Creio que não existe nada de mais belo, de mais profundo, de mais simpático, de mais viril e de mais perfeito do que o Cristo; e eu digo a mim mesmo, com um amor cioso, que não existe e não pode existir. Mais do que isto: se alguém me provar que o Cristo está fora da verdade e que esta não se acha n'Ele, prefiro ficar com o Cristo a ficar com a verdade. (Dostoievski)

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9 de abr de 2008

26. O MITO DO OBJETIVISMO NA FILOSOFIA E NA LINGÜÍSTICA OCIDENTAIS
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Nosso desafio ao mito objetivista
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O mito do objetivismo dominou a cultura ocidental, particularmente a filosofia ocidental, desde os pré-socráticos até nossos dias. A idéia de que temos acesso a verdades absolutas e incondicionais sobre o mundo é o pilar da tradição filosófica ocidental. O mito da objetividade floresceu tanto na tradição racionalista quanto na empirista que, a esse respeito, diferem apenas em suas explicações de como chegamos a tais verdades absolutas. Para os racionalistas, apenas nossa capacidade inata de raciocinar pode dar-nos o conhecimento das coisas como elas realmente são. Para os empiristas, todo o nosso conhecimento do mundo surge (direta ou indiretamente) de nossas percepções sensoriais e é construído a partir de sensações. A síntese de Kant do racionalismo e do empirismo pertence também à tradição objetivista, apesar de sua argumentação de que não pode haver qualquer tipo de conhecimento das coisas em si mesmas. O que torna Kant um objetivista é sua reivindicação de que, em relação às coisas que todos os seres humanos podem experienciar por meio de seus sentidos (seu legado empirista), podemos obter conhecimento válido universalmente e leis morais universalmente válidas pelo uso de nossa razão universal (seu legado racionalista). A tradição objetivista na filosofia ocidental é preservada até hoje entre os seguidores dos positivistas lógicos, na tradição de Frege, na de Husserl e, na lingüística, com o neo-racionalismo, que veio da tradição de Chomsky.
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Nossa concepção de metáfora vai contra essa tradição. Consideramos a metáfora essencial à compreensão humana e um mecanismo de criação de novos sentidos e de novas realidades em nossas vidas. Isso nos coloca em oposição à maior parte da tradição filosófica ocidental, que tem visto a metáfora como um agente do subjetivismo e, por conseqüência, como subversivo na busca da verdade absoluta. Além disso, nossas visões de metáfora convencional - que impregna nosso sistema conceptual e é um mecanismo de criação essencial para a compreensão - coloca-nos em desacordo com as visões contemporâneas de linguagem, sentido, verdade e compreensão que dominam a recente fiolosofia analítica anglo-americana e que são aceitas em boa parte da lingüística moderna, bem como em outras disciplinas. A seguinte lista é representativa dessas assunções sobre linguagem, sentido, verdade e compreensão. Nem todos os filósofos e lingüistas objetivistas aceitam todas elas, entretanto as figuras mais influentes parecem aceitar a maioria delas:

  • A verdade é uma questão de correspondência entre palavras e mundo.
  • Uma teoria do sentido para as línguas naturais funda-se em uma teoria da verdade, independente do modo como as pessoas compreendem e usam a língua.
  • O sentido é objetivo e não-corporificado, independente da compreensão humana.
  • As frases são objetos abstratos com estruturas inerentes.
  • O sentido de uma frase pode ser obtido a partir do sentido de suas partes e pela estrutura da frase.
  • A comunicação é uma questão de transmitir, de um falante para um ouvinte, uma mensagem com um sentido fixo.
  • O modo como uma pessoa compreende uma frase e o que significa para ela é uma função do sentido objetivo da frase e do que a pessoa acredita sobre o mundo e sobre o contexto em que a frase foi enunciada.
Nossa concepção de metáfora convencional é inconsistente com todas essas assunções. O sentido de uma frase é dado em termos de uma estrutura conceptual. Como vimos, a maior parte da estrutura conceptual de uma língua natural é metafórica por natureza. A estrutura conceptual fundamenta-se na experiência física e cultural, assim como as metáforas convencionais. O sentido, portanto, jamais é descorporificado ou objetivo e está sempre fundamentado na aquisição e utilização de um sistema conceptual. Além disso, a verdade é sempre dada em relação a um sistema conceptual e às metáforas que o estruturam. A verdade, portanto, não é absoluta nem objetiva, mas baseada na compreensão. Assim sendo, as frases não têm sentidos inerentes e objetivamente dados e a comunicação não pode ser a mera transmissão de tais sentidos.

Não é tão óbvio o motivo de nossa concepção dessas questões ser tão diferente dos posicionamentos clássicos da filosofia e da lingüística. A razão principal parece ser que todos os posicionamentos clássicos estão baseados no mito do objetivismo, enquanto nossa abordagem da metáfora é inconsistente com ele. Uma divergência tão radical com as teorias dominantes sobre tais questões básicas demanda uma explicação. Como seria possível uma concepção da metáfora colocar em questão as teses fundamentais sobre a verdade, o sentido e a compreensão que emergiram das tendências dominates na tradição filosófica ocidental? Uma resposta para isso exige uma explicação mais detalhada do que a que oferecemos até o momento a respeito das assunções objetivistas sobre a linguagem, a verdade e o sentido. Isso exige explicitar com mais detalhe: (a) o que são as teses objetivistas; (b) como elas são justificadas e (c) quais são suas implicações para uma teoria geral da língua, da verdade e do sentido.

O objetivo desta análise não é distinguir simplesmente nossa concepção de língua das visões clássicas, mas mostrar, por meio de exemplos, quanto o mito do objetivismo influenciou a cultura ocidental, de maneira que usualmente não nos apercebemos. Mais importante, queremos mostrar que muitos problemas de nossa cultura podem vir de uma aceitação cega do mito do objetivismo e que há uma outra alternativa para evitar o recurso à subjetividade radical.

In Lakoff, George & Johnson, Mark. Metáforas da Vida Cotidiana. Mercado das Letras: Campinas (SP), 2002, p. 305-8.

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