Creio que não existe nada de mais belo, de mais profundo, de mais simpático, de mais viril e de mais perfeito do que o Cristo; e eu digo a mim mesmo, com um amor cioso, que não existe e não pode existir. Mais do que isto: se alguém me provar que o Cristo está fora da verdade e que esta não se acha n'Ele, prefiro ficar com o Cristo a ficar com a verdade. (Dostoievski)

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17 de jan. de 2008

Heterofobia: os não-homo no armário ou na cadeia?


Prossegue a “revolução cultural” representada pelo tsunami da agenda homossexual. Primeiro a academia, depois a mídia, as ONGs, as igrejas e os três ramos do poder: executivo, legislativo e judiciário, desde a decisão política, e não científica, da retirada do rol das patologias, passando pela defesa da legitimidade da prática, para a revisão do conceito de casamento, e a luta contra o que consideram como “preconceito”, a revisão dos livros escolares, um papel ‘normal’ ou ‘simpático’ de personagens da mídia, a ordenação de líderes religiosos praticantes e, de forma crescente, uma agressiva campanha condenatória e intimidatória contra pessoas e instituições que se opõem a essa agenda, colocadas, todas, na vala comum dos “homofóbicos”: desde aqueles que, efetiva e lamentavelmente, perpetraram agressões físicas ou morais contra integrantes do bloco GLSTB (Gays, Lésbicas, Simpatizantes, Transgêneros e Bissexuais) quanto aos que “amando o pecador e condenando o pecado”, apenas esboçaram pensamentos ou leram publicamente textos bíblicos. O novo fenômeno cultural, já analisado por cientistas sociais, é denominado de heterofobia: o ódio, a rejeição, a desmoralização, a intimidação, e a condenação sistemática a quem não aprova a agenda gay ou reafirma os padrões históricos normativos da heterossexualidade.

As “marchas de orgulho” prosseguem anualmente em todo o mundo (sendo a maior a da cidade de São Paulo, no Brasil), com crescente financiamento público, com verbas dos municípios, dos estados e do governo federal. Há todo um conjunto de organizações não-governamentais e governamentais (“Por um Brasil Não-Homofóbico”, por exemplo), e a cooptação de governos de países como a Espanha e o Brasil para colocar a agenda gay no rol dos “Direitos Humanos” da Organização das Nações Unidas. Nos Estados Unidos, por sua vez, vozes respeitáveis do movimento negro e de sua histórica campanha pelos Direitos Civis estão abertamente protestando contra a tentativa dos homossexuais de se apropriar ideologicamente da herança daquele memorável momento da história norte-americana. De fato, o crescente movimento na internet por parte de pedófilos e de defensores do sexo grupal, nos faz antever que novas “marchas de orgulho” brevemente estarão nas ruas, em uma escalada sem limites, consentânea com o relativismo da cultura pós-moderna, e o assegurar dos “direitos individuais” e da “privacidade” de adultos mutuamente consentidos. Liturgias, muito em breve, estarão substituindo o “mea culpa” pela “ação de graças” pelos ex-pecados...

Depois da detenção de pastores na Dinamarca e na Suécia, por pregarem contra a legitimidade da prática homossexual, e do processo contra uma igreja pentecostal na cidade do Recife, Brasil, o parlamento inglês (que já aprovou uma lei de “parceria civil” com, praticamente, plena equivalência com o matrimônio) está debatendo uma nova Lei contra a Discriminação, que vai na direção da criminalização de quem falar, escrever ou pregar em contrário, ou, por exemplo, se recusar a ceder as instalações do salão anexo ao templo para uma festa comemorativa a uma “bênção” ou outro evento homossexual. Em nosso país lobbys bem financiados estão às portas das Câmaras de Vereadores, Assembléias Legislativas e o Congresso Nacional, para fazer aprovar (o que já ocorreu em alguns municípios) leis que nos criminalizam a todos nós, cidadãos e cidadãs, cumpridores dos nossos deveres cívicos e pagante dos nossos impostos, que insistirmos em afirmar valores culturais históricos ou a anunciar o entendimento multissecular do Cristianismo — e de outras religiões — sobre o assunto. Não seria demagogia, histeria ou paranóia afirmar que um novo ciclo de violação dos direitos humanos e perseguição religiosa se avizinha. Como os nossos inimigos também são “os da nossa própria casa”, aí estão os revisionistas liberais pós-modernos e outros “opinionistas” a buscar ocupar postos-chaves nas igrejas, denominações e organismos ecumênicos, para colaborar com o Estado e as organizações pró-gays na violência contra os ortodoxos. É claro que a negação da autoridade normativa das Escrituras em matéria de Doutrina e Ética, a negação da unicidade de Jesus Cristo como Senhor e Salvador, e a unicidade da Igreja como Agência do Reino, tem levado à defesa da “Ceia Aberta” ou o “Batismo Não-Confessional” para não-cristãos, para a incorporação de sacerdotes de outras religiões a equipes pastorais de igrejas cristãs, palestras para a juventude proferidas por feiticeiras, estátuas de Buda ou de Shiva em altares de catedrais, ou a condenação do texto “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida, e ninguém vai ao Pai senão por mim”, como algo “politicamente incorreto”, “arrogante” e “imperialista”.

Analistas têm registrado que todo esse avanço que está abalando os fundamentos da civilização tem-se dado pela omissão dos cristãos, seja por acomodação, seja por medo, seja porque já foram contaminados ou capitularam ao espírito do século. Psicoterapeutas, em nosso país, morrem de medo de ter a sua licença cassada pelos Conselhos Regionais ou pelo Conselho Federal de sua profissão, que os proíbe de apoio profissional aos que voluntariamente desejem superar sua orientação homoerótica, e acusam de “radicais” ou de “extremistas” um punhado de bravos que em nome da sua fé e dos seus direitos profissionais se atreve a travar uma luta pública contra a violência da agenda GLSTB.

Estamos muito perto da situação tragicômica, verdadeiro teatro do absurdo, que quem “vai para o armário” são os heterossexuais assumidos e militantes. Para estes desaparecerá o princípio da isonomia, da igualdade perante a Lei. A opção será o “armário” ou a cadeia, o silêncio ou a destruição moral. A busca de pão para todos inclui o direito de partilha do pão libertador da vida. Os cristãos devem travar uma batalha também política e cobrar dos seus representantes nas eleições e durante o exercício dos seus mandatos. O sangue dos mártires está clamando aos céus. Que homens e mulheres, sólidos na Rocha que é Cristo, não se intimidem com o espírito maligno do século, fora ou dentro da Igreja, e possam resistir em obediência ao seu Senhor, enfrentando o risco do martírio. Os fiéis até a morte receberão a coroa da vida.
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Texto do Revmo. Dom Robinson Cavalcanti, cientista político e bispo anglicano da Diocese do Recife e autor de, entre outros,
A Igreja, o País e o Mundo e Cristianismo e Política.

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Texto de Robinson Cavalcanti, que, com Paul Freston, está, para mim, na categoria "é o cara".
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Este texto foi publicado no site da
Revista/Editora Ultimato (só é vendida por assinatura) em 10 de outubro de 2006.
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Colecionado por Maya em
Terça-feira, Dezembro 04, 2007
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NOTA: Mais uma postagem retrô. Vejam a data.

Calvin & Hobbes

Entre os meus preferidos, sempre, Bill Waterson.

P.S. Desculpas a todos, a imagem ficou meio torta... : p Para ampliar a imagem, clique nela.

juif-arabe

Prancha do genial Farid Boudjellal em seu Juif - Arabe (Soleil Productions, Toulon - Nimes - Marcinelle, 1990), p. 17.

NOTA: Para ampliar a imagem, clique nela!

16 de jan. de 2008

A diferença entre quem tem talento e quem não tem.

Quem não tem talento, mas possui bom adestramento, é capaz de escrever páginas intermináveis em língua padrão bem estruturada segundo o modelo vigente. É provável que tenha amplo vocabulário. Mas, por excesso de técnica e racionalidade, escreve textos longos, enfadonhos, detalhados e, no final, desinteressantes. Será possível perceber, em cada linha, o desejo do autor de expor seus conhecimentos e experiências culturais e sociais, pessoais e mais toda a sua destreza de raciocínio e sua complexa evolução intelectual.
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Quem possui talento, e recebeu certo treinamento para desenvolvê-lo, escreverá passionalmente e se deliciará a cada som de palavra e encadeamento de palavras que não formarão nem compêndio, nem enciclopédia, nem manual, mas um discurso que se desenvolve suave e preciso, no qual as palavras brincam, cantam e fazem amor. Há, aí, o desejo de expressar a própria vida por meio das insuficientes palavras.

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Mayalu Felix
Niterói, Rio, outubro/2007
NOTA: Mais uma retrô...

amor

- Amôôôôôôr... Cê prefere mulher bonita ou mulher inteligente?
- Nenhuma das duas, meu bem... Você sabe que eu só gosto de você...

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: p
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COLABORAÇÃO: Claudíssima!!! Íssima!!!

15 de jan. de 2008

WAR in Rio






“No lugar de invadir Moscou, conquistar a África ou aniquilar os exércitos brancos, que tal invadir a Cidade de Deus, conquistar a Baixada ou eliminar o Comando Vermelho? War in Rio é reflexão e entretenimento canalha”.

FONTE: A Bacia das Almas.
VEJA TAMBÉM: War in Rio, o jogo.

O romance do macho solitário

A elite de um homem só

TROPA DE ELITE é um filme passavelmente bom e tremendamente ruim; sutilmente verdadeiro e também uma farsa terrível. Não consigo pensar em filme brasileiro mais revolucionário, nem outro mais pelego.

Ser enlatado ou não
Tropa de Elite é permeado por um terrível dilema de consciência - e não se trata dos fantasmas que perseguem o capitão Nascimento ou da controvérsia extra-tela sobre se o filme é de fato fascista (é), se apresenta com justiça as complexidades do tráfico (não) ou faz apologia da tortura (faz).

O dilema do qual Tropa de Elite não consegue escapar é mais constrangedor do que todas essas questões porque é mais irrelevante do que todas elas; ele diz respeito à decisão (ou indecisão) do filme de ser um blockbuster, uma história convencional de polícia e ladrão, um grande filme de ação como os que Hollywood injeta incessantemente nos canais usuais. Um filme de herói.

Como não há precedente, a audiência não sabe exatamente como deve reagir diante de atores de tevê com pistola na mão, ostentando expressões faciais que pertencem por direito a Clint Eastwood e Bruce Willis. Será uma comédia? Uma esquete dos Trapalhões? “O que estou fazendo aqui?” parece se perguntar o ator principal. “Devo mesmo tentar encarnar a sério um herói brasileiro?” “Devo engoli-lo?, parece perguntar-se o espectador.

Fica a dúvida.

Por si só, um filme em que o policial é o herói viola a grande regra não-escrita da produção cinematográfica brasileira contemporânea, gravada a estilete na lente desfocada de Glauber Rocha: um cineasta de verdade não deve rebaixar-se a imitar uma produção hollywoodiana – em especial, não deve cometer jamais um filme com herói incorruptível e final feliz.


VILÕES, PARA NASCIMENTO, SÃO TODOS OS QUE NÃO TÊM A FELICIDADE DE SEREM ELE MESMO.

Na tentativa de ocultar essa contravenção, Tropa de Elite comete mais erros do que acertos – mas tratam-se de erros reveladores. Para começar, Tropa rejeita por completo a convenção mais usual dos filmes de ação norte-americanos, o fato de serem em geral buddy movies – isto é, o protagonista tem um parceiro que se contrapõe a ele e o completa. Há uma infinidade de razões dramáticas para o sucesso da fórmula da dupla, mas Tropa de Elite não quer saber delas. O capitão Nascimento não apenas não tem um parceiro: ele não tem amigos. Nascimento não tem paz em lugar algum e com ninguém, nem mesmo em casa e com a esposa. Em termos dramáticos, isto quer dizer que o protagonista não tem, em momento algum, onde aliviar a sua tensão ou onde acentuá-la em contraste com uma outra vontade que ele respeite (na cena no consultório psiquiátrico ele deliberadamente, estoicamente, rejeita essa oportunidade). Por outro lado, também quer dizer que o filme não fornece ao espectador qualquer ferramenta que o ajude a identificar-se com o conflito do protagonista. Nossa alienação deve refletir, aparentemente, a do capitão Nascimento.

Talvez pela mesma razão, o filme rechaça outra convenção de Hollywood, a inclusão de um vilão nítido e memorável, um antagonista cuja eliminação possa fornecer uma completa e satisfatória catarse. Baiano, o dono do morro, não é esse cara, nem tampouco o são os burgueses da faculdade ou os policias corruptos da polícia convencional. Tropa de Elite não tem vilões – ou melhor: vilões, para Nascimento, são todos os que não tem a felicidade de serem ele mesmo.

Porém o mais fundamental ingrediente dramático que falta para que o protagonista de Tropa de Elite exista num verdadeiro filme policial é o mais genérico de todos: um dilema de lealdades, um conflito de interesses. Nascimento vive dizendo para si mesmo que precisa de alguém para substituí-lo no BOPE a fim de poder “voltar para a família”, mas em determinado momento da história ele mesmo deixa de sustentar essa balela. Seu conflito de lealdades não é entre a corporação e a família, porque sua lealdade para com a corporação não sofre qualquer risco.

Nascimento é um cara claramente atormentado, que se entope de pílulas como um bom policial de filme noir, mas não pela razão dramática usual, o conflito de lealdades. A raiz de sua piração deve estar em outro lugar.

O discurso da guerra
Para o capitão Nascimento, a relação do policial honesto com o tráfico é, sem rodeios, uma guerra. Esta é sua imagem favorita, e ele volta repetidamente a ela nas suas reflexões em off – e discursos em off Tropa de Elite tem muito, mais do que qualquer outro filme brasileiro ou estrangeiro que me sugira a memória. Nascimento cede constantemente à compulsão de justificar a sua postura, e sua justificativa mais freqüente é precisamente essa que nada explica: “isto aqui é uma guerra”.

Mas sua guerra é mesmo contra quem? Contra a corrupção? Contra a lei que sustenta o tráfico proibindo-o? Contra burgueses superficiais? Contra mortes desnecessárias? Contra um sistema mutilador de crianças? Contra os traficantes? Qual defeito da sociedade ele está querendo eliminar? Quem ele está querendo defender?

Nunca ficamos sabendo, porque a guerra não é aparentemente momento de se oferecer explicações. Devem-nos bastar, supõe-se, verdades soltas como “enquanto o traficante tiver dinheiro para se armar a guerra continua” ou “só rico com consciência social é que não entende que guerra é guerra” ou “o treinamento do BOPE ensina a matar com eficiência e dignidade” ou (sobre essa última afirmação) “acredite, isso é possível”.

AO BRASIL, QUE NUNCA TEVE UMA VERDADEIRA MITOLOGIA DE GUERRA, TROPA DE ELITE OFERECE UMA.

Nascimento tortura e mata, portanto, protegido pelo mesmo discurso à prova de balas com que Bush invade o Iraque; sua guerra contra o tráfico, como a guerra contra o terrorismo, é credencial que justifica todas as pontarias.

Ao Brasil, que nunca teve uma verdadeira mitologia de guerra, Tropa de Elite oferece uma, com direito a bandeira do Brasil sobre o caixão do herói tombado na batalha.

Nesse sentido sua vocação secreta é mais para filme de guerra do que para filme policial. Afinal de contas, numa guerra os dois lados fazem simplesmente o que tem que fazer. Nascimento talvez não goste de torturar adolescentes, e Baiano talvez preferisse não ter de assar vivo o alemão da ONG, mas o combate exige esse tipo de distanciamento. Guerra é guerra. Não está em questão qual lado está certo, mas qual dos dois vence.

É especialmente revelador que ao capturar Baiano na seqüência final e antes de puni-lo exemplarmente pela morte de um policial honesto, Nascimento escolha fornecer ao traficante uma única explicação:

– Você perdeu.

Tudo, meu irmão, não passa de um jogo.

O romance do macho solitário
Uma matéria da revista VEJA opinou que o apelo popular de Tropa de Elite deve-se ao fato do filme evitar um clichê do cinema nacional, a romantização do bandido, a glorificação do marginal.
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De fato.

Não se iluda, no entanto, porque o filme encontra um alvo para glorificar, um alvo pelo menos tão arbitrário quanto a figura do bandido. Tropa de Elite romantiza, e o faz espetacularmente, o drama do macho solitário – a dura sina do homem “de verdade”, afogado em testosterona, destinado a vagar por um oceano de incompetentes e efeminados sem saber se existe no mundo alguém tão notável quanto ele.

De certa forma, portanto, o apelo de Tropa de Elite está no fato do filme conseguir ocultar, a custo de muita voz grossa e tiroteio, o que de fato é: uma história de amor.

Embora seja protagonizado pelo protótipo do homem com H, Tropa de Elite é essencialmente uma jornada romântica. Eis o seu conflito: Nascimento, o macho e o compenetrado, está à procura de um homem que o entenda e que lhe corresponda, um homem que esteja à sua altura, um homem para chamar de ele mesmo.

TROPA DE ELITE É UMA HISTÓRIA DE AMOR.

Nascimento vive dizendo que está buscando apenas um substituto, mas sua linguagem e sua obsessão sugerem mais do que isso. Basta ponderar sobre efusões como “se o Neto tivesse a inteligência do Mathias, minha escolha teria sido fácil” ou, perto do final do filme, “faltava ainda conquistar o coração do Mathias”.

O capitão Nascimento incorpora o paradoxo do macho que é tão macho que não consegue efetivar qualquer ligação importante com mulheres, nem mesmo com sua esposa. Significativamente, os únicos momentos em que o herói usa de alguma ternura para falar com a esposa é ao celular, onde os companheiros de equipe podem ouvi-lo e talvez admirá-lo. Quando está sozinho com ela, a mulher é apenas motivo de irritação. “Pior do que aquela mancada no serviço”, explica ele em determinado momento, “era ter de ouvir a mulher me dizendo o que fazer”. Um macho de verdade, ele deixa logo muito claro, não agüenta esse tipo de desaforo. Afinal de contas, ele pode perder a família desde que tenha tempo para se dedicar à prioridade de encontrar o seu homem.

No final o herói acaba perdendo tudo, mas lhe resta o coração de Mathias. Corta para o final feliz, e Hollywood venceu.
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Texto de Paulo Brabo, publicado no site A Bacia das Almas em 30.10.07.
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aqui é o meu país

vista do mapa do estado do Maranhão

Lençóis

Maíza Pereira, Rua de Baixo, Centro Histórico, São Luis

Alcântara

Anônimo - São Luis
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FOTOS: Barnabás Bosshart

Quando as mulheres dominavam a Terra

O maior emblema da vitória final da ideologia capitalista no século XX não foi a Queda do Muro e a subseqüente derrocada dos socialismos, mas a entrada da mulher no mercado de trabalho.
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A transição recebeu diferentes rótulos, todos com conotações positivas para as mulheres – feminismo, liberação da mulher, regime igualitário, – porém minha impressão é que, oculto sob o discurso da valorização da mulher, estava o triunfo definitivo de valores tradicionalmente masculinos.
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Cedendo à simplificação e deixando de lado as exceções, pode-se dizer que durante milênios a participação da mulher na sociedade ocidental representou uma alternativa real ao modo masculino de agir e pensar. Ser mulher era epitomar um modo de vida subsersivo, livre (em maior ou menor grau) das obsessões circulares da testosterona: a agressividade, a competividade, a combatividade e a acumulação compulsiva de territórios, bens e parceiros sexuais.

O mundo dos homens sempre foi das conquistas e rivalidades, e portanto dos capitalismos. O domínio da mulher permanecia em grande parte no campo do imponderável, o domínio de coisas antiquadas e gays como o amor, o silêncio, a compaixão, a generosidade, a expressividade, a pausa, o cultivo, o sacrifício, a partilha. O homem cultuava tradicionalmente a performance, a mulher cultuava o afeto. Os homens eram combativos como cristãos, as mulheres desprendidas e zen. O homem priorizava os objetivos, a mulher priorizava os relacionamentos. A postura do homem era sair para o combate, a da mulher abraçar na esperança de que o homem enxergasse a insensatez do combate. O patriarca, mais fraco, saía para trabalhar e caçar; a matriarca, infinitamente mais poderosa e influente, governava de sua cadeira e fazia com que os homens girassem ao seu redor como satélites.

Com a entrada definitiva da mulher no mercado de trabalho, por ocasião do escoamento dos homens no crivo da Segunda Guerra Mundial, esse cenário se alterou. Oficialmente as mulheres estavam a partir de agora “reivindicando seus direitos” e “conquistando o seu espaço”. Mais propriamente, estavam dando o seu aval às obsessões masculinas e confessando que apenas o espaço dos homens era legítimo. Depois de séculos de brava resistência, as mulheres dobravam-se no altar da performance.
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Como conseqüência, o ocidente sofreu uma tremenda perda no campo da “biodiversidade” cultural, e o capitalismo voltou para casa com o braço cheio de troféus e trunfos.


AS MULHERES FORAM ALÇADAS À CONDIÇÃO DE HOMENS HONORÁRIOS.

A situação é inusitada. Não sabemos dizer com qualquer grau de certeza o que espreita hoje por trás do conceito de “feminino”, exceto que grande parte das mulheres receberia o qualificativo como insulto.

Como tornou-se politicamente incorreto associar a mulher ao conceito tradicional de feminilidade, a história e a arte vêm sofrendo uma rigorosa e contínua revisão. Os traços do feminino não-combativo são eliminados com diligência bolchevique tanto de lendas quanto de narrativas históricas.

A doce donzela Guinevere, do ciclo das lendas da Távola Redonda, teve de ser redesenhada como guerreira implacável, precisa e sanguinária no filme Rei Arthur, de 2004. Esta decisão é emblema de uma onipresente tendência: a fim de evitar os embaraços causados pela postura tradicionalmente feminina de heroínas como Guinevere, essas são “alçadas” artificialmente à condição de homens honorários – altura de onde lançam flechas, desferem socos, lideram exércitos e cospem no chão. Na verdade apenas os homens e seu mundo é que são honrados, mas a maioria das mulheres parece se aplacar diante dessa insultuosa homenagem.

Mesmo um livro como O Código Da Vinci, cuja trama secreta diz respeito à recuperação do “feminino” na história, faz de Maria Madalena mera competidora na luta tipicamente masculina dos discípulos pelo poder. A Madalena de Dan Brown é mulher sem face e sem alma, inteiramente mergulhada no mundo dos homens e deixando-se moldar eficazmente por ele.

O capitalismo, como eu ia dizendo, celebra nessa capitulação das mulheres à combatividade masculina sua mais retumbante vitória. Assim que a mulher caiu na tentação do mundo dos resultados a oferta de mão de obra dobrou instantaneamente, e o mercado encheu-se de possibilidades e promessas que renderam exponencialmente. Não apenas a mulher tornou-se público consumidor independente, com direito a seus próprios produtos e meios de comunicação, mas sua entrada em cena possibilitou a criação de novos públicos onde ninguém imaginava que poderia haver um. Sentindo-se culpadas por não ficarem em casa “cuidando dos filhos,” e ao mesmo tempo benificiando-se de sua nova independência financeira, as mulheres passaram a encher seus filhos de presentes, transformando o infantil no público de maior poder decisão de todo o mercado – condição inteiramente inconcebível há meros cinqüenta anos atrás.

Se por um lado o mercado saiu ganhando com a glorificação do individualismo, por outro homens e mulheres contabilizam ainda as suas perdas. Os homens foram privados do exemplo de sanidade que lhes restava, e não são mais convidados pelo exemplo das mulheres à salubridade de uma vida menos ambiciosa e de maior significado. Hoje não há quem não acredite que só existe auto-realização e auto-expressão, e portanto valor, no trabalho remunerado. Seduzidas por essa conversa, as mulheres perderam muitos de seus privilégios mais incisivos e essenciais; em especial, a autoridade de zombar do modo de vida dos homens.


Paulo Brabo, em 14 de março de 2007.

carta...


Querido amigo,

Venho, por meio desta, agradecê-lo. Não vou dizer o seu nome, mas você sabe que você é você mesmo. Suas palavras de apoio foram importantes pra mim, ontem. Estava muito triste, magoada, irada. E é nessas horas que se conhece um irmão.

Não, não vou banalizar o que aconteceu. Tenho meus motivos, e Deus -- sobretudo Deus -- pode me compreender. Mas é verdade que há uma época, todo mês, que eu chego a duvidar da própria bondade divina. Mas Deus -- sobretudo Deus -- entende, já que esse defeito de fabricação é responsabilidade dele e até agora não tomei conhecimento do recall.

Muita gente me critica porque eu teimo em gostar dos argentinos. É que além do Borges, do Cortázar e do Gardel, existe a Maitena. E com ela eu me sinto totalmente incluída, pelo menos neste período tenebroso. Sim, durante uns dias, todo mês, eu sou uma mulher alterada.

Não quero aqui explicar o que significa TPM. Todo mundo sabe. OK, vou explicar: Treinada Para Matar. Ou Triste Para Morrer. Nunca se sabe qual dos dois estados vai predominar. Na verdade, eu nunca sei que a TPM chegou até me achar parecida com alguma personagem histérica do Woody Allen ou do Almodóvar. E, no entanto, minha velha amiga nunca falha. Se há algo fiel além de Deus e do cachorro, o melhor amigo do homem, é a TPM, a melhor inimiga da mulher.

Deus é muito sábio. Sim, sobretudo Deus. Ele não dá à maioria das mulheres porte de arma nem notável massa muscular. Eu, além disso, não sou uma exímia lutadora de artes marciais e meu carro é modesto. Antes de ontem eu vi, pela enésima vez, Kill Bill, volume II. Passou na TV. Fora a voz ridícula que dublou a Uma Thurman, fiquei bem feliz em ver essa obra-prima de novo. Como é gostoso, na TPM, ver uma mulher colocando ordem na casa. Confesso que fui condicionada a isso desde muito cedo, com esse negócio de direitos iguais, mais a Mulher Maravilha, As Panteras e a Luluzinha, literatura em quadrinhos de conteúdo subversivo. Mas, de modo particular, devo dizer também que a personagem da Uma Thurman em ação já alivia uns 40% da minha TPM. Se eu tivesse um por cento da habilidade dela, acredite, a essa altura metade da vizinhança barulhenta já tinha ido conhecer Jesus, pessoalmente. Sem contar os motoristas que me atrapalham no trânsito, os lerdinhos e os que, diante de um casto palavrão, mandam um beijinho nojento e cínico. Blergh!

Eu até tentei fazer judô e capoeira, mas, que vergonha, não progredi muito. Como tenho preguiça de correr e de fazer ginástica, meu condicionamento físico também não me permite extravagâncias. Prefiro a companhia de uma boa barra de chocolate meio-amargo pra ver a Uma Thurman fazer tudo o que eu tinha vontade de fazer.

Mas a TPM não é só Kill Bill. Dependendo da dieta, do ciclo da Lua e do final da novela posso também ficar bem triste. Aí eu me lembro daquela vaca que na oitava série me roubou a foto do garoto mais lindo da escola. A foto que ele tinha dado pra mim! Nessas horas fico realmente sensível, e os grandes impasses da vida vêm ao meu coração. Por que tomei aquela multa no mês passado? Por que nessas horas todo mundo tem um namorado, menos eu? Por que engordei dois quilos? Por que não aumentam meu salário? Por que não tenho um olho nas costas, pra ver instantaneamente o carro que está, de propósito, logo atrás do meu, no estacionamento? Por que a roupa, as louças e a casa não são autolimpantes? Por que este supercomputador faz tudo mas não sabe preparar comida nem regar as plantas? Por que a Terra é redonda?

Pois é. Tantas perguntas. Todos os dias de TPM são vividos intensamente, pelo menos isso ninguém me tira. Eu sei o que é viver perigosamente. E, o pior disso é que TPM não é pra qualquer um, não. É pra qualquer uma. Deus deveria conceder aos homens algumas dádivas que só nós, mulheres, temos. Ah, quando eu chegar lá vou pedir uma longa audiência com Ele. Se os homens sentissem certas dores, talvez nos compreendessem melhor. Deus, vão aí algumas sugestões: Os homens deveriam dar à luz. Mas só de parto natural, nada de anestesia. Deveriam ter um mês ininterrupto de TPM, uma vez por ano. Todas as guerras seriam resolvidas, não sobraria homem nenhum pra contar história (esse seria o lado péssimo, precisamos deles!). Ah, sim, os homens deveriam fazer depilação. A cera, e fria. Só se consegue ter uma idéia da dor da próxima quando ela é sentida pelo próximo.

Tornando a conversa mais literária, me veio à mente o Dr. Jerkyll And Mr. Hyde, de Robert Louis Stevenson. Acho que tamanha criatividade pode ter vindo de sua mulher e seus dois estados físico-emocionais: sem TPM vs com TPM. Ou talvez tenha sido sua mãe a musa inspiradora. Ou sua tia. Ou qualquer mulher que tenha passado por sua vida, da cozinheira à funcionária da loja de chapéus. Ou Robert Louis Stevenson era Louise Stevenson, falando metaforicamente de si mesma. Pode ter sido outro George Sand, amante de Chopin. Ou Aurore Dupin, seu verdadeiro nome. Explico: Chopin era Frederic Franciszek Chopin, e Aurore Dupin era sua amante, uma controvertida escritora que adotou o pseudônimo masculino de George Sand. Deve ter sido o caso de Robert Louis Stevenson. Mas, além da literatura, vem-me à memória a saudosa série de TV O Incrível Hulk, inspirada na HQ. Sim, ele, um dos personagens mais conhecidos das histórias em quadrinhos. Segundo a Wikipédia (posso estar na TPM, mas cito a fonte), "foi o super-herói da segunda série de estórias [sic] criada por Jack Kirby e Stan Lee, em 1962, dando continuidade à revolução dos quadrinhos iniciada com o Quarteto Fantástico (Fantastic Four). Seu nome verdadeiro é Dr. Robert Bruce Banner." Ou seria Roberta Banner? Sim, meu amigo, aquela transformação que ele sofria era TPM, ninguém me tira essa certeza.

Neste momento escrevo à mão, deitada, e apóio a folha de papel num livro muito bom: O Jesus que eu nunca conheci, do P. Yancey. É grosso e dá solidez suficiente pra que eu possa apoiar a caneta no papel. Agora há pouco pensei que, provavelmente, quando estou na TPM, Jesus deve dizer: "Eis aí a Maya que eu nunca conheci". Sei que Jesus foi tentado em todas as coisas, como ser humano. Sentiu a dor humana de forma pungente e entregou-se a ela, em seu destino inexorável de Salvador da humanidade, a fim de nos dar uma vida nova. Mas eu tenho certeza de que ele nunca teve TPM.

De qualquer modo, amigo, obrigada. Que Deus o recompense por sua bondade.

Um abraço,

Maya

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NOTA: Mais uma postagem retrô... de 22 de setembro de 2007...

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