradouras do que na esfera religiosa. Isso é especialmente verdadeiro no ocidente, que construiu o seu edifício inteiro de religiosidade ao redor do conceito de palavras sagradas (isto é, vivas) presas entre as páginas mortas de um livro.

Ao longo da geografia e da história são poucas as manifestações religiosas da humanidade que desconhecem o conceito de palavra sagrada. A palavra falada é tradicionalmente o canal do espírito, o fulcro mágico entre o visível e o invisível, a realidade criadora formada a partir do sopro do vento. Em praticamente todas as culturas a palavra falada é o nada que tudo revela, o fôlego que a tudo dá um sentido (a todas as coisas dá um nome). A própria tradição judaico-cristã assinalou o poder e a primazia da palavra falada muito antes que os livros da Bíblia fossem colocados por escrito e por um longo período antes que a mensagem escrita (a “Escritura”) chegasse a ser venerada como definitiva e suficiente. A própria Bíblia, naturalmente, fornece amplo testemunho disso.

Com o passar do tempo, no entanto, a noção da autoridade última de letras sagradas confinadas à página e a busca heróica pela sua interpretação definitiva obscureceu todo o resto, até mesmo – e aqui reside o supremo paradoxo – o conteúdo do texto. Mais de três mil anos depois que ocorreu a Deus registrar uma lista de ordens simples em tábuas de pedra, e dois mil anos depois que Jesus foi apontado como Verbo encarnado, ainda associamos tanto religiosidade quanto vida espiritual à veneração nominal de textos sagrados – ao mesmo tempo em que damos o nome de “evangelização” ao tráfico bem-sucedido de uma interpretação particular.

As armadilhas da palavra, evidentemente, não perderam a força ao longo desses séculos. Ao contrário, nosso suposto respeito por elas emprestou-lhes apenas um poder de ofuscamento cada vez maior. Despistados pela pirotecnia da interpretação, deixamos que meras palavras ofusquem o sentido do texto.

Por isso não se iluda, porque não pretendo me iludir. O que você chama (o que eu chamo) de lealdade ao texto é de fato – invariavelmente, em todos casos – lealdade a determinada interpretação.

Quando alguém chama de “igreja” um edifício na esquina e opina que “não matarás” não se aplica a casos extremos como a guerra; quando alguém assegura que relação sexual entre gente do mesmo sexo é pecado e comer carne de porco não; quando alguém argumenta que “venda tudo que tem e dê aos pobres” não deve ser interpretado literalmente, mas “trazei os dízimos à casa do tesouro” sim; quando alguém dá a entender que as dissertações de Paulo explicam mais sobre a natureza de Deus e da boa nova do que as palavras e as atitudes de Jesus; quando alguém diz “Rubem Alves é um apóstata” ou discorda da sua opinião dizendo “se você não aceita a Bíblia como autoridade para o seu cristianismo sua fé é algo subjetivista demais para se atrelar ao cristianismo” – quando afirmam isso ou o contrário disso, apesar de suas boas intenções e do entusiasmo do seu testemunho, essas pessoas não estão demonstrando fidelidade imediata ao texto a que se referem: estão demonstrando lealdade à sua própria interpretação desses textos.

Alguém irá fatalmente argumentar que basta ler um texto para interpretá-lo, e que portanto todos podem ser acusados (inclusive você, Brabo) de favorecer a interpretação que lhes sugere a sua própria leitura. No caso em questão, no entanto, essa observação precisa ser qualificada.

Em primeiro lugar, nos nossos dias é virtualmente impossível aproximar-se do texto bíblico de forma isenta. Devido ao efeito onipresente de milênios de infestação cultural, não há quem seja capaz de abrir esse livro com o propósito singelo, intermediado por ninguém, de ouvir o que ele tem a dizer. Aproximamo-nos invariavelmente da Bíblia pela via formadora
de alguma igreja que já fez a sua leitura antes de nós – ou seja, aproximamo-nos de uma interpretação antes de nos aproximarmos do texto. Essa contingência poderá parecer boa e proveitosa na opinião de alguns, mas não se pode negar que o que acabamos encontrando nas páginas da Escritura é, essencialmente, o que fomos ensinados a encontrar nela.

Em segundo lugar, embora haja potencialmente tantas interpretações quanto leituras, o que acaba acontecendo é que uma corrente particular de interpretação acaba reivindicando primazia moral e intelectual sobre as outras. Isso acontecia no tempo de Jesus e acontece no nosso. Essa será, em todos os casos, a interpretação ostensivamente mais conservadora, mais rigorosa e ortodoxa. Essa interpretação se mostrará continuamente pronta a demonstrar a sua supremacia, a apontar os desvios dos menos esclarecidos, a condenar os erros dos torpes, a celebrar sua fidelidade à mensagem original que se dispõe a preservar. Como no tempo de Jesus, essa corrente autorizada de interpretação permanecerá necessariamente cega às suas próprias contradições; em especial, não verá problema em reivindicar para si a fama de literal quando é, na verdade, tremendamente seletiva.

É evidente que quando digo tudo isso falo do alto (ou do fundo, dependendo de onde você está) da minha própria interpretação, e o que posso dizer em favor da minha interpretação é que ela é minha.

Como sei que serei julgado por ela (embora
minha fé não seja aquilo em que acredito) devo antes de prosseguir esboçar os limites, necessariamente muito tênues, da minha provisória ortodoxia. Minha interpretação é que nenhuma interpretação basta e nenhuma é, no fim das contas, necessária. Minha interpretação é que parte essencial daquilo de que a boa nova veio nos salvar é a tendência muito humana a nos agarrarmos a oráculos de orientação, escrituras de referência e listas de mandamentos colocados sensatamente por escrito. Minha interpretação é que o precário lugar dos mandamentos é na superfície do coração, onde só você pode lê-los e só você pode interpretá-los, e que o assombroso milagre será que sendo fiel a Deus você será fiel ao seu próprio coração, e vice-versa. Minha interpretação é que Jesus, a Palavra encarnada, veio convidar-nos a viver além da submissão debilitante e contraproducente à letra, chamando-nos a respirar o Espírito num domínio de terrível liberdade e responsabilidade que preferiríamos não ter de percorrer.

Minha interpretação é que, tomada como um todo, a aspiração nada secreta da Bíblia é provar-se finalmente desnecessária.

Mas quero mostrar de onde tirei essa idéia.

***

Texto de Paulo Brabo publicado no site A Bacia das Almas em 23/01/2008.

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