Creio que não existe nada de mais belo, de mais profundo, de mais simpático, de mais viril e de mais perfeito do que o Cristo; e eu digo a mim mesmo, com um amor cioso, que não existe e não pode existir. Mais do que isto: se alguém me provar que o Cristo está fora da verdade e que esta não se acha n'Ele, prefiro ficar com o Cristo a ficar com a verdade. (Dostoievski)

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17 de out de 2008

conto de terror, ou fantástico, ou de suspense


Considero esta narrativa, que li aos dez, onze anos de idade, um dos mais geniais do gênero conto de terror, ou conto fantástico, ou ainda, conto de suspense. É genial, penso eu, porque não precisa jorrar sangue em cada frase para despertar no leitor a surpresa e a expectativa diante de um final estranhamente possível. Aí está a beleza das grandes obras literárias: sugerir mais do que dizer. Deixar ao leitor a liberdade de construir e deduzir, de atribuir e concluir, sem no entanto mover a narrativa para o previsível. Além disso, o prazer da leitura não finda após os dois primeiros parágrafos. Eis aí outra característica da boa literatura: é agradável e prazerosa para quem lê.

Este é um clássico dos contos de terror. Há na internet traduções que preferiram "pata", no lugar de "garra", além de outras diferenças. particularmente, considero esta versão a mais genial. Boa leitura.


A GARRA DO MACACO


Fora, a noite estava fria e chuvosa, porém, na saleta do "chalet" de Laburnum as venezianas haviam sido fechadas e o fogo ardia, rebrilhando. Pai e filho jogavam xadrez; o pri­meiro, que tinha acerca do jogo idéias que implicavam alterações radicais, expunha o seu rei a perigos extremos e inúteis, pro­vocando sempre comentários da velha dama de cabelos brancos que fazia meias plàcidamente, ao pé do fogo.
- Escuta o vento - disse o sr. White que, percebendo um erro fatal quando já era tarde, desejava amavelmente impedir que o filho o notasse.
- Estou ouvindo - respondeu o rapaz, vigiando atenta­mente o tabuleiro, enquanto o pai estendia a mão. - Xeque!
- Custa-me crer que ele venha esta noite - continuou o velho, conservando a mão no xadrez.
- Mate! - acrescentou o filho.
- É o mal de morarmos tão longe - tornou o sr. White;
com violência súbita e não reprimida. - De todos os sítios imundos, lamacentos e isolados, este é o pior. A estrada é um charco e a rua, uma torrente. Não sei o que esta gente pensa disto. Mas como só duas casas da estrada são de aluguel, su­ponho que pouco se lhe dá.
- Pouco importa, querido - observou a esposa com mei­guice - talvez ganhes a próxima partida.
O sr. White levantou os olhos a tempo de perceber um olhar de inteligência entre a mãe e o filho. As palavras morreram-lhe nos lábios e ele disfarçou uma careta, na barba espessa e grisalha. - Aí está ele - anunciou Herberto White, ouvindo o por­tão bater violentamente; passos pesados aproximaram-se da casa.
O ancião levantou-se, com uma solicitude hospitaleira e, abrindo a porta, acolheu com lamentações o visitante que se queixou também. O sra. White interveio, conciliadora.
- Isso passa! Passa!
E tossiu, quando o marido entrou na peça, seguido por um homem alto e corpulento, de olhos pequenos e faces coradas.
O militar trocou apertos de mão e, tomando a cadeira ao pé do fogo que lhe era oferecida, deitou alegremente um olhar à roda, enquanto o seu hospedeiro trazia whisky e cálices e punha uma chaleirinha de cobre no fogo.
- Primeiro o sargento Morris - disse o velho, apre­sentando-o.
Ao terceiro copo, os olhos do sargento já reluziam e ele principiou a falar; a família observava com o maior interesse esse visitante de terras afastadas que, recostado aos ombros largos na cadeira, falava de cenas selvagens e feitos destemi· dos, de guerras, de misérias e de povos estranhos.
- Há vinte e um anos - disse o sr. White, voltando-se para a esposa e o filho - quando ele partiu, era uma flor da mo­cidade no quartel. Olhem-no agora.
- Não me parece que tenha mudado muito - observou cortesmente a sra. White.
- Gostaria de ir à Índia - tornou o ancião - só para ver alguma coisa com os meus olhos.
Está melhor aqui - afirmou o oficial, meneando a cabeça.
Gostaria de conhecer esses templos antigos, os faquires e os pelotiqueiros - continuou o sr. White. - Que me disse, dias atrás, da garra de macaco ou coisa semelhante, Morris? - Nada - apressou-se a responder o soldado. - Nada que valha a pena ouvir.
Garra de macaco? - perguntou a sra. White com curiosidade.
Bom; é talvez um pouco do que se pode chamar magia - respondeu evasivamente o militar.
Os três ouvintes curvaram-se com interesse. O visitante le­vou distraidamente o copo aos lábios e depois soltou-o. O sr. White tornou-o a encher.
- Reparem - principiou o sargento, esquadrinhando os bolsos - eis uma simples garra de macaco mumificada.
E exibiu o que tirara do bolso. A sra. White recuou com uma careta, mas o filho apanhou o curiosidade.
- E que há de especial nisso? – indagou o Sr. White, tomando-o das mãos do filho e pousando-o na mesa, depois de o observar.
- Foi encontrado por um velho faquir - explicou o sargento - um velho honrado, que queria demonstrar que o destino rege a vida do homem e que, contrariando-o, o homem só acarreta a própria desgraça. Ele encantou este objeto de modo que três pessoas poderão satisfazer por meio dele três desejos cada uma.
O tom de Morris era tão solene, que impressionou os seus hóspedes.
- E por que não fez os seus pedidos, senhor - perguntou Herberto White habilmente.
O militar encarou-o, como na Idade Média se costumava olhar um rapazote presunçoso, e replicou com calma:
- E os fiz.
Mas o rosto se lhe tornou lívido.
E os três desejos foram satisfeitos? - indagou a sra. White.
- Sim - respondeu o sargento, batendo o copo contra os dentes.
- E mais alguém manifestou três desejos? - insistiu a senhora.
- O primeiro possuidor manifestou três desejos - dis­se Morris. - Sim; não sei quais foram os dois primeiros, mas o último foi a morte. Eis como esta garra me chegou às mãos.
O seu tom era tão grave, que o grupo se conservou silencioso.
- Se lhe satisfez os seus três desejos já não lhe serve, Morris - observou o ancião. - Por que a conserva?
O soldado meneou a cabeça.
- Capricho, suponho - disse lentamente. - Pensei em vendê-la; não sei, porém, se devo. Já causou bastante trans­tornos. Aliás, ninguém a compraria: uns consideram uma fábula e os que acreditam querem primeiro experimentá-la e depois pagar-me.
- Se tivesse outros três desejos - perguntou o sr. White encarando-o - seriam satisfeitos?
- Não sei - replicou o sargento. - Não sei.
E, apanhando a garra entre o polegar e o indicador, deitou-a às chamas. White curvou-se, com um grito, e retirou-a.
- É melhor que a deixe queimar - disse solenemente o soldado.
- Se não a quer, Morris - propôs o velho - deixe-a comigo.
- Não - tornou rispidamente o sargento. - Deite-a ao fogo. Se apanhou, não me culpe, caso lhe aconteça alguma coisa. Atire-a outra vez às chamas, como homem sensato.
White meneou a cabeça e, examinando atentamente a sua nova propriedade, indagou:
- Como se usa?
- Levante-a na mão direita e diga o que deseja em voz alta - explicou o sargento - mas eu o avisei das conseqüências.
- Lembra as "Noites árabes" - disse a sra. White, levantando-se e começando a servir a ceia. - Crê que eu possa pedir para mim quatro pares de mãos?
O ancião tirou do bolso o talismã e os três riram-se; mas o sargento, preocupado, segurou o braço do velho.
- Se quiser formular algum desejo - disse ele rapida­mente - peça alguma coisa razoável.
White tornou a guardar a garra no bolso e, dispondo as cadeiras, chamou o amigo para a mesa.
Durante a ceia, o talismã foi esquecido; mais tarde, pais e filho escutaram atentamente a segunda narração das aventuras do militar na Índia.
- Se a lenda da garra de macaco não for mais verídica do que as que ele nos contou - disse Herberto, mal a porta se fechou atrás do hóspede, que partira para apanhar o último trem - não nos servirá muito.
- Deu-lhe alguma coisa? - indagou a sra. White, enca­rando o marido.
- Uma bagatela - replicou ele, corando. - Morris não queria, mas eu o obriguei a aceitar. Ele insistiu, para que eu devolvesse a garra.
- Está visto - disse Herberto, com fingido horror. ­Bem, agora seremos ricos, famosos e felizes. Para começar peça que o faça imperador, pai; só assim não será governado.
E o rapaz correu em redor da mesa, perseguido pela sra. White que, ofendida, se armara de uma almofada.
O sr. White tirou do bolso o talismã e observou-o com ar de dúvida.
- Na verdade não sei o que hei de pedir - disse ele len­tamente. - Parece-me que tenho tudo que desejo.
- Se pudesse mudar-se, julgar-se-ia completamente feliz! - observou Herberto, pousando a mão no ombro do pai. - Pois bem, peça duas mil libras, então; é o quanto basta.
Sorrindo da própria credulidade, White ergueu o talismã e o rapaz, obedecendo em parte a um olhar da mãe, sentou-se ao piano, com ar muito sério, e fez soar alguns acordes solenes.
- Desejo duas mil libras - disse distintamente o ancião.
Um belo acorde saudou as palavras e foi interrompido por um grito de White. A esposa e o filho correram para ele.
- Moveu-se! - bradou o velho, deitando um olhar de repugnância ao objeto que jazia no chão. - Quando fiz o pe­dido, agitou-se como uma serpente!
- Contudo, não vejo o dinheiro - disse o rapaz, levan­tando o talismã e pondo-o na mesa - e aposto que nunca o verei.
- Foi decerto uma fantasia - observou a sra. White fitando ansiosamente o marido.
O velho meneou a cabeça.
- Não importa; não me causou nenhum dano; mas, apesar de tudo, tive um choque.
Sentaram-se os três ao pé do fogo e os dois homens acaba­ram de fumar o cachimbo. Fora, o vento se tornava mais violen­to e o ancião estremeceu, ouvindo bater a porta no andar su­perior.
Um silêncio estranho e deprimente recaiu sobre o grupo que ali permaneceu, até que o casal se levantou, para se deitar.
- Espero que encontre o dinheiro num saco enorme no meio da cama - disse Herberto, desejando-lhes boa-noite - e alguma coisa horrível espreitando-os em cima do guarda-roupa, para vê-los embolsarem esse lucro mal ganho.
O rapaz sentou-se sozinho, na escuridão, olhando o fogo e vendo nas labaredas caretas estranhas; a última era tão hor­rível, tão simiesca, que o assustou. E parecia tão viva, que, com uma risada contrafeita, Herberto apanhou na mesa um copo com um pouco de água e o entornou na visão. Executando esse gesto, sentiu sob os dedos a garra do macaco; arrepiado, limpou a mão no casaco e subiu para o seu quarto.
Na manhã seguinte, à luz do sol de inverno que clareava a mesa de refeição, Herberto zombou do próprio receio. Reina­va na peça uma atmosfera de salubridade prosaica que faltava na noite anterior, e a garra enrugada jazia no guarda-louças com uma indiferença que não demonstrava grande fé nas suas vir­tudes.
- Desconfio que todos os velhos soldados são iguais ­disse a sra. White. - Que idéia a nossa de darmos ouvido a esse absurdo! Como pode o desejo de alguém ser satisfeito num tempo destes? E, se fosse possível, que prejuízo nos tra­riam duas mil libras?
- Podem cair-lhe do céu na cabeça – observou o frívolo Herberto.
- Morris disse que a coisa sucede de maneira tão natural - replicou o velho - que se pode crer facilmente numa coincidência.
- Bem; não toque no dinheiro enquanto eu não voltar - ­tornou Herberto, levantando-se. - Receio que essa riqueza o torne avarento, pai, e que sejamos obrigados a renegá-lo.
A mãe riu-se e acompanhou-o até a rua; depois, voltando para a mesa, zombou da credulidade do marido. Entretanto, três horas depois não deixou de correr ao portão, quando o carteiro bateu, e de maldizer das tolices do velho militar, ao ver que o correio só lhe trazia a conta do alfaiate.
- Quando voltar, Herberto fará mais alguma das suas observações irônicas - disse ela, sentando-se à mesa, com o marido para almoçar.
Também creio - replicou o Sr. White, servindo-se de cerveja – mas apesar de tudo, a garra moveu-se; poderia jurá-lo.
- Foi impressão - disse a velha senhora, com bondade.
- Garanto que se mexeu – retrucou ele. – Eu não pensava nisso. Tinha juntamente... Que há?
A velha dama não replicou. Observava os movimentos mis­teriosos dum homem que, do lado de fora, se dirigia para a casa, com ar indeciso e aparentemente relutava em entrar. Li­gando-o às duas mil libras, ela notou que estava bem trajado e usava um moderno chapéu de seda. O desconhecido parou três vezes diante do portão, continuou e, decidindo de sú­bito, abriu-o e adiantou-se no atalho. Ao mesmo tempo, a sra. White levou as mãos à pressa às tiras do avental, escondeu essa peça de vestuário atrás da almofada da cadeira.
Em seguida introduziu na sala o visitante, visivelmente per­turbado. Olhando de soslaio a velha senhora, ele ouviu com ar despreocupado as desculpas pelo aspecto da peça e pelo tra­jo do marido, um casaco que o sr. White usava geralmente no jardim.
A dona da casa esperou depois tão pacientemente quanto lhe permitia o seu sexo, que o recém-chegado expusesse o mo­tivo de sua visita; mas, a princípio, ele se mostrou estranhamente silencioso.
- Fui encarregado... - começou afinal.
Calou-se, porém, e tirou do bolso um embrulho. - Venho da parte da firma "Maw & Meggins".
A velha dama teve um sobressalto.
- Assunto importante? - perguntou ela, ofegando. - Su­cedeu alguma coisa a Herberto? Que foi? Que foi?
- Sossegue, mulher - interveio apressadamente o ma­rido. - Sente-se e não precipite as conclusões. Tenho certeza de que o senhor não traz más notícias - acrescentou, fitando ansio­samente o estranho.
- Lamento ... – principiou este.
- Ele está ferido? atalhou a mãe, com veemência.
O desconhecido anuiu.
- Gravemente ferido - disse com tristeza - porém não sofre mais.
- Oh, graças a Deus! - exclamou a senhora, juntando as mãos. - Graças a Deus, por isso! Graças ...
Mas interrompeu-se de súbito, percebendo o significado si­nistro dessa afirmação, e leu, na cabeça curvada do visitante, a confirmação terrível do próprio receio.
Com a respiração suspensa, voltou-se para o marido desanimado e pousou a mão trêmula na dele.
- Foi apanhado pela máquina - murmurou enfim o visitante.
- Apanhado pela máquina - repetiu White automaticamente. - Sim.
O velho sentou-se, a olhar, aturdido, pela janela e, tomando entre as suas as mãos da esposa, apertou-as como nunca fizera durante o noivado, quarenta anos antes.
- Era o único que nos restava - disse ele voltando-se cortesmente para o visitante. - É triste.
O outro tossiu e, levantando-se, aproximou-se da janela. - A firma encarregou-me de lhes transmitir os seus pê­sames sinceros, por essa grande perda - disse ele, sem olhar em torno de si. - Rogo-lhes que compreendam que sou apenas um empregado da casa e obedeço ordens.
Não recebeu resposta; a velha senhora tinha as faces lívidas, os olhos fixos e a respiração imperceptível; o rosto do sr. White tomara uma expressão igual talvez à do seu amigo sargento, no primeiro combate.
- Devo dizer que a firma "Maw & Meggins" se exime de toda responsabilidade - continuou o outro. - Não admite que houvesse risco; mas, em consideração aos serviços prestados por seu filho, deseja presenteá-los com uma soma em dinheiro, a título de indenização.
O sr. White soltou a mão da mulher e, erguendo-se, deitou ao visitante um olhar de horror. E, com os lábios secos mal pôde articular a palavra:
- Quanto?
- Duas mil libras - respondeu o outro.
Sem ouvir o grito da esposa, o velho sorriu fracamente, estendeu as mãos como um cego e caiu, sem sentidos, no chão.
No imenso cemitério novo a duas milhas de distância apro­ximadamente, o velho casal enterrou o seu querido morto e voltou para casa, por um caminho sombrio e silencioso.
Isso foi tudo o que a princípio eles conseguiram entender; e ficaram em expectativa, como se ainda estivesse para acontecer alguma coisa... alguma coisa que explicasse esse mistério muito pesado para os seus velhos corações.
Mas os dias passaram e a expectativa cedeu o lugar à resignação - a resignação dos velhos, unida, às vezes, à apatia. Os dois esposos mal trocavam uma palavra, pois nada tinham a dizer; e os dias passavam longos e tristes.
Cerca duma semana depois, acordando de súbito durante a noite, White estendeu a mão e encontrou-se só. O quarto estava escuro e da janela vinha um som de choro triste e abafado.
O ancião ergueu-se da cama e escutou.
- Venha cá - disse ele com ternura. - Sentirá frio.
- Está mais frio para o seu filho - respondeu-lhe a mulher.
E saiu do quarto.
O som de seus soluços enfraqueceu aos ouvidos do ancião. A cama estava quente e as pálpebras lhe pesavam de sono. Ele tornou a adormecer e dormiu, até que um grito selvagem da esposa o acordou num sobressalto.
- A garra! - bradou ela. - A garra do macaco!
White levantou-se assustado.
- Onde? Onde? Que há?
A velha adiantou-se para ele, tropeçando no quarto. - Quero-a - disse calmamente. - Não a destruiu?
- Está na sala na estante - replicou ele admirado. Por quê?
Ela riu-se e gritou ao mesmo tempo e, curvando-se, beijou as faces do marido.
- Só agora pensei nisso - disse, muito excitada. - Por que não pensou você nisso?
- Pensar em que? - indagou White.
- Os outros dois desejos! - replicou ràpidamente a velha senhora. - Só exprimimos um.
- Não foi bastante? - retrucou ele vivamente.
- Não! - exclamou ela, em tom de triunfo. - Teremos mais um. Desça, procure-a já e peça para que o nosso filho res­suscite!
O velho sentou-se na cama e afastou do corpo trêmulo os cobertores.
- Bom Deus! Você está louca! - exclamou assustado.
- Procure-a! - rogou ela. – Procure-a duma vez e peça! Oh, meu filho, meu filho!
Apanhando um fósforo, White acendeu uma vela e disse, em tom irresoluto:
- Deite-se. Não sabe o que está dizendo!
- O nosso primeiro desejo foi satisfeito - tornou a sra. White, com fervor - por que não será o segundo?
- Uma coincidência - balbuciou o velho.
- Desça, procure-a e exprima o seu desejo! - bradou ela trêmula de excitação.
O marido voltou-se, e fitou-a; a voz tremeu-lhe:
- Ele morreu há dez dias: aliás... eu não lhe quis dizer mas... só pude reconhecê-lo pela roupa. E, se estivesse dema­siado horrível, para que você o visse?
- Traga-o! - bradou ela, impelindo-o para a porta. ­Julga que receio o filho que criei?
White saiu da escuridão, dirigiu-se para a saleta e depois para a lareira. O talismã estava no mesmo lugar e o ancião sentiu-se tomado dum receio terrível de que o desejo, embora não formulado, lhe trouxesse o filho mutilado, antes que ele pu­desse sair da peça; conteve a respiração, compreendendo que esquecera o caminho do quarto. A testa cobriu-se de suor frio; rodeando a mesa e apalpando a parede, achou-se no corredor estreito, com o objeto tremendo na mão.
Entrando no quarto, notou que o rosto da esposa se alte­rara; estava lívido e ansioso e parecia ter uma expressão sobre­natural que o assustou. Ele receou-a.
- "Deseje" - ordenou ela, em tom autoritário.
- Isso é absurdo e ímpio - balbuciou o ancião.
- Deseje! - repetiu a velha senhora.
White levantou a mão e articulou:
"Desejo que o meu filho ressuscite!"
O talismã caiu ao chão e o velho fitou-o, receoso. Depois deixou-se cair numa cadeira, enquanto a mulher, com os olhos ardentes, se encaminhava para a janela e abria a persiana.
O sr. White continuou sentado, até sentir-se gelado de frio, fitando de espaço a espaço o vulto da companheira que olhava pela janela. Ardendo no fundo do castiçal de porcelana, o toco de vela refletia sombras móveis no teto e nas paredes; de súbito, com um estremecimento mais forte do que os anteriores, apagou-se. Com uma sensação inexplicável de alívio, por ver que o talismã falhara, o ancião voltou para a cama; um ou dois minutos depois, a esposa, silenciosa e apática, se aproximou dele. Nenhum dos dois falou; permaneceram ambos calados escutando o tic-tac do relógio. Um degrau estalou e um rato passou, correndo, junto da parede. A escuridão acabrunhava-os. Depois de estimular algum tempo a própria coragem, o ancião apanhou a caixa de fósforos e, acendendo um, desceu à procura duma vela.
Ao pé da escada, o f6sforo apagou-se e White parou, a fim de acender outro. Nesse momento, uma batida furtiva, pouco audível, soou na porta da frente. Os fósforos caíram da mão do velho e espalharam-se no corredor. Ele ficou imóvel, com a respiração suspensa, até que tornou a ouvir a mesma batida. Um terceiro golpe ecoou em toda a casa.
- Que é isso - bradou a velha senhora, erguendo-se.
- Um rato - respondeu White, com a voz trêmula.
A senhora sentou-se na cama e escutou.
Outro golpe se fez ouvir igualmente em toda a casa.
- É Herberto! - exclamou a velha. - É Herberto!
E correu para a porta; o marido, porém, já estava diante dela e, apanhando-lhe o braço, segurou-a com força.
- Que está fazendo? - murmurou em voz rouca.
- É meu filho; é Herberto! - bradou ela, debatendo-se. - Esqueci-me de que havia duas milhas de distância. Por que me segura? Larga-me! Preciso abrir a porta.
- Pelo amor de Deus, não faça isso! - exclamou o ancião, estremecendo.
- Você receia de seu próprio filho! - retrucou ela, con­tinuando a se debater. - Deixa-me ir! Já vou, Herberto; já vou!
Ouviu-se um golpe, seguido de outro. Com um movimen­to rápido, a velha livrou-se e saiu, correndo, do quarto. O ma­rido seguiu-a ao patamar, chamou-a pelo nome, e viu-a preci­pitar-se escada abaixo. E logo a voz da pobre mãe soou, ar­quejante:
- O ferrolho! - bradou ela. - Desça; não posso alcançar.
Mas White, ajoelhado, apalpava o chão à procura da garra. Se a pudesse apanhar, antes que o ser que estava do lado de fora entrasse!
Uma saraivada de golpes ressoou na casa toda e o ancião estremeceu, ao rumor da cadeira que a mulher arrastava no corredor, para tirar o ferrolho. Ouviu-se o ranger, puxado len­tamente. Nesse momento, porém, os seus dedos toparam com a garra do macaco e ele formulou o último desejo.
As pancadas cessaram de súbito, embora o eco ainda soas­se dentro da casa. White ouviu o arrastar da cadeira e a porta abriu-se. O vento frio engolfou-se na escada; um gemido de desespero, de decepção da esposa, animou o velho a correr até a por­ta e olhar para fora.
Na calçada oposta, o lampião clareava a rua deserta e silenciosa.


***

William Wyntark Jacobs
W. W. Jacobs, nascido a 8 de setem­bro de 1836, foi educado em Londres, em escolas particulares. Empregou-se, ainda jovem, no serviço de fiscalização bancária, até que em 1896 surgiu com o primeiro livro - "Many Cargoes" - com­posto de pequenas histórias humorísticas sôbre a vida das docas, com seus estiva­dores, marinheiros e pescadores. É em tôrno do mesmo ambiente, explorando temas ligados ao pessoal do cais, que se desenvolvem as narrativas incluídas em obras como "Odd Craft", "Captains Ali", "The Lady of the Barge", e ou­tras. Embora revelando originalidade e agudo senso de humor, não seriam êstes livros que popularizariam o nome de Jacobs. A glória ele iria alcançar com outra espécie de histórias - os cha­mados contos de horror. Tornou-se, nes­te gênero, um mestre incontestado. Não há antologia que dispense, atualmente, a inclusão de uma obra prima como "A Garra do Macaco", pequena história em que o fantástico se liga ao real sem jamais decair no vulgar, em que o leitor nunca pode precisar onde termina a ilusão e começa a realidade. Não menos estranha e bem conduzida é a narrativa "Que Fi­zestes, Caim?" e outras de idêntico "sus­pense", incluídas em obras como "Bis Brother's Keeper".
Além de contista, Jacobs é também teatrólogo. Numerosas comédias, a maio­ria em um ato - algumas em colaboração com Louis N. Parker - marcam a sua passagem pelo teatro.
Jacobs faleceu em 1943, durante a última grande guerra.

***


Para ler bons contos fantásticos, acesse o Blog Contos Fantásticos - Procurando divulgar o gênero fantástico na literatura, de Luiz Fernando Riesemberg, e o Blog O Conselheiro Acácio.

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