Creio que não existe nada de mais belo, de mais profundo, de mais simpático, de mais viril e de mais perfeito do que o Cristo; e eu digo a mim mesmo, com um amor cioso, que não existe e não pode existir. Mais do que isto: se alguém me provar que o Cristo está fora da verdade e que esta não se acha n'Ele, prefiro ficar com o Cristo a ficar com a verdade. (Dostoievski)

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15/11/2010

fusível

Não dá mais. Ficou em suspenso. A conta não foi paga. As férias na praia não aconteceram, e ela não conheceu o Pão de Açúcar. Deveria ter ligado para os amigos da sétima série. Nunca organizou o álbum de fotografias, fez ginástica e comeu salada religiosamente. Parou de fumar e de beber, mas não parou de pensar. Tomava vitaminas, comia aveia e bebia três litros d’água por dia. A camisa azul de seda ficou sem o botão, a casa sem pintura, não comprou o carro dos sonhos, não aprendeu italiano, não viveu o grande amor nem teve o filho com os seus olhos. Nada. Cremes, perfumes e a escova de dentes em cima da pia. Naftalina no armário, um pedaço de bolo na geladeira, uma caixa de Sucrilhos e a coleção de CDs. Não deu. A agenda aberta e planos para mais dez anos, o armário aberto, a janela aberta. Esqueceu-se de fechar os olhos, esqueceu-se de fechar a porta. Não experimentaria mais o suco de caju da esquina, nem pediria um café do outro lado da rua. Não falaria sobre jazz, não veria mais o sol nem o por do sol. De manhã a cama vazia, o travesseiro frio, as roupas sem uso e o silêncio da casa. Havia se esquecido de trocar a lâmpada do corredor. Queria ter se mudado dali, mas não dava mais. Não pulou de para quedas, nem viajou de mochila nas costas pela América Latina. Comprou livros que não leu, esqueceu-se de amigos e nunca gostou de açafrão. Não haveria epitáfio nem elegia. Muitas almofadas em casa, cortinas e tapetes. Revistas antigas, bolsas e pares de sapatos, maquiagem e comédias românticas baratas em DVD. Não viu todas. Sempre lamentou a enorme ansiedade e a insegurança, mas também não fez análise. Fez natação, ginástica olímpica, música, inglês e espanhol, mas nada lhe foi de grande valia. Quis começar Direito, mas não deu. Uma vida inteira de tentativas. Gostava de animais e tinha um gato. Falava muito, às vezes falava mal, às vezes não deveria ter falado. Não gostava de matemática, errava as contas e contava nos dedos. Era escritora bissexta. Namorada bissexta. Tinha uma vida bissexta, enfim. Nunca havia aprendido a jogar xadrez, mas tentou várias vezes. Ela sentia fora da lógica, queria fora da lógica, entendia fora da lógica. Acreditava em meias verdades e não se importava com mentiras inteiras. Queria era amor. Sofria. Não gostava de geometria, mas amava poesia. Sabia poemas curtos de cor e os recitava. Cantava durante o banho. Queria ter conhecido a Tailândia, mas não deu. Queria ter amado, mas não deu. Deveria ter vivido mais, mas não deu. Tinha muitos planos vazios, mas não deu. Acaba-se o fôlego, o olhar se desvia, a memória cessa. E é o fim.

***

Mayalu Felix
15/11/2010
Do anno de 2010 de Nosso Senhor

4 Faça a Maya feliz, comente aqui...:

Cidinha disse...

Que texto lindo !! amei.

Zatonio disse...

Belo texto sobre o não fazer e o não fazer mais!

Luís Fernando disse...

Que que é isso guria!

Lindo, profundo, inquietante a acima de tudo verdadeiro.

Parabéns!

Maya Felix disse...

Prezados Cidinha, Zatonio e Luis Fernando,

Obrigada! Fico emocionada com comentários como os de vocês, sinceros! Isso só me incentiva a escrever mais!

Voltem sempre, meu blog é nosso!

Abração,

Maya

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