Creio que não existe nada de mais belo, de mais profundo, de mais simpático, de mais viril e de mais perfeito do que o Cristo; e eu digo a mim mesmo, com um amor cioso, que não existe e não pode existir. Mais do que isto: se alguém me provar que o Cristo está fora da verdade e que esta não se acha n'Ele, prefiro ficar com o Cristo a ficar com a verdade. (Dostoievski)

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18 de out de 2009

o louvor a EU

O artigo da Bráulia Ribeiro em Eclésia n. 137 está bem interessante. Eu diria, aliás, que são dois textos em um: Ela conta uma história e, depois, usa um gancho para falar a respeito do "louvor", essa "parte" do culto em todas as igrejas que, muitas vezes, não tem de fato louvado a Deus. Gostei muito do que ela escreveu na segunda parte do texto, e vou transcrever aqui exatamente esse trecho. Mais uma vez trago à tona o fato de que Deus deve estar no centro, e não nós, ou nossos ideais, ou o mundo material, ou nossa necessidade, nossa alegria, nosso clamor ou tudo o que é "nosso". Cantamos louvores onde só ELE aparece? Onde só seu nome é dito? Cantamos louvores que nos diminuem de fato e façam Deus existir em nós? Que ressaltam nossa comunhão com o próximo por meio dele? Isso tem fugido à vista, tem saído de nossas vidas, e temos sido distraídos por tantas coisas, na igreja, que o verdadeiro sentido de servir a Deus se dilui em tudo o mais que é periférico, inclusive na hora do "louvor". Outro dia ouvi, dentro de uma igreja, uma jovem cuja voz, afinada e suave, se desdobrava em trinados a fim de cantar "Que sejas MEU universo... E aí a música desanda a falar de EU em primeiro lugar, e depois EU, em segundo, e EU, em terceiro... E Deus, como coadjuvante dos sentimentos que o compositor expressa, aparece como uma escada que o leva a um êxtase supremo, cheio de imagens poéticas: "dilúvio de bênçãos" que saem da MINHA boca, a "luz em MINHA janela", "cada sonho que há em MIM", e por final o "MEU universo", no centro da canção e Deus lá, meu serviçal, ator coadjuvante, preenchendo a vaguinha no MEU universo... A letra da música é poética, não é feia, a melodia não é feia, mas devemos dizer a verdade: o centro da letra é o autor, é quem escreveu, quem canta, quem "faz" o louvor, e não Deus. Os MEUS e EUS estão marcados em vermelho: 


Que sejas meu universo
[Eu] Não quero dar-te só um pouco do
meu tempo
[Eu] Não quero dar-te um dia apenas da [minha] semana

Que sejas
meu universo
[Eu] Não quero dar-te as [minhas] palavras como gotas
[Eu] Quero que saia um dilúvio de bençãos da
minha boca

Que sejas
meu universo
Que sejas tudo o que [
eu] sinto e o que [eu] penso
Que de manhã seja o [
meu] primeiro pensamento
E a luz em
minha janela

Que sejas
meu universo
Que enchas cada um dos
meus pensamentos
Que a tua presença e o teu poder sejam [
meu] alimento
Jesus este é o
meu desejo

Que sejas
meu universo
[Eu] Não quero dar-te só uma parte dos
meus anos
[Eu] Te quero dono do
meu tempo e dos meus planos

Que sejas
meu universo
[Eu] Não quero a
minha vontade
[Eu] Quero agradar-te
E cada sonho que há em
mim [eu] quero entregar-te



Composição: JESUS A. ROMERO / VERSÃO: PG


Jesus' pantyfans
Bráulia Ribeiro


Já faz um tempo que briguei com as reuniões de adoração evangélicas. Me sento em protesto nauseado todas as vezes que as músicas desfilam um corolário interminável de "Eus" e "Meus". Fiz uma análise textual das "dez mais" da adoração aqui na base das igrejas que visitamos, provando gramaticalmente, semanticamente, sem sombra de dúvidas (penso eu) que o centro gravitacional de todas elas é sempre EU e nunca Deus, apesar de parecerem tão piedosas. Mostrei (também penso eu) de maneira inequívoca que a divindade adorada por estas canções pseudo-evangélicas não é o Senhor dos Exércitos, mas um deus subserviente cuja única preocupação real é deixar o adorador feliz, realizado, num estado de êxtase orgásmico. Nada mais. Este deus não lhe requer nada, não lhe diz nada, não chama o adorador para fora de seu Eu-narcísico. Não lhe  mostra o pobre, a guerra, a dor, o amor do outro. Se contenta em acalentar-lhe o ego e se sente apaziguado quando ouve repetidas vezes elogios pobres à sua capacidade infinita de tornar o adorador indiferente e feliz.


Somos o que cremos, somos o que cantamos também. Se cantamos só a nós, mergulhamos em nada além de nós. Ao invés de seguidores de Jesus hoje somos Jesus' pantyfans, verbete internético não pejorativo que se refere a fãs que jogam calcinhas em palcos. Somos 'adoradores' ousados, exagerados, aparentemente por Jesus, mas no fundo em busca apenas do êxtase individual nada mais. Cantamos até atingirmos o nirvana evangélico do nada além de meu budista, gordo e satisfeito.


***


Trecho de texto de Bráulia Ribeiro, publicado na revista Eclésia n. 137, p. 52-53. Bráulia Ribeiro é missionária da Jocum na Amazônia.


***


Sobre o louvor antropocêntrico e descartável do qual Bráulia Ribeiro fala em seu texto, e que é praticado em muitas igrejas hoje, leia também os ótimos artigos:

8 comentários:

Laudicéia Mendes disse...

Olá Maya, seu post me fez lembrar de um artigo entitulado "assembléia de eus"...reportava-se a uma letra que faltava na placa, mas estampa a realidade...os "eus" predominam.
Abraços,
Laudiceia Mendes

Josefa disse...

Oi Maya,

Ainda nem li o artigo, mas sobre a música, deixa eu te apresentar uns textos parecidos:

"Tu, Senhor, és o MEU escudo, és MINHA glória e o que exaltas a MINHA cabeça"; "Responde-me quando clamo, ó Deus da MINHA justiça; na angústia tens ME aliviado"; "Maia alegria puseste no MEU coração"; Dá ouvidos, Senhor, às MINHAS palavras e acode ao MEU gemido"; "De manhã, Senhor, ouves a MINHA voz, de manhã te apresento a MINHA oração e fico esperando"; "Tem compaixão de MIM, Senhor, porque EU me sinto debilitado"; "EU estou cansado"; "Salva-ME de todos os que ME perseguem e livra-ME"; "Julga-ME, SEnhor, segundo a MINHA retidão e segundo a integridade que há em MIM"; "Porque sustentas o MEU direito e a MINHA causa"; "Compadece-te de MIM, Senhor";

Todos esses trechos são de Davi (e foram tirados apenas dos salmos 3 a 9), que segundo a Bíblia era homem segundo o coração de Deus.

Os louvores dele nos trazem à adoração até hoje, tantos milhares de anos depois. Mas se tivessem sido escritos agora será q vc não os estaria criticando, como excessivamente autocentrados?

Cuidado qdo for se colocar como juiza, Maya, até dos louvores dos outros, pq o seu prumo, como o de todos nós, é torto.

Maya Felix disse...

Prezada Laudicéia,

Obrogada por sua postagem! Bom, com o advento da teologia da prosperidade, que coloca o homem como um pequeno deus (como o disse textualmente Benny Hinn), filho do Deus Todo-Poderoso e, portanto, digno de receber o melhor em termos materiais, o louvor do "eu" se tornou mais frequente. Espero que as igrejas acordem para isso.

Um abraço, querida!

Maya

Maya Felix disse...

Josefa,

É claro que existe uma relação entre Deus e o homem, o que estará sempre sendo ressaltado.

Nos momentos em que Davi clamou por Deus, e em que, moído pela culpa e pelo arrependimento dos pecados que havia cometido, buscou seu perdão, ele não estava "louvando a Deus", mas orando em lamentação e contrito. Se você observar o Salmo 150, verá que ele já é bem diferente: "Louvai ao Senhor..." Nesse caso, o salmista exorta aquele que o ouve a exaltar o nome de Deus, e em nenhum momento fala de si. Em todo discurso existirão sempre as duas pessoas, eu e tu. Sempre haverá um locutor e um i nterlocutor, a questão é: o que o locutor (o eu) diz de cada um (de si ou do outro) e como expõe seus sentimentos (digamos assim) em relação a cada uma dessas pessoas do discurso. É verdade que toda percepção de Deus existe a partir de uma experiência pessoal, do eu cognoscente em relação a Ele, mas isso também não quer dizer que os sentimentos do salmista, sua pessoa, suas dificuldades, seus desejos etc. - vamos dizer assim - devam ser sempre o centro dessa percepção.

O que impressiona - e que eu quis ressaltar com a publicação do texto de Bráulia Ribeiro e o link para a leitura de outros - é que, de uns tempos para cá, esses louvores, todos em primeira pessoa, que trazem o "eu" do salmista à tona, são cada vez mais frequentes, em detrimento desses outros louvores, como o Salmo 150. Para falar de hoje, a música recente gravada por Danielle Cristina, "Deus, Tu és Santo", traz em quase todas as passagens palavras que exaltam e designam Deus, e não o "eu-lírico" de quem canta (do salmista). Ou, para falar de alguns séculos atrás, o hino "Castelo Forte", de Lutero, que exalta a Deus (sem deixar de levar em consideração que essa exaltação é relacional, sim, mas Deus é, nela mesma, o fator dominante, determinante e soberano dos acontecimentos, e não apenas o "gerador" de sentimentos que se autocompletam e se retroalimentam ou o "fazedor" das vontades do que louva).

Bom, também gostaria de dizer que em nenhum momento tenho comigo que meu prumo seja perfeito, como creio que você deixa transparecer em seu comentário. Mas sei que, dentro do que posso - e do que Deus faz em mim - procuro sempre mantê-lo em sua inteireza de propósitos e de justiça.

Um abraço, obrigada por sua postagem,

Maya

Josefa disse...

Querida Maya,

Não estou discutindo que a teologia da prosperidade, q na verdade é reflexo do nosso tempo, não exalte o EU em detrimento de Deus. Estou apenas dizendo q nem toda música q parte do EU é louvor do EU.

Assim como os momentos introspectivos, q são tão frequentes nos salmos de Davi (e não foram motivados apenas por culpa e arrependimento, mas principalmente por perseguição), têm seu lugar nos cânones de judeus e de cristãos, eles continuarão tendo lugar no louvor de hoje.

Não é por q há a gula q todo o ato de comer se torna pecado, Maya. E eu não quis deixar subentendido q vc acha o seu prumo mais reto. Quis dizer q todos achamos nosso prumo mais reto, e q todos os temos tortos.

Bjs.

Maya Felix disse...

Josefa,

É verdade, nem toda música em primeira pessoa se direciona para o egocentrismo que tem assolado as igrejas, mas muitas, eu diria que a maioria, hoje, faz isso. Veja só aquela música "Restitui", do Min. Apascentar de Nova Iguaçu... "Restitui, eu quero de volta o que é meu... Sara-me, e põe teu azeite em minha dor... Restitui, leva-me às águas tranquilas..." etc. Bom, é claro, Josefa, todos nós temos nosso momento de contrição diante do Senhor. Temos nosso momento de choro, de súplica... O que eu vejo, entretanto, é que o recôndito do quarto de cada um deixou de ser o local dessa oração. Os momentos de culto coletivo se transformam em grandes reality shows, cada um por si e Deus por cada um, e todos pedindo, clamando, suplicando (e alguns exigindo, ordenando). O sentido de coletividade, mesmo, se perde, quando o louvor se torna egocêntrico, pois o que interessa, afinal, é que Deus restitua, que Ele dê, que Ele abençoe, que Ele faça... Que Ele satisfaça os anseios do fiel, sempre, e cada vez mais. Nisso, então, perdem-se muito da reverência, muito do louvor (no sentido etimológico do termo), muito da expressão da maturidade cristã que deveria existir nos cânticos.

Os momentos em que Davi se humilha e clama não são momentos em que ele louva, apesar de serem salmos. O louvor é a adoração, o reconhecimento, na alegria e na paz, da grandeza e da soberania divinas. Há momentos em que Davi chega a pedir a Deus que mate seus inimigos, então acho que essas passagens não louvam a Deus.

No mais, quanto à questão do "prumo", eu sei que todos nós temos o prumo torto. Mas não por isso meu alvo deixa de ser o Cristo, a cada dia.

Um abraço,

Maya

Josefa disse...

Maya! Por que vc acha q o clamor em contrição não é adoração a Deus? Maya, há vezes, e em minha vida são a maioria, em q só os gemidos inexprimíveis suscitados pelo Espírito do mais profundo do nosso coração são adoração digna a Deus. Não são as minhas palavras, mas tantas e tantas vezes a libação do óleo das minhas lágrimas o q tenho de mais digno para pôr no altas de um Deus q é dono de todas as coisas, mas q cobiça apenas o coração dos homens.
Auto humilhação e quebrantamento são as formas q temos de buscar a Deus de todo o coração, e como diz Isaías, é só buscando de todo o coração q se pode achar a Deus!
Saiba, adorar a Deus com palavras é pra q os outros entendam. É como orar em português. Serve para o culto público. Para o culto do coração, serve a oração em línguas estranhas, em q o Espírito ora pra nossa edificação, e a adoração com contrição e lágrimas, mesmo de júbilo, q nossa alma não entende, mas o espírito sim, pq em comunhão com o Espírito de Deus.
Um grande abraço, e q Deus te abençôe muito, pois vc tem a sede da justiçã d'Ele, da Sua retidão. Vc tem fome e sede de justiça, e anseia por um culto q agrade a Deus mais q aos homens. Q Ele te guie.

Maya Felix disse...

Josefa,

Não sei se os momentos de dor e contrição, em que a consciência de nosso pecado e de nossa condição miserável são de fato momentos de louvor a Deus. Mas a questão que vc levanta é interessante.

Eu não falei em adorar a Deus com palavras, mas com o coração totalmente voltado para Ele, inclusive para ouvi-lo.

Obrigada por seu comentário,

Maya

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