Creio que não existe nada de mais belo, de mais profundo, de mais simpático, de mais viril e de mais perfeito do que o Cristo; e eu digo a mim mesmo, com um amor cioso, que não existe e não pode existir. Mais do que isto: se alguém me provar que o Cristo está fora da verdade e que esta não se acha n'Ele, prefiro ficar com o Cristo a ficar com a verdade. (Dostoievski)

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29 de nov de 2007

Primeiro dia de aula...

Hoje foi, de fato, minha primeira aula neste novo semestre "fora de época". Língua Portuguesa, curso de... Administração. Noturno. Confesso que quando soube que havia sido designada para a turma da Administração, fiquei assim, meio sem saber... Me vi no meio de textos explicativos acerca de planilhas, relatórios, projetos e eu lá, traumatizada com o choque de gestão.

Então hoje, último horário, lá fui eu. É uma turma de calouros, muitos já fazem outro curso. Há um rapaz que faz Design (Desenho Industrial, gente!) na Federal, uma moça que fez Artes Plásticas, alguns que fazem Direito, Turismo, Biologia, Engenharia da Computação... Já outros experimentaram aqui e ali Matemática, Engenharia(s) e muitos querem, ainda, fazer Direito, Engenharia, Odontologia... Que eclético, não?

A turma é quase totalmente formada por jovens entre 18 e 22 anos. Há um estudante de 24 anos já casado e outro que tem a minha idade. No mais, "nossa linda juventude"...

Penso no que levar. Que textos. Que ninguém espere de mim cópias dos conselhos do "Max Gheringher", da revista Época. Vamos trabalhar com leitura e escrita. Resumos, resenhas, paráfrases, dissertações. Capacidade de síntese, senso crítico, exercício e aperfeiçoamento do que eles já possuem, que é o domínio da língua escrita. Mas vou precisar de textos. Já tenho algumas idéias, vamos ver.

O que eu acho é que eles são meio que "heróis"... Muitos trabalham, estudam de manhã, de tarde e de noite, fazem um malabarismo enorme e estão lá, às 20h20, para assistir aula até as 22h. Então não quero fazer da minha aula a tortura da noite. Não quero que ninguém tenha pesadelos imaginando como será a avaliação.

Vamos trabalhar com textos dentro do contexto... Com a perspectiva de que a língua serve o usuário, naquilo que ele necessita, em diferentes usos e situações. Infelizmente, a idéia que se tem de uma aula de português é a de um apanhado de regras enfadonhas, uma nomenclatura horrorosa, decorar, decorar, decorar... e se ferrar. Mas eu não penso assim. Não somos escravos da língua. Muito pelo contrário: ela deve ser nossa aliada. Precisa andar conosco em sua infinita flexibilidade a fim de nos auxiliar em nossos objetivos - seja no trabalho, com a turma de amigos, com o (a) namorado (a)... A língua, de fato, nos serve. Não somos seus escravos. Os compêndios, gramáticas, tratados e manuais é que nos fazem submissos a aberrações do tipo "Oh, a rosa? Dá-me-la!". Como diz o Luís Fernando Veríssimo, "a Gramática precisa apanhar todo dia, para saber quem é que manda" (abraços, Leiliane!).

Meus caros alunos de Administração, esse texto é pra vocês. Abraços e até sexta-feira! À noite! Das 18h30 às 22h! Putz!

***


O Gigolô das Palavras


Luís Fernando Veríssimo

Quatro ou cinco grupos diferentes de alunos do Farroupilha estiveram lá em casa numa mesma missão, designada por seu professor de Português: saber se eu considerava o estudo da Gramática indispensável para aprender e usar a nossa ou qualquer outra língua. Cada grupo portava seu gravador cassete, certamente o instrumento vital da pedagogia moderna, e andava arrecadando opiniões. Suspeitei de saída que o tal professor lia esta coluna, se descabelava diariamente com suas afrontas às leis da língua, e aproveitava aquela oportunidade para me desmascarar. Já estava até preparando, às pressas, minha defesa ("Culpa da revisão! Culpa da revisão !"). Mas os alunos desfizeram o equívoco antes que ele se criasse. Eles mesmos tinham escolhido os nomes a serem entrevistados. Vocês têm certeza que não pegaram o Veríssimo errado? Não. Então vamos em frente.
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Respondi que a linguagem, qualquer linguagem, é um meio de comunicação e que deve ser julgada exclusivamente como tal. Respeitadas algumas regras básicas da Gramática, para evitar os vexames mais gritantes, as outras são dispensáveis. A sintaxe é uma questão de uso, não de princípios. Escrever bem é escrever claro, não necessariamente certo. Por exemplo: dizer "escrever claro" não é certo mas é claro, certo? O importante é comunicar. (E quando possível surpreender, iluminar, divertir, mover... Mas aí entramos na área do talento, que também não tem nada a ver com Gramática.) A Gramática é o esqueleto da língua. Só predomina nas línguas mortas, e aí é de interesse restrito a necrólogos e professores de Latim, gente em geral pouco comunicativa. Aquela sombria gravidade que a gente nota nas fotografias em grupo dos membros da Academia Brasileira de Letras é de reprovação pelo Português ainda estar vivo. Eles só estão esperando, fardados, que o Português morra para poderem carregar o caixão e escrever sua autópsia definitiva. É o esqueleto que nos traz de pé, certo, mas ele não informa nada, como a Gramática é a estrutura da língua mas sozinha não diz nada, não tem futuro. As múmias conversam entre si em Gramática pura.
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Claro que eu não disse isso tudo para meus entrevistadores. E adverti que minha implicância com a Gramática na certa se devia à minha pouca intimidade com ela. Sempre fui péssimo em Português. Mas - isso eu disse - vejam vocês, a intimidade com a Gramática é tão indispensável que eu ganho a vida escrevendo, apesar da minha total inocência na matéria. Sou um gigolô das palavras. Vivo às suas custas. E tenho com elas exemplar conduta de um cáften profissional. Abuso delas. Só uso as que eu conheço, as desconhecidas são perigosas e potencialmente traiçoeiras. Exijo submissão. Não raro, peço delas flexões inomináveis para satisfazer um gosto passageiro. Maltrato-as, sem dúvida. E jamais me deixo dominar por elas. Não me meto na sua vida particular. Não me interessa seu passado, suas origens, sua família nem o que outros já fizeram com elas. Se bem que não tenho o mínimo escrúpulo em roubá-las de outro, quando acho que vou ganhar com isto. As palavras, afinal, vivem na boca do povo. São faladíssimas. Algumas são de baixíssimo calão. Não merecem o mínimo respeito.
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Um escritor que passasse a respeitar a intimidade gramatical das suas palavras seria tão ineficiente quanto um gigolô que se apaixonasse pelo seu plantel. Acabaria tratando-as com a deferência de um namorado ou a tediosa formalidade de um marido. A palavra seria a sua patroa ! Com que cuidados, com que temores e obséquios ele consentiria em sair com elas em público, alvo da impiedosa atenção dos lexicógrafos, etimologistas e colegas. Acabaria impotente, incapaz de uma conjunção. A Gramática precisa apanhar todos os dias pra saber quem é que manda.
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NOTA: Tirando a abordagem machista e violenta sutilmente entranhada neste texto, o que é lamentável... Vamos considerar humor como humor, mesmo que seja assim, meio... discriminatório... Putz! Ah, em tempo: Foi a Líliam Teresa quem me enviou este texto.

4 comentários:

Leiliane Barbosa disse...

Que legal Maya,obrigada pelo carinho!Estou eu aqui entretida lendo seu blog, e de repente:" abraços, Leiliane!",mas enfim, estou certa de mais um sucesso com seus novos alunos,eles estão em ótimas mãos!É claro que vou lá matar as saudades, não é todo dia que temos a oportunidade de assistirmos uma aula-show!Beijos

Maya disse...

Oi, querida! Saudades da turminha! Cada semestre é um recomeço. Quando a gente enfim se conhece... acaba o semestre!

Beijos!

Maya

João Ricardo disse...

Tem que comentar, senão ela briga
huahuahuahuahuahahuahuahua

Que nada, gostei muito do blog.
Luís Fernando Veríssimo, Calvin,
a música de fundo então...

A Leiliane ainda fez o "marketing"
da professora. Agora é ver o que
nos aguarda nesse primeiro período, espero que tudo corra bem

Maya disse...

Ah, finalmente!!!

Leiliane é uma garota inteligente, perceba...

Vai dar tudo certo, sim, neste período... você já conseguiu respirar, depois do 2007.1???

Abraços,

Maya

: )

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