Creio que não existe nada de mais belo, de mais profundo, de mais simpático, de mais viril e de mais perfeito do que o Cristo; e eu digo a mim mesmo, com um amor cioso, que não existe e não pode existir. Mais do que isto: se alguém me provar que o Cristo está fora da verdade e que esta não se acha n'Ele, prefiro ficar com o Cristo a ficar com a verdade. (Dostoievski)

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9 de mar de 2008

Aryon Dall'Igna Rodriges

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AS LÍNGUAS INDÍGENAS

Os índios no Brasil não são um povo: são muitos povos, diferentes de nós e diferentes entre si. Cada qual tem usos e costumes próprios, com habilidades tecnológicas, atitudes estéticas, crenças religiosas, organização social e filosofia peculiares, resultantes de experiências de vida acumuladas e desenvolvidas em milhares de anos. E distinguem-se também de nós e entre si por falarem diferentes línguas.

Como todas as demais, as línguas dos povos indígenas do Brasil são inteiramente adequadas à plena expressão individual e social no meio físico e social em que tradicionalmente têm vivido esses povos. Embora diferentes, elas compartilham do que todas as quase seis mil línguas do mundo têm em comum: são manifestações da mesma capacidade de comunicar-se pela linguagem. Essa capacidade é uma qualidade desenvolvida pela espécie humana e se caracteriza por princípios e propriedades que, presentes em todo homem, facultam a qualquer criança desenvolver o domínio de qualquer língua, sempre que exposta ao contato com falantes dessa língua. Da mesma forma, permitem a qualquer adulto, com maior ou menor esforço, aprender línguas diferentes da sua própria.
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Embora constituídas a partir de princípios e propriedades comuns, as línguas estão sujeitas a grande número de fatores de instabilidade e variação, que determinam nelas forte tendência à constante alteração. Essa tendência é normalmente contrabalançada pela necessidade de mútuo ajuste entre os indivíduos de uma mesma comunidade social, ajuste sem o qual não se cumpriria a finalidade básica da língua, que é a comunicação explícita e, quando possível, fácil. Quando as vicissitudes de uma comunidade humana acarretam sua divisão em duas ou mais subcomunidades ou novas comunidades, reduz-se o contato entre as pessoas separadas nessas novas comunidades e, em conseqüência, diminui a necessidade de ajuste e aumenta a diferenciação lingüística entre os grupos humanos correspondentes. Se as novas comunidades, resultantes da divisão do que foi antes uma só comunidade com uma só língua, distanciam-se no espaço geográfico e perdem de todo o contato entre si, desaparece inteiramente a necessidade de ajuste comunicativo entre elas. Nesse caso, as alterações lingüísticas que ocorrem em cada comunidade não são mais reajustadas em comum e, por descoincidirem em muitos casos, vão constituir diferenças entre suas falas. Estas se tornarão línguas diferentes, cada vez mais diferentes, na medida em que o correr do tempo expuser uma e outra, independentemente, às circuntâncias mais variadas.

É assim que a história das línguas no mundo tem sido uma história de sucessivas multiplicações, e só assim pode ter sido a história ou pré-história das línguas indígenas brasileiras. Uma conseqüência dessa história é que algumas línguas, embora substancialmente diferentes, conservam muitos elementos em comum, que permitem reconhecê-las mais ou menos facilmente como descendentes de uma só língua anterior. A presença desses elementos em comum diminui, entretanto, com o decorrer do tempo. Isto faz com que freqüentemente nos encontremos diante de casos em que é extremamente difícil, senão impossível, demonstrar que duas ou mais línguas atuais provém conjuntamente de uma língua mais antiga. Na medida em que reconhecem origem comum para um conjunto de línguas, os lingüistas constituem uma família lingüística. Assim, na Europa, as línguas oriundas do latim formam a família românica. Analogamente, no Brasil, a família Tupí-Guaraní é um conjunto de línguas que se reconhece descenderem de uma língua anterior, neste caso pré-colombiana e não documentada historicamente (...).

Falam-se no Brail, hoje em dia, uma 170 línguas indígenas. Quantas, exatamente, não sabemos, não só porque até hoje não se incluem nos recenseamentos oficiais brasileiros informações lingüísticas, nem informações sobre os povos indígenas, mas também porque línguas são coisas muito difíceis de contar, mesmo quando são bem conhecidas. É o caso, por exemplo, das línguas românicas da Península Ibérica: São duas - Português e Espanhol? São três - Português, Espanhol e Catalão? São quatro - Português, Galego, Espanhol e Catalão? São cinco ou mais? Quando as línguas são mal conhecidas, como é freqüentemente o caso das línguas indígenas brasileiras, essa situação de indefinibilidade ocorre muitas vezes: há uma língua Tupí-Guaraní? ou uma língua Tupí e uma língua Guaraní? ou diversas línguas Tupí e diversas línguas Guaraní? Mesmo quando se adquire conhecimento razoável das línguas, ainda restam problemas técnicos, como a definição de língua em contraposição à definição de dialeto, a distinção entre formas antigas e modernas do que pode ser uma mesma língua. Compare-se no caso românico: Francês medieval e Francês moderno são a mesma língua? Latim e Português são a mesma língua?

É provável que na época da chegada dos primeiros europeus ao Brasil, há quase quinhentos anos, o número das línguas indígenas fosse o dobro do que é hoje. A redução teve como causa maior o desaparecimento dos povos que as falavam, como conseqüência das campanhas de extermínio ou de caça a escravos, movidas pelos europeus e por seus descendentes e prepostos, ou em virtude das epidemias de doenças contagiosas do Velho Mundo, deflagradas involuntariamente (em alguns casos voluntariamente) no seio de muitos povos indígenas; pela redução progressiva de seus territórios de coleta, caça e plantio e, portanto, de seus meios de subsistência, ou pela assimilação, forçada ou induzida, aos usos e costumes dos colonizadores.

Naturalmente, o maior número de línguas indígenas desapareceu nas áreas que foram colonizadas há mais tempo e mais intensamente, constituídas pela região Sudeste e pela maior parte das regiões Nordeste e Sul do Brasil. Uma linha imaginária traçada de São Luis do Maranhão, ao norte, até Porto Alegre, ao sul, passando por perto de Brasília, no centro, deixa a oeste a área onde sobrevivem as línguas indígenas e a leste a área onde elas se extinguiram quase sem exceção. As exceções são apenas três: a língua Yatê dos índios Fulniô, ao sul de Pernambuco; a língua dos índios Maxakalí, no nordeste de Minas Gerais; e a língua dos índios Xokléng, no municípío de Ibirama, a oeste de Blumenau, em Santa Catarina. Uma exceção aparente são os grupos de falantes de Guaraní (dialetos Nhandéva e Mbiá) no leste paulista e no litoral dos estados do Paraná, Rio de Janeiro e Espírito Santo, os quais têm migrado durante os últimos cem anos, do vale do rio Paraná para a costa atlântica. Cerca de vinte povos indígenas que ainda sobrevivem a leste da linha São Luís-Porto Alegre falam, hoje, exclusivamente variedades regionais da língua portuguesa: entre outros, os Potiguára na Paraíba, os Pankararú em Pernambuco e Alagoas, os Xokó em Sergipe, os Kirirí e os Pataxó na Bahia, os Tupinikim no Espírito Santo.

Algumas das línguas desaparecidas foram documentadas de forma mais ou menos ampla, às vezes em vários volumes (na verdade, apenas três línguas estão nesse caso), às vezes só mediante o registro de umas poucas palavras avulsas. Grande número delas, entretanto, desapareceu sem que nada ficasse registrado. O Kirirí é uma língua que, embora bem documentada no final do século XVII, depois desapareceu completamente; hoje os últimos descendentes da grande nação Kirirí, no norte da Bahia, só falam português (algumas pessoas, entre eles, guardam a memória de palavras soltas de sua língua original). O Tupinambá, ou Tupí antigo, foi documentado já no século XVI: em 1575 e 1578 foram publicados os primeiros textos nessa língua pelos franceses André Thevet e Jean de Léry, sendo que este último publicou também as primeiras observações gramaticais sobre a mesma; em 1595 foi editada a gramática que dela fez o padre Anchieta (...). Essa língua também deixou de ser falada na forma em que existia nos séculos XVI e XVII, quando era essencialmente o idioma dos índios Tupinambá (conhecidos regionalmente também pelos nomes Tamôio, Tupinikim, Kaeté, Potiguára, Tobajára, etc.), mas pode dizer-se que teve continuidade até hoje, sob forma muito alterada, transfigurada em língua de 'civilizados' (...).

A língua indígena tradicionalmente mais conhecida dos brasileiros - conquanto esse conhecimento se limite em regra só a um de seus nomes, Tupí - é justamente o Tupinambá. Esta foi a língua predominante nos contatos entre portugueses e índios nos séculos XVI e XVII e tornou-se a língua da expansão bandeirante no sul e da ocupação da Amazônia no norte. Seu uso pela população luso-brasileira, tanto no norte quanto no sul da Colônia, era tão geral no século XVIII, que o governo português chegou a baixar decretos (cartas régias) proibindo esse uso. Uma das conseqüências da prolongada convivência do Tupinambá com o Português foi a incorporação a este último de considerável número de palavras daquele. Numa amostra de pouco mais de mil nomes brasileiros populares de aves, um terço, cerca de 350 nomes, são oriundos do Tupinambá. Numa outra área da fauna, em que a interação entre portugueses e índios deve ter sido mais intensa, pois uns e outros eram grandes pescadores, a participação do vocabulário do Tupinambá é ainda maior: numa amostra de 550 nomes populares de peixes, quase a metade (225 ou 46%) veio da língua indígena. É notável a quantidade de lugares com nomes de origem Tupinambá, quase sem alteração de pronúncia, muitos deles dados pelos luso-brasileiros dos séculos passados a localidades onde nunca viveram índios Tupinambá.

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RODRIGUES, Aryon Dall'Igna. Línguas brasileiras: para o conhecimento das línguas indígenas. São Paulo: Edições Loyola, 2002. Pp. 17-21
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IMAGEM: Capa do livro supracitado;
FOTOGRAFIAS: web.
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O Professor Aryon Dall'Igna Rodrigues é Pesquisador Associado da Universidade de Brasília, tendo sido o fundador dos estudos lingüísticos modernos das línguas indígenas do Brasil. É o fundador do Laboratório de Línguas Indígenas da Universidade de Brasília, vinculado ao Departamento de Lingüística, Português e Línguas Clássicas (LIP) do Instituto de Letras (IL). É sócio-fundador da Associação Brasileira de Lingüística, Abralin.

2 comentários:

Ailton Santana disse...

Boa noite Mayalu,

Hoje, navegando pela internet achei uma pérola para pessoas como você que se dedicam a escrever de uma forma tão bonita na internet; uma fonte inesgotável de conhecimento em letras. Sem dúvida...acho que foi o melhor texto que já vi. Ou seria o ápice da imbecilidade? Bom...Veja por si mesma...

Parabéns pelo seu blog.

E os indios que eram primitivos...kkkk

http://diariobbb8.globo.com/gyselle/

Maya disse...

Oi, Aílton, obrigada pela visita!

Pois é, nossos conceitos de "civilização" precisam ser revistos...

Abraço!

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