Creio que não existe nada de mais belo, de mais profundo, de mais simpático, de mais viril e de mais perfeito do que o Cristo; e eu digo a mim mesmo, com um amor cioso, que não existe e não pode existir. Mais do que isto: se alguém me provar que o Cristo está fora da verdade e que esta não se acha n'Ele, prefiro ficar com o Cristo a ficar com a verdade. (Dostoievski)

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26 de jun de 2009

eu também


Não achei que choraria por um cantor pop. Mas hoje, ouvindo Beat It e Billie Jean, e ensaiando os passos de uma dancinha estilizada, parei e comecei a chorar. Coloquei as mãos no rosto e chorei sem vergonha da dor, sentindo a perda definitiva de algo que, no entanto, já havia acabado. Era eu também, nos anos 80, dançando e decorando as letras das músicas do álbum Thriller. Lá se foi Michael Jackson, figura triste que não lembrava o jovem encantador de 1983, quebrando todas as expectativas de venda de long plays neste planetinha.
É possível que a maioria dos meus leitores tenha passado sua adolescência na Igreja, nos grupos de jovens das escolas dominicais, nos retiros e acampamentos tão comuns entre jovens evangélicos. Eu me converti aos 21 anos, então comigo foi diferente. Vivi os famosos anos 80, o início do rock nacional e, fatalmente, o furacão Michael Jackson. Tinha eu meus 12 pra 13 anos, em 1983 e 1984, quando Thriller estourou no Brasil. Não fiquei imune à dança, à voz, ao visual muito cheio de cores, bottons e brilhos do Michael Jackson. Morava na 403 Norte, em Brasília, e em toda festinha, em toda reunião de escola, todo aniversário e confraternização tinha que rolar Michael Jackson. Quando tocava, a gente dava uns gritinhos de alegria e excitação e corria pra pista de dança. Era o ponto alto das festas, e meus colegas e eu tentávamos fazer o moonwalker e descobrir o segredo daquele deslizamento in-crí-vel. Tinha uma amiga, que morava em um prédio perto do meu, também na 403 Norte, em Brasília, que havia descoberto nas coisas antigas da mãe um par de luvas brancas e brilhantes, recordação de um casamento que já havia até acabado. Então, mediante súplicas e dezenas de “por favor, por favooooor!!!”, cada uma ficou com uma luva, e era o máximo sair ostentando uma luva apenas, como o Michael Jackson, eu na mão esquerda e a minha amiga na mão direita. Infelizmente (ou felizmente) não tenho nenhuma foto devidamente caracterizada.
Eu e minha irmã tínhamos uma coleção de pôsteres, revistas, bottons, reportagens, fotos e qualquer lançamento que trazia o Michael Jackson. Diariamente, fazíamos nossa peregrinação à banca de revistas, para saber se havia alguma coisa dele. Resolvemos pregar os pôsteres na parede do nosso quarto, e ficávamos por longos minutos admirando a beleza daquele homem negro que começava a adquirir traços caucasianos. “Ele é lindo, né?” era a pergunta que nos fazíamos sempre, assentindo com a cabeça e os olhos embevecidos. Michael Jackson foi o primeiro astro pop com quem eu realmente queria me casar. Sua imagem viril e ágil, dançando no clip de Beat It, parecia-me de uma verdade humana incontestável, uma força do bem que sobrepujava todos os outros. Eu fazia a sétima série, e às vezes, quando não tinha aula, passava a tarde ouvindo o LP e dançando sozinha no meio da sala, no piso de tacos de madeira, sem me cansar de nenhuma de suas músicas. Ah, sim, só pra constar: o segundo astro pop com quem eu quis me casar foi o Renato Russo, mas isso antes do show de Brasília, em 1988, para o qual havia reservado grandes expectativas, todas frustradas. Como deve ser fácil de perceber, não tive muita sorte com os dois astros pop realmente belos, viris e carismáticos que marcaram a minha adolescência. Depois do Renato Russo, não tive mais nenhum. Hoje, olho desconfiada para todos os que se apresentam, tentando macaquear alguma coisa parecida com o Michael Jackson ou com o Renato Russo, e desdenho dos calouros. Astro pop, pra mim, hoje em dia, só o Padre Fábio de Melo, e eu sei que ele jamais vai se casar comigo.
Depois de Thriller, Michael Jackson passou anos sem gravar novo álbum. Quando gravou, eu já tinha uns 18 anos e não gostei nada das músicas novas: pareciam um pastiche da legítima black dance music de antes. A aparência dele também me desagradava muito, pois se tornava cada vez mais artificial, perdendo o que havia de verdade e de virilidade em seu sorriso e suas expressões. Michael Jackson deixava de ser um cara cheio de swing, energia e ritmo para se tornar um esquisitão cujo comportamento tornou-se realmente bizarro, e meu amor por ele não resistiu às cirurgias plásticas que deformaram seus belos traços e às coisas ruins que passaram a ser associadas ao seu nome. Dos 12 aos 16 anos fui realmente fã de Michael Jackson. Quando foi gravado o clip da música We Are The World, cheguei a chorar por ver que bom coração ele realmente possuía: haveria alguém mais perfeito do que ele, em todo o mundo? Por isso, eu colecionava tudo, tinha discos (na verdade, só um, o álbum Thriller), via os clipes, suspirava por ele. Cheguei a discutir seriamente com minha amiga das luvas brancas sobre quem iria se casar com ele. Quem era ela para achar que seu amor por ele era maior que o meu? E eu estava certa: a infiel foi arrastada logo depois pela febre dos Menudos, esquecendo-se do Michael, mas eu não gostava daqueles caras que me pareciam ridículos com aquelas dancinhas babacas e permanecia fiel ao meu primeiro amor pop.
Quando soube da fatalidade de sua morte, ontem, fiquei curiosa. Confesso que a ideia não me surpreendeu muito, já que há alguns meses a mídia noticia seu precário estado de saúde. Mas hoje, quando resolvi ouvir suas músicas, não resisti e comecei a dançar. Já não sabia os passos, já não era como antes. Vi então que houve um tempo de juventude, nos anos 80, que não volta mais. Era um tempo em que Michael Jackson era uma unanimidade, e eu o amava porque ele me parecia o mais belo, o mais ágil, melhor e mais atraente que qualquer outro. Ao ouvir Billie Jean, eu me lembrei de que eu também era tão diferente, em algumas coisas melhor do que hoje, em outras, pior. Mas, assim como não se pode mais resgatar aquele Michael Jackson, também não se pode mais resgatar aquela Mayalu. Minha dancinha improvisada, hoje, era exatamente a repetição, por farsa, de uma história tão boa que acabou faz tempo. Por isso, ao me lembrar de que Michael Jackson morreu, eu me lembrei de que uma menina de 13 anos, usando uma ridícula luva branca para ir à padaria comprar pão e leite, também morreu com ele. Os anos 80 definitivamente acabaram, e eu faço seu luto talvez tarde demais, mas só agora realmente consciente de que tudo aquilo acabou, e não tem volta. Ah, sim, mais uma coisa: eu ainda tenho a coleção de pôsteres, reportagens e bottons, guardada numa pasta de papelão vermelha. Nunca tive a coragem de jogá-la fora. Quanto ao LP Thriller, famoso bolachão de vinil, acabei aceitando a sugestão do pastor da igreja onde me converti e o queimei, junto com muitos outros, numa “fogueira santa”, lá pelos idos de 1992. Disso, acreditem, eu me arrependo.
***

6 comentários:

Sentido comum disse...

Michael Jackson não esta mas entre nós, os que ficamos vivos hoje, esse é o resultado do pecado que quando entrou no mundo trazia a bagagem morte com ele.

Alan Corrêa

Mayalu Moreira Felix disse...

Oi, Alan!

Obrigada por sua visita e por seu comentário, volte sempre!

Abração!

Maya

Rodrigo Magalhães disse...

Olá, não foi só você, minha cara. Eu não vivi fora da Igreja nos anos 80, aliás, conheci Michael já no final da década, mas até hoje sou um admirador do talento impressionante deste cantor, gênio musical, homem triste...
A tristeza nossa é estanha, mas é bom sentir coisas assim, às vezes... nos faz sentir-nos mais humanos. Parabéns pelo texto e blog, aliás, eu também joguei vários álbuns fora nestes equívocos da fé alienada de tempos passados... graças a DEUS isto ficou pra trás...

um abraço,

Rodrigo Magalhãe

Mayalu Moreira Felix disse...

Oi, Rodrigo,

Obrigada por seu comentário. Às vezes me sinto um ET entre os evangélicos, porque nem sempre estive na Igreja e às vezes acho que a fé em excesso, sem ponderação, aliena e idiotiza o homem.

Um abraço, volte sempre,

Maya

Elder Sacal Cunha disse...

Olá Maya...
me lembro de minha infância, cresci ouvindo os Jackson Five e logo em seguida a Michael.
Suas músicas fizeram parte de alguns namorinhos que tive na adolescencia.
Um homem com um potencial incrivel musical. Um homem marcado por suas escolhas. Um homem triste e solitário. Um homem que não cresceu...

Adicionei seu banner em meu blog, conto com a parceiria
Abraços
Pr Elder
http://eldersacalcunha.blogspot.com

Mayalu Moreira Felix disse...

Oi, querido Elder...

É verdade, ele tinha dons maravilhosos, mas foi encoberto por uma ideia falsa de si mesmo, pelo amor ao dinheiro (a raiz de todos os males), pela infância estraçalhada... Isso é muito triste, sim.

Um abraço, vou aceitar a parceria dos banners.

Maya

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