Creio que não existe nada de mais belo, de mais profundo, de mais simpático, de mais viril e de mais perfeito do que o Cristo; e eu digo a mim mesmo, com um amor cioso, que não existe e não pode existir. Mais do que isto: se alguém me provar que o Cristo está fora da verdade e que esta não se acha n'Ele, prefiro ficar com o Cristo a ficar com a verdade. (Dostoievski)

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9 de jun de 2009

declínio da fé religiosa

John R. Searle: de "Mind, language, and society"


Acho que algo muito mais radical que um declínio da fé religiosa ocorreu em nosso mundo. Para as pessoas cultas, o mundo se tornou desmistificado. Ou antes, para ser mais preciso, deixamos de tomar os mistérios que vemos no mundo como expressões de algo sobrenatural. Não mais consideramos os acontecimentos estranhos como exemplos da ação de Deus através da linguagem dos milagres. Os acontecimentos estranhos são apenas acontecimentos que não compreendemos. O resultado dessa desmistificação é que já estamos para lá do ateísmo, num ponto em que o assunto já não nos interessa à maneira em que interessava às prévias gerações. Para nós, se descobríssemos que Deus existe, isso seria um fato da natureza como qualquer outro. Às quatro forças básicas do universo – gravidade, eletromagnetismo, força nuclear forte e força nuclear fraca – adicionaríamos uma quinta, a força divina. Ou, mais provavelmente, veríamos as outras forças como formas da força divina. Se o mundo sobrenatural existisse, ele também seria natural.

Dois exemplos ilustram a mudança do nosso ponto de vista. Quando dei aula na universidade de Veneza, como professor visitante, eu costumava caminhar até uma encantadora igreja gótica, a Igreja da Madonna del Orto. Originalmente, haviam planejado batizá-la de igreja San Christoforo, mas, durante a construção, quando foi encontrada uma estátua da Madonna no pomar local, presumiu-se que ela tinha caído do céu. Uma estátua da Madonna caída do céu no pomar do próprio terreno da igreja era milagre suficiente para justificar a mudança do nome para Igreja da Madonna do Pomar. Eis o que interessa: se hoje uma estátua fosse achada ao lado de um canteiro de obras, ninguém diria que ela houvesse caído do céu. Mesmo se a estátua fosse achada nos jardins do Vaticano, as autoridades eclesiásticas não alegariam que caíra do céu. Pensar isso não seria possível porque, em certo sentido, sabemos demais.

Quando dei aula na Universidade de Florença, a igreja da minha paróquia, se assim puder descrevê-la, era San Miniato, localizada numa colina sobre a cidade, um dos edifícios mais impressionantes de Florença. Por que esse nome? Parece que San Miniato foi um dos primeiros mártires cristãos na história da cidade. As autoridades romanas o executaram no século III, mais ou menos em 250 d.C., na época do imperador Décio. Ele sobreviveu ao ataque dos leões na arena, mas depois lhe cortaram a cabeça. Após ser decapitado, ele se levantou, pôs a cabeça sob o braço, caminhou para fora da arena e, atravessando o rio, saiu da cidade. Então, subiu a colina ao lado sul do Arno, sempre carregando a cabeça, até chegar ao topo, onde se sentou. Nesse lugar se encontra hoje a igreja. Os guias contemporâneos têm um pouco de vergonha de contar essa história, e a maior parte sequer a conta. O que ocorre não é que a achemos falsa, mas que não a levamos a sério nem mesmo como possibilidade.


De: SEARLE, John R. Mind, language, and society. New York: Basic Books, 1998.

FONTE: Blog Acontecimentos

***

Concordo com o texto de Searle: você já pensou em como isso funciona nas mentes mais modernas e bem informadas, hoje? Quanta mesmice e falta de verdade, nas pregações, nos livros, nas igrejas e nas orações! Em parte, não é à toa que muitos rejeitam o Cristo: é porque não vêem em nenhum de nós sequer a sua sombra.

Por outro lado, também é isso: crer é saber que Deus está fora do sistema deste mundo, que sepulta a fé e esclarece os raios, as tempestades e os trovões. Crer ultrapassa nossos conceitos medievais e deve ultrapassar também os mais modernos. Crer não é acomodar a ignorância. Por isso, poucos crêem.

A propósito, John Searle é um dos maiores teóricos do mundo na área de discurso e pragmática (subáreas da Linguística).

11 comentários:

João Paulo Mendes disse...

Paz do Senhor Maya,

Apesar de concordar com alguns pontos do artigo do Searle não concordo com todos.Não penso que a maioria do cristãos estão distantes assim de crer no sobrenatural,talvez a visão dele seja bem aplicada ao seu contexto, onde ele tem vivido.

Vejo que no meio assembleiano, ao qual pertenço, muitos creem em milhagres, intervenções sobrenaturais, e inclusive clamam a Deus por isso e Ele responde.

A colocação do autor pode ser pertinente, como eu disse, ao contexto dele e aos brasileiros que tem confundido a fé em Cristo com o Cristianismo político usado para propagar a ideologia de alguns que o fazem a através da pregação, aí sim, mas não creio que é algo geral.

Ah! Adicionei o blog da Maya aos meus favoritos, se puder fazer o mesmo...

Abraço.

Joelson Gomes disse...

Parabens pelo sitio, vim, vi e gostei.

Amplexos,

joelson

http://gracaplena.blogspot.com

Daladier Lima disse...

Captei a essência do post. É verdade que pelo "poder" que temos hoje nos achamos auto-suficiente. Creio que é por isso que persiste a doença e a morte, caso contrário...
Abraços!

Mayalu disse...

Prezado João Paulo,

Obrigada por sua postagem. Penso que a questão não está no sobrenatural, necessariamente. O sobrenatural existe fora do cristianismo. O mais importante, para mim, é o amor, e penso que é por ele que somos reconhecidos filhos de Deus. O amor, mais simples que pareça, não está em todo lugar. Exige mais que manifestações de poder. É fruto de renúncia e crescimento, arrependimento e negação de si mesmo. Amar é difícil, por isso vemos que poucos hoje conseguem. O amor é que é sublime, e vai além de descobertas científicas e épocas.

Vou lá ver seu blog, sim, e provavelmente vou também adicioná-lo aqui.

Um abraço,

Maya

Mayalu disse...

Joelson,

Obrigada por sua visita e seu comentário. Você é sempre bem-vindo.

Um abraço,

Maya

:)

Mayalu disse...

Caro Daladier,

Obrigada por sua visita.

Penso que o autor não está errado. Não são os sinais que nos diferenciam: eles nos acompanham. O que nos diferencia é o amor.

Um abraço,

Maya

Matias Borba disse...

Tô ausente mas voltarei, hehe.

Mas gostei muito do texto, e também do comentário do Pr. Daladier.

Deus te abençoe, e obrigado pelos comentários nobre meu niver, você é uma benção, graciosa de tanta graça de Deus!!!!!

Deus te abençoe!

Márcio Melânia disse...

Tem um selo para você lá no NC: http://news.noticiascristas.com/2009/06/selo-blog-e-para-vida-toda-100-ibope.html

Um abração, que Deus a abençõe!

Mayalu Moreira Felix disse...

Oi, Matias!

:)

Maya

Mayalu Moreira Felix disse...

Márcio, obrigada! Vou lá olhar, e me desculpe o atraso, é que de repente as coisas começam a apertar!

:)

Maya

Anônimo disse...

Prefiro a Verdade.
(jsa@oi.com.br)

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