Creio que não existe nada de mais belo, de mais profundo, de mais simpático, de mais viril e de mais perfeito do que o Cristo; e eu digo a mim mesmo, com um amor cioso, que não existe e não pode existir. Mais do que isto: se alguém me provar que o Cristo está fora da verdade e que esta não se acha n'Ele, prefiro ficar com o Cristo a ficar com a verdade. (Dostoievski)

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11/03/2008

As Línguas Gerais

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AS LÍNGUAS GERAIS
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A expressão 'língua geral' foi inicialmente usada, pelos portugueses e pelos espanhóis, para qualificar línguas indígenas de grande difusão numa área. Assim, na América espanhola, o Quêchua já no século XVI foi chamado de 'Língua Geral do Peru' e o Guaraní, no início do século XVII, de 'Língua Geral da Província do Paraguai'. No Brasil, entretanto, tardou bastante o uso dessa expressão por parte dos portugueses. A língua dos índios Tupinambá, que no século XVI era falada sobre enorme extensão, ao longo da costa atlântica (do litoral de São Paulo ao litoral do Nordeste), não teve consagrada a designação de 'língua geral' nos dois primeiros séculos da colonização. O padre Anchieta intitulou sua gramática, a primeira que dela se fez (publicada em 1595), 'Arte de gramática da língua mais usada na costa do Brasil'. Outros autores referiram-se a ela como a 'língua do Brasil', a 'língua da terra' (isto é, a língua falada na costa, junto ao mar). Mas o nome cujo uso se firmou, sobretudo ao longo do século XVII, foi o de 'Língua Brasílica'. Assim, o catecismo publicado em 1618 chamou-se 'Catecismo na Língua Brasílica'; a segunda gramática, feita pelo padre Luís Figueira e cuja primeira impressão é de 1621, foi a 'Arte da Língua Brasílica'; o dicionário dos jesuítas, cujo manuscrito melhor conhecido é do mesmo ano de 1621, traz o nome de 'Vocabulário na Língua Brasílica', e assim por diante.
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O nome Tupinambá, como designação dessa língua, aparece tardiamente, no século XVIII, já com a intenção de distingui-la, enquanto língua dos índios Tupinambá (do Pará), da língua então corrente da população mestiça, já sensivelmente diferente daquela; mas, no início do século XIX, quando já tinha desaparecido a grande maioria dos índios Tupinambá, restando poucos remanescentes, como os Tupinikím (Tupiniquim) do Espírito Santo, de quem o Imperador D. Pedro II anotou algumas palavras, ou os Potiguára da Baía da Traição, na Paraíba (esses dois grupos de remanescentes subsistem até hoje, mas agora só falam a língua portuguesa).
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Já no século XVI a Língua Brasílica passou a ser aprendida pelos portugueses, que de início constituíam pequena minoria junto aos índios Tupinambá. Como grande parte dos colonos vinham para o Brasil sem mulheres, passaram a viver com mulheres indígenas, com a conseqüência de que a Língua Brasílica (isto é, o Tupinambá) veio a ser a língua materna de seus filhos. Essa situação atenuou-se em alguns lugares, com o aumento da imigração portuguesa e com a dizimação dos índios, mas intensificou-se em outros. Foi nas áreas mais afastadas do centro administrativo da Colônia (que era a Bahia) que se intensificou e generalizou o uso da Língua Brasílica como língua comum entre os portugueses e seus descendentes - predominantemente mestiços - e escravos (inclusive africanos), os índios Tupinambá e outros índios incorporados às missões, às fazendas e às tropas: em resumo, toda a população, não importa qual sua origem, que passou a integrar o sistema colonial.
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A essa língua popular, geral a índios missionados e aculturados e a não-indios, é que foi mais sistematicamente aplicado o nome de Língua Geral. O uso desse nome começa já na segunda metade do século XVII, embora às vezes com sentido diverso, como acontece com o padre Vieira, para o qual 'Língua Geral' significa, por vezes, o mesmo que para nós 'língua da família Tupí-Guaraní', isto é, qualquer língua reconhecidamente afim do Tupinambá, mas não idêntica a ele (como, por exemplo, o Guajajára do Maranhão).
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No sul da Colônia constituiu-se uma Língua Geral distinta da Língua Geral do Norte ou Língua Geral Amazônica. A Língua Geral do Sul, ou Língua Geral Paulista, menos conhecida que a outra, teve sua origem na língua dos índios Tupí de São Vicente e do alto rio Tietê, a qual diferia um pouco da língua dos Tupinambá. É a língua que no século XVII falavam os bandeirantes que de São Paulo saíram a explorar Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso e o Sul do Brasil. Por ser a língua desses pioneiros e aventureiros, penetrou essa Língua Geral em áreas onde nunca tinham chegado índios Tupí-Guaraní e aí deixou sua marca no vocabulário popular e na toponímia. Em São Paulo ela foi dominante no século XVII, mas passou a ser suplantada pelo Português no século XVIII. No início do século XIX só se faz referência a um ou outro falante no interior do Estado de São Paulo, na área de Porto Feliz, no rio Tietê.
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Já a Língua Geral Amazônica desenvolveu-se inicialmente no Maranhão e no Pará, mais tarde do que a do Sul, a partir do Tupinambá. Ao contrário de São Vicente e São Paulo, onde a colonização teve início já na primeira metade do século XVI, no Maranhão a conquista portuguesa começou quase cem anos depois, na primeira metade do século XVII. O litoral do Maranhão, onde primeiro se estabeleceram os portugueses, estava densamente povoado pelos índios Tupinambá, que se estendiam para oeste até a foz do rio Tocantins. Em conseqüência dessa situação, aí o Tupinambá foi a língua predominante na população colonial durante o século XVII e acabou dando origem à nova Língua Geral, que foi falada pelas tropas e missões que foram penetrando e criando núcleos de povoamentono vale amazônico. Portanto, o Tupinambá e essa Língua Geral em que ele se transformou, é que foi a língua da ocupação portuguesa da Amazônia nos séculos XVII e XVIII. Aí ela foi o veículo não só da catequese, mas também da ação social e política portuguesa e luso-brasileira até o século XIX. Ainda hoje é falada, especialmente na bacia do rio Negro, sendo que no Uapés e no Içana, além de ser a língua materna da população cabocla, ainda mantém o caráter de língua de comunicação entre índios e não-índios, ou entre índios de diferentes línguas.
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As duas línguas gerais, faladas em novos contextos sociais, alteraram-se paulatinamente em sua estrutura. Da Língua Geral Paulista, chamada Tupí Austral por Martius, não sabemos muita coisa; na verdade, só conhecemos dela um documento (um dicionário de verbos) bastante tardio, provavelmente do século XVIII, publicado pelo mesmo Martius em 1863. Já a Língua Geral Amazônica, também conhecida, a partir do terceiro quartel do século XIX, pelo nome de Nheengatú (ie'éngatú 'língua boa'), além de continuar sendo falada até hoje, é conhecida por muitos documentos (gramáticas, dicionários, catecismos, lendas), tanto do século XVIII, como dos séculos XIX e XX. Esta língua se expandiu consideravelmente ao longo de todo o vale amazônico, chegando até a fronteira com o Peru no oeste e penetrando na Colômbia pelo vale do rio Uaupés no noroeste. Ao longo do rio Negro chegou também à Venezuela (onde é chamada Yeral). Tal como o Tupí Austral, a Língua Geral Amazônica passou a ser falada em regiões onde nunca habitaram índios Tupí-Guaraní e deixou forte marca na toponímia e na língua portuguesa da Amazônia.
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A Língua Geral Amazônica de hoje (Nheengatú) difere não só da língua Tupinambá, mas também da Língua Geral Amazônica do século XVIII. As diferenças em relação a esta última se devem não apenas a mudanças ocorridas com o passar do tempo (cerca de 250 anos), mas também ao fato de que certamente se constituíram diversos dialetos da Língua Geral Amazônica, segundo as diferentes regiões em que ela veio a ser falada: baixo Tocantis, baixo Tapajós, rio Negro, Solimões etc.
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RODRIGUES, Aryon Dall'Igna. Línguas brasileiras: para o conhecimento das línguas indígenas. São Paulo: Edições Loyola, 2002. Pp. 99-103.
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IMAGEM: Capa do livro supracitado;
FOTOGRAFIA E GRAVURA DO PADRE ANCHIETA: web.
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O Professor Aryon Dall'Igna Rodrigues é Pesquisador Associado da Universidade de Brasília, tendo sido o fundador dos estudos lingüísticos modernos das línguas indígenas do Brasil. É o fundador do Laboratório de Línguas Indígenas da Universidade de Brasília, vinculado ao Departamento de Lingüística, Português e Línguas Clássicas (LIP) do Instituto de Letras (IL). É sócio-fundador da Associação Brasileira de Lingüística, Abralin.
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Sobre o padre Anchieta:
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Nascido em La Laguna de Tenerife, Ilhas Canárias em 19 de março de 1534 (um ano antes da chegada de Vasco Fernandes Coutinho ao Espírito Santo), filho do basco Juan Lopes da Anchieta, de uma família nobre de Guipuzicoa, e uma nativa de Tenerife, Mência Diaz Llarena, com quem se amancebou, Anchieta foi mandado pelo pai aos 14 anos para estudar em Coimbra. Revelando notável inteligência nos estudos acadêmicos ingressa na Companhia de Jesus, fundada em 1535 por seu primo Inácio de Loiola.
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Enviado ao Brasil para a missão evangelizadora e para tratar de uma tuberculose óssea que o afligia - e que o deixou com a postura encurvada - Anchieta aqui chegou em 1553 aos 19 anos aportando primeiro em Salvador e depois rumando para a capitania de São Vicente onde fundou o Colégio de Piratininga, embrião da cidade de São Paulo.
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Tornou-se o principal catequizador dos índios brasileiros e se valia de recursos teatrais nesse trabalho, o que lhe confere o pioneirismo das artes cênicas nacionais, sendo justamente reconhecido como o fundador do teatro brasileiro
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Há controvérsias sobre o seu papel histórico como colonizador a serviço de uma religião mas o que se ressalta é que por ser filho de uma união informal entre um nobre e uma nativa Anchieta influenciou muito para que a relação entre conquistadores e nativos fosse mais humana e menos ideológica, integrando as raças em vez de segregá-las, como se veria na colonização norte-americana. Chegou mesmo a incentivar o casamento entre portugueses e nativos, coibindo excessos. Deixou a obra literária mais importante do Brasil no século XVI, composta de cartas, poemas e autos.
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Além de fundar São Paulo e Niterói, Anchieta construiu as casas de Misericórdia do Rio de Janeiro e Vila Velha, as igrejas matrizes de Rerigtiba e Guarapari , fundando no Espírito Santo as cidades de Rerigtiba (hoje Anchieta), Guaraparim ( Guarapari) e São Mateus. Pode ser considerado o primeiro cientista brasileiro, tendo descrito a função da bolsa dos marsupiais, os canais e glândulas de veneno das serpentes e classificado o tapir, ou anta, entre os equinos. Realizou obra notável nas áreas de ciências naturais, linguística - tendo escrito a primeira gramática tupi-guarani para facilitar o trabalho de evangelização dos colegas -, diplomacia, antropologia, arquitetura e artes. Chefe de guerra, nomeou Tibiriçá capitão e junto com os Goitacazes marchou contra os Tamoios expulsando-os para Iperoig (hoje Ubatuba) onde depois se apresentou e permaneceu como refém para negociar a paz, ocasião em que compôs seu famoso poema em homenagem à Virgem Maria, com seis mil versos escritos na areia. Junto com Araribóia, um guerreiro temiminó de Vila Velha, combateu os franceses no Rio de Janeiro, expulsando-os em 1567. Sua ação estendeu-se do litoral de Pernambuco até São Paulo. Atraído pelo aspecto ameno de Rerigtiba, ao que se supõe por evocar-lhe sua Laguna de Tenerife, escolheu essa vila do Espírito Santo para viver os últimos dez anos de sua vida expirada em nove de junho de 1597.
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Nessa fase final percorria habitualmente a pé - já que o problema na coluna impedia-lhe a montaria - o trecho entre Rerigtiba e o Colégio de São Tiago onde serviu alguns anos como Provincial do Brasil. Nas suas andanças pelas 14 léguas entre Rerigtiba e Vitória adiantava-se na caminhada mesmo aos mais vigorosos guerreiros índios que, por isso, o denominaram Abará-bebe (padre voador) e Caraibebe (homem de asas). Nesse percurso se encontram os registros de feitos extraordinários que lhe conferem uma dimensão mítica. Os cronistas da época descrevem-no como de corpo pequeno e mirrado, fisionomia morena, trato agradável, aspecto de velha, pequena corcunda, olhos vivos e perspicazes. Um grande homem do seu tempo.
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FONTE: Abapa. Grifo no corpo do texto (negrito) meu.
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Mais informações sobre línguas indígenas do Brasil: clique aqui - FUNAI.

3 comentários:

SMSBless disse...

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Maya disse...

Oi, obrigada pelo convite! Vou lá!

Anônimo disse...

Muito interessante e instrutivo o seu blog, Maya! As informações sobre "língua" geral, aliás, foram de muita valia para mim. Sou jornalista (também formado em Letras) e estou escrevendo um texto sobre línguas indígenas no Brasil. Obrigado! Gostei também do seu gosto musical (refiro-me ao jazz de Django Reinhardt). Abraço, felicidades e muito sucesso!
E-mail: paulo.castro.jornalista@gmail.com

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