Começou assim: um dia, aquele senador muito poderoso amanheceu morto. Ele mandava e desmandava, estava no topo do poder há muitos anos. Contra ele havia muitas denúncias, que se amontoavam mofadas no armário do esquecimento. A maioria de seus colegas não se arriscava a acusá-lo, muito menos a julgá-lo. Um dia, ele amanheceu morto. Acordava cedo, tomava seu desjejum, sempre amparado por um ou dois empregados antigos e confiáveis. Naquele dia, dormira um pouco mais. A empregada mais antiga notou que já eram 9h e ele não acordara ainda. Às 9h30, resolveu bater na porta. Encontraram o senador deitado, coberto por seu lençol de linho puro e vestido em seu pijama de seda italiana. Só os lábios um pouco roxos denunciavam o ataque cardíaco fulminante que havia sofrido, durante a noite. A imprensa deu ampla cobertura à morte do senador. Os políticos de seu Estado o saudaram como um dos baluartes da democracia. O caseiro de sua ilha declarou que, para ele, o senador era como um pai. Filhos, netos e parentes, todos empregados no setor público, declaravam às lágrimas a falta que o senador faria. Foi enterrado com honras de Estado, e por ele o presidente da República – seu amigo íntimo e aliado político – declarou três dias de luto nacional.
Descendo as escadarias de um dos prédios do Congresso Nacional, na semana seguinte, outro senador – esse mais jovem, mas igualmente crivado de denúncias de desvio de dinheiro público, lavagem de dinheiro, corrupção ativa e passiva etc. – sofreu um terrível acidente. Seu pé direito resvalou, não alcançou um degrau e ele caiu. Não adiantou a tentativa de seu assessor de segurá-lo pela manga do paletó: o senador rolou escada abaixo. No mesmo instante, os seguranças da casa foram acionados e uma ambulância do Serviço Médico foi conduzida ao local. A fratura de uma vértebra do pescoço, durante a queda, entretanto, havia causado a morte imediata do político. Novo choque no Senado Federal. O governador de seu estado declarou luto por três dias. O presidente da República foi ao seu enterro. Houve certo mal estar, é verdade, no encontro entre a esposa e a ex-amante. Esta, uma jornalista pouco conhecida, tratara logo de engravidar, assim que seu affaire com o senador começara. Na mesma tarde em que a morte do pai de sua filha havia sido anunciada, consultara seu advogado sobre a partilha dos vultosos bens do político. O mal estar entre a esposa e a ex-amante, contudo, não foi nada que não se resolvesse com um arranjo, de que cada uma ficasse de um lado do caixão, velando a figura obesa e calva do político que muitos consideravam como um dos mais corruptos de todos os tempos. Aquele que iniciara a vida como vendedor de cocada das ruas de sua cidadezinha quente do Nordeste, terminava-a como rico empresário, dono de fazendas, fábricas, jornais e rádios em todo a região.
Já estava a Nação estupefata com tanto azar quando, dali a dez dias do enterro do último senador morto, um de seus colegas, ao jantar em Paris, repentinamente se engasgou com um pedaço de codorna assada. Cercado de amigos e familiares, o senador, num dos mais caros restaurantes da capital francesa, tentou a todo custo livrar-se do pedaço da ave, mas não houve jeito. Foram muitos os tapas nas costas, mas o pedaço, especula-se que um naco do peito, não saiu. Morreu entalado, não engoliu nem digeriu. Mais uma tragédia. A foto do senador, roxo, circulava pela internet. Houve quem, no derradeiro segundo de sua vida, naquele restaurante muito freqüentado por turistas brasileiros ricos, tivesse ousado fotografá-lo, provavelmente com um celular de última geração. A família tentava proibir a veiculação da fotografia e, com o auxílio da Polícia Federal, chegou a rastrear o computador de onde veio a tal imagem: um jovem de 17 anos, da periferia de São Paulo, jogava na internet a tal foto. Mas, depois, descobriu-se que havia muitos outros, e que seria impossível bloquear todos os acessos e rastrear todos os computadores que introduziam o arquivo na rede. O vídeo da ida da Polícia Federal à casa do jovem foi um dos mais vistos da semana, rendendo a ele uma popularidade inusitada e um emprego de DJ numa famosa boate de descolados da capital paulista.
Um jornal francês, após as três mortes, ocorridas no espaço de menos de um mês, publicou um artigo com o título: “Coïncidence ou malédiction ?” O jornal lembrou que os três senadores eram acusados de corrupção em larga escala, o que incluía nepotismo, desvio de verbas, prevaricação, apropriação indébita etc. Em sites de relacionamento, o assunto não era outro. Em ano eleitoral, aquilo causava a excitação de milhões de internautas. O artigo do jornal francês foi traduzido e publicado em inúmeros blogs. Dois senadores, espíritas, não deixaram de citar o karma que acompanhava os colegas já falecidos, tendo em vista que os espíritos de muitas das pessoas que morreram nas filas dos hospitais, cujas verbas eles haviam desviado, não estavam em paz. Um senador da Bahia, adepto do candomblé, levou uma mãe de santo para defumar seu gabinete, uma semana após o incidente da codorna. Senadores evangélicos foram vistos saindo de igrejas, onde receberam a unção do óleo quente e a oração dos 215 varões. De qualquer modo, foi contratada uma firma para vistoriar todas as escadas do Congresso Nacional. Aventou-se também a possibilidade de terrorismo, tendo em vista que jovens estudantes e cidadãos comuns, há pouco tempo, haviam tentado criar um movimento político de repúdio à corrupção, logo que algumas denúncias relativas ao primeiro senador vieram à tona. Como a ida do povo para as ruas não tinha sequer arranhado a boa vida dos senadores, suspeitou-se logo que parte deles teria o dedo na morte dos três líderes. A Polícia Federal investigou a fundo a vida de alguns membros desse grupo, concluindo, em relatório confidencial, que eles não poderiam ter provocado um infarto fulminante, a queda de uma escada do Congresso e um engasgo em Paris. Foram feitos muitos exames no primeiro morto, e nada foi constatado. Suspeitou-se de que seus empregados o tinham envenenado, e, enquanto as investigações não terminaram, os dois foram presos – e não houve habeas corpus que os soltasse. Finalmente, as hipóteses de homicídio foram descartadas. E isso incomodou muito mais os senadores que qualquer outra coisa. Não havia a quem atribuir as mortes, enfim.
Um mês e meio depois dos graves incidentes que marcaram a Nação, dois deputados foram vítimas de um acidente de trânsito. Um deles, que havia bebido além da conta, não conseguiu controlar o carro e caiu em um rio, no interior do seu Estado de origem. Os dois deputados foram denunciados pelo Ministério Público, três meses antes, por ligações com o tráfico de drogas: desconfiava-se de que o dinheiro usado em suas campanhas vinha da lavagem de dinheiro do tráfico em uma grande cidade brasileira. Telefonemas interceptados pela Polícia Federal continham conversas entre um dos deputados e o líder de uma facção criminosa, este último preso em um local de máxima segurança. Com a ajuda da Justiça, um famoso jornal de São Paulo foi proibido de publicar o conteúdo das conversas, obviamente. Depois da morte do deputado, a decisão fora revertida. No dia seguinte ao enterro do que dirigia o veículo, soube-se que o dinheiro do tráfico financiara não só a sua eleição, mas também a do seu colega que morrera no mesmo acidente e a de pelo menos mais três políticos, que se recusaram a dar declarações à imprensa.
E assim, nos quatro meses seguintes, o país assistiu, estupefato, à morte de muitos outros políticos. Cinco governadores, dez prefeitos, sete senadores, 16 deputados federais, 43 estaduais, 32 vereadores. Juízes e desembargadores não foram poupados. Um ministro do Supremo também havia falecido, este em uma situação muito vexatória: no banheiro, fazendo necessidades fisiológicas. Coração fraco. Ministros do Executivo, assessores (inclusive aquele que fora pego com dólares na cueca), chefes de gabinete, secretários. A lista crescia. O país vivia de luto, e o presidente da República havia decidido não mais se pronunciar sobre as mortes. Alguém chegou a comparar a situação à história relatada por Albert Camus em "A Peste". Um famoso escritor, simpático ao partido da situação, ousou romper o silêncio do luto e escreveu uma crônica, na qual usava a metáfora surrada da corrupção como peste que assolava o país. Os políticos, da oposição ou da situação, haviam sido, em todos os casos, denunciados à Justiça por mau uso da coisa pública. Um deles, senador bastante considerado e respeitado, morrera em decorrência de um AVC. Seus colegas, por saberem da sua lisura, respiraram aliviados. Não, este não tinha ligação com a corrupção. Mas, descobriu-se depois, o senador protegia muitos correligionários envolvidos no famoso caso da máfia das ambulâncias. Doze deputados estaduais morreram na queda de um avião de uma empresa francesa. Estavam indo para um Seminário de Políticas Públicas nas Bahamas. No caso deles, até hoje não foi feito o enterro dos corpos, que não foram encontrados. Um dos prefeitos foi vítima de bala perdida, outro pegou uma gripe fatal. Os casos eram tantos que um famoso diretor de cinema estava pensando em fazer um filme sobre o ocorrido. Havia recebido um roteiro excelente, intitulado “A vingança dos deuses”. A ideia lhe parecia ótima, mas já ouvira, de amigos, que deveria mudar o nome, se quisesse receber verbas da Petrobras.
Passados seis meses das intensas tragédias que assolavam o país, constatou-se que hospitais públicos funcionavam melhor. Senadores haviam proposto aumentar o salário dos médicos e dos professores, e equipará-los ao salário dos juízes. Em ano eleitoral, a medida tinha agradado em cheio o eleitorado. A imprensa flagrou um conhecido ministro de Estado subindo as escadarias de uma Igreja de joelhos. Sob o sol escaldante do início da tarde, ele chorava, tremia e a cada degrau gritava: “Perdão, Senhor!”. O presidente da República, chegado a bebedeiras, havia cortado o álcool de suas refeições. Há quem diga que estaria assíduo nas reuniões dos Alcoólatras Anônimos, mas ninguém saberia dizer onde. Senadores e deputados, repentinamente, passaram a freqüentar sessões às segundas e às sextas-feiras, na Câmara e no Senado. Ainda assim, as de sexta-feira tinham um quorum baixo. Nunca houve tantas doações a asilos, creches, orfanatos e casas de repouso. Não era mais incomum ver juízes, desembargadores e procuradores de Justiça chegando a favelas com caminhonetes cheias de cestas básicas e brinquedos.
Quando todos pensavam que a fúria dos anjos e dos deuses estava sendo aplacada, um dos senadores do sul do país, membro respeitado de uma grande igreja evangélica, precisou ser operado às pressas de um problema na vesícula e da sala de cirurgia saiu morto. Problemas com a anestesia, o que era realmente impressionante diante do fato de que o hospital em que estava era um dos melhores e mais caros do país. Enfim.
Depois disso, vieram à tona denúncias de lavagem de dinheiro e extorsão. E isso foi mais inacreditável que a própria morte do tal político. Em uma das gravações feitas sem a autorização da Justiça, ele ri e diz que não temia a onda de mortes acidentais, já que ele era “um escolhido de Deus”. Tendo dito isso, riu espalhafatosamente e abriu a mala com milhares de euros, em notas novas, que foram destinados a uma emissora de televisão. Isso aconteceu dois dias antes de seu falecimento.
Depois de mais essa morte, o país assistiu surpreso à renúncia de outro senador. Dizendo-se deprimido e sem condições emocionais de continuar no cargo, do alto da tribuna declarou que voltaria a viver como engenheiro, e que preferia viver de modo simples a correr o risco de morrer repentinamente. Na semana seguinte, certo deputado federal, após desembarcar de um voo bastante turbulento, com pouso de emergência após horas em trânsito sob condições anormais, num dia de raios e tempestades por todo o país, saiu da aeronave aos prantos e, diante de muitos repórteres, chorou copiosamente e confessou estar envolvido em inúmeros atos desonestos, inclusive desvio de altas somas de dinheiro público, que tinham como protagonistas líderes de seu partido, da base governista, empresários da área financeira, ONGs, e até o presidente da República. Horas mais tarde, o deputado, vítima de um assalto, morria com 13 facadas, em sua própria casa. No pulso, seu relógio de ouro de conhecida marca suíça. Muitos documentos foram roubados, mas algumas jóias de família permaneceram intactas no cofre. Dólares e euros foram levados. A imprensa foi orientada pela assessoria da Presidência da República a não noticiar o caso, a fim de “preservar o povo brasileiro de mais esse desgaste etc. etc...” No dia seguinte, um incêndio de proporções gigantescas tomou de assalto o prédio residencial de um ex-senador, filiado ao partido da base aliada do Governo Federal. Salvou-se o gato do ex-senador, apesar da idade avançada para um gato, 15 anos.
Uma semana depois, houve renúncia em massa de senadores. No Congresso Nacional, poucos iam trabalhar. Altos funcionários, ligados à Gráfica do Senado Federal e ao Prodasen, tiravam férias. Numa dessas férias, um funcionário estável, fartamente remunerado, dono de mansões e apartamentos na capital, voltou para o Brasil sentindo leve mal estar. Desembarcou já em coma profundo. Depois de dois dias, morreu. Este funcionário, acusado de facilitar a publicação de atos secretos, por meio dos quais inúmeros parentes de senadores foram ilegalmente contratados, soube-se depois que também fazia tráfico de influência junto a empresários que terceirizavam funcionários para órgãos do Senado Federal. Somente a mulher e duas filhas foram ao enterro. Comentava-se que ele havia sido contaminado com um vírus altamente perigoso. Sua mulher, confirmando as expectativas, morreu uma semana depois.
Cerca de oito meses após as misteriosas mortes de muitos políticos brasileiros, além de altos assessores e membros do Judiciário, o ano eleitoral complicou-se. Muitos senadores que deveriam continuar seu mandato morreram, e era preciso ampliar o número de vagas e de candidatos. Entretanto, outro problema surgiu: ninguém mais queria concorrer às eleições. Havia alguns poucos que insistiam, mas a maioria havia retirado sua candidatura. Um partido político conhecido ameaçava diluir-se no caos: seus membros, paulatinamente, desfiliavam-se. Um grupo deles, dizia-se, havia se reunido em um sítio no interior de São Paulo e vivia em comunidade, com suas famílias, criando galinhas e plantando o suficiente para sua sobrevivência.
Diante da crise, o presidente da República fora obrigado a reduzir drasticamente o número de ministérios. Não que isso fosse de sua vontade, sabia-se, mas não havia ministros vivos em número suficiente, e alguns conhecidos, que foram sondados para assumir as pastas, recusavam de antemão o honroso convite. A vaga de diretor do Banco Central era uma das que estava vazia. Seu ocupante, ao limpar uma das armas de sua extensa coleção, acidentalmente ferira-se com um tiro no pé. Após amputar o pé, o premiado economista sofrera um processo grave de septicemia e, em poucos dias, deixara o mundo dos vivos.
Faltando poucos meses para as eleições, um candidato à presidência havia desistido do pleito. A candidata do presidente, sabia-se, não queria mais acoplar sua imagem à do líder da Nação. O candidato da oposição não dava mais declarações à imprensa e vivia cercado de um grupo de dez seguranças treinados em Israel, todos pagos – como ele fazia questão de comprovar – com sua aposentadoria de senador.
A um mês das eleições, em uma segunda-feira, por volta de 9 horas da manhã, o presidente da República foi acometido de profundo mal estar, durante uma reunião com senadores e ministros de seu partido. Após ter sido comunicado oficialmente, pelo chefe de gabinete, que o primeiro-ministro do Japão havia cancelado a visita oficial que faria ao país, o presidente teve um acesso de fúria. Nisso, sua pressão subiu vertiginosamente e o coração disparou, dando início a um processo de várias complicações nos órgãos internos. A situação do presidente era delicada, e fazia-se necessária uma intervenção cirúrgica de urgência, a fim de reconstruir parte de seu fígado, bastante prejudicado por anos de consumo de altas doses diárias de bebidas alcoólicas. O vice-presidente, que após inúmeras cirurgias decorrentes de tumores em seu aparelho digestivo apresentava finalmente um quadro de saúde estável, assumiu a Presidência. Em seu primeiro ato como chefe da Nação brasileira, declarou Estado de calamidade pública em todo o território nacional.
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Maya Felix
Rio, 09/09/2009, por volta de 09h30
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Belo texto! A morte deles já foi decretada. A Morte moral,morte da dignidade,morte da coerência e honestidade deles.Pena que essas mortes não os tornam inexistentes,como no conto"
Belo texto! A morte deles já foi decretada. A Morte moral,morte da dignidade,morte da coerência e honestidade deles.Pena que essas mortes não os tornam inexistentes,como no conto"
Parabéns pelo blog irmã.
Muito abençoado.
www.vivendooevangelho.blogspot.com
Soberbo, Maya! Quisera eu q Deus te desse o dom da profecia.
Bjão.
Minha querida... fiquei sabendo do seu texto pelo Twitter. Vc está de parabéns!!! Um belo texto que deve ser propagado! Quem sabe o tom profético não os deixe com vontade, ínfima que seja, de serem mais éticos! Parabéns!!!
Um texto belamente escrito. Mas ingênuo. Acha que, no final, o vice-presidente, pensa o governo como você na situação em que se encontra. Com o bom senso que tem, diria: vou para casa, ficar com os meus e tratar dos meus problemas que sáo gravíssimos. Mas não, ele fica, ele sustenta. Ele conhece, o que não faz a mínima idéia do que é um governo nesse país.
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