Creio que não existe nada de mais belo, de mais profundo, de mais simpático, de mais viril e de mais perfeito do que o Cristo; e eu digo a mim mesmo, com um amor cioso, que não existe e não pode existir. Mais do que isto: se alguém me provar que o Cristo está fora da verdade e que esta não se acha n'Ele, prefiro ficar com o Cristo a ficar com a verdade. (Dostoievski)

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30 de jun de 2009

guilherme fiúza e arthur dapieve: michael jackson venceu e fracassou.


Michael venceu

Tem muita gente reclamando que a morte de Michael Jackson está provocando mais polêmicas do que devia. Morreu depois de ter agredido seu próprio organismo de todas as formas, tentando ser quem não era. É uma visão simplista.

A morte de Michael se tornará um mito maior do que a morte de Elvis. Não pela importância do ídolo, mas pelo legado do personagem.

Michael Jackson é descrito por quase todo mundo como um prisioneiro de seu delírio racial, um ser de plástico. Um reprimido que lutou de forma patética contra sua própria natureza. Eis um engano confortável.

O cantor, compositor e bailarino espetacular estava entre os mais humanos dos humanos. Só o humano sonha, só o muito humano leva a sério seu sonho.

Michael tinha sonhos arrepiantes, às vezes soturnos, sobre sua pessoa. Um garoto forjado no meio de conflitos familiares e sociais pesados, de onde brotou sua arte. A linda melancolia de sua voz nos primeiros hits era o choro não chorado em casa.

Todas as mutações de Michael Jackson foram sua investida cega contra a repressão sofrida. Nunca aceitou caber no papel miserável que o destino lhe reservou. De um jeito neurótico, mas corajoso, foi atrás da liberdade total – e a mudança de cor era uma alegoria dessa busca.

Para lutar contra as marcas da opressão na infância, não bastava ser dono do próprio nariz. Era preciso desenhar seu próprio nariz. E seus cabelos, e sua opção sexual, e sua Terra do Nunca, e seus passos de dança inigualáveis e eternos.

Do alto de seu sofrimento e glória, o andróide Michael Jackson era humano. Demasiadamente humano.

Rasgou todos os scripts da vida, escreveu cada linha de sua história. Louca história. Mas sua. Um final feliz, apesar de triste.


***


Texto de Guilherme Fiúza, publicado em seu blog.


***


MICHAEL JACKSON FRACASSOU

Não como artista, claro.

Ele conseguiu alcançar algo que outros grandes da música negra, como Sam Cooke, Otis Redding, Marvin Gaye, James Brown e Aretha Franklin — todos, diga-se de passagem, melhores cantores, o que apenas valoriza o feito de Jacko — só vislumbraram vez ou outra na vida: ser tão ou mais querido e apreciado nos bairros brancos do que nos guetos de origem. Ele não fracassou como negociante, é óbvio. Com seus discos e shows, Jacko fez, e ainda fará, ninguém duvida, muitos milhões de dólares, embora os altíssimos gastos — com o sítio Neverland, os tratamentos de saúde e os acordos para evitar que novas acusações de pedofilia chegassem aos tribunais — recentemente o tenham levado até a leiloar itens de seu guarda-roupa.

Michael Jackson fracassou naquilo que todos nós fracassaremos, cedo ou tarde.

Fracassou justo naquilo que a sociedade ocidental contemporânea tanto se empenha.

Fracassou foi em parar o relógio. É também por causa do terror que sentimos da morte que supervalorizamos as belezas da mocidade, esticando-a com plásticas, implantes, próteses, injeções, musculação, dietas, vitaminas, namoradas ou namorados jovens.

Jacko só tinha (bem) mais dinheiro. Pôde dormir na câmara hiperbárica, pôde ser reconstruído na mesa de cirurgia.

Jacko só tinha (muito) mais visibilidade. Sua pele era ridicularizada por ter embranquecido e não por ter rejuvenescido, o que, afinal, é nosso objetivo. Seu narizinho destacável não se parecia com o do Peter Pan das histórias da Disney à toa. Seu videoclipe memorável não era estrelado por mortos-vivos à toa. Agora, porém, o thriller acabou.

Consumada ou não consumada carnalmente, a sua pedofilia sofria daquele mesmo senso de desproporção. Não se trata de absolvê-la. A pedofilia é abjeta por fantasiar uma igualdade entre desiguais — não dois adultos, seja lá de que sexo forem, mas um adulto e uma criança — e não pode ser relativizada pela habitual pieguice que tudo perdoa num defunto fresco.

Trata-se, isso sim, de admitir que em menor grau toda nossa sociedade manifesta tendência à pedofilia com suas crianças hipererotizadas, adolescentes cheias de caras e bocas, modelos retas e mulheres maduras raspadas, como se nem tivessem entrado na puberdade. Em particular, a cultura pop da qual Jacko foi nobre é chegadíssima a se autoconsumir na juventude, conforme cria e descarta caras novas. Nada mais típico do que os Menudos, cujos membros não envelheciam nunca, eram para sempre miúdos.

Michael Jackson fracassou por isso. Ele não tinha como trocar de pele eternamente com outros Jackos crianças, não tinha como virar uma franquia de si próprio e ainda assim permanecer ele mesmo, pessoal e intransferível com o passado de abusos paternos e de inegáveis méritos artísticos.

Como intérprete, aliás, ele foi literal e metaforicamente da jovem guarda da Motown, a célebre gravadora de música negra de Detroit, que flertava às claras com o público branco, majoritário nos EUA (em contraposição à Stax, de Memphis, na qual o soul era “de raiz” e quem quisesse que gostasse). Jacko aprendeu com toda a black music. Pegou o figurino esdrúxulo de Little Richard aqui, o jeito de dançar de James Brown ali, adicionou seu próprio carisma...

No entanto, Michael Jackson fracassou porque não aprendeu a tempo que a única maneira de ser jovem para sempre é morrer cedo.

***

Artigo de Arthur Dapieve publicado no jornal O Globo de 27/06/2009.

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