Creio que não existe nada de mais belo, de mais profundo, de mais simpático, de mais viril e de mais perfeito do que o Cristo; e eu digo a mim mesmo, com um amor cioso, que não existe e não pode existir. Mais do que isto: se alguém me provar que o Cristo está fora da verdade e que esta não se acha n'Ele, prefiro ficar com o Cristo a ficar com a verdade. (Dostoievski)

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8 de nov de 2007

Casamentos, Frescobol e Tênis

Depois de muito meditar sobre o assunto concluí que os relacionamentos são de dois tipos: Há os relacionamentos do tipo tênis e há os relacionamentos do tipo frescobol. Os relacionamentos do tipo tênis são uma fonte de raiva e ressentimentos e terminam sempre mal. Os relacionamentos do tipo frescobol são uma fonte de alegria e têm a chance de ter vida longa.

Explico-me. Para começar, uma afirmação de Nietzsche, com a qual concordo inteiramente. Dizia ele: "Ao pensar sobre a possibilidade do casamento cada um deveria se fazer a seguinte pergunta: 'Você crê que seria capaz de conversar com prazer com esta pessoa até sua velhice?' Tudo o mais no relacionamento, ou no casamento, é transitório, mas as relações que desafiam o tempo são aquelas construídas sobre a arte de conversar."

Sherazade sabia disso. Sabia que os casamentos baseados nos prazeres da cama são sempre decapitados pela manhã, terminam em separação, pois os prazeres do sexo se esgotam rapidamente, terminam na morte, como no filme O Império dos Sentidos. Por isso, quando o sexo já estava morto na cama, e o amor não mais se podia dizer através dele, ela o ressuscitava pela magia da palavra: começava uma longa conversa sem fim, que deveria durar mil e uma noites. O sultão se calava e escutava as suas palavras como se fossem música. A música dos sons ou da palavra é a sexualidade sob a forma da eternidade: é o amor que ressuscita sempre, depois de morrer.

Há os carinhos que se fazem com o corpo e há os carinhos que se fazem com as palavras. E, contrariamente ao que pensam os amantes inexperientes, fazer carinho com as palavras não é ficar repetindo o tempo todo: "Eu te amo..." Barthes advertia: "Passada a primeira confissão, 'eu te amo' não quer dizer mais nada." É na conversa que o nosso verdadeiro corpo se mostra, não em sua nudez anatômica, mas em sua nudez poética. Recordo a sabedoria de Adélia Prado: "Erótica é a alma".

O tênis é um jogo feroz. O seu objetivo é derrotar o adversário. E a sua derrota se revela no seu erro: o outro foi incapaz de devolver a bola. Joga-se tênis para fazer o outro errar. O bom jogador é aquele que tem a exata noção do ponto fraco do seu adversário, e é justamente para aí que ele vai dirigir sua cortada palavra muito sugestiva, que indica o seu objetivo sádico, que é o de cortar, interromper, derrotar. O prazer do tênis se encontra, portanto, justamente no momento em que o jogo não pode mais continuar porque o adversário foi colocado fora de jogo. Termina sempre com a alegria de um e a tristeza de outro.

O frescobol se parece muito com o tênis: dois jogadores, duas raquetes e uma bola. Só que, para o jogo ser bom, é preciso que nenhum dos dois perca. Se a bola veio meio torta, a gente sabe que não foi de propósito e faz o maior esforço do mundo para devolvê-la gostosa, no lugar certo, para que o outro possa pegá-la. Não existe adversário porque não há ninguém a ser derrotado. Aqui ou os dois ganham ou ninguém ganha. E ninguém fica feliz quando o outro erra pois o que se deseja é que ninguém erre.

E o que errou pede desculpas, e o que provocou o erro se sente culpado. Mas não tem importância: começa-se de novo este delicioso jogo em que ninguém marca pontos...

A bola: são nossas fantasias, irrealidades, sonhos sob a forma de palavras.

Conversar é ficar batendo sonho prá lá, sonho prá cá... Mas há casais que jogam com os sonhos como se jogassem tênis. Ficam à espera do momento certo para a cortada. Tênis é assim: recebe-se o sonho do outro para destruí-lo, arrebentá-lo, como bolha de sabão... O que se busca é ter razão e o que se ganha é o distanciamento. Aqui, quem ganha sempre perde.

Já no frescobol é diferente: o sonho do outro é um brinquedo que deve ser preservado, pois se sabe que, se é sonho, é coisa delicada, do coração. O bom ouvinte é aquele que, ao falar, abre espaços para que as bolhas de sabão do outro voem livres. Bola vai, bola vem - cresce o amor... Ninguém ganha para que os dois ganhem. E se deseja então que o outro viva sempre, eternamente, para que o jogo nunca tenha fim...


Autor desconhecido [mudei algumas coisas no texto, se alguém souber de quem é, me diga, plís!].

ESCLARECIMENTO: Autor já identificado. O Edemir Antunes (link para o Blog nos meus "recomendados") me esclareceu: este texto é do Rubem Alves (ver comentários): ALVES, Rubem. O retorno e terno. Campinas: Papirus, 1992.

***


COLABORAÇÃO: meu primo querido, Jô. E Edemir Antunes, cyberamigo e irmão em Cristo.

5 comentários:

Vinícius disse...

Texto interessantíssimo!!


Em tempo, sobre as discussões no blog da norma: aqui entre nós, já que para alguns ouvidos é pecado, sou muito mais esquerda que direita! rsrs


abraços!

Maya disse...

Oi, Vinícius!

Seja bem vindo! Ah, eu sou de esquerda também, tenho minhas convicções, mas acho que toda troca de idéias é válida.

Há blogs em que, infelizmente, a discussão cai na vala da agressão verbal, da desmoralização pura e simples, mas no Blog da Norma ainda é possível discordar profundamente sem grandes seqüelas!

É, concordo também que este texto é interessante! Não dá pra ser teoricamente embasada e profunda em termos cirntíficos (ufa!) o tempo todo, eu gosto dessas coisas mais leves.

Abraço, volte sempre!

Maya

: )

Edemir Antunes Filho disse...

Maya,
graça, paz e bem!

O autor desta crônica é muito conhecido, trata-se de Rubem Alves. Este texto pode ser encontrado na seguinte obra: ALVES, Rubem. O retorno e terno. Campinas: Papirus, 1992.

Felicidades!

Alice disse...

Muito bom !! Muito bom mesmo !! é ótimooooo !!!rsrssssss.. amei a comparação ( muito ´sabia por sinal )
beijos pra vc e uma linda sexta feira !!

Maya disse...

Oi, Edemir, e Alice!

Edemir, eu não conheço praticamente nada do Rubem Alves (OK, agora conheço). Obrigada pelo esclarecimento. O texto é muito bom, mesmo. As comparações são excelentes.

Obrigada, Alice; sabe que eu pensei muito após a leitura deste texto?

Bjos a todos, ótimo fim de semana!

Maya

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