Creio que não existe nada de mais belo, de mais profundo, de mais simpático, de mais viril e de mais perfeito do que o Cristo; e eu digo a mim mesmo, com um amor cioso, que não existe e não pode existir. Mais do que isto: se alguém me provar que o Cristo está fora da verdade e que esta não se acha n'Ele, prefiro ficar com o Cristo a ficar com a verdade. (Dostoievski)

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13/11/2010

depois de um tempo

Depois de um tempo a vida se torna monótona. Quer você queira, quer não, todas as sensações e prazeres já foram colecionados. Os desprazeres se repetem. As primeiras impressões são desveladas, os mistérios inexistem, não há nada embaixo da cama e o final não é feliz. Sensações e desejos são catalogados, dias se vão mais rapidamente que antes e de súbito palavras são ditas várias vezes e se gastam. Os clichês tornam-se, de fato, clichês. Não há noites longas, nem o dia amanhece mais de modo deslumbrante.  Tudo se torna tão comum quanto absurdo, e a repetição é só mais um modo de não morrer. Em nada há estranhamento, tampouco encantamento. O romantismo acaba aos 30. Depois um longo cansaço, depois a espera do fim. A vida é feita de etapas e após as três primeiras perde-se a surpresa. A existência deixa de ser cênica e torna-se cínica. Mudamos uma letra e começamos a morrer.
Quer você queira, quer não, os jovens não vão mudar o mundo, o amor não vence tudo e a virtude não é reconhecida no final. O mais difícil da história não é ouvir falar disso - o mais difícil é sabê-lo. Quer você queira, quer não, após alguns anos o mais importante não é não cair da cama no meio da noite: é não cair do último andar do prédio. Não se sabe mais o que é vida, nem a  outra coisa. Fazemos arte porque não sabemos como seria a outra coisa, e após algum tempo nos esquecemos de dizer que foi Clarice quem escreveu que há outra coisa - não sabemos nomeá-la, tão descontrolada seria. Após um momento, nos conformamos em só viver o que se pode nomear, em só fazer o que se pode controlar a fim de terminarmos nossas vidas ordeiramente.

***

Em algum momento, em algum lugar aqui em Niterói.

Maya

Um comentário:

Nora disse...

Um texto num tom bem péssima, acho que o romantismo não acaba aos 30, mas as pessoas que podem se acabar antes disso! Acredito na felicidade, quando se é feliz é mais fácil acreditar

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